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A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon

A Senhora da Magia

 “… um país governado por sacerdotes é um país cheio de tiranos na Terra e no Céu.” (Morgause)

Morgana é quem nos guiará através das tramas que levaram a que fosse conhecida como Morgana, a Fada (ou Morgana das Fadas) e à ascensão e queda de seu irmão Artur como Grande Rei de toda a Bretanha.

Apesar de estar diretamente envolvida na história, Morgana é uma boa narradora já que parece ter uma percepção excepcional, muito sensível ao que acontece ao seu redor desde tenra idade.

Esta será uma marca desta série de livros: os acontecimentos que regeram a vida das pessoas do reino pela visão das mulheres que ali estiveram presentes como sujeitos e agentes das mudanças.

PrólogoAsBrumasDeAvalon

As Brumas de Avalon

A narração propriamente dita começa no verão em Tintagel. Aqui, somos apresentados à Igraine, esposa do Duque Gorlois, irmã de Viviane – Grande Sacerdotisa do Lago – e mãe de Morgana – futura Senhora do Lago.

Por Igraine nos é apresentado o primeiro contraste entre as estruturas do cristianismo nascente e da Velha Religião, pois, apesar de não ter se aprofundado nos mistérios da Ilha Sagrada – Avalon, ela é muito mais instruída e culta do que o padre responsável pela Cornualha, por exemplo, mas para o qual tem que mostrar respeito e silêncio por ter se casado com um homem cristão.

O contraste não se dá apenas pela diferença de instrução e “importância social”, mas também pelo grau de liberdade que as mulheres da Ilha têm e que as mulheres cristãs não têm. Na verdade, mesmo os homens parecem ser tolhidos em pensamentos e ações pelas restrições do cristianismo.

Nesta mesma casa, conhecemos Morgause, a caçula das três irmãs que descendem da linhagem real de Avalon, e que terá um papel importante nos destinos do reino, atuando sempre nas sombras.

Numa conversa entre as três irmãs, também participa o Merlim – pai de Igraine, mas não de Morgause e Viviane. E aqui percebemos como as mulheres de Avalon são livres para exercer sua sexualidade sem amarras (é claro que isso inclui a liberdade sexual dos homens também). Enfatizando mais uma vez a liberdade frente às censuras cristãs.

Por isso, muitas vezes, as mulheres (sacerdotisas) da Ilha de Avalon são chamadas de bruxas e feiticeiras, não por suas visões e “poções”, mas por suas atitudes. Negando-se a serem as mulheres submissas e recatadas que o cristianismo pregava.

Esta será uma característica constante do enredo. Os personagens, por suas ações e palavras, espelham as diferenças filosóficas entre o cristianismo e a Velha Religião. Normalmente, colocando a Velha como uma crença que celebra a vida e sua plenitude, e o Cristo como um ser triste que pesa a vida com a morte.

Um bom exemplo de como este contraste se faz presente mesmo quando não se está referindo a ele objetivamente é a relação entre Igraine e Gorlois. Em muitas situações, eles parecem representar Ceridwen e Cristo respectivamente. Ceridwen, apesar de ícone de uma velha tradição, parece jovial pela sua celebração à vida e liberdade que confere aos seus crentes. Já o Cristo, mesmo representando uma religião nascente, com todas as suas restrições e noções de pecado parece ter nascido como um velho monge intransigente.

No entanto, esta aparente liberdade também guarda os seus dogmas. Quando Morgana fala de seus anos como “noviça” na Ilha, por exemplo, tudo o que ela diz é

“— O que não é óbvio é secreto.”

Numa outra cena, Galahad (Lancelote) fala como vê a mãe, Viviane, enquanto Sacerdotisa e, por isso, como representante da Deusa na Terra:

“— Ela é grande, terrível e bela, e só se pode amá-la, adorá-la e temê-la.”

Ainda naquela mesma conversa, é revelado como Viviane e o Merlim tramam para que o próximo rei seja um que consiga fazer com que a velha e a nova religião convivam pacificamente. Para isso, planejam sua vida mesmo antes de seu nascimento…

“— Você acha que a nossa feitiçaria pode fazer coisas além da vontade de Deus, minha filha?”

