Jardim Thelma 2046: O Bairro dos passados esquecidos

Voltei ao Jardim Thelma depois de vinte anos como quem retorna a um arquivo morto que insiste em abrir sozinho.

Tenho cinquenta agora. Cinquenta e a ingenuidade de achar que um lugar da infância continua sendo um lugar. O bairro me reconhece antes de mim, o que já é uma forma elegante de humilhação.

Eu conheço cada rua como quem conhece uma cicatriz antiga que a gente esquece mas que de vez em quando coça, ou aparece no nosso campo de visão depois da gente ter engosdado e emagrecido tantas vezes.

E, claro, tudo da memória dos passados estava lá.

Ou pelo menos a versão do “tudo” que o tempo decidiu manter em exposição.

A barbearia virou mercadinho. O terreno baldio onde a gente filosofava fumando um sobre o tudo e o nada virou uma praça com equipamentos de ginástica pros velhinhos e pessoas de férias. O bar onde eu aprendi a mentir socialmente virou igreja de crente, o que faz um certo sentido cosmológico. A loja de sapatos agora vende Ui´sque ou vodka com energético e gelo de frutas, virou adega moderna com jovens fumando narguilé, a quadra virou escolinha de pré-primário, onde antes jogavam bola, hoje se brinca pro futuro.

O Jardim Thelma continua existindo, só cresceu e mudou de pele sem eu ver.

O mais irritante é que nada parece realmente novo. É tudo uma reciclagem de intenções. Como se o bairro tivesse sido editado por alguém com pressa e pouca consideração pela continuidade narrativa, sabe o roteirista fazendo algo às pressas porque o gibi precisa sair no prazo?

Eu caminho e sinto essa sensação estranha de estar sendo observado por versões minhas que não passaram pelo meu consentimento, me vejo caminhando pela mesma ladeira, passoa após passo, minha versão criança, versão adolescente, versão jovem, versão adulta, e agora quase velho, mesmos passos, mesmo sorriso bobo, mesma garoa, mas um céu diferente, mais iluminado.

Porque é isso que acontece.

Acho que algumas pessoas me reconhecem, ou acham que reconhecem, eu não lembro de ninguém, mal lembro de mim.

Ou fingem reconhecer, já que sou parecido com uma boa parte deles, minha presença aqui é familiar.

Ou pior, sabem algo que eu não sei mais.

“Você voltou?”

Eu escuto isso mais vezes do que gostaria. Sempre com aquele tom de quem viu um fantasma e decidiu ser educado por segurança.

Eu respondo do jeito que aprendi a sobreviver: fugindo

“Você está me confundindo com meu irmão. Ele parece comigo.”

“Tá bom tia, valeu, tenho que ir”

Os olhares não me acreditam, mas também não me desmentem. Só me encaixam em algum lugar fora do que eu acho ser o meu lugar.

Como se eu fosse um erro conhecido.

Na rua onde existia a banca de revistas, eu paro.

Não porque espero algo. Expectativa é um luxo que abandonei junto com a idade.

Mas porque o corpo lembra antes da mente aceitar.

A banca não está lá.

Claro.

Mas existe uma fotografia dela na padaria em frente.

Não sei de onde ela veio. Só está ali, como se sempre tivesse estado.

Nela, o dono da banca sorri daquele jeito específico de quem vende mundos dobráveis em papel barato.

O mesmo rosto.

O mesmo sorriso.

A mesma certeza absurda de que aquilo tudo fazia sentido.

Pergunto para alguém que passa.

“O que aconteceu com o dono da banca?”

A resposta vem rápida demais, como se já estivesse pronta há anos.

“Que banca?”

Eu rio por dentro. Não porque é engraçado.

Mas eu lembro.

Lembro do cheiro de papel novo. Do plástico dos gibis. Das capas brilhantes do Superman me prometendo uma moralidade que o mundo, e nem eu, nunca entregou.

Lembro até demais.

E isso, aqui, parece ser uma falha de sistema.

O único lugar que não tentou se reinventar é a oficina do antigo técnico de TV.

