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Os Ossos do Imperador – 3 – Os Atentados

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes! Aqui as partes 1 e 2! 😉

V – Os atentados

Entra o Comandante, usava o fardamento de gala do exército, com inúmeras medalhas no peito, pensei comigo: “Ele não quer chamar a atenção e parece uma árvore de natal.” Fiz-lhe a continência e ele:

— À vontade, Soldado! Decorou bem o caminho? – Eu disse que sim e ele continuou: — Vamos devagar, temos bastante tempo. – Olhou para mim e disse: — Soldado traga esta caixa.

Olhei para ela e vi que estava embrulhada para presente, não era muito grande, mais ou menos 80 x 80 centímetros, peguei-a e era pesadíssima, quase não aguentei, pensei: “O que tem aqui dentro?” Não perguntei, mas dona Marta esclareceu:

— Pesado, não? É uma peça antiga em bronze, raríssima, presente para a Maria do Carmo, tenha cuidado.

Eu fui colocar a caixa no porta-malas enquanto o comandante e dona Marta sentaram no banco de trás, nem bem entrei no carro e o comandante ordenou:

— Ligue o rádio, quero ouvir as notícias. – Na pressa nem tinha notado que aquele carro tinha rádio, atrapalhei-me um pouco até que consegui e o comandante voltou a ordenar: — Essa emissora não, a outra mais à direita.

Pensei comigo: “Tanta preocupação e esse chato fica ‘enchendo o saco’ com rádio!”

Liguei o carro e saí, nem estava prestando atenção no que diziam no rádio até que o comandante falou:

— Meu Deus, a coisa está feia.

Só então me interei que o locutor falava dos últimos acontecimentos nos Jogos Olímpicos de Munique.

(Coincidentemente, naquela ocasião aconteciam os Jogos Olímpicos e, na manhã de 5.9.72, terroristas palestinos do grupo “Setembro Negro”, entraram no alojamento dos atletas israelenses, resultando na morte de 19 pessoas e muitos feridos, no que ficou conhecido como “A Tragédia de Munique”).

Tentei prestar atenção no rádio, mas um carro atrás de nós me chamou a atenção, já o tinha visto em outra rua que passamos, era um Corcel de quatro portas e estava cheio de homens dentro, falei:

— Comandante tem um carro estranho nos seguindo.

O comandante virou-se para trás perguntando:

— Não é nosso pessoal? – Eu disse que não, pois tinha visto nosso pessoal e eles estavam em um carro maior tipo Veraneio. Ele ordenou: — “Pisa fundo” e trate da sair do roteiro o mais rápido que puder.

Obedeci, acelerei o mais que pude, entrei em uma rua estreita toda esburacada, virei em outra mais longa, mas não menos esburacada e pude notar que o Corcel continuava nos seguindo, até que ouvi disparos de arma, gritei:

— Abaixem! Estão atirando! Cadê nossa “cobertura”?

Só aí vi que a Veraneio apareceu bem na nossa frente, saindo de uma rua transversal e o Comandante ordenou:

— Continua, continua que o nosso pessoal toma conta deles.

Pude ouvir mais alguns disparos de arma, mas a rua tinha uma curva e não vi mais nada, continuei em alta velocidade, entrei em outra rua, tentando me localizar, mas não sabia onde estava até que passei por um enorme buraco, o carro pulou tanto que dona Marta subiu até o teto, bateu nele e voltou e o carro começou a fazer um barulho estranho, a direção ficou “boba” e tive que diminuir a velocidade, o Comandante logo perguntou:

— Porque diminuiu a velocidade?

Respondi:

— A suspensão quebrou, vou ter que parar, o senhor desce do carro e procure abrigo que darei cobertura.

Parei o carro e desci, ao mesmo tempo tirava a arma do coldre e lembrei-me do Sargento: “— Não se esqueça de destravar a arma”.

Posicionei-me atrás de um poste e vi que o Comandante tentava abrir um portão e não estava conseguindo, olhei atrás de mim e havia outro portão, dei-lhe um pontapé com o coturno e o portão abriu, gritei:

— Por aqui.

E o Comandante veio carregando a esposa, ela mal andava e sua testa estava sangrando, então perguntei:

— Tudo bem com ela? – Ele respondeu que sim, e que continuasse atento à rua.

Incrivelmente, àquela altura, tudo ficou quieto, ninguém na rua, nada, saí de trás do poste e olhei pelo portão e não vi ninguém, pensei: “O Comandante deve ter entrado na casa”; só então me dei conta que tinha deixado o carro ligado e ainda funcionava, era o único barulho que se ouvia até que vi um homem andando e olhando para o carro, instintivamente apontei a arma para o seu peito e, por muito pouco não atiro, até que percebi tratar-se de um transeunte qualquer e gritei:

— Sai, sai daqui, o senhor está correndo perigo. – O homem hesitou um pouco e saiu correndo.

Passou algum tempo e nada mais aconteceu até que chega o Comandante perguntando:

— Tudo bem? – Eu disse que sim e ele continuou: — Já chamei ajuda por telefone, aguente firme.

Já ia voltando para a casa e eu perguntei-lhe:

— E dona Marta?

Ele respondeu:

— Machucou a testa, um belo “galo” e um pouco tonta, mas tudo bem.

Logo o local estava cheio de viaturas militares com muitos soldados, todos armados com fuzis e metralhadoras e um Sargento me perguntou pelo Comandante.

Indiquei que estava dentro da casa e ele, olhando para o Opala, comentou:

— Parece uma “peneira”; todos estão bem?

Só então reparei que a traseira do Opala tinha diversas perfurações de bala, aí “caiu a ficha”, minhas pernas começaram a tremer, nem respondi ao Sargento, sentei no chão, deixei a arma de lado e assim fiquei por um bom tempo até que o Sargento pegou a arma e me devolveu, deu-me uns tapinhas no ombro e disse:

— A primeira vez é assim mesmo, você se acostuma. – Saiu e entrou na casa.

Quando ele retornou eu já estava “recuperado”, aí eu disse:

— Vamos precisar de outro veículo. – Ele respondeu simplesmente que já estava sendo providenciado e seguiu em direção aos demais soldados, dando ordens aqui e ali.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Contista, Cronista, escritor e poeta, não necessariamente nessa ordem.