Esta fala de Merlim demonstra como ele realmente acreditava que a convivência pacífica entre as duas religiões seria possível. Mas nada é tão simples quanto parece, pois, além da missão de unir estas diferentes crenças, Artur – o rei predestinado – também teria a missão de unir todos os pequenos reinos da Bretanha para que conseguissem impedir de uma vez por todas as invasões saxãs, contras as quais lutavam há muitas décadas e lutariam por muitas ainda mais.

Intrigas permearão toda a saga, sejam elas tramadas nos corredores do castelo de Camelot ou nas terras ensolaradas de Avalon – todos tentando desesperadamente defender o seu quinhão, seja por um ideal ou ganância.

Livro 1 – A Senhora da Magia

Capa - Livro 1 - As Brumas de Avalon - A Senhora da Magia

Com relação ao título, apesar de, em certo ponto da história, Morgana ser chamada de Senhora do Lago, esta Senhora da Magia pode ser entendido como Morgana – representando um último suspiro de uma religião que está morrendo – ou como Viviane – última grande sacerdotisa desta crença.

Ler este volume foi como presenciar os últimos lampejos de força de uma religião antiga – que veio de uma mais antiga ainda – e os esforços de seus seguidores mais fiéis na tentativa de mantê-la viva e, talvez, com parte da grandeza e vigor que possuiu um dia.

Leia mais no blog:

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon (Livro 4)

Projeto Leia Mulheres

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Elsa & Fred

Elsa & Fred - Um amor de paixão

Um amor de paixão

Elsa & Fred, de produção argentina e espanhola, é um filme que conta a história de um casal de apaixonados. Um casal de velhinhos.

Elsa é uma senhora que procura aproveitar ao máximo todos os momentos de sua vida e, para isso, inventa algumas histórias sobre si mesma que a tornam mais interessante.

Fred é um recém-viúvo um tanto quanto hipocondríaco que se “esconde” da vida no seu apartamento, tento como companhia seu cachorro Bonaparte.

A produção que utiliza o tempo todo da intertextualidade, pois é cheio de referências ao filme A Doce Vida do diretor italiano Federico Fellini.

Intertextualidade porque o filme coloca-se como obra de arte que, além de fazer referência a uma obra anterior, de certa forma também pode ser visto como uma releitura.

A Doce Vida acompanha as angústias de um homem de meia-idade que conhece uma mulher exuberante pela qual se apaixona. Essa mulher faz-lhe pedidos estapafúrdios que transformam a banalidade de suas vidas.

Elsa & Fred conta-nos de uma velhinha que foi tão bela em sua juventude quanto a atriz do filme italiano, a tal ponto de identificar-se com ela e, por isso, tenta fazer com que a sua vida (e a de Fred), mesmo na velhice, seja tão sublime quanto o filme.

Elsa & Fred é de uma delicadeza extraordinária, em que são expressos de forma surpreendentes sentimentos de carinho e compreensão humana, além de ser um alento a mais para aqueles que acreditam que nunca é tarde para se realizar um sonho.

P.S.:

Como quase todos os bons filmes não hollywoodianos, este também teve uma versão americana:

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Under the Shadow

Djinn

Com muitas variações no título em português, Sob as sombras, Sob a sombra e mesmo À sombra do medo, Under de Shadow chegou ao Brasil em janeiro deste ano pela Netflix.

O longa, escrito e dirigido pelo estreante Babak Anvari, é uma produção conjunta entre Reino Unido, Irã, Jordânia e Qatar, e recebeu grande destaque nos festivais de Sundance e Toronto After Dark de 2016, ano de seu lançamento.

Começamos a história acompanhando Shideh (Narges Rashidi) em sua tentativa de voltar aos estudos de Medicina, que se vê frustrada por um agente do governo que usa seu passado na militância política durante a Revolução Iraniana como motivo da recusa.

O ano é 1988, o último do conflito Irã-Iraque, um dos mais longos do século 20.

Então, quando Iraj (Bobby Naderi), médico formado, é chamado pelo governo a atuar no front, Shideh se vê incompreendida pelo marido em sua frustração e, ao mesmo tempo, sozinha em sua responsabilidade em cuidar da filha do casal, Dorsa (Avin Manshadi).

