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O jogo de tênis (Aposto que você não sabia!)

Se você sempre quis saber por que os pontos nas partidas de tênis são marcados em 15, 30 e 40, a resposta não é nada simples. Vejamos:

Acontece que o precursor original desse jogo era praticado em grandes saguões no interior dos castelos, em uma quadra retangular, demarcada com linhas que atravessavam de um lado para o outro.

Naquela época, os jogadores sacavam de um lado, acertando a bola acima da rede e contra a parede, não contra um adversário, e sempre dentro da demarcada quadra.

E o público? Bem, a “galera” assistia às partidas do lado oposto dessa parede.

As linhas horizontais da quadra dividiam-se em quatro faixas paralelas de 15 polegadas cada, em ambos os lados da rede. Cada vez que um jogador fazia um ponto, avançava uma faixa, aproximando-se gradualmente do centro da quadra.

A partida, é claro, começava na linha de zero polegada e avançava para 15, 30 e finalmente para 45 polegadas, quando então se declarava o final da partida e o vencedor.

Mas, você deve estar se perguntando: atualmente marcam-se os pontos em 15, 30 e 40 e não 15, 30 e 45. Por que a diferença?

Simples: alguém percebeu que a última linha estava demasiadamente próxima à rede e o último serviço foi recuado para a linha de 40 polegadas e, assim, acabou ficando e prevalecendo depois para o sistema de pontos. Coisas da tradição…

Embora o jogo tenha se tornado um esporte ao ar livre, praticado em quadras de grama ou saibro, ainda hoje utiliza esse sistema de pontuação.

Outra pergunta que você deve estar fazendo: por que esse jogo se chama tênis? Ele deriva do nome do calçado?

Nada disso! É justamente o contrário. Ninguém sabe exatamente de onde vem o nome, mas, especula-se que deriva do termo usado pelos franceses quando jogavam a bola e gritavam: “Tenez!” (algo como: “Segura aí!” ou “Pega essa bola!”).

O que se sabe efetivamente sobre isso é que, em 1874, resolveu-se fazer o primeiro torneio de tênis, em Wimbledon, Inglaterra, onde estabeleceram-se as principais regras e que foi a base para os torneios atuais.

Quanto ao calçado, é isso mesmo que você está pensando: seu nome deriva dos calçados que se usavam antigamente para jogar tênis.

Que a paz esteja com todos.

Darci Men

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A FORÇA DO EQUILÍBRIO

silhouette of man standing near body of water
Mantendo o equilíbrio.

Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: duas delas são o que cada uma vê em si mesma, mais duas, o que cada uma vê na outra e, finalmente mais duas, que é o que cada uma realmente é.

Essa citação, atribuída a William James, ilustra bem como pode se tornar difícil o relacionamento entre duas pessoas, principalmente quando esse relacionamento envolve conflitos entre as partes.

É isso mesmo! Afinal, quando você vai falar com alguém, por mais que o conheça, você nunca vai saber com qual deles está falando. Multiplique isso por outras variantes, tais como: o estado emocional de cada um, antecedentes desse relacionamento etc. O risco de um “choque” com consequências graves é bem grande.

Aí cabe outra citação famosa: segundo Aristóteles, tratando-se de relacionamentos, o melhor caminho é o do meio, do bom senso e do equilíbrio. Não estou aqui dizendo para abdicarem de seus direitos nem tampouco se alguém tem ou não razão, mas sobre a maneira como se deve “abordar esses conflitos”, é sobre isso a que me refiro! Normalmente, não são as pessoas que nos ofendem, somos nós que nos ofendemos com o que as pessoas dizem. Afinal, todos conhecem aquele ditado: quem fala o que quer, acaba ouvindo o que não quer.

No mundo moderno, muito mais que antigamente, o equilíbrio emocional, não só nos relacionamentos, mas em toda a vida em si, é fundamental.  William Shakespeare nos ensinou: são as regras da vida, é melhor obedecê-las ou ficará à margem dela.

No mundo atual trabalhamos demais, gastamos demais, assumimos tarefas demais e, em contrapartida, reduzimos demais nossos valores, ou seja: aprendemos a sobreviver, mas não a viver; dominamos muitas coisas, mas não o preconceito; aprendemos a apressar tudo, mas não a esperar; sabemos muitas coisas, mas pouquíssimo sobre humildade; damos muito valor a bens materiais e muito pouco ao amor; enfim, construímos muros ao invés de pontes. O que estou tentando dizer é que esta é a “era” do sou mais eu, dane-se o outro, dois ou mais empregos, vários divórcios, casa chique e lares despedaçados.

Segundo uma crônica de Arnaldo Jabor, já um pouco velha, mas bem atual, no mundo em que vivemos, a maioria das pessoas são como um caminhão de lixo: andam por aí carregadas de porcarias, cheias de frustrações, raiva, traumas e desapontamentos. Esse caminhão vive tão cheio que a tendência é descarregar tudo na primeira pessoa que aparece pela frente; portanto, é necessário ter cuidado para que todo esse lixo não caia na sua própria cabeça.

