São Paulo, 2051

Às dezenove horas, a sirene climática tocava pointualmente lembrando do fim dos tempos.

Ninguém mais ligava.

Em 2051, São Paulo tinha aprendido a conviver com avisos da mesma forma que convivia com umidade, calor, boletos e dívidas eternas. Tudo virara parte do viver depois de um tempo.

Do décimo primeiro andar, Miguel observava a fumaça parada sobre a cidade. Não era neblina. Fazia anos que ninguém confundia as duas coisas. Aquilo vinha das queimadas permanentes do centro-oeste, um incêndio tão antigo que parecia ter sido incorporado à atmosfera oficial do país.

Na tela gigante da vizinha, alguém ria alto num programa de auditório com um clone virtual do Silvio Santos.

No corredor do prédio, um bebê chorava sem energia suficiente pro ventilador funcionar direito.

A água voltaria só às vinte horas.

Noventa minutos.

O aplicativo da prefeitura informava:
ABASTECIMENTO PARCIAL NORMALIZADO.

Miguel sempre achava engraçada a palavra normalizado.

O apartamento inteiro cheirava a plástico quente e roupa úmida, esse seria o novo new normal?

Caio estava ajoelhado perto da torneira da cozinha tentando ajustar o filtro gambiarrado com fita isolante e duas abraçadeiras de plástico.

— Se essa merda soltar de novo, a gente perde metade da água.

Miguel não respondeu imediatamente.

Só observou a nuca dele brilhando de suor sob a luz amarela da lãmpa à bateria pirata.

Nove anos morando juntos, e ainda sabia exatamente quando Caio estava irritado de verdade ou até cansado demais pra tentar parecer gentil.

Ultimamente era quase sempre a segunda opção.

Na janela, as plantas sobreviviam em garrafas PET cortadas ao meio. Hortelã murcha. Cebolinha triste. Um alecrim torto insistindo na existência, maconha que nunca vai florescer.

O ventilador movido a placa solar e powerbank girava com uma lentidão alcoólica.

Do lado de fora, um holograma do governo atravessava os prédios:
O EVENTO CLIMÁTICO CRÍTICO ESTÁ SOB CONTROLE
JUNTOS PELA ADAPTAÇÃO

A palavra adaptação aparecia em tudo agora.

Adaptação térmica.
Adaptação alimentar.
Adaptação emocional coletiva.

Como se sobreviver fosse só questão de interface.


Quando a água voltou, o encanamento gemeu igual bot sem lubrificante.

A sequência: Primeiro barro, depois ferrugem e finalmente água morna branca de cloro.

Caio ajustou os baldes automaticamente.

Os dois se moviam naquele ritual sem precisar conversar. Panelas. Garrafas. Reservatórios improvisados. Banheiro. Filtro. Descarga. Cozinha.

A intimidade deles ja trazia o conhecimento da coreografia do desespero doméstico.

Miguel percebeu que ainda amava Caio durante essas coisas comuns.

O jeito como ele mordia o lábio tentando rosquear tampa.
O hábito de enxugar as mãos na bermuda.
A mania de conversar sozinho quando mexia em fio elétrico.

O amor permanecia em pequenos detalhes mesmo depois do futuro morrer.


Mais tarde, comeram arroz requentado e proteína sintética sabor frango enquanto drones de segurança passavam baixo demais entre os prédios.

Na televisão, uma apresentadora sorria num cenário virtual de árvores inexistentes.

— Especialistas afirmam que o pior da crise térmica do ano já passou.

No mesmo instante, pela janela da sala, um drone sanitário recolhia um corpo coberto com lona branca na avenida.

Ninguém no grupo do prédio comentou.

Caio mastigou devagar.

— Você pagou a energia complementar?

Miguel fechou os olhos por um segundo.

— Ainda não.

— Se cortarem de novo, a bateria não segura a madrugada inteira.

— Eu sei.

Silêncio.

O garfor raspando o prato.

Uma motocicleta elétrica estourando o escapamento artificial lá embaixo.

O cheiro distante de chuva ácida evaporando do concreto quente.

Era assim que o relacionamento deles acabava, aos poucos, sem grandes explosões, apena em uma exaustão logística.


Naquela noite, o fungo perto da janela parecia maior.

Miguel observou as manchas escuras crescendo ao redor da lona térmica enquanto Caio dormia virado para o outro lado da cama.

Antigamente dormiam próximos mesmo no calor.

Agora existia um abismo entre os dois.

Pequeno e ainda assi distante e definitivo.

O aplicativo do governo enviou uma notificação luminosa:
LEMBRE-SE: INSTABILIDADE EMOCIONAL É COMUM DURANTE EVENTOS CLIMÁTICOS EXTREMOS.

Miguel quase riu.

Transformaram o fim do mundo em atendimento corporativo.


Na sexta-feira, a temperatura bateu cinquenta graus no centro expandido.

O prédio inteiro entrou em economia energética obrigatória.

Sem refrigeração compartilhada.

Sem elevador depois das dez.

Sem banho {{burnout}} extra.

Caio apareceu na porta do quarto segurando o reservatório portátil.

— Dá pra um banho refrigerado rápido pros dois.

Miguel assentiu.

O banheiro estava abafado como pulmão febril.

A água reciclada caía gelada demais para os padrões de 2051.

Caio entrou primeiro.

Fechou os olhos quando a água bateu na nuca.

E arrepiou exatamente no lado esquerdo da cintura.

Exatamente ali.

Miguel ainda sabia.

Nove anos depois, ainda conhecia o mapa térmico do corpo dele melhor do que conhecia o próprio rosto envelhecendo no espelho.

Aquilo produziu uma dor silenciosa e quase física.

Porque em breve aquele conhecimento não teria mais utilidade no mundo.

Caio puxou ele pela mão.

Durante alguns minutos ficaram os dois debaixo da água fria dividindo um luxo mínimo, respirando perto demais num banheiro mofado enquanto sirenes climáticas atravessavam a cidade lá fora.

Miguel encostou a testa no ombro dele.

Sentiu cheiro de sabonete barato, suor antigo e plástico quente vindo do encanamento.

O planeta inteiro parecia febril.

E mesmo assim o corpo humano continuava insistindo em querer carinho.

Isso talvez fosse a coisa mais triste da espécie.


Mais tarde, já deitados no escuro por causa do apagão noturno, ouviram alguém cantar num videoke no apartamento de cima.

Uma música velha.

Desafinada.

Provavelmente bêbado.

Caio falou sem olhar pra ele:

— Acho que a humanidade cansou.

Miguel demorou um pouco.

No teto, sombras de drones atravessavam a lona da janela como peixes mecânicos.

— Não acabou de uma vez — respondeu.

A voz saiu baixa.

Quase sonolenta.

— Foi desistindo aos poucos.

Caio não respondeu.

Mas aproximou o pé devagar até encostar discretamente no dele embaixo do lençol úmido.

E os dois permaneceram assim, em silêncio, enquanto São Paulo fervia lentamente do lado de fora.

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