A Última Semana

Segunda-feira

O Livro de De Volta para o Futuro


A primeira coisa da estante da sala que ficou fora da caixa foi o livro dela sobre De Volta para o Futuro.
Ele ficou alguns minutos olhando a capa antes de deixa-lo na estante.
Era curioso.
Passara anos imaginando viagens no tempo.
Corrigir erros.
Mudar escolhas.
Voltar para conversas mal terminadas.
Mas agora, cercado por caixas de papelão, compreendia uma coisa que nenhum DeLorean jamais resolveria.
Não era o passado que doía.
Era o futuro.
Os futuros que não aconteceriam.
A viagem que nunca fizeram.
A foto que nunca tiraram.
A mesa de centro com um espelho onde nunca envelheceriam juntos.
Fechou a caixa.
Foi a primeira vez naquela semana que sentiu estar indo embora de verdade.

Terça-feira

O Quadro amarelo da Nave Alienígena

O quadro estava encostado na parede.
Uma nave pairava sobre uma paisagem inexistente.
Ele lembrava exatamente do dia em que o comprara, numa tarde de domingo na Avenida Paulista.
Ela disse que a imagem parecia um convite.
Ele respondeu que parecia uma despedida.
Os dois riram.
Anos depois, percebia que estavam certos.
Relacionamentos eram parecidos com contatos alienígenas.
Dois mundos diferentes tentando estabelecer comunicação.
Às vezes conseguem.
Às vezes apenas trocam sinais luminosos antes de desaparecerem na escuridão.
Quando embrulhou o quadro em plástico bolha, sentiu que estava protegendo um planeta extinto.

Quarta-feira

O Baixo e a Guitarra


Os dois instrumentos estavam separados.
Como sempre estiveram.
A guitarra encostada na parede.
O baixo pendurado.
Durante anos ele imaginou que um dia tocariam juntos.
Uma noite qualquer.
Uma música qualquer.
Nada profissional.
Nada grandioso.
Apenas dois instrumentos ocupando o mesmo espaço sonoro.
Mas aquele dia nunca chegou.
E agora ambos seguiriam separados, um permanecia, outro voltaria pro seu endereço antigo, ficando um espaço carregado de canções que jamais existiriam.
Talvez existam músicas fantasmas.
Canções compostas apenas por possibilidades.
Canções que nunca foram tocadas.
Mas continuam ecoando em algum lugar.

Quinta-feira

A Janela

A janela permaneceu aberta durante toda a manhã.
Ele evitou olhar para ela.
Ali morava uma memória específica.
Um susto.
Uma discussão.
Um momento em que tudo quase terminou de maneira irreversível.
Ela se inclinou mais do que deveria.
Ele a assustou com um grito.
Por alguns segundos o mundo ficou suspenso.
Depois nada aconteceu.
Mas às vezes os acontecimentos mais importantes são justamente aqueles que não aconteceram.
Ele fechou a janela.
Devagar.
Como quem fecha um capítulo doloroso.

Sexta-feira

A Planta

A pequena planta de maconha na varanda jamais daria flores.
Os dois sabiam disso.
O tempo acabara antes.
As raízes eram frágeis.
A luz do sol era forte, o tempo insuficiente.
A mudança chegara primeiro.
Ainda assim ela continuava viva.
Pequena.
Teimosa.
Verde.
Ele observou os últimos brotos.
Pensou em quantas coisas na vida não chegam ao ponto para o qual nasceram.
Livros interrompidos.
Amores interrompidos.
Sonhos interrompidos.
Nem toda semente conhece sua primavera.

Sábado

O Bilhete

Encontrou o papel dentro de um livro.
Dobrado.
Amarelado.
Uma anotação simples.
Lembrava um aniversário.
Os dois haviam esquecido.
Completamente.
Não apenas naquele ano.
Durante anos.
A data desaparecera.
Como desaparecem certas estrelas.
Continuam existindo em algum lugar, mas ninguém mais olha para elas.
Ele sorriu.
Achou engraçado.
Dois seres humanos capazes de falar sobre diálogos de filmes, letras de músicas obscuras e histórias em quadrinhos de cinquenta anos atrás.
Mas incapazes de lembrar um aniversário.
Guardou o bilhete no bolso.
Talvez o esquecimento também seja uma forma de memória.

Domingo

A Porta


O apartamento estava semi vazio.
As caixas tinham partido.
Alguns móveis tinham partido.
Até os ecos pareciam menores.
Restava apenas a porta de saída

E nela, o pequeno ímã que segurava a guirlanda de Natal por alguns anos.
A guirlanda já não estava ali.
Fazia meses.
Mas o ímã permanecia.
Uma pequena âncora de metal presa a um oceano que já havia recuado.
Ele tocou o objeto.
Lembrou das luzes.
Dos enfeites baratos.
Das piadas ruins.
Das fotos da árvora desfocadas.
Dos natais que pareciam eternos quando aconteciam.
Pegou o ímã.
Guardou no bolso.
Então abriu a porta.
Por um instante imaginou que ouviria a voz dela chamando de outro cômodo.
Que veria a televisão ligada mais uma vez.

Que ouviria a alexa tocando música naquele espaço
Que encontraria livros espalhados pela mesa.
Mas o apartamento permaneceu imóvel.
Esperando sua partida.

Outro morador.
Outra história.
Outro conjunto de futuros.
Ele saiu.
Fechou a porta.
E compreendeu que não estava abandonando apenas uma casa.
Estava deixando para trás todas as pessoas que poderia ter sido ali dentro.

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