Mãe e filha

Mãe e filha vivem uma rotina de quase confinamento intercalada com as constantes corridas até o abrigo do prédio sempre que os alarmes da cidade soam, avisando que mais um dos ataques diários está vindo.

Num destes bombardeios, um míssil atinge o teto do último andar do prédio onde moram, deixando rachaduras por todo o edifício, inclusive no teto da sala do apartamento de Shideh.

Apesar de não ter explodido, o míssil parece ter trazido consigo o mal em muitas formas. Dorsa começa a ter dificuldades pra dormir e uma febre que não tem motivo aparente, mas que também não vai embora, e lhe traz – é o que sua mãe acredita – alucinações.

No entanto, uma vizinha diz a Shideh que há a presença de um Djinn entre elas.

Isolamento

A partir daí, o isolamento de mãe e filha vai crescendo conforme a tensão no filme vai aumentando, fica difícil – pra nós e para as personagens – saber o que é real e o que não é.

Neste drama de terror e suspense, nos deparamos o tempo todo com os percalços que uma mãe encontra pra criar seus filhos num ambiente habitado pelo medo constante – da guerra e do sobrenatural.

Também presenciamos as consequências da Revolução para as mulheres.

Numa cena em que Shideh corre assustada para a rua com a filha e é presa por não estar com roupas adequadas. O crime, passível de ser castigado com chibatadas, é por não estar usando o chador – que, ironicamente, é a vestimenta do Djinn que as assombra.

Apesar dos simbolismos de crítica social, misturando os medos reais com os sobrenaturais, Under the Shadow não perde o foco da trama.

Anvari constrói as personagens com consistência, então acompanhamos a guerra e a sociedade pela subjetividade delas, principalmente da mãe, de modo que, quando o terror acontece, ele não é gratuito, você se importa, pois ele tem o seu peso e o seu significado.

Mais:

Confira uma entrevista (em inglês) com o diretor Babak Anvari.
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Podcast Comentado – Ponto G

Mulher Maravilha aquarela podcast ponto g

Cachorro Solitário comenta – Podcast

Neste mês de março, nada melhor que divulgar trabalhos de excelência feitos por mulheres. Dessa vez o assunto é Podcast.

Na primeira edição do Podcast Comentado, Diogo Scooby apresenta o Ponto G, falando sobre suas características e nos dando um gostinho com trechos de dois programas.

Atenção:

Não se esqueça de assinar o canal no YouTube pra não perder as próximas edições 😉 

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Apresentação e edição: Diogo Scooby

Produção: Eduardo Leandro

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Ms. Marvel

ms marvel nada normal kamala

Ms. Marvel Nada Normal

A editora Marvel nos apresenta uma personagem que me fez questionar: Quem é Kamala Khan?

Diogo Scooby comenta suas impressões sobre Ms. Marvel – Nada Normal (vol. 1), HQ na qual acompanhamos uma adolescente com seus ídolos e neuras se transformando numa divertida heroína 😀

Confira:

Não se esqueça de assinar o canal no YouTube pra não perder as próximas edições 😉

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Apresentação e edição: Diogo Scooby

Produção: Eduardo Leandro

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Clarice

Assinatura Clarice

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, mas veio para o Brasil ainda criança. Morou em Maceió, em Recife e no Rio de Janeiro. Considerava-se brasileira e nordestina – tanto que fez questão de se naturalizar.

Formou-se em Direito, mas pendendo para o meio literário, começou nele como tradutora, consagrando-se mais tarde como escritora, jornalista, contista e ensaísta. Além de ser uma das mais importantes escritoras brasileiras, também é considerada a maior escritora judia desde Franz Kafka.

Sua estreia literária se deu com a publicação do romance Perto do coração selvagem (1943). Neste texto, no entanto, vamos nos focar no conto Amor, que faz parte da coletânea Laços de Família (1960).

Sua escrita inovou o romance brasileiro com sua abordagem feminina, introspectiva e psicológica das personagens, em detrimento dos acontecimentos em si mesmos.

E sua narrativa aparenta estar cheia de banalidades apenas, porém, se prestarmos atenção aos recursos de estilo e às expressões pouco convencionais utilizados pela autora, estes elementos podem obscurecer ou trazer à luz o sentido que está nas entrelinhas do texto.

