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O Cortiço, de Aluísio Azevedo

RESUMO DA OBRA 

João Romão é um português que herdou a venda do patrão aqui no Brasil, entregando-se com vigor ao trabalho, sempre poupa o máximo que pode em um afã de enriquecer. Amiga-se com Bertoleza, mulher escravizada a quem engana dizendo ter-lhe pagado a alforria. Com a ajuda dela, João torna-se proprietário da pedreira que fica próxima à venda e, em algumas partes do terreno, constrói pequenas casinhas que aos poucos aumentam de número dando vida ao cortiço. 

Romão fundamenta sua ambição em Miranda, também português, dono do sobrado que fica ao lado do cortiço. Miranda é um burguês que obteve ascensão social por meio do dote e do nome de família que recebeu do seu casamento com D. Estela. Espelhando-se nisso, João, tendo enriquecido, ambiciona casar-se com Zulmira, filha do compatriota. Então, para livrar-se de Bertoleza, entrega-a aos antigos patrões; esta, num último ato de desespero, suicida-se cortando o ventre com a mesma faca que usava para limpar os peixes que eram comercializados na venda. 

No cortiço, vários personagens são apresentados, cada qual com sua história de vícios e misérias. O cortiço é usado pelo autor como um observatório do comportamento dos tipos humanos que pertencem àquela classe social marginalizada.  

Um dos personagens que se destaca na história é Jerônimo, outro lusitano, sério e conservador, casado com Piedade. Influenciado pelo “calor dos trópicos”, apaixona-se por Rita Baiana, descrita de forma estereotipada como uma mulher mestiça sensual e bela, que, por sua vez, namora Firmo, morador do Cabeça de Gato, cortiço concorrente ao de Romão. A disputa dos dois homens por Rita acaba com a morte de Firmo e numa rivalidade entre os cortiços. Jerônimo abandona a esposa para ficar com Rita e, ao contrário de João Romão, decai socialmente “abrasileirando-se”. 

FOCO NARRATIVO 

A escolha do autor por narrar o livro em terceira pessoa adequa-se perfeitamente à escola literária da qual O Cortiço faz parte, o Naturalismo; posto que o autor se posiciona como um cientista que observa a realidade para tomar nota dela.  

Assim, por meio da descrição dos fatos, muitas vezes repugnantes e grotescos, e apoiando-se numa atitude de cientificismo experimental, o autor distancia-se dos personagens para encontrar a explicação de seus atos no meio ambiente em que estão inseridos ou na “raça” a qual pertencem.

QUATRO PERSONAGENS 

Características físicas e psicológicas 

João Romão 

João Romão é descrito como um homem obcecado por riqueza, todas as suas atitudes são tomadas com o objetivo de acumular bens:  

não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa de seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois.

Sendo classificado pelo autor como portador de uma patologia: “Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda”. 

João é descrito como um

tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer […]

sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com seu eterno ar de cobiça, apoderando-se com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

No entanto, quando passa a invejar o baronato de Miranda, passa a usar “casaco branco e meias”, “relógio e cadeia de ouro” e, para sair a passeio, sempre de “casimira, calçado e de gravata”. 

Bertoleza 

“Crioula trintona”, quando se amiga com João Romão passa a cumprir o “papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante”.  

Na descrição de Bertoleza, implicitamente o autor dá a entender que, por ser negra, seu único papel e destino na sociedade é trabalhar, “Mourejava a valer, mas de cara alegre”, e servir à “raça superior”, “Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior”.  

Mesmo quando João Romão começa a mudar seu estilo de vida, Bertoleza, “à medida que ele galgava posição social, a desgraça fazia-a mais e mais escrava e rasteira” e continua “sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço”.  

A raça persegue toda a trajetória de Bertoleza, chegando ela mesma a ficar “envergonhada de si própria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste por sentir-se a mancha negra”.  

Adorava Romão, pois entendia sua condição inferior à do amigo, contentando-se com o pouco que este lhe dava: “Todo o dono, nos momentos de bom humor, afaga o seu cão…”. 

Rita Baiana  

Rita personifica o estereotipo da mulher mestiça sensual e bela:  

E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo a mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.

