De onde vem o dinheiro?

Antes do dinheiro, já existia o mundo

Quem decidiu que tudo precisa ter um preço?

Existe uma história de um Contador sobre a origem do dinheiro que provavelmente você já ouviu.

No começo, as pessoas faziam escambo. Eu tinha peixe, ele tinha trigo. Eu queria trigo, ele peixe. 

Trocávamos. Só que um belo dia você não queria meu peixe. Queria uma cabra. Começava o muído.

Então alguém teria tido uma das grandes ideias da humanidade:

vamos inventar o dinheiro.

Primeiro moedas, depois bancos, papel-moeda, cartões, transferências eletrônicas, Pix, criptomoedas, chip….

Pronto.

Uma linha evolutiva limpa, organizada e confortável:

escambo → moeda → bancos → capitalismo → economia digital.

Parece até árvore de evolução de videogame, tipo quando eu tentava explicar pro meu sobrinho que antes a gente alugava jogos, hoje dá pra jogar Fortnite ou qualquer game desses antigos em qualquer celular, tipo véio reclamando que antigamente era melhor..

O problema é que a história humana não funciona assim, se prepare que é textão, ou só compartilhar pra fortalecer o blog, e talvez a história que contamos sobre o dinheiro revele mais sobre nossa maneira de enxergar outras sociedades do que sobre a verdadeira origem do dinheiro.

Foi pensando nisso, e principalmente depois de ler o artigo Desmistificação da Contabilidade para os Indígenas da Etnia Ikpeng, de Wotkô Ikpeng e Francisco Marcelo Jaime Coan, que comecei a olhar para essa história de outra maneira.

Talvez a pergunta não seja simplesmente:

Quem inventou o dinheiro?

Talvez exista uma pergunta anterior e muito mais interessante:

Quem decidiu que riqueza precisava ser medida dessa forma?


Antes do dinheiro, já existia economia

Quando utilizamos palavras como “economia”, nossa cabeça imediatamente produz certas imagens.

Dinheiro.

Empresas.

Bancos.

Salários.

Comércio.

Preço.

Lucro.

Investimentos.

Só que economia, em seu sentido mais amplo, envolve também a maneira como uma sociedade produz, distribui, utiliza e compartilha aquilo que acha que precisa.

E sociedades humanas existiam muito antes de bancos, bolsas de valores ou notas de cinquenta conto.

Pessoas plantavam.

Caçavam.

Pescavam.

Construíam.

Criavam filhos.

Cuidavam dos mais velhos.

Produziam ferramentas.

Compartilhavam alimentos.

Estabeleciam obrigações.

Trocavam objetos.

Criavam alianças.

Nada disso precisava necessariamente passar por uma moeda.

O problema aparece quando olhamos para essas sociedades utilizando exclusivamente nossas próprias categorias.

Se não existe dinheiro, dizemos que falta dinheiro.

Se não existe propriedade privada da maneira como a concebemos, dizemos que falta propriedade.

Se não existe mercado semelhante ao nosso, classificamos aquela economia como rudimentar.

Perceba a pequena armadilha escondida nisso.

Transformamos diferença em ausência.

O outro não possui outra maneira de organizar a sociedade.

Ele simplesmente “ainda não chegou” à nossa.

E nós, por uma coincidência extraordinariamente conveniente, estamos sempre no topo dessa escada imaginária.


O dinheiro não chega sozinho

O artigo de Wotkô Ikpeng e Francisco Marcelo Jaime Coan me chamou atenção justamente porque trata de uma situação muito mais interessante do que uma oposição simplista entre “indígenas” e “dinheiro”.

Os autores discutem a relação do povo Ikpeng com conhecimentos contábeis e financeiros dentro de um contexto no qual práticas econômicas tradicionais passam a conviver com elementos da economia monetária moderna.

Isso muda bastante a pergunta.

Não se trata simplesmente de imaginar um mundo “puro” antes do dinheiro e outro “corrompido” depois dele.

