Quando Marcelo percebeu, sua casa já tinha virado um mausoléu.
Não daqueles com mármore e flores, mas dos silenciosos, feitos de gavetas, prints, objetos sem função e poeiras da pele e emocional.
Tudo começou sem pretensão, sem motivo, pequeno, com a última bituca de cigarro. Ele havia prometido parar depois do carnaval, simples assim. Naquela noite, fumou devagar na laje olhando o céu laranja se dissolver sobre os telhados de São Bernardo. O vento balançava a fumaça. O pôr do sol incendiava as nuvens. E por um instante, o mundo parecia cansado e bonito ao mesmo tempo. Marcelo apagou o cigarro com cuidado exagerado.Depois guardou a bituca numa caixinha de metal com a monalisa desenhada e .escreveu: “Último cigarro”, veio um luto estranho, como se estivesse enterrando uma versão inteira de si mesmo, a que se imaginava fumando pra sempre.
Depois vieram outras coisas. A chave antiga da casa da avó. O cartão de embarque de uma viagem no pré carnaval de salvador pra são paulo, e que salvou um namoro por duas semanas antes dele morrer de vez.
Um ingresso amassado de um cinema que já virou escombros. Cabos de um celular quebrados. Uma colher pequena esquecida por alguém que nunca voltou. A captura de tela da última conversa.
Principalmente as conversas.
Marcelo colecionava despedidas digitais como quem preserva santos. “Boa noite ❤️” “Chegou bem?” “Como foi seu dia” “Eu sei…” Frases pequenas, só que finais nunca anunciam que são finais, esse é o truque cruel deles.
Aos poucos, a casa virou extensão da memória dele, os cantos tinham uma ausência pendurada, mas o corredor amarelo era o pior.
Aquela parede grande do corredor demorou uma semana inteira pra pintar sozinho. Uma semana. Subindo em banco, descendo, tirando fita crepe, limpando tinta do chão, passando segunda demão quase meia-noite, com dor nas costas e música antiga tocando baixo na Alexa.
Na época parecia só decoração. Agora era ruína arqueológica de um homem que já acreditou em futuro. Toda vez que atravessava o corredor, Marcelo lembrava do cheiro da tinta, do quase silêncio da madrugada. a sensação infantil de construir alguma coisa supodasmente duradoura…
E ele pensa que talvez amar as coisas seja isso: pintar paredes achando que elas vão durar mais que os sentimentos.
As janelas também doíam, menos a da cozinha, ela dava pra uma parede sem graça, cinza, feia, sem horizonte, sem céu nem poesia e, ironicamente, era nela que existiam algumas das melhores lembranças. Louça sendo lavada, o tablet ou a TV passando algo no YouTube, risadas cansadas de terça-feira, discussões bobas sobre o filme do final de semana, contas, mercado, vida.
Porque o amor verdadeiro raramente parece épico. Às vezes parece só alguém perguntando:
– Quer o último pedaço da pizza doce?
A lavanderia era diferente, quase sagrada. No fim da tarde, o céu entrava inteiro pelas janelas enormes. Era azul queimado, laranja profundo, nuvens cor de ferrugem, estrelas e satélites passando na noite, relâmpagos distantes em dias de chuva forte, e Marcelo ficava ali às vezes sem fazer nada, só olhando. O varal balançando com as roupas que ele não mais veria, o vento frio chegando depois do calor, os telhados da cidade ficando dourados, as luzes acendendo aos poucos.
Parecia que o mundo desacelerava naquele espaço-tempo.
Agora ele sabe que não pisaria mais ali. Outras pessoas pisariam. Outros abreriam aquelas janelas, veriam as estrelas de lá, reclamariam do frio no verão e do calor no inverno. Outra pessoa penduraria roupas naquele varal. Outra pessoa pisaria nos mesmos azulejos escolhidos num sábado em uma loja de material de construção que não existe mais.
Porque havia detalhes demais naquela casa. Detalhes que ninguém perceberia.
O Besouro azul ou o Homem Aranha na parede de gibi perto da sala. O quadro sem moldura atrás do sofá, o filtro de linha preto da televisão. O jeito como a luz da manhã atravessava o quarto. O eco específico do corredor durante a madrugada. Tudo isso carregava presença. Ou pior: carregava ausência.
Numa noite chuvosa, Marcelo decidiu organizar suas caixas.vCaixa das despedidas. Caixa dos objetos mortos. Caixa das coisas que acabaram sem avisar.vEspalhou tudo no chão da sala, parecia um museu de versões erradas e enterradas de si mesmo.E então encontrou um envelope vermelho pequeno.
Dentro dele havia apenas um pedaço seco de fita crepe com uma mancha amarela. Marcelo começou a rir sozinho. Era da parede do corredor. Guardara até aquilo.
Sentou no chão da sala e olhou ao redor da casa em silêncio, percebeu que não estava preservando memórias, só impedindo funerais, estava novamente fugindo do luto.
Cada objeto era uma tentativa desesperada de manter o passado respirando por paraísos artificiais.
A casa pra ele já tinha acabado. O amor já tinha acabado. A vida que existia ali já tinha acabado, mas Marcelo continuava alimentando cadáveres emocionais.
Então chorou, chorou de verdado, do jeito feio, com o peito travando, nariz escorrendo e entupido, peito doendo… Ele entendeu que não sentia saudade apenas de alguém, sentia saudade de quem ele era dentro daquela casa, do homem que pintava parede acreditando em amanhã, do homem que comprava um quadro sem saber onde colocar, do homem que olhava o pôr do sol da lavanderia sem imaginar despedidas.
Ficou horas assim, até que o amanhecer entrou pelas janelas. A luz atravessou a casa inteira devagar, tocando os objetos, as caixas, o corredor amarelo, a cozinha sem vista, o quarto silencioso.
Marcelo respirou fundo, depois abriu todas as janelas, inclusive a da cozinha, que mesmo dando pra parede, tinha o seu propósito, porque às vezes, quando um fim demora demais pra morrer, até uma parede sem horizonte precisa reaprender a deixar o vento entrar.





