Capítulo I: A Fissura
A briga ainda ecoava no crânio de Lara como o zumbido residual de um sino partido. As palavras de sua mãe — “você não é mais uma criança, Lara!” — se entrelaçavam com o silêncio pesado de seu pai, um silêncio que era, ela sabia, mais cortante que qualquer grito. Não eram as discussões que a dilaceravam, mas o espaço vazio entre elas, aquele vácuo doméstico que sugava toda a luz. Ela não chorou. As lágrimas tinham secado havia dois anos, desde a noite em que o mundo encolheu para o tamanho de uma sala de hospital e o cheiro de antisséptico tornou-se sinônimo de ausência.
Fugiu para a única geografia que parecia compreender sua raiva muda: Paranapiacaba sob a névoa.
A cidade-vila, presa no tempo entre trilhos enferrujados e casas de madeira que rangiam histórias antigas, era um espelho úmido de seu interior. Lara não caminhava pelas ruas de paralelepípedos; arrastava-se por elas, com cada passo ecoando o som surdo de algo que tentava, e falhava, se encaixar dentro de seu peito. Há semanas, sentia isso: uma desconexão óssea. Não uma dor, mas uma consciência. Como se seus ossos, por dentro, fossem feitos de um material diferente, mais denso, que tentasse se rearranjar enquanto ela dormia. Atribuía aos quinze anos, ao crescimento tardio, a uma histeria que lia nos olhos de sua mãe quando ela a observava por muito tempo.
E havia os sons. Não eram alucinações — Lara detestava a palavra. Eram percepções. O farfalhar das samambaias ganhava camadas, tornava-se uma conversa sussurrada. O vento que descia a serra não apenas uivava, mas articulava sílabas em uma língua gélida e esquecida. E o cheiro. Ah, o cheiro. Hoje estava mais forte: um odor terroso, de folhas apodrecendo sob o gelo, de carne velha pendurada em um galho. Um cheiro de fome antiga. Ela pensou no avô, nos contos que ele murmurara antes de partir, histórias de Wendigos, de coisas que comem e nunca se saciam. Histórias do Norte, não daqui. Apenas histórias.
O destino foi, como sempre, irônico e sujo. Seus pés a levaram para longe das luzes turísticas da Parte Baixa, subindo a ladeira íngreme em direção aos trilhos do funicular — aquele veia de ferro necrosada que outrora ligava os mundos. Aqui, a névoa era mais do que vapor; era um organismo. Movia-se com intenção, encostando em sua pele com uma umidade que parecia investigativa. Lara respirou fundo, o ar frio queimando seus pulmões. Olhou para os trilhos que desapareciam na brancura. Ali, naquele limiar entre a cidade e a floresta devoradora, sentiu-se mais real do que em sua própria cama.
Foi quando viu o caco de vidro. Um pedaço de garrafa de cachaça, bordas serrilhadas refletindo a névoa opaca como um dente quebrado. Sem pensar, apenas movida pela pulsão surda de sentir algo — qualquer coisa que não fosse o vazio interno —, agachou-se e pegou-o. A pressão foi precisa, limpa. A lâmina encontrou a carne macia entre o polegar e o indicador da mão esquerda, e se abriu.
A dor foi um clarão branco, brilhante e honesto.
E então, o sangue.
Uma gota, duas, caindo no musgo úmido entre os dormentes podres.
O mundo parou.
O sussurro da floresta cessou. A névoa pareceu coagular. Lara olhou para a linha vermelha que escorria por seu pulso, hipnotizada por sua verdade primária. E então, o cheiro mudou.
A fome antiga que sentira antes não estava mais no ar. Estava no ar. Tornou-se uma presença física, uma distorção na névoa logo à sua frente. Onde antes havia brancura homogênea, agora havia uma mancha de ausência, um vazio em forma de homem, mas alongado, disforme. Não havia rosto, apenas uma impressão de concavidade, de um buraco que queria ser preenchido. E emanava dali uma necessidade tão violenta, tão absoluta, que Lara sentiu seus próprios órgãos se contraírem em um grito silencioso.
