Final da série

Duas semanas antes da mudança, o apartamento começou a produzir um tipo específico de silêncio.

Não era ausência de som.

Era pior.

Era continuidade, eram ecos mentais de coisas antigas.

A geladeira zumbindo.
O cano do banheiro do vizinho tossindo quando volta a água no prédio de madrugada.
O elevador velho parando no meio do andar errado.
O cachorro do apartamento ao lado latindo para nada, como sempre fazia às seis da tarde.

Tudo continuava funcionando como se ninguém estivesse indo embora.

Marcelo percebeu isso numa terça-feira enquanto lavava dois pratos automaticamente.

Dois.

Ainda dois, com o polêmico detergente Ypê.

Ensaboados com o mesmo cuidado doméstico de alguém que não sabia parar certos movimentos do corpo.

Clara apareceu atrás dele usando a camiseta antiga do Lobo que ela roubara havia anos e nunca devolvera. O cabelo preso torto. Cara de quem dormiu mal sem exatamente sofrer por isso.

— Você usou todo o café?

— Putz, foi mal, é que normalmente você não toma.

— Hoje deu vontade, mas tudo bem, tomo leite com chocolate.

Ela abriu o armário mesmo assim, meio zumbi de sono, meio no automático. Como se talvez ele tivesse errado. Como se ainda existisse algum pequeno milagre dentro dos potes.

Não havia.

— Amanhã eu compro.

Ela respondeu só com um “uhum”.

O curioso era aquilo: a ausência completa de violência.

Nenhum dos dois gritara durante o fim.

Não houve traição. Nem copo quebrado. Nem bloqueio em rede social. Nem frases definitivas.

Só um cansaço que entrou na relação igual umidade entrando em parede antiga.

Devagar.

Até tudo ficar respirável demais para continuar.


Na mesa da sala havia uma pilha de caixas ainda desmontadas.

A mudança de Clara seria em duas semanas.
Um apartamento pequeno perto do metrô Ana Rosa.
“Mais perto do trabalho”, ela dizia.

Mas Marcelo sabia que não era proximidade. Era fuga sem brutalidade.

Naquela noite, ela perguntou:

— Você ainda quer ir no cinema sábado?

Ele demorou alguns segundos.

— Pra ver qual?

— Aquele filme tailandês de domingo maior.

— Ah.

Ela ficou esperando.

Marcelo secou a mão no pano de prato.

— Quero.

E os dois perceberam ao mesmo tempo que seria o último filme juntos.

Não falaram sobre isso.

Clara abriu a geladeira.

— Tem ketchup?

— Acho que venceu.

Ela cheirou a embalagem mesmo assim.

Depois riu.

Uma risada pequena. Sem felicidade. Só cansaço compartilhado.

— A gente vive perigosamente.

Foi talvez o momento mais íntimo da semana.


Nos dias seguintes, o apartamento começou a ficar emocionalmente torto.

As coisas ainda estavam no lugar, mas já não pertenciam ao mesmo futuro.

O hidratante dela no banheiro parecia provisório.

Os livros dela na estante começaram a parecer objetos esquecidos num Airbnb.

Marcelo passou a reparar nos vazios antes deles existirem.

Era uma habilidade horrível.

Ele conseguia olhar para um canto e enxergar ausência futura.

Ali não vai mais ter a bolsa dela.

Ali não vai mais ter cabelo preso na toalha.

Ali não vai mais ter ninguém pedindo pela toalha quando a esquece ao tomar banho.

O amor, descobriu, acaba primeiro nos detalhes. O resto é só cartório emocional.


No sábado, mó chuva.

Não chuva, garôa, “coisa de paulista meuo dizem por aí.

Chuva de luzes difusas.

Foram de metrô.

Clara encostou a cabeça no vidro em silêncio enquanto estações passavam como memórias sem importância suficiente para serem guardadas.

Marcelo percebeu que ainda sabia exatamente quando ela estava triste.

Ela apertava a mandíbula do lado esquerdo.

Sempre aquilo.

No shopping, dividiram um balde pequeno de pipoca porque “o grande é desperdício”.

No fundo, os dois sabiam que não era pela dieta:

era treinamento para o futuro.

O filme era de ação, com tiroteios, honra entre bandidos, esperança vã e pessoas perdendo coisas que não sabiam nomear.

Clara chorou discretamente numa cena banal envolvendo uma mesa de jantar vazia.

Marcelo fingiu não perceber.

Porque amor às vezes é isso:
deixar o outro sofrer sem humilhação.

Quando saíram do cinema, ficaram alguns segundos olhando o reflexo deles na porta de vidro.

Pareciam um casal normal.

Isso quase destruiu Marcelo.


Em casa, continuaram vendo a série que acompanhavam havia quatro anos.

Uma série longa demais. Dez temporadas. Personagens que envelheciam junto com quem assistia.

Faltavam três episódios para terminar.

— A gente termina hoje? — ela perguntou.

Marcelo olhou para a televisão desligada.

Sentiu uma coisa muito específica:
medo daquele episódio virar um túmulo.

— Não sei.

— Vai ficar estranho depois.

Depois.

A palavra caiu na sala do apartamento {{burnout}}.

Mais tarde deram play.

Nenhum dos dois realmente assistia.

Clara mexia no canto descascado da unha.

Marcelo observava de lado a luz da televisão mudando o rosto dela de cores.

Em algum momento do episódio, um personagem dizia:
“Algumas pessoas só conseguem caminhar juntas até certo ponto.”

Clara soltou um “nossa” quase inaudível.

Marcelo levantou imediatamente.

— Vou pegar água.

Ficou tempo demais na cozinha.

Apoiou as duas mãos na pia.

Respirou olhando a janela escura do apartamento vizinho.

Alguém fumava lá em cima.

Dava pra ver a brasa acendendo e apagando através da garoa.

Quando voltou, Clara tinha dormido no sofá.

A televisão ainda falava sozinha.

Marcelo pegou a manta cinza automaticamente.

Cobriu ela devagar.

Ela se mexeu um pouco, sem acordar.

Então ele percebeu que aquele gesto estava perto da extinção.

Daqui duas semanas, ninguém naquele apartamento precisaria mais daquela delicadeza específica.

E algumas formas de amor sobrevivem apenas como função sem destino.

Marcelo desligou a televisão no meio do episódio.

Depois que terminou, eles nunca viram o final da série.

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