Epifania

Seus livros de contos parecem ser temáticos, pois as personagens, em sua maioria, são mães, esposas em situações familiares que fogem da rotina, espécies de crises – iniciadas por epifanias.

No conto Amor, por exemplo, a personagem Ana é uma dona de casa que, após ver um cego mascando chiclete num ponto de ônibus, desequilibra-se de tal modo que passa a ver o mundo à sua volta de maneira diferente, enxergando coisas superficiais e profundas que não via antes.

Este é um tipo de acontecimento recorrente na obra de Clarice: um fato, aparentemente banal, faz com que a personagem tenha uma epifania, de tal maneira que não consiga mais enxergar a si mesma como gostaria de ser, por dentro e por fora.

Epifania vem do grego, e foi (é) usada por cristãos como sinônimo de revelação – a revelação do Mistério religioso. Na literatura, depois de Joyce, ganhou status de revelação, transformação súbita pela qual uma personagem passa, causada por uma visão cotidiana. A epifania religiosa pode ser entendida como algo coletivo; já a literária, individual.

Ainda segundo o crítico Benedito Nunes*, a epifania, dentro do texto literário, pode ser entendida como “momentos de pausa contemplativa, que proporcionam, independentemente do entendimento verbal e discursivo, um saber imediato arraigado à percepção em estado bruto”.

Obviamente, em Clarice, a epifania não nos vem no sentido religioso, mas sim no de desmascarar os recalques dos papéis sociais que assumimos. Esta percepção perturba tanto as personagens que elas não sabem mais como voltar ao normal quando “estranharam” tanto a vida que viviam.

Amor

No entanto, não é exatamente assim que acontece com Ana. A protagonista de Amor passa pelo seu processo de epifania tendo até mesmo “sintomas” físicos, como náusea.

Ela desce do bonde em que estava e começa a vagar pelas ruas, indo parar no Jardim Botânico que, teoricamente, seria um lugar de calma, mas se torna perturbador, pois, após a revelação, ela passa a olhar e realmente ver as coisas ao seu redor, da forma como são, sem enfeites e sem explicações – apenas são:

“Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria.”

Movimento que a faz ver também suas relações familiares, a vida que escolheu construir, sendo mantida por muitos fios, mas todos muito frágeis. Aí, quando tudo faz pensar que haveria uma ruptura, há uma confirmação do amor familiar, do aconchego do lar, do marido acolhedor, que a fazem retornar à calma da rotina. Mas agora sabendo que há mais do que o que conseguimos olhar sem ver.

“Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.”

Todas estas sensações e percepções contraditórias se espelham na linhagem, quando a escritora cria expressões singulares usando ideias aparentemente contrárias: A crueza do mundo era tranquila.”, “o cego a guiara até ele”, “Era fascinante, e ela sentia nojo.”, “O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” – num nível superficial, a autora estava falando do Jardim Botânico, mas podemos entender também este Jardim como o Éden, paraíso terrestre perdido, em contraste com o Inferno -, entre muitas outras.

O absurdo da vida

Ao se dispor a ler algum escrito da autora, você deve estar preparado para se despir de todo olhar viciado sobre as coisas, vendo assim algo do cotidiano como se fosse a primeira vez – descobrindo um novo objeto e todo o seu absurdo diante da vida, como algo que não tem nome, mas que ainda assim existe.

Talvez pareça ser uma escrita descolada da realidade social, mas se olharmos numa camada mais profunda também poderemos ver nessas pequenas epifanias banais, um incômodo, quem sabe até um questionamento que não se chegou a formular sobre os papéis sociais aos quais aderimos para viver em sociedade, incluindo aí questões relacionadas às “funções” de cada gênero no ambiente familiar e comunitário, já que as personagens principais são mulheres, e donas de casa.

Mas, mesmo que não haja essa camada de significação no texto, isso não quer dizer que a pessoa da escritora vivia alienada dos problemas da sociedade em que vivia.

No texto Liberdade e Justiça, por exemplo, ela discorre justamente sobre o fato de não conseguir escrever claramente sobre justiça social em seus trabalhos, e, em Mineirinho, ela faz uma reflexão sobre o papel da justiça em si na sociedade.

***

Veja mais:

– O Instituto Moreira Salles tem um material muito bom sobre Clarice, incluindo duas videoaulas ministradas por José Miguel Wisnik e Nádia Gotlib.

