O Castelo da Soberba

Eryon chegou ao alto da colina quando o sol se escondia, tingindo de carmim as muralhas do castelo. Era uma fortaleza erguida não de pedra, mas de vaidade: cada torre refletia o ouro roubado dos súditos, e cada bandeira ostentava nomes que ninguém lembrava.

Ali vivia o General da Soberba, senhor de mil vitórias e de nenhuma memória.

O andarilho-poeta ajustou a lira de prata junto ao peito. O vento frio trazia um murmúrio, como um verso perdido:

“Se fores tu também soberbo, não vencerás.
Se fores só ódio, serás igual ao inimigo.”

Mas dentro dele queimava uma chama difícil de apagar. Desde a infância, Eryon carregava a cicatriz de ver sua aldeia queimada pelo Império. A cada passo, a lembrança voltava — gritos, fumaça, ferro. E se perguntou: “Luto por justiça ou por vingança?”

O castelo abriu-se em silêncio. Guardas de armaduras brilhantes se ajoelharam diante do General, um homem alto, coberto de ferro dos pés à cabeça. Não se via rosto, apenas o reflexo distorcido de quem ousasse olhar.

“Poeta insignificante”, trovejou o General. “As palavras não alimentam. São as espadas que decidem os destinos.”

Eryon respirou fundo.

Sabia que não podia vencer pela força — o metal esmagaria a carne. Então dedilhou a lira. Uma melodia nasceu, frágil como uma chama na tempestade. Era um canto antigo, aprendido de sua mãe, quase um trovadorismo esquecido.

“Mais alto que muralha é o coração.
Mais forte que espada é o perdão.
Rei nenhum é dono da eternidade,
Pois até os tronos se rendem ao tempo.”

As notas ecoaram pelas torres. As pedras tremeram. O ouro perdeu o brilho. O General, atônito, viu sua armadura começar a enferrujar. Cada acorde arrancava-lhe um pedaço da máscara: primeiro os ombros, depois o elmo, até revelar não um gigante, mas um velho frágil, consumido pela própria arrogância.

“Não… eu era eterno…” — murmurou, antes de se desfazer em pó.

O castelo ruiu, como se nunca tivesse existido.
Eryon caiu de joelhos, exausto. Não sabia se havia derrotado o inimigo ou apenas um reflexo de si mesmo. Pois dentro dele também havia soberba, o desejo secreto de ser lembrado como herói.

Ergueu-se com dificuldade. O vento agora era leve, e no horizonte as nuvens se abriam em frestas de luz.
Seguiria adiante.

Pois se havia aprendido algo naquela noite, era que a maior batalha não estava contra muralhas de ferro, mas dentro do próprio peito.

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