Falta 1 mês.

Trinta dias parecem pouco quando você está esperando uma encomenda, e parecem eternos quando você está esperando o fim de uma vida.

Rafael aprendeu isso olhando para o calendário da cozinha.
O quadrado vermelho marcado em tinta azul de uma esferográfica no último dia.
Um círculo simples de caneta, mas pra ele círculos sempre tiveram alguma coisa de ritual. De magia. De prisão.

Engraçado como quase tudo importante na vida é circular.
Alianças. Relógios. Pupilas. Copos de bebida.

Ele pensou nisso enquanto observava o café com leite girar lentamente dentro da xícara. O movimento escuro/claro formando um pequeno universo líquido. Uma galáxia amarga com cheiro de manhã cansada.

Clara dormia no quarto.
Ou fingia dormir.
Os dois tinham aprendido a fingir paz para não fabricar terremotos.

Um mês.

Ele lembrava do começo.
Da casa sendo contruída.
Do colchão no chão quando pintou o quarto.
Do ventilador até que bem silencioso tentando empurrar o calor de São Bernardo pra fora da janela.
Ela ria fácil naquela época.
Ele também.

Agora os dois riam baixo, como quem pede desculpas por ainda existir dentro da mesma casa.

Rafael abriu a geladeira sem fome.
Ficou olhando a luz branca bater nas garrafas plásticas de água.
O cérebro fez a associação automática.
Cerveja.
Latinha gelada.
Barulho do alumínio abrindo.
O primeiro gole descendo igual perdão falso.

A vontade ainda existia.
Isso ninguém conta direito sobre vício.
Não é um demônio gritando dentro da cabeça.
Às vezes é só uma saudade pequena.
Quase romântica.

Como sentir falta de uma pessoa tóxica.

Ele fechou a geladeira rápido.

No quarto, Clara virou de lado.
Ela fazia isso quando estava acordada e queria parecer distante.
Rafael conhecia seus movimentos como quem conhece as manchas na pintura da casa.

Esse é o problema dos relacionamentos longos:
a pessoa deixa de ser mistério e vira geografia.

Você aprende onde pisa sem fazer barulho.
Onde dói.
Onde desmorona.

Ele deitou ao lado dela sem tocar.

Houveram tempos de distância, e tempos de mais proximidade, um tempo em que dormiam com calma e paz, um tempo com roncosirritantes igual música barulhenta do vizinho.
Agora havia mais espaço entre os dois.
Uma cordilheira de altura e continente emocional inteiro.

Mesmo assim, o calor e o aroma dela ainda atravessava.

E isso destruia um pouco Rafael por dentro.

Porque o corpo não entende pactos.
O corpo não entende calendário.
O corpo ainda amava.

Talvez amar fosse isso:
uma inteligência burra da carne.

Rafael suspirou alto.

Clara abriu os olhos no escuro.

— O que foi, você tá bem?

Ele riu fraco.

— Tô sim, só pensando demais.

Ela virou o rosto pra ele.
O cabelo rosa espalhado no travesseiro parecia tinta dissolvendo na água.

— Não precisa achar que vai salvar tudo, é melhor assim.

Mas ele precisava tentar.
Ou melhor, achava que precisava.

Porque gente como Rafael crescem acreditando que amor é obra.
Construção.
Reforma eterna.
Carregar cimento emocional nas costas até morrer soterrado.

Clara não.
Clara enxergava o amor como jardim.

E jardins acabam.
Mesmo quando são bonitos.

Principalmente quando são bonitos.

Lá fora, um cachorro latiu pra alguma coisa invisível.
A cidade respirava insonia, pela rua um alarme de carro tocava sem parar.
Uma mnoto passou longe fazendo alarde.
Alguém via TV numa casa próxima.
Alguém chorava.
Alguém provavelmente despertava um gatilho.
Alguém nascia.

São Benardo nunca fica em total silêncio porque culpa também não dorme.

— Você tem medo? — ele perguntou.

Ela demorou pra responder.

— Tenho.

— Do quê?

Clara olhou o teto.

— Da gente continuar além da hora.

Aquilo entrou nele pior que faca.
Porque fazia sentido.

Tem coisas que apodrecem quando permanecem tempo demais.
Frutas.
Flores.
Alguns amores.

Rafael percebeu então que talvez o pacto dos treze meses não fosse uma sentença.
Talvez fosse misericórdia.

Como desligar os aparelhos de alguém que já sofreu demais.

Ele fechou os olhos.

Pensou no primeiro beijo.
No primeiro dia de home office juntos.
Na primeira crise de ciúme internalizada.
Na primeira vez que Clara chorou por causa dele.
Na primeira garrafa escondida.
Na última.

A mente dele não passa é uma casa mal-assombrada construída com ecos.

E amar alguém por muitos anos significa aceitar morar nesse lugar.

Clara segurou a mão dele no escuro.

Só segurou.
Sem promessa.
Sem futuro.
Sem esperança cinematográfica.

Talvez aquilo fosse o amor adulto.

Não a permanência.
Mas a delicadeza diante do inevitável.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.