Era a Sombra. E ela tinha fome do sangue de Lara.
O instinto falou mais alto que o terror: Corra!
Ela se virou, as pernas bombeando contra o chão escorregadio. Mas a coisa não a perseguia. A coisa se reformava à sua frente, sempre a alguns metros de distância, nascendo da própria névoa. Lara cambiava de direção, desesperada, penetrando na mata fechada à margem dos trilhos. Galhos garras arranhavam seus braços, raízes tentaculares quase a derrubavam. O cheiro da coisa — terra úmida de cemitério, metal oxidado e uma doçura necrótica — a envolvia. Sua respiração era um apito no peito. Seu coração martelava uma sentença de morte.
Foi então que o primeiro estalo veio.
Um som seco, profundo, vindo de dentro do seu próprio ombro direito. Uma dor aguda, como se um grande elástico, esticado por anos dentro dela, tivesse finalmente se rompido. Lara gritou, tropeçou, caiu de joelhos na cama de folhas úmidas.
— Não… — sussurrou, suplicando a seu próprio corpo.
O segundo estalo veio da clavícula. O terceiro, das costelas, uma série de pequenas detonações que a fizeram se curvar para a frente, as mãos enterradas na podridão da floresta. Era como se um arquiteto louco estivesse reformando sua casa a força, com as paredes ainda cheias de gente. Seus ossos moviam-se. Reorganizavam-se. A dor era de uma clareza aterrorizante, impossível negar, impossível atribuir à histeria.
Ela olhou para suas mãos, sujas de terra e do próprio sangue.
Os ossos dos dedos começaram a se alongar. As articulações incharam, estalaram, reposicionaram-se. As unhas, sempre roídas pela ansiedade, escureceram, engrossaram, curvaram-se em pontas negras e duras como sílex. Um gemido escapou de sua garganta, mas já não era mais um som totalmente humano — era mais grave, rasgado.
— O que está acontecendo comigo? — pensou, mas as palavras em sua mente pareciam frágeis, pequenas, diante da realidade brutal da carne se metamorfoseando.
A coluna vertebral se contraiu em um arco de agonia pura. Ela sentiu as vértebras se pressionando, se expandindo, uma fila de dominós de dor caindo das nádegas até o crânio. Um uivo foi engasgado em sua garganta, transformado em um rosnado úmido. A pele de seus braços ardia. Olhou para eles e viu, não com os olhos, mas com uma percepção interna avassaladora, os pelos brotando. Não um crescimento normal, mas uma erupção. Fios grossos e sedosos, de um branco fantomal, irrompendo dos poros como grama acelerada em um filme. Cobriam seus antebraços, seus braços, subiam por seus ombros em um tremor de formigamento insano.
Sua mandíbula doía. Uma dor profunda, enraizada, como uma dor de dente do siso multiplicada por cem. A pressão aumentou, tornou-se insuportável. Com um último, horrível CRACK que ecoou pela floresta silenciosa, a estrutura de seu rosto cedeu. O focinho se alongou, seus dentes caninos, sempre um pouco salientes, explodiram em tamanho, tornando-se presas que pressionavam seu lábio inferior. A língua, mais longa, sentiu o ar frio e o sabor primordial da floresta — sangue, medo, podridão, vida.
A transformação foi uma maré que a arrastou, afogando Lara, a garota, e trazendo à tona algo mais.
Quando ela se levantou — e foi um levantar quadrúpede, desajeitado e poderoso —, já não era Lara.
Era uma criatura. Mais alta, mais larga, músculos cordosos recobertos por uma pelagem branca de inverno eterno. Em seus olhos, que viam o mundo em tons de cinza, amarelo e calor, brilhavam duas luas âmbar, pulsando com uma fúria recém-nascida e confusa. Era a forma Crinos. O Homem-Lobo em sua glória aterrorizante.
E no centro daquela tempestade de carne e osso, um pequeno núcleo de consciência — Lara — gritava, aprisionada.
“Monstro.”