É uma mulher independente, tendo sobre o casamento uma ideia muito diferente do que era comum na época:  

— Casar? protestou Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu! E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que lhe era peculiar.

Jerônimo 

Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário; pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.

[Usava] calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru.

Nesse personagem, as qualidades morais transparecem em sua aparência e atitudes:  

Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem […]

Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôs assim para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Saía de casa para o serviço e do serviço para a casa.

CLASSE SOCIAL DOS PERSONAGENS 

A maioria dos personagens são pobres, alguns chegam a ser miseráveis.  

Os personagens que habitam o cortiço são divididos, basicamente, entre os trabalhadores, “aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação”, e as lavadeiras

AMBIENTE 

Espaço físico e social 

Os personagens são tipos que estão à margem da sociedade, vivem num mundo à parte, tanto que o autor chega a se referir ao cortiço como uma “república” que tem suas próprias regras de convivência social:  

De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! “Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!” mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.

FIGURA FEMININA 

A caracterização da mulher dá-se de forma objetiva, ressaltando aspectos físicos e “defeitos” morais, pois a figura feminina é vista como um ser traiçoeiro que utiliza seu poder “luxurioso” para manipular os homens, como quando o autor compara Rita (e todas as mulheres nela) com a serpente que levou Adão ao pecado:  

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Outro exemplo é a forma pejorativa (“mulherzinha”) como a esposa de Miranda é apresentada:  

D. Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante este tempo dera ao marido toda a sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério.

AMOR E CASAMENTO 

Na narrativa naturalista, o amor confunde-se com o instinto sexual, como na relação entre Rita e Firmo, “Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos”, ou na relação entre Rita e Jerônimo, em que o “amor” encontra sua expressão máxima na realização do desejo sexual:  

Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. […] E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. […] E, sem consciência de nada que o cercava, […] afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

Em ambas as relações, o amor, na verdade, é o instinto sexual que culmina na briga entre os dois machos pela fêmea luxuriosa que melhor apresenta-se ao ato sexual. Disputa que Jerônimo vence: “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior”. 

O casamento é uma conveniência social, utilizado como forma de ascensão social e financeira. Miranda, por exemplo, suporta as traições da mulher, pois:  

sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera […] Além do que, um rompimento brusco seria obra para escândalo e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre.

Invejava João Romão que se tornara rico sem ter que “casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro rico”. No entanto, mais tarde, João também utiliza o casamento com Zulmira, filha de Miranda, como forma de ascensão e de prestígio social. 

JERÔNIMO E POMBINHA – DETERMINISMO 

Jerônimo é influenciado de maneira decisiva pelo meio ambiente em que vive. A “culpa” pela transformação de sua personalidade é atribuída à “natureza alcoviteira”, principalmente ao sol:  

[…] todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem […]

[…] aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode […]

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se […] fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e violento.

Pombinha tem seu destino determinado pela genética. Visto que, mesmo morando no cortiço, tem origem burguesa, ou seja, de acordo com a ótica adotada pelo autor, pertence a uma raça superior. Aliando esses dois elementos (meio e raça) às experiências que absorveu ao escrever as cartas daquela gente pobre, “De sorte que a pobre rapariga ia acumulando nos seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor”, estava “determinado” que, cedo ou tarde, sua inteligência iria aflorar-se. Nesse caso, sua maturação intelectual confunde-se com sua maturação biológica:  

[…] só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento uma lucidez que a deliciava e surpreendia.

NATURALISMO E A TEORIA EVOLUCIONISTA 

Na história do cortiço, João Romão e Jerônimo, ambos portugueses, combatem o meio ambiente por meio de suas ações (trabalho) atribuídas à sua raça. No entanto, este perde a batalha deixando-se seduzir pela “natureza alcoviteira”; aquele representa uma espécie de “evolucionismo social”, sendo o mais “forte”, sobrevive e evolui de “classe social”.  

O cortiço ascende como o seu dono, depois do incêndio, passando por algumas reformas (“mutações”), passa a receber uma nova classe de trabalhadores, já não era qualquer um que podia habitar no cortiço: “notavam-se por último na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias”.  

Entretanto, Jerônimo também pode ser considerado sobrevivente, pois vence a disputa com Firmo por Rita Baiana, mudando seu comportamento para adaptar-se ao meio em que vive agora. 

