Diogos

O Santo e o Canalha

Na manhã em que acordou dividido em dois homens, batia uma névoa depois do sol sobre São Bernardo do Campo.

Não era muito dramática nem incomum.

Não havia chuva.

Não havia presságios escondidos no que não se podia ver.

Era apenas aquela nebrina da represa billings, uma névoa branca que parecia cair já rotineira.

O apartamento continuava igual.

A geladeira fazia o mesmo ruído.

A cafeteira permanecia sobre a pia.

O computador aguardava sobre a mesa como um funcionário exemplar que nunca tira férias.

Tudo estava exatamente onde deveria estar.

Exceto o proprietário.

Porque agora existiam dois.

Durante alguns segundos, ambos ficaram sentados na cama observando um ao outro.

Nenhum gritou.

Nenhum desmaiou.

Nenhum fez aquilo que personagens de filmes costumam fazer quando confrontados por eventos metafísicos.

Os dois apenas olharam.

Então o homem da esquerda disse:

— Merda.

O homem da direita concordou.

— Agora fodeu.

Silêncio.

— Você é eu.

— Você também.

— Isso é impossível.

— Ontem você desenhou símbolos alquímicos numa toalha de mesa na pastelaria do mercado enquanto lia Nietzsche, Alan Watts, um manual de ocultismo baixado num fórum russo e tomava quetamina sozinho.

— Quando você fala desse jeito parece uma ideia ruim.

— Porque era uma ideia ruim.

Os dois ficaram pensativos.

Finalmente o da esquerda falou:

— Acho que sou a parte boa.

O da direita respondeu:

— Curiosamente eu estava pensando exatamente a mesma coisa.

O problema dos seres humanos é que eles acreditam demais em classificações.

Gatos.

Cachorros.

Certo.

Errado.

Herói.

Vilão.

Virtude.

Pecado.

É compreensível.

Etiquetas economizam energia mental.

A realidade, porém, possui um hábito desagradável de ignorar etiquetas.

O homem original, antes da divisão, passara cinquenta anos tentando descobrir quem era.

Analista de suporte durante o dia.

Escritor de contos durante a noite.

Praticante de karatê em horários específicos.

Leitor compulsivo de ficção científica em qualquer horário disponível.

Recentemente havia descoberto algo perturbador.

Grande parte dos defeitos que carregava talvez não fossem defeitos.

Talvez fossem apenas peças incompreendidas de ilusões mal processadas.

Mas a mente humana raramente aceita respostas simples, e essa bipartida aceitaria menos o dobro do comum.

Essa prefere experimentos.

Especialmente os estúpidos.

Foi assim que surgiu o ritual de uma delas.

Uma mistura de meditação.

Filosofia oriental.

Filosofia ocidental.

Tarô.

Música.

Anotações pessoais.

Esoterismo de internet.

E quetamina.

Muita quetamina.

O resultado agora ocupava dois lados da cama.

A primeira tarefa foi descobrir quem era quem.

Criaram uma metodologia.

Afinal, ambos tinham experiência em suporte técnico.

Se existe um problema, existe uma planilha.

O homem da esquerda recebeu uma folha.

O da direita recebeu outra.

Fizeram listas.

Virtudes.

Defeitos.

Qualidades.

Falhas.

Memórias.

Preferências.

Traumas.

Gostos.

Medos.

Depois de três horas, chegaram à mesma conclusão.

As listas eram idênticas.

— Isso não ajuda — disse um.

— Nem um pouco — respondeu o outro.

Resolveram então simplificar.

O homem da esquerda declarou:

— Eu sou o Santo.

O outro sorriu.

— Então sobra pra mim ser o Canalha.

— Você parece confortável com isso.

— Alguém precisa ficar com os defeitos.

— E você admite que os possui.

— Claro.

Sou preguiçoso.

Impulsivo.

Ansioso.

Sarcástico.

Teimoso.

Às vezes egoísta.

O Santo abriu um sorriso satisfeito.

— Excelente.

Reconhecer os próprios defeitos é o primeiro passo.

— E você?

— Sou disciplinado.

Paciente.

Gentil.

Racional.

O Canalha observou.

Observou mais um pouco.

Depois perguntou:

— Você sempre foi tão arrogante?

Nos primeiros dias, a divisão pareceu funcionar.

O Santo assumiu a rotina organizada.

Acordava cedo.

Praticava exercícios.

Respondia e-mails.