O fato é que essas pessoas, conscientemente ou não, nutrem a inútil ideia de que são superiores às demais, quando, na realidade, todos somos pequenos. Geralmente essas pessoas agem assim porque é confortável, porque ser humilde requer esforço e caráter. Sócrates já ensinava: o início da sabedoria é a admissão da própria ignorância. Uma frase atribuída a ele ficou famosa: “Todo o meu saber é saber que nada sei”.

Eu, particularmente, tenho uma tática: olho sempre para o céu, para que ele me lembre de como sou pequeno. Certamente vai ter quem não concorde comigo e vai dizer: Nada disso, “meu”, o mundo é dos espertos! Ou, como ficou famoso aquele antigo comercial do Gérson, jogador da Copa de 1970: o importante é tirar vantagem em tudo, certo?

Errado! Na minha modesta opinião, esse pensamento está muitíssimo errado! No entanto, caro leitor, deixo para você concordar ou não comigo, mas peço que, antes de esgotar sua reflexão, busque a razão.

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“Olho sempre para o céu, para que ele me lembre de como sou pequeno.”
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Então, na próxima vez em que for resolver um conflito qualquer, pense nisso tudo e vá “desarmado”: perdoar não anula o passado, mas, certamente, vai engrandecer o futuro.

Que a paz esteja com todos.

Darci Men

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O Cortiço, de Aluísio Azevedo

RESUMO DA OBRA 

João Romão é um português que herdou a venda do patrão aqui no Brasil, entregando-se com vigor ao trabalho, sempre poupa o máximo que pode em um afã de enriquecer. Amiga-se com Bertoleza, mulher escravizada a quem engana dizendo ter-lhe pagado a alforria. Com a ajuda dela, João torna-se proprietário da pedreira que fica próxima à venda e, em algumas partes do terreno, constrói pequenas casinhas que aos poucos aumentam de número dando vida ao cortiço. 

Romão fundamenta sua ambição em Miranda, também português, dono do sobrado que fica ao lado do cortiço. Miranda é um burguês que obteve ascensão social por meio do dote e do nome de família que recebeu do seu casamento com D. Estela. Espelhando-se nisso, João, tendo enriquecido, ambiciona casar-se com Zulmira, filha do compatriota. Então, para livrar-se de Bertoleza, entrega-a aos antigos patrões; esta, num último ato de desespero, suicida-se cortando o ventre com a mesma faca que usava para limpar os peixes que eram comercializados na venda. 

No cortiço, vários personagens são apresentados, cada qual com sua história de vícios e misérias. O cortiço é usado pelo autor como um observatório do comportamento dos tipos humanos que pertencem àquela classe social marginalizada.  

Um dos personagens que se destaca na história é Jerônimo, outro lusitano, sério e conservador, casado com Piedade. Influenciado pelo “calor dos trópicos”, apaixona-se por Rita Baiana, descrita de forma estereotipada como uma mulher mestiça sensual e bela, que, por sua vez, namora Firmo, morador do Cabeça de Gato, cortiço concorrente ao de Romão. A disputa dos dois homens por Rita acaba com a morte de Firmo e numa rivalidade entre os cortiços. Jerônimo abandona a esposa para ficar com Rita e, ao contrário de João Romão, decai socialmente “abrasileirando-se”. 

FOCO NARRATIVO 

A escolha do autor por narrar o livro em terceira pessoa adequa-se perfeitamente à escola literária da qual O Cortiço faz parte, o Naturalismo; posto que o autor se posiciona como um cientista que observa a realidade para tomar nota dela.  

Assim, por meio da descrição dos fatos, muitas vezes repugnantes e grotescos, e apoiando-se numa atitude de cientificismo experimental, o autor distancia-se dos personagens para encontrar a explicação de seus atos no meio ambiente em que estão inseridos ou na “raça” a qual pertencem.

QUATRO PERSONAGENS 

Características físicas e psicológicas 

João Romão 

João Romão é descrito como um homem obcecado por riqueza, todas as suas atitudes são tomadas com o objetivo de acumular bens:  

não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa de seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois.

Sendo classificado pelo autor como portador de uma patologia: “Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda”. 

João é descrito como um

tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer […]

sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com seu eterno ar de cobiça, apoderando-se com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

No entanto, quando passa a invejar o baronato de Miranda, passa a usar “casaco branco e meias”, “relógio e cadeia de ouro” e, para sair a passeio, sempre de “casimira, calçado e de gravata”. 

Bertoleza 

“Crioula trintona”, quando se amiga com João Romão passa a cumprir o “papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante”.  

Na descrição de Bertoleza, implicitamente o autor dá a entender que, por ser negra, seu único papel e destino na sociedade é trabalhar, “Mourejava a valer, mas de cara alegre”, e servir à “raça superior”, “Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior”.  