RITA BAIANA E AS PERSONAGENS ROMÂNTICAS 

A mulher do Romantismo é sempre descrita como “a mulher ideal”, perfeita, muitas vezes até mesmo sagrada e, por isso, intocável, como Iracema, de José de Alencar. Iracema é indígena, a virgem sagrada de sua tribo que apaixona-se pelo homem branco Martim. Pertencendo a povos inimigos, o amor de Iracema é cheio de renúncia e sacrifícios. 

A mulher do Naturalismo, pelo contrário, é descrita de forma “carnal”, acessível a qualquer um, cheia de baixezas morais. Rita Baiana, por exemplo, ao provocar a briga entre Jerônimo e Firmo, não se assusta como os outros moradores do cortiço, mas “a certa distância, via, de braços cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os lábios”. 

PATOLOGIA SOCIAL 

Na narrativa naturalista é evidente o gosto pelas patologias sociais: taras, vícios, desajustes, etc. Um exemplo disso pode ser encontrado quando o autor apresenta a “tara militar” de Botelho: “Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo” […] “a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção”.  

Somando essa tara a um diálogo entre Botelho e Henriquinho, o autor deixa entrever, de forma caricata, a homossexualidade do personagem:  

Acho que você é um excelente menino, uma flor! […] Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as. […] E acarinhou-o tão vivamente desta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!…

REALISMO E NATURALISMO 

O Realismo é uma escola literária que se propôs a descrever e pôr à mostra a hipocrisia da sociedade burguesa da época. O Naturalismo, no seu exagero cientificista, analisa o coletivo. Não tem preocupação social, seu objetivo é descrever e mesmo classificar os vícios humanos.  

O Cortiço é usado pelo autor como um laboratório de observação. Na verdade, o próprio cortiço é tratado como um personagem (“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava”) que evolui dentro da história (antropomorfismo).  

Não há individualidade, só o coletivo. À medida que o cortiço sofre mudanças, os personagens também mudam. Aqueles que não “evoluem” são postos para fora, como Piedade que, abandonada pelo marido, entrega-se ao vício da bebida e depois de causar alguns incidentes é expulsa por João Romão, indo abrigar-se no Cabeça de Gato, cortiço que:  

à proporção que o São Romão [cortiço de propriedade de Romão] se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava.

Uma característica naturalista é o zoomorfismo. Os personagens são comparados a animais, posto que os instintos é que determinam os seus comportamentos:  

[…] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador […]

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe […]

Pombinha punha alegrias naqueles serões com as garrulices de pomba que prepara o ninho […] 

Outra característica é a importância dada ao meio ambiente. Por meio da narrativa, podemos perceber que o meio é decisivo no destino dos personagens, um determinado ambiente sempre irá “produzir” os mesmos resultados, os mesmos tipos humanos. O autor dá a entender, por exemplo, que Florinda será a nova Rita Baiana, trocando sempre de “homem” quando este não lhe satisfaz, e que Senhorinha terá o mesmo destino de Pombinha, já que a filha de Piedade é sua protegida, assim como ela fora de Léonie. 

Nessa perspectiva, o destino do homem está fatalmente traçado pelo meio ambiente em que vive e pela raça a qual pertence, não há como fugir. 

REFERÊNCIA 

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Klick, 1997. 


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O Quinze, Rachel de Queiroz

O Quinze nos conta da seca que ocorreu no Ceará, em 1915.

Assim, através do relato da vida de alguns personagens, Rachel de Queiroz apresenta várias situações a que um retirante está submetido para sobreviver.

Um detalhe interessante é que na obra não há menção ao ano em que se passa a narrativa, isso permite que, durante a leitura, façamos comparações com outras situações de seca: quer dizer, a história que está sendo contada pode ter acontecido (ou se repetido) em qualquer lugar e em qualquer tempo do sertão nordestino.

Os personagens

Chico Bento

Chico mora e trabalha na fazenda de Dona Maroca, na cidade de Aroeiras. Com a seca e a falta de esperança na chuva, a patroa manda soltar o gado para morrer pelo sertão e dispensa os empregados.