Ele ainda está lá, agora com TVs de LED, mas ainda tem umas de tubão lá no fundo, vou trazer meu monitor antigo de QLED pra ele arrumar.

O homem envelheceu como um equipamento que nunca foi atualizado, mas continua funcionando por teimosia industrial. Cercado de televisores antigos e máquinas que parecem ter sido sonhadas por outra era.

Agora ele mexe em telas inteligentes, hologramas, coisas que brilham demais para serem confiáveis.

Ele fala enquanto solda o tempo com as próprias mãos.

“Algumas telas desligadas continuam funcionando e recebendo sinais.”

Pergunto que sinais elas recebem.

Ele dá de ombros.

“Só memórias. Mas não as suas. As do lugar.”

Isso soa como algo que alguém diria antes de parar de ser levado a sério até por mim mesmo.

Mas aqui, infelizmente, tudo soa plausível demais.

Ele continua.

“Televisão não mostra só o mundo. Às vezes mostra aquilo que o mundo perdeu.”

Eu não respondo. Aprendi a economizar palavras, só grunho acenando com a cabeça.

Na padaria, a dona é a mesma acontinua lá.

Ou uma versão dela, gourmetizada e tals

O prédio mudou, a fachada mudou, até a luz foi substituída por algo mais eficiente e artificial do que já era.

Mas o pão.

O pão é o mesmo, bão demais!

Ela percebe meu olhar e diz, como se estivesse explicando uma lei física:

“Um pãozinho na chapa bom assim só aqui né fio?”

“Pois é Dona Maria”

Até hoje não sei o nome real dela, não importa, sempre chamei/chamarei ela assim.

Na escola onde antes era a quadra, as crianças me observam com uma familiaridade indecente.

Elas sabem coisas.

Apelidos que ninguém deveria lembrar. Histórias que nunca contei em voz alta. Detalhes da minha infância que nem eu tenho certeza se vivi ou foi algum primo mais velho meu contando vantagem quem falou.

Uma voz na minha cabeça pergunta:

“Você ainda joga bola mal?”

Eu paro.

Eu respondo pra mim mesmo.

“Até no videogame jogo mal hoje em dia”

Porque a pergunta não deveria existir.

E mesmo assim existe.

É aí que começo a entender o padrão.

O Jardim Thelma não mudou.

Ele evoluiu, filtrou.

Transformou tudo em versões funcionais do passado, mas manteve o que não deveria permanecer.

Memória, por exemplo.

Ou culpa.

Ou insistência.

O técnico chama isso de sobrevivência temporal.

Eu chamo de erro de renderização do mundo.

Cada pessoa aqui parece carregar uma anomalia.

Ele escuta o passado.

A padaria cozinha lembranças.

As crianças armazenam vidas que não viveram.

E eu…

Bem.

Eu não consigo esquecer direito.

Essa é a minha especialidade não solicitada.

No fim do dia, andando perto da escola, encontro uma porta.

Ela não deveria estar ali.

Mas isso já deixou de ser argumento faz tempo.

Atrás dela, um sebo.

Pequeno. Mal iluminado. Quase indecente na forma como se recusa a desaparecer.

E então eu vejo.

Gibis antigos.

Revistas empoeiradas.

Quadrinhos que não deveriam existir fora de arquivos queimados pelo tempo.

O cheiro me acerta antes da visão fazer sentido.

No balcão está ele.

O jornaleiro.

O mesmo da fotografia.

O mesmo sorriso.

Como se nunca tivesse sido interrompido.

Ele me olha como quem confirma um cálculo antigo.

“Eu sabia que você voltaria.”

Eu não tento parecer surpreso. Surpresa é um luxo que não combina com repetição.

“Como você sabia?”

Ele empurra um gibi do Superman na minha direção.

“Porque todo mundo volta para algum lugar.”

Ele aponta para o relógio na parede.

Parado.

Como se o tempo aqui tivesse desistido de competir.

“Só que você demorou demais.”

Continua… ?

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