Mesmo quando João Romão começa a mudar seu estilo de vida, Bertoleza, “à medida que ele galgava posição social, a desgraça fazia-a mais e mais escrava e rasteira” e continua “sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço”.  

A raça persegue toda a trajetória de Bertoleza, chegando ela mesma a ficar “envergonhada de si própria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste por sentir-se a mancha negra”.  

Adorava Romão, pois entendia sua condição inferior à do amigo, contentando-se com o pouco que este lhe dava: “Todo o dono, nos momentos de bom humor, afaga o seu cão…”. 

Rita Baiana  

Rita personifica o estereotipo da mulher mestiça sensual e bela:  

E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo a mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.

É uma mulher independente, tendo sobre o casamento uma ideia muito diferente do que era comum na época:  

— Casar? protestou Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu! E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que lhe era peculiar.

Jerônimo 

Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário; pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.

[Usava] calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru.

Nesse personagem, as qualidades morais transparecem em sua aparência e atitudes:  

Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem […]

Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôs assim para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Saía de casa para o serviço e do serviço para a casa.

CLASSE SOCIAL DOS PERSONAGENS 

A maioria dos personagens são pobres, alguns chegam a ser miseráveis.  

Os personagens que habitam o cortiço são divididos, basicamente, entre os trabalhadores, “aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação”, e as lavadeiras

AMBIENTE 

Espaço físico e social 

Os personagens são tipos que estão à margem da sociedade, vivem num mundo à parte, tanto que o autor chega a se referir ao cortiço como uma “república” que tem suas próprias regras de convivência social:  

De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! “Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!” mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.

FIGURA FEMININA 

A caracterização da mulher dá-se de forma objetiva, ressaltando aspectos físicos e “defeitos” morais, pois a figura feminina é vista como um ser traiçoeiro que utiliza seu poder “luxurioso” para manipular os homens, como quando o autor compara Rita (e todas as mulheres nela) com a serpente que levou Adão ao pecado:  

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Outro exemplo é a forma pejorativa (“mulherzinha”) como a esposa de Miranda é apresentada:  

D. Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante este tempo dera ao marido toda a sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério.

AMOR E CASAMENTO 

Na narrativa naturalista, o amor confunde-se com o instinto sexual, como na relação entre Rita e Firmo, “Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos”, ou na relação entre Rita e Jerônimo, em que o “amor” encontra sua expressão máxima na realização do desejo sexual:  

Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. […] E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. […] E, sem consciência de nada que o cercava, […] afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

Em ambas as relações, o amor, na verdade, é o instinto sexual que culmina na briga entre os dois machos pela fêmea luxuriosa que melhor apresenta-se ao ato sexual. Disputa que Jerônimo vence: “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior”. 

O casamento é uma conveniência social, utilizado como forma de ascensão social e financeira. Miranda, por exemplo, suporta as traições da mulher, pois:  

sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera […] Além do que, um rompimento brusco seria obra para escândalo e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre.

Invejava João Romão que se tornara rico sem ter que “casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro rico”. No entanto, mais tarde, João também utiliza o casamento com Zulmira, filha de Miranda, como forma de ascensão e de prestígio social. 

JERÔNIMO E POMBINHA – DETERMINISMO 

Jerônimo é influenciado de maneira decisiva pelo meio ambiente em que vive. A “culpa” pela transformação de sua personalidade é atribuída à “natureza alcoviteira”, principalmente ao sol:  

[…] todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem […]

[…] aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode […]

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se […] fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e violento.

Pombinha tem seu destino determinado pela genética. Visto que, mesmo morando no cortiço, tem origem burguesa, ou seja, de acordo com a ótica adotada pelo autor, pertence a uma raça superior. Aliando esses dois elementos (meio e raça) às experiências que absorveu ao escrever as cartas daquela gente pobre, “De sorte que a pobre rapariga ia acumulando nos seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor”, estava “determinado” que, cedo ou tarde, sua inteligência iria aflorar-se. Nesse caso, sua maturação intelectual confunde-se com sua maturação biológica:  

[…] só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento uma lucidez que a deliciava e surpreendia.

NATURALISMO E A TEORIA EVOLUCIONISTA 

Na história do cortiço, João Romão e Jerônimo, ambos portugueses, combatem o meio ambiente por meio de suas ações (trabalho) atribuídas à sua raça. No entanto, este perde a batalha deixando-se seduzir pela “natureza alcoviteira”; aquele representa uma espécie de “evolucionismo social”, sendo o mais “forte”, sobrevive e evolui de “classe social”.  

O cortiço ascende como o seu dono, depois do incêndio, passando por algumas reformas (“mutações”), passa a receber uma nova classe de trabalhadores, já não era qualquer um que podia habitar no cortiço: “notavam-se por último na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias”.  

