Sempre que alguém pergunta qual é a melhor letra da Legião Urbana, surgem os clássicos de sempre. “Faroeste Caboclo”. “Tempo Perdido”. “Índios”. “Pais e Filhos”.
Eu normalmente respondo diferente.
Digo “Metal Contra as nuvens”, “Giz”, Andrea Doria”, “A Fonte” ou “Acrilic On Canvas”.
Não porque sejam a melhorer. Isso seria impossível afirmar quando se fala de Renato Russo. Mas, falando de Acrilic nesse post, porque talvez seja a mais sofisticada. A mais literária. A que melhor traduz uma das maiores mentiras da condição humana: a ideia de que lembramos das coisas exatamente como elas aconteceram.
Não lembramos.
Nós editamos.
Reescrevemos.
Colorimos.
Apagamos.
Pintamos.
E é exatamente isso que Renato faz durante toda a música.
"E era simples, ficamos fortes"
A memória não é uma fotografia
Durante muito tempo acreditou-se que a memória funcionava como um arquivo. Um lugar onde os acontecimentos eram guardados intactos, esperando apenas que alguém abrisse a gaveta correta.
Hoje sabemos que não é assim.
O psicólogo britânico Frederic Bartlett já demonstrava, nos anos 1930, que lembrar é reconstruir. Décadas depois, pesquisas em neurociência confirmaram que cada lembrança é modificada toda vez que é acessada. Ela nunca retorna igual. Recebe pequenas interferências das emoções, das experiências recentes e até das histórias que contamos para nós mesmos.
É impossível ouvir os primeiros versos da música sem pensar nisso.
“Os traços copiei do que não aconteceu.”
Que frase absurda.
E, justamente por isso, verdadeira.
Existe uma enorme diferença entre aquilo que vivemos e aquilo que contamos sobre o que vivemos.
Quem nunca terminou um relacionamento sabe muito pouco sobre esse mecanismo.
Quem já terminou conhece o processo inteiro.
Primeiro vem a dor.
Depois a culpa.
Depois a necessidade quase biológica de reorganizar tudo até que faça sentido.
O ateliê da saudade
O mais fascinante em “Acrilic On Canvas” é que Renato nunca fala diretamente sobre o relacionamento.
Ele descreve apenas a construção da obra.
Os lençóis.
A madeira da janela.
O portão.
Os cabelos transformados em pincéis.
O batom queimado virando carvão.
As lágrimas destiladas em óleo de linhaça.
É um inventário de ruínas.
Lembrei imediatamente de um conto de Jorge Luis Borges em que um homem decide reconstruir um império inteiro apenas usando a memória. Não importa se o império existiu exatamente daquela forma. O importante é que ele continue existindo dentro de alguém.
É exatamente isso que acontece aqui.
O relacionamento acabou.
Mas seus restos continuam produzindo arte.
Todo escritor faz isso.
Todo quadrinista faz isso.
Todo músico faz isso.
Alan Moore já comentou que toda criação artística é uma forma de magia. Não no sentido sobrenatural da palavra, mas porque ela altera a percepção da realidade. Uma história muda quem a lê.
Renato faz algo semelhante.
Ele pega destroços emocionais e transforma tudo em pintura.
O narrador mente.
Mas não mente para nós.
Mente para si mesmo.
Essa talvez seja a maior genialidade da letra.
Durante boa parte da música acreditamos que estamos ouvindo uma narrativa relativamente confiável.
Então surge a pergunta devastadora:
“Mas então, por que eu finjo que acredito no que invento?”
Ali o chão desaparece.
Todo o quadro que acabamos de admirar era uma reconstrução.
Ou pior.
Uma ficção necessária.
Talvez seja impossível sobreviver a certas perdas sem inventar versões suportáveis delas.
A repetição das desculpas
Existe outro detalhe que sempre me chamou atenção.
“Não foi por mal.”
Renato repete essa frase tantas vezes que ela perde completamente o valor.
Ela vira um ruído.
Uma oração.
Uma tentativa desesperada de convencer alguém.
Só que esse alguém provavelmente não é a pessoa amada.
É ele próprio.
Quem nunca ficou repetindo mentalmente uma conversa antiga, tentando encontrar uma frase melhor, talvez não perceba o peso desse refrão.
Quem já fez isso entende imediatamente.
As desculpas não são dirigidas ao outro.
São dirigidas ao espelho.
Flores que carregam histórias
O encerramento é uma pequena obra-prima.
“Amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim.”
Não são flores escolhidas ao acaso.
O amor-perfeito, apesar do nome, sempre carregou simbolismos ligados à lembrança e à contemplação do amor idealizado. Já a pequena flor conhecida como “não-te-esqueças-de-mim” atravessa séculos da tradição europeia como símbolo da memória, da permanência e da saudade. Segundo uma antiga lenda alemã, um cavaleiro teria sido levado pela correnteza enquanto colhia essas flores para sua amada. Antes de desaparecer no rio, gritou apenas: “Não te esqueças de mim.”
Renato encerra a música justamente tentando pintar essas flores.
Como se toda aquela tela fosse uma tentativa desesperada de impedir que alguém desaparecesse completamente.
Literatura, quadrinhos e as pessoas que continuam morando na nossa cabeça
Sempre que escuto essa música lembro de Sandman.
Não por acaso.
Em uma das melhores passagens da série, Sonho afirma que as histórias permanecem mesmo quando as pessoas desaparecem.
Também lembro de Marcel Proust, que transformou uma simples madeleine em uma viagem de milhares de páginas pela memória.
Ou de Neil Gaiman, que escreveu certa vez que as coisas nunca acontecem apenas uma vez. Elas continuam acontecendo toda vez que alguém as conta novamente.
A memória é isso.
Um contador de histórias pouco confiável.
O quadro impossível
Talvez “Acrilic On Canvas” não fale sobre um amor perdido.
Talvez fale sobre qualquer perda.
Um pai.
Uma mãe.
Um amigo.
Uma cidade onde já não moramos.
A infância.
A casa que foi vendida.
Os discos de vinil.
O cheiro da cozinha da avó.
O primeiro videogame.
O bairro que desapareceu sob novos prédios.
Passamos a vida inteira pintando versões dessas coisas.
Às vezes acertamos uma cor.
Às vezes inventamos outra.
No fim, pouco importa.
Porque a arte nunca prometeu reproduzir a realidade.
Ela apenas tenta responder à pergunta que a memória nunca consegue responder sozinha:
“O que realmente aconteceu?”
E talvez a resposta mais honesta seja justamente aquela que Renato Russo deixou escondida no meio da música.
“Nada disso aconteceu assim.”
Talvez nunca aconteça.
Mas continua sendo verdade.
Porque existem verdades que pertencem aos fatos.
E existem outras que pertencem à saudade.







