O CORNO

Alfredo estava no bar, cabisbaixo, triste, olhando para o seu copo ainda cheio, quando, de repente, surge um valentão.

O sujeito grita com um e com outro, chuta a cadeira que está à sua frente, pega o copo do Alfredo e, de um só gole toma todo o líquido.

Olha para o coitado do Alfredo que não acredita no que está acontecendo, e diz:

            — E aí, não vai reagir?

            — Reagir? Eu? — Responde Alfredo, todo desiludido. — Vou é embora! Eu não devia nem ter saído de casa. Imagine que hoje cedo eu briguei com a minha mulher, saí de casa com raiva, bati o carro, cheguei atrasado ao serviço e fui demitido.

— E tem mais: voltei para casa mais cedo e peguei minha mulher com o vizinho.

— Pensa que acabou? Não acabou não! Aí, então, sento-me aqui no bar e vem você e toma todo o meu veneno!

Essa piada ilustra bem o comportamento do “corno atual”. Se no anedotário moderno o “corno” é motivo de riso, na realidade histórica brasileira o ciúme escreveu páginas de sangue. Vejamos alguns exemplos de casos famosos:

Segundo Consta, em 1981 o cantor Lindomar Castilho, assassinou a tiros a sua esposa Eliana de Grammond efetuando seis disparos, onde um deles atingiu o primo Carlos Randall que, ao contrário da esposa, sobreviveu. Eles estavam em São Paulo, em um bar chamado Belle Époque e, embora o local fosse público e com a presença de testemunhas, isso não impediu a execução do crime ali mesmo.

Ele tomou essa trágica decisão depois que descobriu que ela tinha um caso com o já citado primo que, por sinal, era violonista e seu parceiro musical.

Lindomar e Eliana eram casados há dois anos e não eram divorciados, mas tinham se separado ou desquitado como se dizia na época, apenas vinte dias antes dele a matar. Ele foi condenado a 12 anos de prisão e cumpriu parte da pena em liberdade, mas destruiu completamente sua carreira artística, além dos dramas pessoais e familiares.

Outro caso famoso aconteceu na década de 70, onde um colega do Banco onde eu trabalhava, foi protagonista de um dos crimes passionais de maior repercussão deste país.

Raul Fernando do Amaral Street, O Doca Street, como era conhecido, no dia 30.12.1976, na Praia dos Ossos, em Cabo Frio, matou a sua bela namorada Ângela Diniz, com quatro tiros.

Doca Street era nome comum nas colunas sociais da época. Filho de industrial e casado com a Adelita, da família Scarpa, com quem teve dois filhos.

Ele encantou-se com a Ângela Diniz, também muito badalada nas colunas sociais, onde era conhecida como a “Pantera de Minas” e, a exemplo dele, também já fora casada e tinha filhos.

Doca abandonou a esposa e os filhos e foi morar com Ângela Diniz, em Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

Segunda consta, o relacionamento deles durou poucos meses e foram recheados pelo uso de drogas, bebidas, liberdade sexual e cenas de ciúmes.

Também, segundo consta, Doca não aceitou a separação de iniciativa dela e “perdeu a cabeça” depois de ouvir, dos próprios lábios dela, que teria que dividi-la “na cama” com homens ou mulheres que ela escolhesse.

No primeiro julgamento, em 1979, ele foi defendido pelo bem sucedido advogado Evandro Lins e Silva que, usando o “clima” favorável da população em favor do réu e as teses: “matou por amor”, e “legítima defesa da honra” (só recentemente, em 2023, esta tese jurídica foi declarada inconstitucional pelo STF), e atacando impiedosamente a forma de vida da vítima (chegou a chamá-la de prostituta de luxo da Babilônia), conseguiu, com isso, praticamente absolver o réu, pois Doca Street, foi condenado a apenas 18 meses de prisão.

No entanto, grupos feministas “se levantaram” e com o slogan, quem ama não mata, conseguiram que o réu fosse a novo julgamento e, desta vez, ele recebeu uma pena de 15 anos de prisão, do qual cumpriu boa parte em liberdade.

Doca Street morreu em 18/12/2020, depois de publicar um livro de memórias (“Mea Culpa”), dando a sua versão para a trágica ocorrência.

Como podem ver, em um passado bem recente e na maioria das vezes, o “corno” não era nada pacífico.

Que a paz esteja com todos.

Darci Men.

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