Como resultado, Chico e sua família – “Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos” – se veem obrigados a retirar: “Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto durasse a seca”.

Depois de passar por inúmeras privações durante a caminhada, os retirantes conseguem passagens para São Paulo, terra “onde sempre há farinha e sempre há inverno…”, ou seja, sempre há chuva.

No entanto, a narradora dá a entender o destino difícil daquela família na terra da garoa: “Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos…”.

Conceição

Conceição pertence a uma família que possui fazenda em Logradouro, perto de Quixadá, e tem condições de viver na cidade com a avó enquanto a seca castiga o interior; mesmo assim, de certa forma, convive com os efeitos da estiagem, pois trabalha como voluntária no Campo de Concentração: espécie de praça em que os retirantes convivem e sobrevivem de esmolas e de doações do governo local.

Dessa forma, ela é a personagem que faz a ligação entre as diferentes camadas sociais, demonstrando que o problema da seca na região afeta a todos, seja financeiramente, com o gado que morre de fome, ou socialmente, tornando boa parte da população em retirantes.

Conceição é apresentada como uma moça de 22 anos, com ideias extravagantes: “Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais ideias estranhas e absurdas a avó”.

Apesar da caridade e das suas leituras, era “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados”.

Preconceito que fica evidente quando ela expressa indignação ao pensar em um homem branco se envolvendo amorosamente com uma mulher negra: “Uma cabra, uma cunhã à-toa, de cabelo pixaim e dente podre!…”. Essas ideias pré-concebidas ajudam a impedir a concretização de seu envolvimento amoroso com Vicente.

A relação dos dois é narrada de modo a nos transmitir uma ideia de que o sol do sertão não seca só a garganta, mas também as almas, tornando-os incapazes de expressarem seus sentimentos, às vezes até os impedindo de sentir com humanidade: “Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!”.

Vicente

Vicente, por sua vez, é o sertanejo forte, branco, mas queimado de sol – “o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol”.

Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso” – com essa descrição, ele representa o homem que não abandona sua terra, mesmo na adversidade, demonstrando a esperança de vida no sertão: “Já comecei, termino! A seca também tem fim…”.

Os lugares

Como dissemos antes, o romance se passa no Ceará.

Grande parte da narrativa acontece no sertão, em Logradouro, cidade próxima a Quixadá – “Alongou os olhos pelo horizonte cinzento. O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo um cinzento de borralho”.

No entanto, os personagens se locomovem constantemente, caracterizando o êxodo para as cidades em de busca de soluções para a fome.

Esse ambiente seco condiciona, e não só condiciona, como também condena os personagens à fome e à subsistência: “Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…”.

Já outros, com melhores condições financeiras, o ambiente agreste lhes torna a alma agreste, como bem expressa Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Com relação ao ambiente social, não há uma grande separação do convívio entre ricos e pobres; há sim uma clara distinção das condições de sobrevivência de cada um desses grupos no período da seca.

A narração

O Quinze é narrado em terceira pessoa.

Esse tipo de narrador é onisciente, o que permite ao leitor conhecer os sentimentos dos personagens, mesmo quando não são expressos de maneira objetiva, mas apenas descritos: “E Chico Bento pensava: ‘Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?’”.

Há também o uso constante de reticências e exclamações, como se houvesse muito mais a dizer (…), mas que o espanto (!) diante da cena descrita não permite.

Assim, a linguagem que o livro utiliza é simples, possuindo, no entanto, imagens belíssimas e de rara sensibilidade diante da tristeza à vista da miséria humana.

Um exemplo disso é o episódio em que Chico Bento, atormentado pela fome e pelo apelo dos filhos por comida, pela primeira vez estende a mão para pedir esmola: “E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante”.

Outros exemplos de imagens podem ser verificados sempre que a autora compara a seca ao fogo – “Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água” – e às cores do sol – “Sombras cambaleantes se alongavam na tira ruiva da estrada” e “O sol poente se refletia vermelho nos trapos imundos e nos corpos descarnados”.

A época

O Quinze faz parte da 2ª geração modernista brasileira, movimento literário de ficção regionalista e social que apresenta, principalmente, questões relacionadas ao Nordeste.

