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Renata – Parte 3 – A PORTA SE ABRE

Leia antes as partes anteriores:
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(Parte 2 AQUI.)

Parte 3 – A PORTA SE ABRE

I

A porta se abre e entra Cris, a cantora, ela vai na direção de Renata, que está paralisada de espanto, lhe dá um selinho, senta-se ao seu lado e pergunta, enquanto acaricia seus cabelos:

— E aí, dormiu bem?

— Acho que sim. – O coração a mil, a boca seca, a mente confusa. — Pode me trazer um copo de água?

— Tudo bem, meu anjo, depois da noite que tivemos, te faço qualquer coisa…

Assim que Cris saiu do quarto, a memória da noite anterior veio forte na mente de Renata.

Ela se lembrou que depois do show a cantora Cris veio sentar-se com ela e com Eduardo.

Renata estava meio embriagada, meio desligada, por isso não estranhou o jeito carinhoso como a cantora a tratava, dizendo coisas belas e passando a mão em seus cabelos. Encontraram alguns colegas da faculdade e o Eduardo, sentindo-se meio deixado de lado pelas garotas, foi embora com os caras.

Quando o bar estava para fechar, Renata se ofereceu para dar carona à outra garota, depois de Cris receber o cachê, foram embora. Chegaram na casa de Cris que convidou Renata para tomar mais uma cerveja com ela. No andar térreo, a sala de estar, sem TV, almofadas espalhadas pelo chão, quadro do Che, telefone, a cozinha, sem nada de mais, e um pequeno jardim-lavanderia nos fundos. Subindo as escada na sala, um banheiro e dois quartos, um desocupado, onde Cris guardou o violão, e outro onde Renata se encontra agora.

E foi neste quarto o primeiro beijo, Renata estava em pé perto do som, Cris se aproximou, os olhos cheios de carinho, passou o braço direito na cintura dela, acariciou os cabelos falando sobre a beleza deles, foi chegando perto, tocou levemente seus lábios no da outra garota que aceitou o beijo, com uma mistura confusa de medo, prazer, nojo e curiosidade.

A transa rolou naturalmente, mais carinhosa do que selvagem, cheia de novidades para Renata, que explorou o corpo da outra e deixou-se explorar. Dormiram abraçadas.

Nunca sentiu atração por mulheres, mas agora que Cris retornara com a água ficou a admirar, silenciosa, a bela garota, cabelos ruivos, molhados, na altura dos ombros, enrolada em uma toalha que deixava boa parte da sua pele à mostra, as coxas, os seios… O tesão veio forte, corou, Cris veio em sua direção, se beijaram, Renata, com muito custo, conseguiu se controlar, afastou-se, Cris perguntou:

— Foi a primeira vez, não foi?

— Foi sim…

— Tudo bem, eu também não tenho muita experiência, só tive uma namorada, mas você me deixou louca…

— Posso usar o telefone?

— Claro, vem cá.

II

— Alô, mãe?

— Onde você tá, minha filha?

— Calma mãe, estou na casa de uma amiga.

— Que amiga? Ninguém sabe de você! Tá todo mundo preocupado!

— É que eu esqueci o celular…

— Eu sei, essa porcaria tocou o dia inteiro! Vem pra casa!

— Tudo bem… Tchau, um beijo…

— Tchau!

— Ela ficou muito puta, Rê?

— Um pouco… Preciso ir embora, depois te ligo e a gente conversa melhor…

Se despediram, trocaram telefone e mais alguns beijos.

Enquanto dirigia para casa, Renata refletia sobre a noite anterior, ao mesmo tempo em que achava ter feito uma grande besteira, lembrava do toque carinhoso de Cris e sentia falta… Fazia tempo que não se sentia assim, estava confusa, mas estava bem, feliz até, seu coração parecia estar se enchendo de amor, de paz… Talvez estivesse se apaixonando, mas não conseguia aceitar direito o fato de estar se interessando por uma garota… O que seus pais iriam pensar? E seus amigos?… Foda-se, pensou, nunca liguei muito para o que os outros pensam… Mas ela sabia que poderia ser, pelo menos tentar ser, feliz. Tinha medo, mas a alegria que sentia por ter encontrado alguém como a Cris superava o medo, queria mudar, e essa seria uma mudança boa, uma coisa diferente…

Chegou em casa, ouviu a habitual bronca da mãe, cuidou da comida e da água do gato, ligou para a amiga Amanda, mas não contou o que aconteceu, achava que era cedo ainda…

Era domingo à tarde, depois de um bom banho e de comer alguma coisa veio aquele tédio característico desse dia, voltou a pensar na noite anterior.

Não aguentou mais de saudades e ligou para Cris. Conversaram muito por telefone, se encontraram na noite seguinte e decidiram namorar, por enquanto o relacionamento está só entre elas, mas estão felizes, se completam, se amam.

Se for preciso elas enfrentarão o mundo juntas, contra preconceitos, contra julgamentos, a vida delas não será fácil, mas, afinal de contas, a de quem é?

Fim desse arco.

Autor e diretor do blog Cachorro Solitário e apresentador do Podcast Cadeia de Eventos.