Entretanto, Jerônimo também pode ser considerado sobrevivente, pois vence a disputa com Firmo por Rita Baiana, mudando seu comportamento para adaptar-se ao meio em que vive agora. 

RITA BAIANA E AS PERSONAGENS ROMÂNTICAS 

A mulher do Romantismo é sempre descrita como “a mulher ideal”, perfeita, muitas vezes até mesmo sagrada e, por isso, intocável, como Iracema, de José de Alencar. Iracema é indígena, a virgem sagrada de sua tribo que apaixona-se pelo homem branco Martim. Pertencendo a povos inimigos, o amor de Iracema é cheio de renúncia e sacrifícios. 

A mulher do Naturalismo, pelo contrário, é descrita de forma “carnal”, acessível a qualquer um, cheia de baixezas morais. Rita Baiana, por exemplo, ao provocar a briga entre Jerônimo e Firmo, não se assusta como os outros moradores do cortiço, mas “a certa distância, via, de braços cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os lábios”. 

PATOLOGIA SOCIAL 

Na narrativa naturalista é evidente o gosto pelas patologias sociais: taras, vícios, desajustes, etc. Um exemplo disso pode ser encontrado quando o autor apresenta a “tara militar” de Botelho: “Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo” […] “a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção”.  

Somando essa tara a um diálogo entre Botelho e Henriquinho, o autor deixa entrever, de forma caricata, a homossexualidade do personagem:  

Acho que você é um excelente menino, uma flor! […] Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as. […] E acarinhou-o tão vivamente desta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!…

REALISMO E NATURALISMO 

O Realismo é uma escola literária que se propôs a descrever e pôr à mostra a hipocrisia da sociedade burguesa da época. O Naturalismo, no seu exagero cientificista, analisa o coletivo. Não tem preocupação social, seu objetivo é descrever e mesmo classificar os vícios humanos.  

O Cortiço é usado pelo autor como um laboratório de observação. Na verdade, o próprio cortiço é tratado como um personagem (“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava”) que evolui dentro da história (antropomorfismo).  

Não há individualidade, só o coletivo. À medida que o cortiço sofre mudanças, os personagens também mudam. Aqueles que não “evoluem” são postos para fora, como Piedade que, abandonada pelo marido, entrega-se ao vício da bebida e depois de causar alguns incidentes é expulsa por João Romão, indo abrigar-se no Cabeça de Gato, cortiço que:  

à proporção que o São Romão [cortiço de propriedade de Romão] se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava.

Uma característica naturalista é o zoomorfismo. Os personagens são comparados a animais, posto que os instintos é que determinam os seus comportamentos:  

[…] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador […]

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe […]

Pombinha punha alegrias naqueles serões com as garrulices de pomba que prepara o ninho […] 

Outra característica é a importância dada ao meio ambiente. Por meio da narrativa, podemos perceber que o meio é decisivo no destino dos personagens, um determinado ambiente sempre irá “produzir” os mesmos resultados, os mesmos tipos humanos. O autor dá a entender, por exemplo, que Florinda será a nova Rita Baiana, trocando sempre de “homem” quando este não lhe satisfaz, e que Senhorinha terá o mesmo destino de Pombinha, já que a filha de Piedade é sua protegida, assim como ela fora de Léonie. 

Nessa perspectiva, o destino do homem está fatalmente traçado pelo meio ambiente em que vive e pela raça a qual pertence, não há como fugir. 

REFERÊNCIA 

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Klick, 1997. 


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O Quinze, Rachel de Queiroz

O Quinze nos conta da seca que ocorreu no Ceará, em 1915.

Assim, através do relato da vida de alguns personagens, Rachel de Queiroz apresenta várias situações a que um retirante está submetido para sobreviver.

Um detalhe interessante é que na obra não há menção ao ano em que se passa a narrativa, isso permite que, durante a leitura, façamos comparações com outras situações de seca: quer dizer, a história que está sendo contada pode ter acontecido (ou se repetido) em qualquer lugar e em qualquer tempo do sertão nordestino.

Os personagens

Chico Bento

Chico mora e trabalha na fazenda de Dona Maroca, na cidade de Aroeiras. Com a seca e a falta de esperança na chuva, a patroa manda soltar o gado para morrer pelo sertão e dispensa os empregados.

Como resultado, Chico e sua família – “Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos” – se veem obrigados a retirar: “Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto durasse a seca”.

Depois de passar por inúmeras privações durante a caminhada, os retirantes conseguem passagens para São Paulo, terra “onde sempre há farinha e sempre há inverno…”, ou seja, sempre há chuva.

No entanto, a narradora dá a entender o destino difícil daquela família na terra da garoa: “Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos…”.

Conceição

Conceição pertence a uma família que possui fazenda em Logradouro, perto de Quixadá, e tem condições de viver na cidade com a avó enquanto a seca castiga o interior; mesmo assim, de certa forma, convive com os efeitos da estiagem, pois trabalha como voluntária no Campo de Concentração: espécie de praça em que os retirantes convivem e sobrevivem de esmolas e de doações do governo local.