A palavra ecoou na câmara de seu novo crânio. Não era um pensamento, era um fato. Ela era a coisa assustadora. O cheiro de fome agora vinha dela também, misturado com o cheiro doce e metálico de seu próprio terror.
E então, viu a Sombra novamente.
A entidade de vazio pairou diante da criatura, sem medo. Seu vazio parecia agora interessado. A fome que emanava dela tinha um novo alvo: não apenas o sangue, mas a própria fúria latente, o poder bruto que Lara-Crinos representava.
A Criatura-Lara, movida pelo instinto mais básico — o de uma presa acuada —, agiu.
Não foi um ataque planejado. Foi um jato de pura energia nervosa. Ela se lançou para o lado, suas novas pernas propulsando-a com uma força que a assombrou. Correu. Não pela trilha, mas através da mata fechada, quebrando galhos, rasgando samambaias, um furacão de pelo branco e pânico. A Sombra não corria atrás. Deslizava. Aparência e desaparecia entre as árvores, sempre à frente, sempre à esquerda, sempre se reformando a partir da névoa que bebia sua própria respiração ofegante e quente.
A consciência de Lara, dentro da besta, era um filme em câmera lenta. Ela via o mundo através de uma lente de adrenalina e horror. Cada cheiro era uma história: o medo de um roedor sob as folhas, a morte lenta de um tronco, a umidade doce de um cogumelo venenoso. Cada som era uma sinfonia de ameaças: o estalo de um galho (a Sombra?), o grito distante de um pássaro (um alarme?), o próprio sangue batendo em seus ouvidos aguçados (um tambor fúnebre).
“Isso não é real. Isso não é real. Isso não é real.”
O antigo mantra, usado para afastar ataques de pânico nos corredores da escola, soava ridículo agora. Era real. A dor havia sido real. As presas que sentia contra sua própria língua eram reais. A força bestial que movia este corpo que não era mais seu corpo era real.
E a fome… uma nova fome, diferente da da Sombra, começava a roer seu estômago. Não era por comida. Era por… quebra. Por despedaçar aquele vazio que a perseguia, por ouvir ossos (de quem?) estalarem entre suas mandíbulas. A náusea a envolveu, mas era uma náusea impotente, engolfada pela onda crescente de instinto.
Ela correu até a exaustão, até que os pulmões queimavam e os músculos tremiam. Caiu próxima a um riacho, seu pelo branco manchado de lama e lascas de madeira. A Criatura-Lara ofegou, a língua pendurada, as orelhas (grandes, pontudas, móveis) captando cada som. A Sombra havia recuado? Ou apenas esperava?
Foi então que um novo som, eletrônico e dissonante, rasgou o tecido da floresta.
Capítulo II: O Ruído que Rasga o Vazio
O som era um grito de metal, uma estática aguda e constante que parecia vibrar no próprio osso. Para os sentidos hiperagudos da Criatura-Lara, foi como uma agulha de gelo fincada em seu cérebro. Ela uivou de dor instintiva, um som rouco e quebrado que mal saiu de sua garganta.
A Sombra, que começava a se materializar a poucos metros, convulsionou.
O vazio que a compunha pareceu desfocar, suas bordas tremeluzendo como uma chama ao vento. A fome que emanava dela vacilou, substituída por um… desgosto? Uma repulsa primitiva por aquele ruído. A estática era um caos puro, um anti-sinal que corroía sua forma, que lembrava a ela (se é que ela tinha lembranças) de um tempo antes da fome, um tempo de silêncio absoluto e frio. Por um momento, o vazio recuou, dissipando-se na névoa com a relutância de um animal encurralado.
A Criatura-Lara aproveitou a distração. A dor na sua cabeça era intensa, mas o instinto de fuga era maior. Ela se arrastou para trás, para uma moita densa de samambaias e xaxins, e se encolheu. O corpo enorme tremia, não mais de exaustão, mas de algo mais profundo: o choque começava a ceder lugar ao colapso.
E foi no colapso que Lara, a garota, começou a voltar.