Entrevista concedida por Clarice ao jornalista Júlio Lerner, para a TV Cultura, em 1977, meses antes de seu falecimento.

Café Filosófico sobre A Legião Estrangeira (1964), palestra ministrada por Noemi Jaffe.

*NUNES, Benedito. O drama da linguagem, 2ª ed., São Paulo: Ática, 1995.

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Solidão

Solidão devora

Significado de Solidão

s.f. Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento: os encantos da solidão. Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas: retirar-se na solidão. Isolamento moral, interiorização: a solidão do espírito.
Dicio – Dicionário Online de Português

A solidão pode ter muitas causas. Em diversos momentos, pessoas relatam momentos terríveis em que se sentiram sozinhas, presas em armadilhas, em algum meio de transporte, cavernas submersas e até no espaço, apenas aguardando o momento derradeiro da morte iminente, isolados de seus pares por forças da natureza infinitamente superiores, tentando usar cada resto de esperança em dias melhores para conseguir sobreviver mais.

Nós que vivemos em cidades temos outros meios de “pegar solidão”, e muitas ilusões que substituem a esperança do náufrago. Temos amigos online, temos séries, filmes e livros que nos distraem, entretêm e ensinam, mas que também fazem com que nos sintamos partes de algo maior.

Caminhamos por aí conectados em nossos aparelhos, cada vez mais ausentes e egoístas, solitários em meio a multidões, e nem nos damos conta disso, apenas caminhamos entre casa-escola-trabalho, a maior parte do tempo perdido em transportes cheios de pessoas sozinhas.

Nós humanos somos criaturas sociais. Por mais duros ou Asperger que sejamos, um abraço, uma boa conversa, a troca de olhares enquanto uma anedota é contada um pouco antes do riso são importantes, e a privação de coisas simples como estes exemplos pode enlouquecer, pode – como diz a música – transformar um homem bom em mau¹.

O vídeo abaixo é bem ilustrativo em relação a este tema, e é altamente recomendado:

E deixo como reflexão final uma bela canção que, curiosamente, é bem cíclica, parece-se com ondas de solidão que nos invadem de tempos em tempos, talvez pra nos forçar em direção à vida e nos tirar do comodismo e da pasmaceira.

“A solidão é fera, a solidão devora
É amiga das horas, prima, irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração”

Claro que muitos apreciam momentos e até vidas inteiras sozinhos, para isto se dá o nome de solitude, a solidão boa, parceira, que traz paz de espírito, calma, júbilo. Todos precisamos disso eventualmente, eu gosto.

Até breve!

¹Please, Please, Please, Let Me Get What I Want – The Smiths

Dica de conteúdo relacionado: http://academiadefilosofia.org/publicacoes/artigos/a-solidao

 

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Poesia concretista

poesia

Um poema é feito de palavras e silêncios.

Décio Pignatari

No livro Teoria da Poesia Concreta, os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari reuniram estudos e textos críticos traçando um panorama teórico-estético da poesia até chegar à poesia concreta, enfatizando, é claro, as vanguardas que seriam as precursoras desta nova forma de ver e fazer arte.

Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos
Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos

Vanguardas

Os textos reunidos neste volume foram publicados em jornais e revistas durante os anos de 1950 a 1960 – época considerada a fase heroica do movimento que tentava se explicar e se afirmar.

Os três são os idealizadores e principais expoentes deste movimento literário que afirma ser o único que não foi adaptado do exterior – comparando-se a escolas anteriores como Romantismo, Realismo, Naturalismo e todas as outras, incluindo o próprio Modernismo.

Entre os artistas que são citados como precursores do novo movimento estão alguns dos mais relevantes para a forma como se faz poesia hoje em dia, como Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, e. e. cummings – assim mesmo, tudo minúsculo, era como ele assinava o próprio nome –, James Joyce, Vladimir Maiakovski, entre outros, criando um paralelo entre as obras destes vanguardistas com a proposta estética da poesia concreta.

Incluindo, também, em seu arcabouço teórico as teorias da Gestalt, da Semântica Geral e da Semiótica para explicar e exemplificar os conceitos que apresentavam (e representavam) nas formas e conteúdos dos poemas.

