Apartamento 63

Uma luz apartamento 63 continuava acendendo depois que Marcelo foi embora.

Não literalmente, embora esse fato esteja descrito em um texto, pois a luz havia sido cortada semanas antes , um dia depois do despejo.
Mas quem passava pelo bloco C do condomínio jurava que, às vezes, perto das duas da manhã, havia luz e movimento atrás da cortina da sacada.

Como se alguém ainda morasse ali.

Marcelo vivera naquele apartamento por dez anos.

Dez anos dormindo com o ventilador torto fazendo barulho de helicóptero.
Dez anos ouvindo a vizinha do 64 assistir novela alta demais.

Dez anos onde passou pela reclusão da pandemia.
Dez anos tomando café ouvindo as festas do pessoal da mecânica na rua de trás.

A vida dele tinha acontecido por muito tempo, inteira e intensa ali.

O casamento começou ali.
E acabou ali.

A filha pequena aprendera a andar segurando o sofá cinza da sala.
O pai morreu enquanto Marcelo morava ali.
A depressão veio ali.
A bebida e os excessos o acompanhou antes, durante e depois.

No final, o apartamento virou uma espécie de organismo cansado.

Cinzeiro cheio.
Garrafas escondidas.
Conta de água quase atrasada.
Silêncio demais.

Quando perdeu o emprego na assistência técnica, tudo desabou rápido.

A esposa foi embora primeiro.
Levou parte dos móveis e o cheiro de shampoo doce do banheiro.

Depois veio a crise financeira.
Os remédios.
As noites acordado fumando maconha na sacada, deitado na velha rede nordestina que compraram em Natal.

Por último, o despejo.

Dois homens do condomínio ajudaram Marcelo a colocar as últimas caixas num carro emprestado.
Ele saiu dopado de calmante após uma breve internação psiquiátrica.

Nem olhou pra trás.

Mas talvez devesse ter olhado.

Três semanas depois, novos moradores chegaram.

Um casal jovem.

Bianca e Júlio.

Tinham conseguido o apartamento barato porque “o antigo inquilino saiu às pressas”.

No começo, eram coisas pequenas.

Passos leves no corredor durante a madrugada.

Não passos pesados.

Passos de quem conhecia a casa no escuro.

Depois vieram os sons da cozinha.

Exatamente às 2h13 da manhã: o barulho de gelo sendo retirado da geladeira.

Toda noite.

A gaveta deslizando.
Cubos batendo no copo.

Bianca acordava achando que Júlio estava na cozinha.

Mas ele dormia ao lado dela.

Numa madrugada chuvosa, Júlio viu pela primeira vez.

Um vulto na sacada.

Deitado na rede.

Fumando.

A ponta do baseado acendendo e apagando no escuro.

Sem rosto.

Sem olhos.

Só o contorno cansado de alguém habituado àquele lugar.

Quando Júlio acendeu a luz, a rede ainda balançava devagar.

Com o passar das semanas, o apartamento começou a apresentar pequenos poltergeistes.

Marcas de mão surgiam no vidro da sacada em manhãs frias.

O cheiro de maconha aparecia no banheiro mesmo com as janelas fechadas.

Objetos mudavam discretamente de lugar.

O controle remoto na mesa errada.
Um copo na pia.
A rede levemente torta.

E havia a sensação.

Constante.

Incômoda.

Como se alguém estivesse tentando não incomodar.

Como se ainda acreditasse morar ali.

Bianca começou a sonhar com um homem que nunca vira.

Nos sonhos, ele apenas caminhava pelo apartamento em silêncio.

Passava os dedos pelo corredor amarelo, como quem bates os dedos, tateando no escuro.
Olhava demoradamente a cozinha.
Sentava no chão do corredor.

Às vezes chorava baixo.

Outras vezes parecia confuso.

Como alguém tentando lembrar por que não conseguia estar totalmente em casa.

A síndica contou a história numa tarde abafada.

— Ele gostava muito daqui.

Só isso.

Depois, olhando a sacada:

— Tem gente que vai embora… mas deixa pedaços.

Numa noite de temporal, faltou luz no prédio inteiro.

Bianca acordou com o som da geladeira abrindo.

O gelo.

De novo.

Mas dessa vez havia outra coisa.

Respiração.

Lenta.

Cansada.

Vinda da sala.

Ela ficou imóvel na cama enquanto os relâmpagos iluminavam o apartamento em flashes azulados.

Então viu.

O homem estava sentado no sofá.

Gordo.
Curvado.
Vestindo uma camiseta vermelha furada.

Assistindo a televisão desligada.

Como se ainda esperasse alguma coisa começar.

Bianca sentiu medo.

Mas acima do medo havia algo pior:

uma tristeza sufocante.

Porque a figura não parecia perigosa.

Parecia perdida.

No clarão seguinte, ela viu marcas molhadas no chão.

Lágrimas.

Ou chuva.

Ou ambos.

Então o vulto levantou devagar.

Olhou ao redor da sala como alguém percebendo, finalmente, que tudo havia mudado.

E desapareceu.

Na manhã seguinte, encontraram uma única coisa na sacada.

Uma bituca de baseado recém-apagada.

Mesmo sem ninguém fumar naquela casa.

Gostou desse conteúdo? Leia mais posts do autor aqui: https://www.cachorrosolitario.com.br/author/diogo/
Ou adquira livros aqui: https://amzn.to/4uG3mda

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

error

Gostou do blog? Ajude a divulgar.