Foi como afundar. A besta estava cansada, ferida, sobrecarregada. A consciência animal, que havia tomado o controle no pico do terror e da dor, recuou como uma maré, deixando para trás os destroços da identidade de Lara.
Os estalos voltaram, mas agora em reverso. Uma sinfonia de agonia em diminuendo. Cada osso se recolocando em seu lugar errado, o lugar humano, que agora parecia pequeno demais, apertado demais, uma roupa que não servia mais. A pele ardia onde os pelos se retraíam, deixando para trás uma sensibilidade brutal, como queimadura de sol. Seu rosto retrocedeu, as presas recolhidas, o focinho se achatando em uma estrutura que sentia… insípida. Limitada.
Quando a última contração passou, Lara jazia nua, encolhida na lama fria, coberta de sujeira, sangue seco e uma fina camada de gelo que seu corpo superaquecido começava a dissipar. Tremia incontrolavelmente, os dentes batendo. O cheiro da floresta, antes tão vívido e complexo, era agora um borrão apagado. O mundo parecia surdo, mudo, cego. Era como ter usado óculos de realidade aumentada por uma hora e depois tê-los arrancado.
E então, ouviu passos.
Leves, hesitantes, se aproximando.
— L… Lara?
A voz era masculina, jovem, carregada de um pavor que tentava ser contido pela razão.
Lara tentou se cobrir, se fazer menor, mas seus membros não respondiam. Apenas tremiam.
Leo emergiu da névoa, seu corpo magro envolto em um casaco verde militar surrado. Em uma mão, segurava uma lanterna, cujo feixe tremulou sobre a cena: a garota nua e encolhida, a moita destruída, as marcas de garras profundas na terra. Na outra mão, segurava um rádio de pilha velho, daqueles com antena e mostrador analógico. De seus alto-falantes ainda saía um sussurro de estática, mas ele girou o botão e o silêncio voltou — um silêncio agora opressivo.
Seu rosto, pálido sob o fio de cabelo escuro que caía sobre seus óculos, era um estudo em conflito. Havia medo, sim. Um medo saudável, diante do inexplicável. Mas por cima do medo, havia um brilho de reconhecimento. Um “é claro” mudo, terrível e fascinado.
— Eu… eu ouvi uns sons. Estalos. E um… um rosnado — sua voz falhou. Ele engoliu seco. — Eu estava gravando ali nos trilhos, para o meu canal. Quando ouvi… e vi uma coisa branca… — Ele parou, seus olhos escaneando o corpo de Lara, não com lascívia, mas com uma análise frenética, conectando pontos. — Suas mãos… ontem na escola, você tinha um corte aqui. Agora está… cicatrizado. Demasiado cicatrizado.
Lara tentou falar, mas só saiu um gemido. Sua garganta doía, como se tivesse gritado por horas.
Leo se aproximou, lentamente, como se de um animal ferido. Tirou o casaco.
— Toma. Você vai congelar.
O gesto simples, humano, quebrou algo dentro de Lara. Ela pegou o casaco com dedos que pareciam de outra pessoa, enrolou-se naquele tecido áspero que ainda guardava o calor dele e o cheiro de livros velhos e poeira eletrônica. O calor foi um choque agradável, um ponto de ancoragem na realidade que desmoronava.
— O que… o que foi aquilo, Leo? — Sua voz era um fio de rouquidão.
Leo não respondeu imediatamente. Ajoelhou-se na terra úmida ao lado dela, sua lanterna iluminando as marcas no chão. Ele tirou o celular do bolso, abriu um arquivo de áudio e tocou. Era a gravação que fizera momentos antes: o som do vento, seus próprios passos… e então, um ruído de estática crescendo do nada, seguido por um gemido de interferência que arrepiava a pele. O mesmo ruído que seu rádio produziu.
— Espíritos, ou o que quer que sejam as coisas do Umbral, não gostam de caos puro — ele falou, mais para si mesmo do que para ela. — Frequências aleatórias, ruído branco… bagunça o “sinal” deles. Li isso no fórum de ocultismo. Achei que era bobagem. Até agora.