A verdade é que as “subdivisões prismáticas da Ideia” de Mallarmé, o método ideogrâmico de Pound, a apresentação “verbivocovisual” joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo conceito de composição, para uma nova teoria da forma – uma organoforma – onde noções tradicionais como princípio-meio-fim, silogismo, verso tendem a desaparecer e ser superadas por uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA CONCRETA.

Augusto de Campos

O verso

Dentre estas conexões, os concretistas construíram um paralelo entre a poesia e o ideograma chinês, mostrando a superação do verso linear e do discurso lógico tradicional [poema “normal”, como um soneto, por exemplo, em que os versos seguem a ordem de leitura da esquerda pra direita, de cima pra baixo, e seu significado é apreendido pelo conteúdo abstrato das palavras] pelo verso espalhado pela página do livro e pela sua organização analógica visual [poemas que usam as palavras como “objetos”, espalhando-as pela página, assim, a leitura pode seguir padrões diferentes da tradicional e seu significado é apreendido não só pelo conteúdo abstrato das palavras, mas também pelo “desenho” que formam no papel/tela].

Este novo tipo de verso faz com que o leitor enxergue o poema como um todo, absorvendo-o pelos sentidos e não somente pela leitura sintática linear.

Clamavam assim por uma poesia que fosse capaz de transmitir com eficácia os fluxos e refluxos do pensamento, usando poucos (ou nenhum) conectivos entre as palavras, fazendo com que o espaço em branco da página funcionasse como pontuação e ditasse o ritmo da leitura.

Verbivocovisual

O que levou a outra definição da poesia concreta: a verbivocovisualidade:

a palavra tem uma dimensão GRÁFICO-ESPACIAL

uma dimensão ACÚSTICO-ORAL

uma dimensão CONTEUDÍSTICA

agindo sobre os comandos da palavra nessas

3                          dimensões                           3

Haroldo de Campos

Quer dizer, o poema proporcionaria estímulos óticos (visuais), acústicos (sonoros) e significantes (no sentido do conteúdo e das estruturas verbais) todos ao mesmo tempo durante a leitura.

É preciso ainda ter em mente que a poesia concreta é diferente da poesia apenas visual. A poesia visual seria aquela cuja forma se adequa ao conteúdo de forma arbitraria, enquanto que na poesia concreta o visual é o próprio conteúdo e ao mesmo tempo sua estrutura.

Exemplo de poema tradicional:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Exemplo de poema visual:

Um dos caligramas de Apollinaire
Um dos caligramas de Apollinaire

 Exemplo de poema concreto:

Velocidade - poema de Reinaldo de Azeredo
Velocidade – poema de Ronaldo Azeredo

Hoje

É claro que, como toda nova ideia que se propõe a renovar algo que é tido como pronto e acabado, as inovações dos concretistas não foram totalmente aceitas pela “classe poética” da época (e por alguns indivíduos ainda hoje em dia), que os acusou, inclusive, de cometer “terrorismo cultural” – seja lá o que isso quer dizer.

Mas, como responderam os próprios poetas, “É estranho que um pequeno grupo de poetas tenha aterrorizado a poesia brasileira. Ou esta era muito fraca, ou as ideias deles eram muitos fortes”.

No entanto, “gostando” ou não da nova poesia, é possível reconhecer a influência dessa nova estética em muitos poetas atuais e no formato da publicidade nos dias de hoje, por exemplo (já que um dos princípios era a comunicação rápida: o leitor/espectador “bate o olho” e já associa aquela imagem ou conjunto de palavras a algum significado).

Pra quem se interessa por poesia, principalmente os princípios filosóficos e estéticos relacionados a ela, e também por arte em geral, é uma leitura muito interessante, já que nos textos o trio de poetas faz um percurso entre várias manifestações artísticas, associando-as ao nosso modo de vida contemporâneo, explicitando assim uma das vocações da arte que é ser uma manifestação das angústias e esperanças de cada tempo.

Livro: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960

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As bicicletas de Belleville

Belleville

As Bicicletas de Belleville (Les Tripletes de Belleville, 2003) é uma animação francesa que caricatura personagens, cenários e situações preenchendo-os de múltiplos significados… Mas, vamos começar do começo.

