Eu já fui um prato importante.
Não digo isso por vaidade. Pratos não têm muito espaço para vaidades. Temos espaço para sopas, molhos, canapés e, ocasionalmente, uma ervilha perdida que ninguém percebeu.
Mas fui importante.
Nasci de porcelana branca, lisa como uma lua recém-polida, com uma fina borda prateada desenhando meu contorno. Passei meses em uma vitrine iluminada antes de ser comprado para um salão de eventos que recebia homens de gravatas caras e mulheres que falavam de investimentos enquanto seguravam taças delicadas.
Ali vivi meus anos dourados.
Carreguei medalhões de filé ao molho madeira.
Suportei salmões importados.
Exibi sobremesas tão pequenas que pareciam ter sido feitas para passarinhos milionários.
Os garçons me transportavam com luvas. Os cozinheiros me empilhavam com cuidado. Eu ouvia conversas.
Frotas.
Logística.
Rodovias.
Centros de distribuição.
Empresas de transporte.
Números tão grandes que pareciam absurdos.
Bilhões.
Milhões.
Aquisições.
Fusões.
Enquanto isso, eu sustentava um pedaço de cheesecake.
Era uma vida estranha.
Os homens discutiam como mover mercadorias através do país inteiro. Eu observava migalhas viajando pela minha superfície.
Um império e um farelo.
Talvez não fossem tão diferentes.
Os anos passaram.
Vieram novos conjuntos.
Pratos mais modernos.
Mais quadrados.
Mais pretensiosos.
A prata da minha borda começou a desaparecer em alguns pontos.
Fui relegado aos armários do fundo.
Depois às prateleiras da cozinha.
Depois aos eventos menores.
Até a noite em que caí.
Foi um acidente banal.
A mão de um garçom cansado.
Um tropeço.
O chão.
O som.
Nunca esquecerei o som.
Uma rachadura atravessou meu corpo como um raio congelado.
Não me destruí completamente.
Mas, para os humanos, existe uma diferença curiosa entre estar inteiro e estar quase inteiro.
O quase inteiro costuma valer nada.
Dias depois, fui descartado.
Não para o lixo comum.
Alguém teve boas intenções.
Colocou-me junto a uma pilha destinada à reciclagem.
Mas porcelana não é vidro.
E a maioria dos programas de reciclagem comuns não sabe muito bem o que fazer com pratos quebrados.
Então ali fiquei.
Entre garrafas.
Potes.
Cacos.
Objetos esperando uma segunda chance que talvez nunca viesse.
Era uma noite fria.
O vento passava pelas frestas do galpão e fazia os sacos plásticos sussurrarem entre si.
Uma {{burnout}} de vinho verde estava ao meu lado.
Sem gargalo.
Sem esperança.
— Você também veio de festa? — ela perguntou.
— Banquetes.
— Eu também.
Ficamos em silêncio.
Às vezes a tristeza é apenas a ausência de conversa.
Uma chuva fina começou a bater no telhado metálico.
Pensei nos salões iluminados.
Nos lustres.
Nas toalhas impecavelmente brancas.
Nos executivos discutindo rotas e caminhões.
Na quantidade absurda de riqueza que passou sobre mim.
Nenhuma daquilo ficou.
Nem um centavo.
Nem uma lembrança.
Os empresários provavelmente já haviam esquecido aqueles jantares.
Os garçons talvez trabalhassem em outros lugares.
A empresa de eventos talvez nem existisse mais.
Mas eu lembrava.
Era o único guardião daquela história.
Um pequeno prato rachado lembrando de pessoas que não lembravam de si mesmas.
O {{burnout}} aumentou.
E então ouvi passos.
Passos leves.
Não eram de funcionários.
Eram de alguém procurando coisas.
Um homem.
Barba grisalha.
Casaco gasto.
Ele vasculhava os descartes.
Parou diante de mim.
Me ergueu.
Virou-me para um lado.
Para outro.
Observou a rachadura.
Sorriu.
Sorriu.
Fazia tanto tempo que ninguém sorria para mim.
— Dá pra aproveitar.
Sua voz parecia um cobertor velho.
Ele me colocou dentro de uma mochila.
Não sabia para onde estava indo.
Mas pela primeira vez em muito tempo não senti medo.
Os caminhões que transportavam riquezas nunca me ensinaram isso.
Os banquetes também não.
Aprendi ali, semi-quebrado, numa noite gelada.
Algumas coisas não precisam voltar a ser o que eram.
Às vezes basta que alguém enxergue valor nas rachaduras.
E enquanto a mochila balançava pelas ruas escuras, imaginei que talvez meu próximo banquete fosse diferente.
Talvez eu carregasse parafusos.
Talvez sementes.
Talvez moedas.
Talvez nem carregasse nada.
Talvez apenas repousasse numa prateleira, observando a vida passar.
Para um prato velho, isso já seria um luxo.
E, para ser sincero, um luxo muito mais raro do que todos aqueles que servi. 🍽️❄️