Seria uma romantização bastante preguiçosa.

Dinheiro também pode representar autonomia.

Pode permitir aquisição de medicamentos, equipamentos, combustível, alimentos, armas, sou contra mas entendo o seu uso, ferramentas e inúmeros outros recursos.

Conhecimentos de contabilidade e administração podem ser instrumentos importantes justamente para que comunidades indígenas consigam administrar seus próprios recursos e negociar com instituições externas com maior autonomia.

A questão que me interessa é outra:

o que acontece quando duas maneiras diferentes de compreender valor passam a ocupar o mesmo espaço?

Porque o dinheiro nunca chega sozinho.

Com ele chegam seus conceitos.

Preço.

Salário.

Orçamento.

Lucro.

Dívida.

Propriedade.

Acumulação.

Individualização.

O “nosso” passa a conviver com o “meu”, só “Eu”. 

E essa convivência pode produzir possibilidades, adaptações, conflitos e transformações.


Quanto custa uma floresta?

Imagine uma floresta.

Podemos calcular seu valor econômico.

Quantidade de madeira.

Valor do terreno.

Minérios existentes no subsolo.

Potencial agrícola.

Água.

Turismo.

Créditos de carbono.

Podemos criar uma planilha gigantesca.

E talvez consigamos chegar a um número:

R$ 3.847.293.817,42.

Número randômico, claro.

Mas perceba como sua existência imediatamente produz uma sensação de necessidade.

Tem até quarenta e dois centavos.

Parece científico.

Agora acrescente outra variável.

Naquela floresta existe uma árvore próxima da qual determinado povo realiza cerimônias há centenas de anos.

Quanto acrescentamos?

R$ 100 mil?

R$ 1 milhão?

R$ 10 milhões?

E se ali estiver enterrado um antepassado?

Quanto vale?

E uma espécie que ainda nem conhecemos?

E o conhecimento sobre plantas medicinais transmitido oralmente durante gerações?

E uma nascente?

E o direito de uma criança que ainda não nasceu encontrar aquela floresta daqui a cinquenta anos?

Nossa planilha começa a apresentar um problema.

Não porque essas coisas não tenham valor.

Mas porque valor e preço não são sinônimos.


O Contador

Imagine uma figura que acompanha a humanidade há milhares de anos.

Vou chamá-lo simplesmente de O Contador.

Não estou falando do profissional de contabilidade contemporâneo. É uma metáfora.

Nosso Contador começa diante de uma tabuleta.

Ele registra:

grãos.

Depois animais.

Terras.

Impostos.

Moedas.

Ouro.

Navios.

Mercadorias.

Séculos passam.

Ele continua escrevendo.

Açúcar.

Café.

Pessoas escravizadas.

Terra.

Minério.

Salários.

Fábricas.

Petróleo.

Ações.

Imóveis.

Dívidas.

Dados.

Criptomoedas.

A ferramenta muda.

A tabuleta vira papel.

O papel vira livro-caixa.

O livro vira computador.

O computador vira algoritmo.

Mas O Contador continua fazendo essencialmente a mesma coisa:

transformando partes do mundo em números.

E isso é extremamente útil.

O problema começa quando confundimos o livro do Contador com o próprio mundo.


Colonizar também é dar preço

Quando pensamos no colonialismo, geralmente pensamos em invasão territorial, violência, exploração, escravização e imposição religiosa.

Tudo isso faz parte dessa história.

Mas existe também uma colonização das categorias através das quais enxergamos o mundo.

Terra pode se transformar em propriedade.

Floresta pode se transformar em recurso.

Rio pode se transformar em potencial energético.

Pessoa pode se transformar em força de trabalho.

Tempo pode se transformar em salário.

Conhecimento pode se transformar em propriedade intelectual.

A natureza deixa de ser apenas o lugar onde a vida acontece e passa também a integrar uma gigantesca contabilidade.