Pôster

 

O início

Nas cenas iniciais, somos apresentados ao menino Champion e sua avó, Madame Souza. Eles vivem numa área aparentemente afastada do centro urbano, num lugar de paz e tranquilidade, no entanto, o menino parece estar sempre deprimido. O que faz com que sua avó volte sua atenção para os gostos dele, em inúmeras tentativas de fazê-lo alegre novamente.

A certa altura, Souza percebe a fascinação do neto por bicicletas e, a partir daí, não só compra uma pra ele, como vira sua treinadora, já que a paixão pelas duas rodas leva Champion a se tornar um atleta extremamente dedicado.

Durante sua participação numa das etapas da Volta da França, um dos eventos mais importantes do mundo relacionados ao ciclismo, Champion é sequestrado no meio da corrida 😮 Sua vó percebe o sumiço e sai à procura do neto com a ajuda do cachorro da família, Bruno.

O garoto é levado para uma megalópole além do oceano chamada Belleville – que em tudo nos lembra dos Estados Unidos. Daqui pra frente, o filme parece estar fazendo uma crítica ao atual padrão de vida consumista que levamos, usando o American Way of Life como símbolo disso, quando, por exemplo, numa das primeiras imagens do país, mostra a Estátua da Liberdade obesa e, no lugar da tocha e da tábua de leis da verdadeira, a caricatura segura um hambúrguer e um milk-shake.

[Lembrando que a Estátua da Liberdade foi um presente da França para os EUA na ocasião de sua independência, uma das primeiras colônias do mundo a se tornar livre.]

Estátua da Liberdade - As bicicletas de Belleville

À margem da sociedade

Madame Souza segue Champion até Belleville usando o faro de Bruno, mas eles perdem o rastro quando a fumaça dos carros embaralha o olfato do cachorro. Sem dinheiro e sem amigos na metrópole, eles se preparam pra passar a noite embaixo de uma ponte. Aí, sem ter o que comer e sem conseguir dormir, Souza começa a “tirar um som” de um aro de bicicleta e é aí que as trigêmeas de Belleville [Les Tripletes de Belleville 😉 ] aparecem.

As irmãs levam os desabrigados para casa – pois, assim como Souza e Bruno, neste mundo em que o consumismo é o ideal maior, as trigêmeas, que um dia foram cantoras aclamadas, também estão à margem da sociedade por serem velhas e, assim, não serem mais consideradas capazes de produzir, de “contribuir” para o bem comum, sendo postas de lado socialmente.

As trigêmeas de Belleville

Esta, entre muitas outras, é uma das críticas que podemos ler nos sons e imagens da animação. Entretanto, também é um filme de entretenimento, pois, mesmo que não cheguemos nesta camada de interpretação, o filme é divertido pelas situações e personagens caricatos que encontramos no desenrolar da narrativa.

Trilha sonora

Assim, como qualquer filme de animação, As bicicletas abusa da linguagem não verbal por meio das expressões e cores usadas, na forma como os personagens são retratados (as caricaturas em si), usando a trilha sonora como um elemento narrativo etc.

O que a difere um pouco mais de outras animações mais recentes é o fato de ter pouquíssimas falas – o que é um elemento muito interessante, pois a “falta” de falas não atrapalha a evolução ou o entendimento da narrativa, pelo contrário, seu desenvolvimento se dá de maneira muito rica e poética no trabalho de todos os elementos não verbais do filme.

Hollyfood

Elementos estes que são explorados, por exemplo, na forma como é mostrada a passagem de tempo em vários momentos da narrativa, nos sonhos do cachorro Bruno, na mistura de live action e animação ou, ainda, quando os atletas sequestrados (Champion não foi o único) são mostrados em caçambas, sempre há ao fundo um som de relincho como que para ressaltar que não estão sendo tratados como pessoas, mas como animais explorados (e facilmente substituíveis) para algum propósito – de preferência, um que dê lucro.

Há ainda uma maravilhosa cena de perseguição (que provavelmente é a perseguição mais lenta da história do cinema! rs) que nos leva ao final da narrativa ao mesmo tempo em que ri de todos os clichês de filmes de ação de Hollywood.

Se ficou curioso, você pode assistir a animação completa no YouTube e não se esqueça de esperar pela cena pós-créditos 🙂

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