Lavava louça imediatamente após o uso.

Organizava livros por categoria.

Separava lixo reciclável com precisão quase religiosa.

O Canalha ficou responsável por tudo que parecesse divertido.

Leitura.

Cinema.

Contos.

Música.

Conversas aleatórias.

Longos cafés observando a cidade pela janela.

À primeira vista, parecia perfeito.

Como um experimento de laboratório.

Como uma versão espiritual de dividir arquivos em pastas.

Mas seres humanos não são arquivos.

São bagunças que aprenderam a usar roupas.

E bagunças não gostam de ser separadas.

A primeira rachadura apareceu numa terça-feira.

Uma senhora deixou cair compras perto de um terminal de ônibus.

O Santo observou.

Calculou.

Ajudar consumiria três ponto cinco minutos.

Ele estava atrasado.

O compromisso era importante.

A eficiência recomendava seguir em frente.

O Canalha correu para ajudá-la.

Carregou sacolas.

Acompanhou-a até o ponto.

Escutou uma história sobre um filho distante.

Voltou quarenta minutos depois.

— Você perdeu tempo.

— Talvez.

— Foi irracional.

— Talvez.

— Então por que fez isso?

O Canalha pensou.

— Porque ela parecia triste.

O Santo revirou os olhos.

A segunda rachadura surgiu durante uma reunião de trabalho.

Um colega errou.

Nada grave.

Um erro comum.

Humano.

O Santo corrigiu.

Depois explicou.

Depois detalhou.

Depois apresentou gráficos.

Depois demonstrou estatísticas.

Depois sugeriu melhorias.

Depois citou produtividade.

Depois eficiência.

Depois excelência.

Ao final da reunião ninguém discutia o erro.

Todos discutiam o quanto o Santo era insuportável.

O Canalha assistiu de longe.

Quando saíram, comentou:

— Você sabe que estava certo.

— Claro, eu sei.

— Mas conseguiu transformar razão em arrogância.

— Só falei a real.

— Nem toda verdade precisa entrar numa sala usando coturnos.

— Aprendi com ela.

O curioso é que o Santo piorava.

Quanto mais acreditava ser a personificação das virtudes, mais se tornava refém delas.

A disciplina transformou-se em obsessão.

A ética transformou-se em julgamento.

A racionalidade transformou-se em desprezo.

A paciência transformou-se em superioridade.

Ele começou a olhar os outros como um professor olha alunos particularmente lentos.

Incluindo o próprio Canalha.

Especialmente o próprio Canalha.

— Você desperdiça tempo.

— Faz parte.

— É emocional demais.

— Eu sei fi.

— Vive cometendo erros.

— Né?

— Então por que parece mais feliz?

A pergunta permaneceu sem resposta.

Enquanto isso, o Canalha apresentava defeitos perfeitamente legítimos.

Era preguiçoso.

Procrastinava.

Comia besteiras.

Gastava dinheiro em livros que jamais terminaria.

Passava horas imaginando histórias inúteis.

Mas possuía uma característica que o Santo perdera.

Dúvida.

O Canalha não confiava completamente em si mesmo.

Por isso escutava.

Observava.

Perguntava.

Pedia desculpas.

Chorava quando necessário.

Ria das próprias contradições.

E, sobretudo, não acreditava ser melhor que ninguém.

A disputa escalou.

Logo começaram a discutir propriedade intelectual.

— O conto da criatura criada durante a ditadura é meu.

— Nosso.

— Eu escrevi.

— Nós escrevemos.

— Eu tive a ideia.

— Nós tivemos.

— O livro de poemas sobre a solidão em São Paulo é meu.

— Também nosso.

— O livro inacabado é meu.

— Não força, qual deles? São todos ossos.

— O trauma é meu.

— Meu fi…

— O amor é meu.

O Canalha parou.

Pela primeira vez o Santo pareceu hesitar.

Porque existiam certas memórias que não podiam ser divididas.

Pessoas.

Perdas.

Ausências.

Aqueles lugares internos onde nenhuma planilha funciona.

Numa noite de inverno, sentaram-se na varanda.

A cidade brilhava sob uma camada fina de neblina.

Faróis riscavam avenidas.

Prédios pareciam navios flutuando em fumaça.

O Canalha bebia café.

O Santo tomava chá sem açúcar.

Naturalmente.

— Você sabe qual é nosso problema? — perguntou o Canalha.

— Seu problema é evidente.

— Não pra todos, só pra mim.