Dessa forma, ela é a personagem que faz a ligação entre as diferentes camadas sociais, demonstrando que o problema da seca na região afeta a todos, seja financeiramente, com o gado que morre de fome, ou socialmente, tornando boa parte da população em retirantes.

Conceição é apresentada como uma moça de 22 anos, com ideias extravagantes: “Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais ideias estranhas e absurdas a avó”.

Apesar da caridade e das suas leituras, era “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados”.

Preconceito que fica evidente quando ela expressa indignação ao pensar em um homem branco se envolvendo amorosamente com uma mulher negra: “Uma cabra, uma cunhã à-toa, de cabelo pixaim e dente podre!…”. Essas ideias pré-concebidas ajudam a impedir a concretização de seu envolvimento amoroso com Vicente.

A relação dos dois é narrada de modo a nos transmitir uma ideia de que o sol do sertão não seca só a garganta, mas também as almas, tornando-os incapazes de expressarem seus sentimentos, às vezes até os impedindo de sentir com humanidade: “Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!”.

Vicente

Vicente, por sua vez, é o sertanejo forte, branco, mas queimado de sol – “o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol”.

Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso” – com essa descrição, ele representa o homem que não abandona sua terra, mesmo na adversidade, demonstrando a esperança de vida no sertão: “Já comecei, termino! A seca também tem fim…”.

Os lugares

Como dissemos antes, o romance se passa no Ceará.

Grande parte da narrativa acontece no sertão, em Logradouro, cidade próxima a Quixadá – “Alongou os olhos pelo horizonte cinzento. O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo um cinzento de borralho”.

No entanto, os personagens se locomovem constantemente, caracterizando o êxodo para as cidades em de busca de soluções para a fome.

Esse ambiente seco condiciona, e não só condiciona, como também condena os personagens à fome e à subsistência: “Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…”.

Já outros, com melhores condições financeiras, o ambiente agreste lhes torna a alma agreste, como bem expressa Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Com relação ao ambiente social, não há uma grande separação do convívio entre ricos e pobres; há sim uma clara distinção das condições de sobrevivência de cada um desses grupos no período da seca.

A narração

O Quinze é narrado em terceira pessoa.

Esse tipo de narrador é onisciente, o que permite ao leitor conhecer os sentimentos dos personagens, mesmo quando não são expressos de maneira objetiva, mas apenas descritos: “E Chico Bento pensava: ‘Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?’”.

Há também o uso constante de reticências e exclamações, como se houvesse muito mais a dizer (…), mas que o espanto (!) diante da cena descrita não permite.

Assim, a linguagem que o livro utiliza é simples, possuindo, no entanto, imagens belíssimas e de rara sensibilidade diante da tristeza à vista da miséria humana.

Um exemplo disso é o episódio em que Chico Bento, atormentado pela fome e pelo apelo dos filhos por comida, pela primeira vez estende a mão para pedir esmola: “E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante”.

Outros exemplos de imagens podem ser verificados sempre que a autora compara a seca ao fogo – “Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água” – e às cores do sol – “Sombras cambaleantes se alongavam na tira ruiva da estrada” e “O sol poente se refletia vermelho nos trapos imundos e nos corpos descarnados”.

A época

O Quinze faz parte da 2ª geração modernista brasileira, movimento literário de ficção regionalista e social que apresenta, principalmente, questões relacionadas ao Nordeste.

Entretanto, apesar de descrever a seca e os retirantes, o romance não apresenta soluções prontas e nem cai numa tendência maniqueísta de separar os “pobres bonzinhos e sofredores” dos “ricos malvados” – o que acontece com alguns textos literários que se propõem a denunciar problemas sociais.

Não podemos esquecer também que Rachel de Queiroz militou no Partido Comunista e que, por isso, foi presa em 1937.

É uma grande autora brasileira, mulher de coragem para dizer o que pensa e que deixa bem clara sua opinião sobre a repressão na fala de um dos personagens d’O Quinze:

 — Palmatória quebra dedo, 
Chicote deixa vergão, 
Cacete quebra costela 
Mas não quebra opinião!...
Para saber mais sobre a autora:

Academia Brasileira de Letras
Portal da Crônica Brasileira

Referência:

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. São Paulo: Siciliano, 62ª ed., 1997.

