Extraño

Nenhum de Nós é estranho: quando descobri que não estava sozinho

Sobre música, sobre mim, sobre ser.

Dias atrás encontrei uma fotografia da minha infância. O filme sofreu um erro na revelação e registrou duas versões de mim na mesma imagem. Uma parecia feita de luz. A outra, mais discreta, quase escondida. Passei alguns minutos olhando aquela fotografia e tive a estranha sensação de que ela não estava defeituosa. Talvez estivesse apenas sendo sincera. Porque nunca fomos um só. Somos feitos de todas as pessoas que já fomos e de algumas que existiram apenas na imaginação.

Extraño

Até o nome da música é escrito estranho…

Diogo

Nenhum de Nós

O que eu sinto a respeito dos homens é estranho
É estranho como é frio
É estranho como eu perdi a fé
É estranho como é estranho
Perguntar o nome

O que eu sinto a respeito de nós é estranho
É estranho como é triste
É estranho como olhar pra trás
É estranho como é estranho
Esquecer um nome

Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que o prazer é tão curto
Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que esquecimento é tão longo

O que penso a respeito de tudo é estranho
É estranho como é simples
É estranho como essa canção
É estranho como é estranho
Sussurrar um nome
Perguntar o nome
Esquecer

Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que o prazer é tão curto
Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que esquecimento é tão longo

Foi exatamente essa sensação que senti quando ouvi “Extraño”, do Nenhum de Nós, pela primeira vez, ainda no final da adolescência. Naquela época eu não sabia explicar por que aquela música parecia me conhecer. Hoje suspeito que ela não falava apenas sobre um personagem. Falava sobre essa experiência tão humana de olhar para si mesmo e perceber que somos, ao mesmo tempo, familiares e desconhecidos.

“Algumas músicas não entram na nossa vida. Elas estavam esperando a gente chegar até elas.”

É estranho imaginar sempre lugaresr que nunca existiram?

Uma esquina com uma simpática vozinha cuidando das plantas.

Um apartamento duplex onde jamais moramos.

Uma conversa que nunca aconteceu.

Mesmo assim, quando fechamos os olhos, tudo parece possuir a consistência de uma lembrança. Às vezes, parece até mais verdadeiro do que fatos que realmente vivemos, tipo TV 8K ou uns Videogames onde a realidade parece mais real que a própria realidade.

Sempre achei isso estranho.

Talvez porque eu também sempre tenha me sentido um pouco estranho.

Dias atrás, organizando algumas coisas antes do meu aniversário, encontrei uma fotografia da infância. O filme sofreu algum problema durante a revelação. Em vez de uma única imagem, havia duas versões de mim ocupando o mesmo espaço.

Uma escura.

Outra iluminada.

Como se dois Diogos tivessem decidido posar para a mesma fotografia.

Fiquei olhando aquela imagem por vários minutos.

Pensei em Jung, pensei em Borges, pensei nas histórias em quadrinhos que sempre gostei. Pensei no Superman, dividido entre Clark Kent e Kal-El. Pensei nas pessoas que fomos e naquelas que ainda carregamos escondidas.

E pensei em “Extraño”.

Essa música faz parte da minha vida desde o final da adolescência.

Foi uma daquelas raras experiências em que a identificação acontece antes mesmo da compreensão. Eu ainda não entendia exatamente por que aquela canção mexia tanto comigo.

Hoje acho que entendo um pouco melhor.

O estranho que mora em todos nós

Existe uma diferença entre ser estranho e sentir-se estranho.

Ser estranho é como os outros nos enxergam.

Sentir-se estranho é perceber que existe uma distância entre quem somos e aquilo que o mundo espera que sejamos.

Essa distância acompanha muita gente durante a vida inteira.

Quem nunca entrou numa sala e teve a sensação de estar deslocado?

Quem nunca olhou para trás tentando entender quando exatamente deixou de reconhecer uma versão antiga de si mesmo?

A música do Nenhum de Nós parece caminhar justamente por esse território.

Não oferece respostas.

Apresenta perguntas.

E talvez seja por isso que continue tão atual.

É estranho como é estranho
Esquecer um nome

Thedy Corrêa

A memória também inventa

A fotografia com meus dois “eus” me fez pensar numa coisa curiosa.

Talvez a memória nunca seja um arquivo.

Talvez seja uma ficção escrita pelo tempo.

Nós lembramos de acontecimentos.

Mas também lembramos de possibilidades.

Do que poderia ter sido.

Das conversas que imaginamos.

Dos amores interrompidos.

Das despedidas que nunca aconteceram.

Carregamos lugares que não existem.

Pessoas que mudaram.

Versões nossas que desapareceram sem avisar.

Talvez toda lembrança seja um pouco inventada.

E talvez isso também seja normal.

É estranho como é simples

Thedy Corrêa

O prazer passa. O vazio conversa.

Uma das ideias mais bonitas da música, sem precisar repetir suas palavras, está no contraste entre aquilo que passa depressa e aquilo que permanece.

Os momentos felizes costumam acontecer num instante.

Mas certas ausências permanecem conosco durante anos.

Não como feridas abertas.

Como ecos.

A arte sabe lidar muito bem com esses ecos.

Por isso algumas canções envelhecem junto com quem as escuta.

O que penso a respeito de tudo é estranho

Thedy Corrêa

Aos 49 anos, continuo estranho

Na sexta-feira, dia 24 de julho, vou assistir ao show do Nenhum de Nós justamente no dia do meu aniversário.

Enquanto escrevo este texto, penso que talvez eu continue sendo aquele garoto da fotografia.

Ainda dividido entre luz e sombra.

Entre realidade e imaginação.

Entre tecnologia e literatura.

Entre inteligência artificial e poesia.

Entre o marketing e o escritor.

Durante muito tempo achei que precisava escolher apenas uma dessas versões.

Hoje acredito que todas elas são verdadeiras.

É estranho como essa canção

Thedy Corrêa

Um convite aos outros estranhos

Vivemos numa época que insiste em transformar pessoas em personagens.

É preciso parecer seguro.

Ter opiniões definitivas.

Mostrar felicidade constante.

Ser produtivo.

Ser interessante.

Ser aceito.

Mas talvez exista uma enorme liberdade em admitir que continuamos procurando nosso lugar.

Se você também se sente estranho…

Saiba que existe uma multidão silenciosa caminhando ao seu lado.

Você nunca esteve sozinho.

E nunca houve nada de errado com você.

Fique só quando isso fizer sentido.

Fique em boa companhia quando ela aparecer.

Mas nunca permaneça em má companhia apenas para parecer normal.

Às vezes, ser estranho é apenas outro nome para ser autenticamente humano.

E talvez seja exatamente por isso que essa música continua fazendo sentido tantos anos depois.

Porque algumas canções não descrevem uma geração.

Elas descrevem uma condição.

A nossa.

“Se você também se sente estranho, saiba que existe uma multidão de pessoas como você. A diferença é que nem todas admitem isso. Fique só quando quiser. Fique em boa companhia quando ela aparecer. Mas nunca aceite a má companhia apenas para parecer normal.”

Diogo

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