Entretanto, apesar de descrever a seca e os retirantes, o romance não apresenta soluções prontas e nem cai numa tendência maniqueísta de separar os “pobres bonzinhos e sofredores” dos “ricos malvados” – o que acontece com alguns textos literários que se propõem a denunciar problemas sociais.

Não podemos esquecer também que Rachel de Queiroz militou no Partido Comunista e que, por isso, foi presa em 1937.

É uma grande autora brasileira, mulher de coragem para dizer o que pensa e que deixa bem clara sua opinião sobre a repressão na fala de um dos personagens d’O Quinze:

 — Palmatória quebra dedo, 
Chicote deixa vergão, 
Cacete quebra costela 
Mas não quebra opinião!...
Para saber mais sobre a autora:

Academia Brasileira de Letras
Portal da Crônica Brasileira

Referência:

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. São Paulo: Siciliano, 62ª ed., 1997.

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Podcast Apokalipson 14 – Anão véi, tá brincando!

Nessa edição do Apokalipson Diogo, Manu e Barbara comentam as notícias mais inusitadas do mundo. Gatos voadores, cachorros, anão que parece criança, dicas da semana e muito mais!

Comentado no podcast:

https://www.facebook.com/Apokalipson

http://english.chosun.com/site/data/html_dir/2020/08/12/2020081200634.html

https://hugogloss.uol.com.br/buzz/surreal-gato-despenca-de-predio-na-cabeca-de-idoso-e-briga-com-cao-de-estimacao-do-homem-assista-a-sequencia-impressionante/

https://extra.globo.com/noticias/mundo/regra-que-obriga-passear-com-cachorro-duas-vezes-por-dia-causa-resistencia-na-alemanha-24594755.html

https://www.youtube.com/channel/UCScvZ5GyHVw1CeZtYEwKqFg

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Podcast Apokalipson 13 – Filmes sobre o Fim do Mundo

Em mais uma edição apokaliptica de nosso podcast, Diogo “Scooby” Lima e Barbara Coelho recebem o falamos sobre filmes que retratam o fim do mundo ou da humanidade como a conhecemos, dessa vez recebendo diretamente do Cine Masmorra, uma pessoa que merece o respeito tecnológico, Angelica Hellish e o Inoxidável Marcos Noriega.

Macacos mutantes, vírus, meteoros e muito mais só aqui no Apokalipson, o Podcast mais apokaliptico da podosfera brasileira!

https://www.facebook.com/Apokalipson


Masmorra cine, site dos nossos convidados:

https://masmorracine.com.br/

Canal Russo de filmes fenomenais:

https://ok.ru/video/c2330404

Música final:

https://www.jamendo.com/track/765189/cai-fogo-e-o-fim-do-mundo

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Livro – Lado Claro: Poemas levemente inspirados na Luz

Este livro trás poemas escritos por uma versão mais jovem de mim, recém saído da adolescência, cheio de sonhos e pequenas frustrações, cheio de amores e dessabores, porém com um viés um pouco mais alegre do que em seu livro irmão, o Lado Escuro, também disponível em versão eBook. A LUZ do título não é literal, ela se trata do nosso lado claro, aquele que nos faz um pouco feliz quando olhamos para nós mesmos, que ilumina nossas esperanças e mostra saídas inesperadas em momentos trevosos. Aqui nós temos uma coleção de poemas de temática leve, pitoresca, às vezes um flerte com o cinismo e repleta da urbanidade que impregna a minha alma, e que certamente podem trazem ao leitor certo grau de reflexão e alguns sorrisos quem sabe!
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Livro: Lado Escuro

A Escuridão do título não é literal, ela se trata da escuridão que é interna, inerente a nós e nossos sentimentos e ações. Aqui nós temos uma coleção de poemas de temática pesada, muitas vezes tristes e aparentemente desesperançosos, mas que certamente trazem ao leitor certo grau de reflexão.
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Podcast – Apokalipson 12 – Madonna , Chaves e Vibradores

Apokalipson 12 – Madonna Cloroquiner , Adeus Chaves e Oficina de Vibradores e Corintianos Anti fascista são alguns dos destaques dessa edição, além de  muitas outras dicas dicas espetaculares de nossos participantes. Diogo Scooby, Barbara Coelho, Kelly Brandão e Vesper Otake conversam sobre as notícias mais apocalípticas da Pandemia.