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Livro – Lado Claro: Poemas levemente inspirados na Luz

Este livro trás poemas escritos por uma versão mais jovem de mim, recém saído da adolescência, cheio de sonhos e pequenas frustrações, cheio de amores e dessabores, porém com um viés um pouco mais alegre do que em seu livro irmão, o Lado Escuro, também disponível em versão eBook. A LUZ do título não é literal, ela se trata do nosso lado claro, aquele que nos faz um pouco feliz quando olhamos para nós mesmos, que ilumina nossas esperanças e mostra saídas inesperadas em momentos trevosos. Aqui nós temos uma coleção de poemas de temática leve, pitoresca, às vezes um flerte com o cinismo e repleta da urbanidade que impregna a minha alma, e que certamente podem trazem ao leitor certo grau de reflexão e alguns sorrisos quem sabe!
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Livro: Lado Escuro

A Escuridão do título não é literal, ela se trata da escuridão que é interna, inerente a nós e nossos sentimentos e ações. Aqui nós temos uma coleção de poemas de temática pesada, muitas vezes tristes e aparentemente desesperançosos, mas que certamente trazem ao leitor certo grau de reflexão.
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A ARTE E A VIDA

A profissão de ator, de artista, nem sempre é reconhecida devidamente, mas o fato é que de ator e de artista todos nós temos um pouco. Vejamos:

Quando perguntaram ao ex-presidente americano Ronald Reagan como ele poderia ser presidente dos EUA sendo apenas um ator de cinema, um artista, ele respondeu: “O que eu imagino é como alguém pode ser presidente dos EUA sem ser um ator, um artista”.

Ronald Reagan deixou a Casa Branca como um dos mais queridos e respeitados presidentes americanos. Ele deu um “show” na presidência, disseram os jornais.

O grande segredo da Disney – o que pouca gente sabe – é que todos os funcionários são registrados como atores e não numa função específica.

Assim, lá, você não é um pipoqueiro. Você é um ator fazendo o papel do melhor pipoqueiro do mundo. Você não é uma garçonete. Você é uma atriz fazendo o papel de melhor garçonete do mundo. E assim por diante.

Com esse tipo de contrato, a Disney pode exigir de seus funcionários um comportamento exemplar e atitudes de perfeição, atenção aos detalhes, postura própria, uniformização adequada e até o uso ou não de barba, bigode, cabelos compridos, fantasias etc.

Isso mostra que todos nós, onde quer que estejamos, temos que ser artistas para desempenhar bons papéis, fazer sucesso e ter um público fiel.

Assim, você, que nunca pensou nisso, mas certamente, sabendo ou não, com mais ou com menos intensidade, age como artista.

Procure aprimorar o seu papel, o mais perfeito possível, e dê um show!

Certamente “seu público” vai aplaudi-lo em pé!

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O Exemplo de Superação

Dia desses, vi um comentário em uma rede social que me chamou a atenção.

Em um tom de revolta, a pessoa escreveu: “esse nosso governador é um lobo em pele de cordeiro”.

Sem entrar no mérito da questão propriamente dita, fiquei pensando: por que tanto se usa essa expressão? O que ela tem de tão especial?

Se isso virou algo tão comum, o seu suposto autor não tinha nada de comum!

Essa frase é inspirada em uma fábula, de mesmo nome, atribuída ao escritor e pensador grego Esopo, que viveu por volta de 600 anos antes de Cristo.

Então, quem acha que o passado é coisa de velho, está certo, mas não existe o novo sem o velho! Essa bela fábula prova isso…

Mas, afinal, quem foi Esopo?

Vamos falar um pouco dele, pois ele o fez por merecer:

O cara é um belo exemplo de superação, já que tinha tudo para ser um nada!

Para começar, era escravo, gago e tinha uma aparência horrível: era corcunda e tinha o rosto deformado.

Resumindo: só tinha a sua mente brilhante e com ela deixou um legado fabuloso para toda a humanidade.

Tornou-se célebre a ponto de ser citado por grandes pensadores da Antiguidade, tais como Homero, Plutarco, Planudio, Apolônio e tantos outros, sendo o primeiro a criar fábulas em que os animais “adquirem vida humana” (falam, erram, brigam, amam etc.).

Onde você acha que alguns dos grandes nomes desse tipo de literatura se inspiraram?

Foi no passado!

Escritores como Fontaine, Walt Disney, Monteiro Lobato e tantos outros se inspiraram justamente nas obras de Esopo!

Há quem afirme que o próprio Cristo teria se inspirado em uma de suas obras: no Novo Testamento, encontramos uma de suas parábolas: “pelle sub agnina latitat mens saepe lupina” (sob a pele de ovelhas, muitas vezes se esconde uma mente de lobo).

Além da parábola, você certamente conhece ou ouviu falar de algumas de suas obras: A cigarra e a formiga, Os ovos da galinha de ouro, O rato da cidade e o rato do campo, O cavalo e o burro e várias outras.

Portanto, se olhar para o futuro é uma obrigação, então conhecer o passado torna-se uma necessidade.

Confira as obras do autor dessa crônica nos links abaixo:
https://clubedeautores.com.br/livros/autores/darci-men

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O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon

Eu chamei pela Deusa e a encontrei em mim mesma.

Chegamos ao último capítulo da saga de Artur e, aqui, mais uma vez, conhecemos a trajetória desse lendário rei pelos olhos e vozes das mulheres que participaram dessa história. Neste livro em específico, a maior parte da narração é de Morgana, mas também ouvimos as vozes de Gwenhwyfar, Morgause e Nimue. 