Isso não aconteceu de maneira abstrata.

No Brasil, colonização significou apropriação territorial, exploração de recursos e utilização brutal do trabalho humano escravizado ou presos a instituições malígnas que não respeitam o proletariado, o povo, enfim essa gente aí que vive por aí tentando viver e ser feliz em alguns momentos..

O território que posteriormente chamaríamos Brasil não começou a existir quando os portugueses chegaram.

O Brasil pode ter começado em 1500. Este lugar, não.

Já existiam sociedades.

Línguas.

Tecnologias.

Guerras.

Alianças.

Religiões.

Conhecimentos.

Maneiras de produzir.

Maneiras de distribuir.

Maneiras de compreender território.

E maneiras diferentes de compreender riqueza.


Cuidado para não criar o “indígena ecológico perfeito”

Aqui existe outra armadilha.

Criticar uma visão colonial não significa inverter a caricatura.

Povos indígenas não são personagens mágicos de uma fantasia anticapitalista, mas podem ajudar a criar belas histórias.

São sociedades humanas.

Possuem conflitos, interesses, transformações, política, tecnologia, contradições e diferentes maneiras de se relacionar com o restante da sociedade brasileira.

Uma pessoa indígena usando celular não deixa de ser indígena.

Usar Pix não apaga uma identidade.

Estudar Administração ou Contabilidade tampouco representa automaticamente uma rendição cultural.

Aliás, existe uma inversão interessante nisso.

Dominar ferramentas econômicas, jurídicas, tecnológicas e administrativas da sociedade envolvente pode ser justamente uma forma de autonomia e defesa.

Talvez seja possível aprender a linguagem do Contador sem permitir que ela seja a única língua através da qual o mundo pode ser entendido.


Talvez os analfabetos sejamos nós

Durante muito tempo, a pergunta colonial foi:

“O que precisamos ensinar a esses povos?”

Talvez devêssemos acrescentar outra:

“O que eles sabem que nós não sabemos mais?”

Não estou sugerindo abandonar cidades, tecnologia ou dinheiro e sair correndo para a floresta.

Eu provavelmente seria derrotado por um sapo no primeiro brejo que chegar.

A questão é muito menos romântica e muito mais urgente.

Nossa sociedade desenvolveu uma capacidade extraordinária de atribuir preço às coisas.

Somos excelentes nisso.

Conseguimos calcular o valor de uma empresa.

O preço de uma tonelada de minério.

O metro quadrado de um bairro.

Uma hora de trabalho.

Um barril de petróleo.

Um clique.

Uma visualização.

Sua atenção.

Seus dados.

Até a probabilidade de você comprar alguma coisa depois de assistir a um anúncio.

Somos uma civilização de contadores extremamente eficientes.

Mas talvez tenhamos ficado ruins em responder uma pergunta muito mais básica:

O que é riqueza?


Um entregador, oito reais e setenta centavos

Agora saímos da floresta e voltamos pra selva de pedra.

Chove.

Um entregador recebe uma corrida pelo aplicativo.

R$ 8,70.

O algoritmo sabe a distância.

Conhece o trânsito.

Calcula demanda.

Tempo.

Oferta de entregadores.

Localização.

Histórico.

Talvez dezenas de outras variáveis que nem conhecemos.

Uma máquina consegue determinar em segundos quanto aquele deslocamento vale economicamente.

Mas existe algo que ela não consegue colocar adequadamente na conta.

O frio.

A chuva.

O medo de um acidente.

O tempo longe da família.

O joelho que começou a doer.

O risco.

A vida.

De certa maneira, O Contador continua conosco.

Só deixou de parecer um senhor diante de um livro enorme.

Agora ele mora num servidor.


Talvez estejamos vivendo uma nova colonização

Existe ainda uma ironia nisso tudo.

Durante séculos, impérios extraíram riqueza de territórios.

Madeira.

Ouro.

Prata.

Açúcar.

