Conhei Uma Barata Chamada Kafka antes de conhecer A Metamorfose.
E isso diz muito sobre crescer no Brasil.
Aos doze anos, eu não entendia Franz Kafka, alienação, existencialismo ou metáforas sobre o capitalismo.
Eu entendia apenas a imagem: uma barata.
Uma barata estranha, quase engraçada, morando num apartamento velho, ouvindo Sex Pistols, fumando veneno e existindo naquele tipo de decadência urbana que até criança periférica reconhece sem precisar estudar literatura. (YouTube)
Depois, quando finalmente li Kafka de verdade, o choque não foi a transformação.
Foi a família.
Gregor Samsa trabalhava até adoecer a própria humanidade. Sustentava pai, mãe, irmã, dívida, conforto, rotina, silêncio. Era menos filho e mais boleto em forma humana. E talvez seja essa a verdadeira mutação da história: não o homem virando inseto, mas a família descobrindo que conseguia viver sem ele. (Wikipédia)
Existe algo brutal nisso.
Porque enquanto Gregor rasteja pelo quarto tentando entender o próprio corpo, os outros começam, lentamente, a criar músculos emocionais que nunca precisaram usar. O pai volta a trabalhar. A irmã amadurece. A casa reaprende o movimento. Como se o sacrifício constante de uma pessoa tivesse atrofiado todo o resto.
Eu li aquilo pensando em tantas famílias brasileiras onde alguém vira o “Gregor” da casa sem perceber.
O filho que trabalha desde cedo.
A mãe que sustenta todo mundo.
O irmão que resolve tudo.
O cara que paga aluguel, internet, comida, remédio e ainda pede desculpa quando fica cansado.
Enquanto isso, os outros se acostumam.
O amor, às vezes, cria acomodações cruéis.
E talvez Kafka tenha entendido uma coisa perigosa: quando você deixa de servir, muita gente não sabe mais como te enxergar como humano. (Pepsic)
A barata assusta menos que a inutilidade.
Talvez por isso a obra continue tão moderna.
Hoje a metamorfose não precisa acontecer num quarto escuro de Praga. Ela acontece em burnout, depressão, desemprego, vício, afastamento, doença, crise financeira. Um dia você para de produzir e percebe que algumas relações eram sustentadas mais pela sua função do que pela sua existência.
E é estranho pensar que minha primeira porta de entrada pra tudo isso foi uma música debochada dos anos 80, feita por Inimigos do Rei.
Porque o Brasil faz isso com a tragédia: transforma trauma em refrão dançável.
Talvez seja nossa maneira de sobreviver.
Talvez toda família tenha sua barata escondida atrás da geladeira.
Ou talvez, como na música, o pior momento seja aquele em que você olha pro inseto…
e percebe alguma semelhança. (YouTube)
Leia o livro aqui: Amazon