Ele olhou para ela, e pela primeira vez Lara vê nele não o colega quieto da sala de fundo, o nerd de história urbana, mas alguém que havia passado a vida se preparando, sem saber, para este momento.
— Lara — ele disse, e a seriedade em sua voz a fez estremecer mais que o frio. — Aquela coisa que te perseguia… eu vi. Não totalmente, mas vi o vazio. E eu vi… você… antes de você correr. Não a você de agora. A outra coisa.
Lara fechou os olhos. As lágrimas, finalmente, vieram. Silenciosas, quentes, lavando sulcos na sujeira de seu rosto.
— Eu me transformei — sussurrou, como se confessar um assassinato. — Meus ossos… Leo, meus ossos se quebraram e se refizeram. Eu era… uma…
— Um Garou — ele completou, a palavra saindo de seus lábios com um peso ancestral. — Um lobisomem. Da tribo Wendigo, pelo pelo branco. Provavelmente.
— Como você…?
— Os quadrinhos, os livros, as lendas… não eram apenas histórias para mim, Lara. Eram… um mapa. De um mundo que eu achava que não existia. — Ele pausou, olhando para a névoa que os envolvia, vigilante. — Sua avó… ela era do Norte, não era? Contava histórias?
Um choque percorreu Lara. Memórias fragmentadas: o avô, já frágil, segurando sua mão pequena. “O frio não é seu inimigo, netinha. É sua memória mais antiga. Cuidado com a fome que anda com o gelo. Ela é parasita.” Ela achara que eram delírios de um homem velho.
— Eu sou um monstro — ela disse, a palavra um peso de chumbo em sua boca.
Leo a olhou firmemente.
— Você é uma Garou. Um ser entre mundos. Um defensor. Pelo menos, é o que dizem as lendas que não são só pesadelos. O que você é de fato… — ele encolheu os ombros, um gesto de impotência diante do abismo. — Só você vai poder descobrir.
De repente, Leo se endireitou, alerta. Sua mão foi ao rádio.
— Ouviu?
Lara ouviu. Não com os ouvidos humanos, que ainda pareciam entupidos. Ouviu com algo por baixo da pele. Um chamado. Longínquo, abafado pela névoa e pela distância, mas inconfundível.
Era um uivo.
Não o uivo melodioso de um lobo da TV. Era um som quebrado, cheio de dor e de uma fome que não era por carne, mas por algo mais indefinido e terrível. Era o som de um mundo rachado. O som da Sombra, ou de algo muito pior, lamentando sua presa perdida.
Era um som que falava diretamente à coisa que agora habitava, dormente e aterrorizada, dentro de Lara.
Leo ajudou-a a se levantar. Ela cambaleou, suas pernas humanas fracas e traiçoeiras comparadas às que teve minutos atrás.
— Vamos — ele disse, seu braço firme em torno dela, evitando que caísse. — Não podemos ficar aqui. Ela… ou outras coisas… podem voltar.
Caminharam de volta em direção aos trilhos, aos limites do mundo conhecido. A névoa parecia se fechar atrás deles, apagando a clareira, a moita destruída, as marcas de sua verdade. Lara, envolta no casaco grande de Leo, olhou para trás uma última vez. Para a floresta que não era mais apenas uma floresta, mas um reino de segredos sangrentos.
Ela não era mais Lara, a garota com raiva mudo e ossos desconfortáveis.
Era Lara, a coisa que estalava no escuro. A portadora de uma fome que não entendia. A herdeira de um legado escrito em garras e gelo.
O uivo na névoa se repetiu, mais fraco agora, mas não menos presente. Não era um adeus.
Era um lembrete.
“Eu sei o que você é. E eu ainda estou com fome.”
Leo a apertou mais forte, um ponto de calor humano em um mundo que repentinamente esfriara demais.
— Vamos descobrir isso juntos — ele murmurou, mais uma promessa para si mesmo do que para ela.
Lara não respondeu. Apenas caminhou, carregando dentro de si o eco dos próprios ossos se quebrando, e o silêncio ameaçador que vinha antes da próxima fome.





