Maldade

Estava sentado na escada pensando na vida, na verdade, pensando em nada já que era na sua vida em que pensava.

Era um dia frio, daqueles que a gente fica correndo atrás do sol em busca de algum calor que não humano. Por isso estava na escada.

Parou de pensar em nada e passou a observar as pessoas que passavam à sua frente. Olhava mas não via, até que um dos passantes tropeçou e um impropério solto de repente no ar o fez acordar da letargia em que estava mergulhado.

Então, aí sim, começou a pensar em como seria engraçado se alguém tropeçasse e caísse ali, bem ali, naquela poça d’água formada com a chuva do dia anterior, aquela que estava exatamente à sua frente. Sentou-se um degrau abaixo para ter uma visão melhor da possível futura queda. Estava numa expectativa tremenda, qualquer um que passasse se tornava alvo de seus pensamentos maldosos.

Passaram-se alguns minutos. O sol mudou de posição. Sentiu um arrepio e pensou em correr atrás do sol novamente, mas pensou também que se saísse dali perderia a visão panorâmica da cena tão esperada. Ficou ali mesmo, sentindo frio e ansiedade.

Ninguém caiu.

No instante em que descia a escada, sentiu seu corpo pender para frente… não havia onde se segurar…

Não só vira a cena tão esperada como agora participava dela e, para melhor satisfazer-lhe a vontade, teve a sua visão panorâmica, não da cena, mas da poça, que não era de água, e sim de lama.

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