Gales do Norte

Adentramos novamente esta saga em Gales do Norte, onde conhecemos um pouco da rotina de Morgana como rainha do rei Uriens:

[…] Nas longas e solitárias estações, Morgana experimentara temores e dúvidas permanentes; não era ela, então, mais do que a imagem feita por Uriens: uma rainha solitária que envelhece, corpo e mente e a alma secando e murchando?

Mesmo assim, manteve sua mão com firmeza nesse trabalho doméstico, assemelhando-se a uma camponesa ou a uma cortesã a quem todos deveriam recorrer, em busca de conselho e sabedoria. […]

Nesse local, as antigas e novas tradições se toleram e convivem em paz, pois, apesar do rei ter se convertido ao cristianismo e seguir as orientações de Camelot, ele não reprime aqueles do povo que ainda praticam velhos rituais.

Isso se dá também porque o povo da região sabe que sua rainha, Morgana, é uma representante dessas tradições. Um exemplo dessa convivência e de como o povo mistura as crenças sem julgamentos é que sua nora, Maline anseia por ter um menino, então pede uma simpatia à sogra “feiticeira”, mesmo sendo cristã. 

Camelot 

Na corte, reencontramos o novo Merlin, Kevin, que parece não ter o mesmo trato ou delicadeza de seu antecessor, Taliesin. No entanto, assim como o antigo Merlin, ele também acredita que ainda que os deuses sejam adorados com outros nomes, são os mesmos tanto na ilha quanto no reino, por isso, crê que as sagradas regalias (o cálice, o prato e a lança) devem ficar no mundo dos homens, pois o tempo da tradição de Avalon já passou.

Num jantar apenas para os parentes e amigos próximos antes da festa de Pentecostes, vários acontecimentos são relembrados e velhas feridas são reabertas e cutucadas. Esse imenso diálogo-jantar serve como uma retomada dos acontecimentos dos outros livros para que o leitor se situe no momento em que estamos da história.

É nesse jantar ainda que Morgause leva Gwydion para o apresentar à Corte; e todos se surpreendem com sua semelhança física com Lancelot. Alguns acabam desconfiando que o cavaleiro seja seu verdadeiro pai, outros apenas lembram que ele e Morgana são primos e isso talvez explique sua aparência. Gwydion, chamado de Mordred pelos saxões, aparentemente segue os ensinamentos de Avalon, mas tem ambição de subir ao trono de Artur. 

Durante as demonstrações de cavalaria, há uma continuidade dos diálogos do jantar, desta vez, no entanto, servem ao leitor não como rememoração das coisas que aconteceram, mas como indícios das intenções e dos embates que se desenham entre as personagens.

Um desses embates acontece quando Gwydion desafia Lancelot e acaba fazendo com que lhe concedam a ordem da cavalaria, tornando-se oficialmente um dos cavaleiros do rei. Isso permite que ele passe mais tempo na corte e tente influenciar seu pai biológico.

Uma detalhe interessante desse volume é que os narradores dizem em determinado momento que, como não há mais guerras, o rei entretém o povo com as cerimônias religiosas e comemorações em sua própria homenagem, o que ajudou a construir no imaginário da população a aura que existe em torno da lenda do rei Artur.

Excalibur

Morgana ainda se sente incomodada com o fato de Artur ter quebrado a promessa feita à Avalon, por isso, arma um plano para que Acolon, filho do meio de Uriens, o enfrente e tome a Excalibur. 

Com a desculpa de irem todos para Tintagel, defender os interesses de Morgana contra o cuidador do local, ela leva todos para o país das fadas através da neblina.

Lá, ela e a rainha do lugar nublam a mente de Artur e entregam a espada para Acolon. Quando Artur consegue se libertar do feitiço, luta contra Acolon. Protegido pela magia da espada, num primeiro momento, o enteado e amante de Morgana parece sair vitorioso, mas o rei consegue retomá-la e o mata.

Acolon é enviada à corte morto e tido como traidor. Artur fica na ilha dos padres se recuperando dos ferimentos, mas ele e Uriens sabem que foi Morgana quem orquestrou o ataque. Assim, com todos os seus planos despedaçados, ela foge.

No caminho, porém, ela visita o irmão. Com medo de que a espada e Artur tenham se tornado um só, ela rouba apenas a bainha e a joga no lago. De lá, vai para Tintagel e se isola do resto do reino e das pessoas, pois acredita que falhou com a deusa e, por isso, ela a abandonou.

Sagradas regalias

Depois de algum tempo, Kevin visita Morgana para pedir que volte à Avalon: a ilha se perderá nas brumas em breve, e o Merlim acredita que esse seja um bom destino para ela também: se perder nas brumas com sua ilha sagrada.