Nosso.

O Santo permaneceu em silêncio.

— Nós dois acreditamos que existe um original.

— E existe.

— Tem certeza?

— Claro.

— E se não existir, cadê ele? É o corpo biológico, é uma idéia de ser que não é nós?

A pergunta ficou pairando sobre a noite.

Como um satélite.

Como uma lua artificial.

Como uma ideia perigosa.

Nos dias seguintes, ambos começaram a notar algo estranho.

As memórias estavam mudando.

Não desaparecendo.

Mudando.

Certas lembranças apareciam mais nítidas para um.

Outras para o outro.

Como se a realidade estivesse redistribuindo arquivos.

Uma tarde, o Santo já não conseguia lembrar do rosto completo da primeira namorada.

O Canalha lembrava.

Outra noite, o Canalha esqueceu detalhes importantes do primeiro emprego.

O Santo recordava tudo.

Pouco a pouco, ambos tornavam-se pessoas diferentes.

E isso os aterrorizava.

Porque até então ainda existia uma esperança.

A esperança de descobrir quem era verdadeiro.

Agora surgia outra possibilidade.

Talvez nenhum fosse.

Talvez ambos estivessem nascendo.

E nascer aos cinquenta anos é uma experiência extremamente inconveniente.

A crise final começou por causa de um cachorro.

Um vira-lata magro.

Castanho.

Olhos inteligentes.

Apareceu numa noite chuvosa.

Tremendo perto de uma padaria.

O Santo avaliou possibilidades.

Abrigo.

Centro de adoção.

Custos.

Logística.

Responsabilidades.

O Canalha simplesmente levou o animal para casa.

Quando chegaram ao apartamento, começaram a discutir.

Uma discussão longa.

Violenta.

Ridícula.

Cheia de acusações acumuladas.

Até que finalmente o Santo gritou:

— Você é a razão de todos os nossos fracassos!

Silêncio.

O cachorro ergueu uma orelha.

O Canalha respondeu baixinho:

— E você é a razão de todas as nossas máscaras.

Pela primeira vez o Santo não encontrou resposta.

Porque alguma coisa dentro dele reconheceu a verdade.

E alguma coisa dentro do Canalha reconheceu outra.

Eles ficaram olhando um para o outro.

Não como inimigos.

Não como opostos.

Mas como pessoas cansadas.

Muito cansadas.

E talvez pela primeira vez entenderam algo simples.

Nenhum deles possuía exclusivamente as virtudes.

Nenhum deles possuía exclusivamente os defeitos.

A coragem do Santo nascera dos medos do Canalha.

A compaixão do Canalha nascera das regras do Santo.

Cada um carregava vestígios do outro.

Como continentes separados por oceanos rasos.

Como duas cidades construídas sobre o mesmo terreno.

Como dois homens usando o mesmo passado.

Foi então que aconteceu algo estranho.

Os contornos de ambos começaram a oscilar.

Como reflexos sobre água.

Como imagens numa televisão antiga.

O cachorro solitário observava.

Sem surpresa alguma.

Talvez porque cães sejam mais sábios do que filósofos.

Ou simplesmente menos pretensiosos.

— O que está acontecendo? — perguntou o Santo.

— Não faço ideia.

— Estamos desaparecendo?

O Canalha sorriu.

— Talvez estejamos voltando.

E pela primeira vez, desde o início de tudo, os dois riram juntos.

A mesma risada.

Exatamente a mesma.

A risada de alguém que finalmente compreendeu que luz e sombra jamais foram inimigas.

Eram apenas vizinhas.

Antigas.

Indissociáveis.

Condenadas a compartilhar o mesmo endereço.

Na manhã seguinte, havia apenas um homem no apartamento.

Ou talvez ainda houvesse dois.

Ninguém poderia afirmar.

O cachorro continuava ali.

A cafeteira também.

A cidade despertava sob nuvens baixas.

O homem observou o próprio reflexo no espelho.

Permaneceu alguns segundos encarando a imagem.

Esperando alguma resposta.

Alguma revelação.

Alguma confirmação.

Mas o espelho devolveu apenas um rosto humano.

Imperfeito.

Contraditório.

Inacabado.

Como todos os outros.

Ele sorriu.

O reflexo sorriu de volta.

E por um instante pareceu que ambos demoraram uma fração de segundo para concordar sobre qual dos dois havia começado primeiro, e qual traria mais versões pra dialogar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.