Página no Facebook do Podcast:
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Dica: 

Livro “O Amanhã não está a venda”: https://www.amazon.com.br/amanh%C3%A3-n%C3%A3o-est%C3%A1-%C3%A0-venda-ebook/dp/B0876HG28P

Notícias:
Kimchi:

https://www.donga.com/en/article/all/20200717/2122953/1/Kimchi-protects-against-COVID-19-a-study-says

Fetos abortados, microchips e Bill Gates: as mentiras sobre a vacina da covid-19 que já contam por aí:https://www.bbc.com/portuguese/geral-53533697

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Podcast Apokalipson 11 – Livros de Ficção Científica sobre o fim do mundo

Em mais um Apokalipson, Diogo Scooby e Bárbara Coelho recebem Thiago Miani e o decano da Ficção Científica brasileira Paulo Elache para comentar algumas das maiores obras de Literatura de Ficção Científica com a temática de fim do mundo.

Assine nosso podcast em seu agregador favorito.

Comentado no episódio:

Vejam o link do Youtube para o vídeo “VEREDAS: Um bate-papo inquieto sobre a Ficção Científica Brasileira”, com os verdadeiros decanos da FC brasileira:

Alguns livros comentados:

“Máquinas que pensam” (1983) “Não tenho boca e preciso gritar” (1967), de Harlan Ellison.

Trilogia “O Último Policial” (Ben H. Winters) Sinopse da Amazon do primeiro livro, “O Último Policial” (2012): (…) Qual o sentido de se investigar um crime quando o planeta tem apenas seis meses de vida? O detetive Hank Palace enfrenta essa questão desde que o asteroide 2011GV1 foi avistado em rota de colisão com a Terra. Em face da tragédia iminente, a maioria das pessoas abandona seus trabalhos, casas e famílias e as instituições começam a ruir, mas Palace insiste em investigar um suposto suicídio. Ganhador dos prêmios Edgar, dedicado à literatura policial e de mistério, e Philip K. Dick, voltado para livros de ficção científica, O último policial é a combinação perfeita do clássico romance noir com o melhor da ficção científica atual. Primeiro de uma trilogia, o livro pinta um retrato fascinante dos Estados Unidos pré-apocalipse através de um enredo original e envolvente e de um protagonista carismático. “Estranha, bela e assumidamente apocalíptica. Uma das minhas séries de mistério favoritas.” – John Green

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Imagem da capa: Photo by Chris Johnson from FreeImages

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Edição: Diogo Lima

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A ARTE E A VIDA

A profissão de ator, de artista, nem sempre é reconhecida devidamente, mas o fato é que de ator e de artista todos nós temos um pouco. Vejamos:

Quando perguntaram ao ex-presidente americano Ronald Reagan como ele poderia ser presidente dos EUA sendo apenas um ator de cinema, um artista, ele respondeu: “O que eu imagino é como alguém pode ser presidente dos EUA sem ser um ator, um artista”.

Ronald Reagan deixou a Casa Branca como um dos mais queridos e respeitados presidentes americanos. Ele deu um “show” na presidência, disseram os jornais.

O grande segredo da Disney – o que pouca gente sabe – é que todos os funcionários são registrados como atores e não numa função específica.

Assim, lá, você não é um pipoqueiro. Você é um ator fazendo o papel do melhor pipoqueiro do mundo. Você não é uma garçonete. Você é uma atriz fazendo o papel de melhor garçonete do mundo. E assim por diante.

Com esse tipo de contrato, a Disney pode exigir de seus funcionários um comportamento exemplar e atitudes de perfeição, atenção aos detalhes, postura própria, uniformização adequada e até o uso ou não de barba, bigode, cabelos compridos, fantasias etc.

Isso mostra que todos nós, onde quer que estejamos, temos que ser artistas para desempenhar bons papéis, fazer sucesso e ter um público fiel.

Assim, você, que nunca pensou nisso, mas certamente, sabendo ou não, com mais ou com menos intensidade, age como artista.

Procure aprimorar o seu papel, o mais perfeito possível, e dê um show!

Certamente “seu público” vai aplaudi-lo em pé!