Seguindo os conselhos de seu antigo amante, ela vai e lá vive em paz por algum tempo até que um dia, Raven, que havia feito voto de silêncio, grita diante de uma visão da destruição de Avalon e Camelot. Ao consultar o poço para confirmar a profecia, as sacerdotisas veem Kevin entregando as sagradas regalias para o bispo Patrício, que pretende consagrá-las numa cerimônia cristã. 

Para impedir o que acreditam ser uma profanação do cálice, do prato e da lança, Morgana e Raven vão até Camelot e lançam um encantamento durante a consagração dos objetos, assim, Morgana acaba, de certa forma, participando da consagração, pois cada um dos participantes, inclusive o povo que assistia à cerimônia, tem uma visão diferente de acordo com suas crenças – e é assim que a deusa (vida) é venerada: por vários nomes e de várias formas.

Gwenhwyfar, por exemplo, vê a deusa em Morgana, mas para que essa visão caiba em sua crença, ela mistura essa imagem com a de Maria, mãe de Jesus, constantemente retratada utilizando um véu azul:

Depois, através do doce perfume e da felicidade, o anjo estava diante dela, o cálice em seus lábios. Trêmula, ela bebeu, abaixando os olhos, mas logo sentiu um toque em sua cabeça e olhou para cima, e viu não um anjo, mas uma mulher com um véu azul, com grandes olhos tristes. Não havia som, mas a mulher lhe disse: Antes que Cristo fosse, Eu sou, e sou Eu quem lhe faz ser o que é. Portanto, minha amada filha, esqueça toda vergonha e seja feliz, pois você também tem a mesma natureza que eu!

No final da visão, Morgana lança os objetos onde nenhum homem poderá encontrá-los, o que faz com que os cavaleiros da Távola Redonda saiam em busca do que agora chamam de Graal.

A segunda parte da missão das sacerdotisas é fazer com que Kevin retorne a Avalon para ser punido pelo uso profano que fez das regalias. Para isso, Nimue, filha de Elaine e Lancelot, criada na ilha, fica na corte e se aproxima do Merlin, fazendo-o se apaixonar por ela e usando encantamentos para levá-lo a Avalon. Lá, no momento em que é morto, o carvalho ao pé do qual ele seria enterrado é atingido por um raio que o parte ao meio; seu corpo então é disposto não na terra, mas no meio do tronco da árvore. 

Fim

Algum tempo se passa e Morgana acredita que seja o fim dos cavaleiros da Távola Redonda, que se perderam no mundo em busca do Graal, e de Avalon, pois as donzelas se perderam no mundo dos homens ou no mundo das fadas e só as mais velhas sacerdotisas ainda conseguem abrir caminho pela bruma.

Os cavaleiros que sobreviveram à busca pelo Graal voltam à corte para as comemorações do Pentecostes, durante as quais Artur assume Gwydion como seu filho diante de todos. E, numa conversa do agora herdeiro do trono com Niniane, sacerdotisa da ilha, conhecemos mais de suas ideias e intenções: ele despreza as tradições matriarcais representadas por Avalon:

O mundo agora, Niniane, não é o das deusas, mas dos deuses, talvez de um deus. Não devo tentar derrubar Artur. O tempo e a mudança fá-lo-ão.

Apesar disso, para “livrar-se” da rainha, que não o vê com bons olhos, Gwydion concorda com o plano de sua mãe adotiva Morgause que pretende flagrar Gwenhwyfar com Lancelot, usando Gareth, Gwaine e outros como testemunhas da traição dos amantes para com o rei. 

Na confusão, Lancelot consegue se livrar dos cavaleiros e foge com sua amada, mas acaba matando Gareth no processo. No meio da fuga, a rainha decide se recolher a um convento para que Lancelot possa voltar e ajudar Artur contra os planos de Gwydion. O cavaleiro já envelhecido reluta, mas aceita essas condições. 

No entanto, Gwydion já lidera metade dos homens de seu pai, mais saxões e nortistas contra o rei. Numa das batalhas, ao se encararem, Artur acaba matando o próprio filho, mas também é ferido na luta e morre nos braços de Morgana. 

— Morgana – ele sussurrou. Seus olhos estavam intrigados e cheios de dor. — Morgana, foi tudo isto por nada, o que fizemos, e tudo o que tentamos fazer? Por que falhamos?

Esta era minha própria pergunta, e eu não tinha nenhuma resposta; mas ela veio de algum lugar: — Você não falhou, meu irmão, meu amor, meu filho. Você manteve esta terra em paz por muitos anos; por isso os saxões não a destruíram. Afastou a escuridão para uma geração inteira, até que eles fossem homens civilizados, com estudo, música e fé em Deus, que lutarão para salvar a beleza dos tempos passados. Se esta terra tivesse caído nas mãos dos saxões quando Uther morreu, então tudo o que havia de belo e bom teria perecido na Bretanha. Então, você não falhou, meu amor. Nenhum de nós sabe como Ela fará cumprir os seus desígnios… apenas que será feito.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

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