Café.

Petróleo.

Minério.

Hoje descobrimos outro território extremamente lucrativo:

nós mesmos.

Nossa atenção.

Nossos hábitos.

Nossos relacionamentos.

Nossa localização.

Nossas preferências.

Nossos medos.

Nossos desejos.

Nossos dados.

Não é preciso possuir uma mina quando se possui uma plataforma utilizada por bilhões de pessoas.

Entramos.

Conversamos.

Clicamos.

Assistimos.

Compramos.

Produzimos informações.

E alguma coisa é extraída disso.

Talvez a colônia digital não esteja exatamente debaixo dos nossos pés.

Talvez esteja atrás dos nossos olhos.


Então o dinheiro é ruim?

Não.

Essa seria uma conclusão fácil demais.

Dinheiro é uma tecnologia social extraordinariamente poderosa.

Permite cooperação entre desconhecidos.

Facilita comércio.

Permite planejamento.

Torna possíveis organizações gigantescas.

Pode significar independência.

Segurança.

Liberdade.

E não podemos cair naquela frase confortável de que “dinheiro não traz felicidade” quando sabemos perfeitamente que sua ausência pode significar fome, insegurança, falta de moradia, tratamento médico inacessível e uma vida inteira consumida por uma tentativa patética e injusta pela sobrevivência.

O problema não é reconhecer a importância do dinheiro.

É permitir que dinheiro se transforme na nossa definição de valor.

Porque preço é uma maneira de medir determinadas coisas.

Não é a única.


Antes do dinheiro, já existia o mundo

Talvez seja essa a ideia que mais ficou comigo depois de pensar sobre tudo isso.

Antes do dinheiro, já existia o mundo.

Antes do salário, existia trabalho.

Antes da escritura, existia território.

Antes do preço da madeira, existia árvore.

Antes da conta de água, existia rio.

Antes da propriedade intelectual, existia conhecimento.

Antes de alguém calcular quanto uma floresta poderia render, pessoas já viviam nela, com ela e através dela.

Talvez descolonizar nossa maneira de pensar sobre dinheiro não signifique abandonar o dinheiro.

Signifique apenas retirar dele um poder que nós mesmos lhe concedemos:

o poder de decidir sozinho aquilo que possui valor.

Imagine novamente nosso velho Contador.

Depois de milhares de anos, ele finalmente fecha seu livro.

Diante dele existe uma floresta.

Ele olha.

Pela primeira vez não escreve nada.

Não porque aquela floresta não tenha valor.

Mas porque finalmente percebeu que talvez seu maior erro tenha sido acreditar que tudo aquilo que possui valor precisa caber em uma coluna.

O livro do Contador nunca foi o mundo.

Era apenas uma maneira de enxergar o mundo.

E talvez algumas das coisas mais valiosas que ainda possuímos sejam justamente aquelas que não deveríamos aprender a transformar em preço.

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Referência que inspirou esta reflexão

Este post foi inspirado, entre outras reflexões sobre economia, colonialidade e diferentes concepções de valor, pelo artigo “Desmistificação da Contabilidade para os Indígenas da Etnia Ikpeng”, de Wotkô Ikpeng e Francisco Marcelo Jaime Coan.

Referência:

IKPENG, W. K.; COAN, F. M. J. Desmistificação da Contabilidade para os Indígenas da Etnia Ikpeng. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 36, p. 1-29, 2026. ISSN: 2965-6672.

O artigo está disponível na Revista Tópicos e aborda a relação entre conhecimentos contábeis, economia monetária e a realidade do povo Ikpeng, oferecendo um ponto de partida particularmente interessante para pensarmos não apenas sobre como diferentes povos se relacionam com o dinheiro, mas também sobre aquilo que nossa própria sociedade aprendeu a chamar de riqueza.

https://revistatopicos.com.br/artigos/desmistificacao-da-contabilidade-para-os-indigenas-da-etnia-ikpeng

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