Segunda-feira de manhã

passaro maracatu

O descontrole é grande. Cada piscada traz uma miríade de imagens caóticas, é um alegre e pitoresco carnaval noturno com sons bizarros de pessoas deformadas e sexo interespécies. Vejo – passeando – coloridas plumas, fantasias de fita que lembram o maracatu. Ao longe, uma guerra de sombras com fundo de cores alaranjadas mostra-se no horizonte, onde soldados escalam montanhas cercados por drones em formação de ataque. Olhos verdes destacam-se no rosto de um soldado que me atinge com uma coronhada, uma briga generalizada, a música e as bombas do outro lado do morro lançam torres de fogo em prédios abandonados.

Eu fico indo e vindo dessa dimensão do caos, cada piscada me manda alguns segundos nesse mundo. Aqui, no escritório de mesas brancas, paredes assépticas e vidros com isolamento acústico, as cortinas-pálpebras me puxam para o caos, onde me arrastam por ruas de lama. Um homem gentil de dentes tortos me passa uma garrafa, tento beber a aguardente, mas ela não tem gosto nem forma física, é apenas uma gosma-fumaça ectoplasmática.

Quando ingiro a gosma que flutua no ar, as idas e vindas entre as realidades se tornam frenéticas e confusas, deixando-me com náuseas, impedindo que eu continue a escrever e a ver mais desse local de opressão/comemoração/caos. E quando volto, estou me afogando em lama, lutando contra soldados e percebendo as criaturas-ave-maracatu que tentam me arrastar.

Falta-me o ar, quase não vejo mais nada, ouço as explosões ao longe, a música se foi, afogo-me com dificuldade de respirar, os movimentos difíceis, percebo que vou deixando de existir nesse mundo e volto ao escritório de paredes brancas, com dificuldade de respirar.

Depois apareço em um gramado, está de dia, sinto a grama, olho o céu com azuis impossíveis, consigo ver um vilarejo medieval na base do morro, sobe fumaça, deve haver comida, levanto e começo a flutuar, vou planando naquela direção.

E o voo me eleva ao Vazio. Uma sensação leve de quase não-ser, é agradável, mas estou ancorado por algo imaginário que me faz voltar ao escritório.

Preciso de um café.

Pássaros maracatu e soldados ao longe.

A fotografia

A fotografia, por Sara Santos

Só ficou possesso quando a tinta da caneta vermelha que usava para fazer suas contas acabou. Soprou, esfregou, chacoalhou… Nenhum traço saiu daquela esferográfica.

Jogou-a pela janela do apartamento desejando que caísse na cabeça de alguém. É claro que uma caneta não faria tanto estrago assim, mas queria descontar a raiva daquele momento de algum modo e isso foi o máximo que sua imaginação pouco criativa conseguiu criar para aquele momento.

Não teve escolha, teve que ser mais forte que sua preguiça e levantar-se para procurar outra caneta. Melhor irritar-se procurando na bagunça de suas gavetas do que sair e encontrar pessoas… falar com elas…

Revirou seu apartamento já revirado e tudo que encontrou foi uma fotografia velha. Uma mulher. Não sabia ou não lembrava quem era. Colocou-a no bolso da calça. Aproveitou para procurar algumas moedas e, encontrando-as, saiu para comprar outra caneta.

Voltou da rua com a compra em mãos, na manhã seguinte. Passara a madrugada perambulando pela cidade, bebendo a custa de conhecidos e desconhecidos. Não os chamava de amigos.

Ligou o rádio. Ouviu apenas a introdução de uma música e sentiu-se só. Fechou os olhos e não os abriu até que se passasse a vontade de chorar. Dormiu no sofá.

Mulher e música se misturavam num sonho de stop motion que ele não conseguiria explicar, até porque o gesto de esfregar os olhos assim que acordasse o faria esquecer daquela que amara.

Continuando a caminhar no sonho em quadros recortados ao som do rádio, viu que a mulher em preto e branco vinha em sua direção para beijá-lo.

Acordou vasculhando os bolsos da calça; aliviado por encontrar a esferográfica azul, voltou a fazer suas contas.

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Sonho – Ônibus

Troleibus-sao-bernardo-do-campo

O ônibus andava por um destino comum a mim, olhei pela janela e vi parte do centro da minha cidade passando, uma lua ao fundo, olhei para o meu lado e vi uma amiga antiga, ela falava algo sobre os Beatles, eu só olhava pra ela e estava tão feliz em poder ter alguém assim do meu lado que nem pensava em nada, apenas vivia o momento, só que isso foi tão exagerado que acabei esquecendo de prestar atenção ao que ela falava, então não lembro de uma palavra.

Um professor meu aparece com um cachecol verde, conversamos, mas o que me deixa atento é que estamos em um outro banco do ônibus, agora do lado direito, meu braço em torno dela, ela confortavelmente se encaixando em meu corpo (minha mão esquerda entre sua cintura e sua bunda, vai brincando nessa área) e conversamos com ele sobre algo, o que me marca é a risada minha e dela.

Passando no paço da minha cidade o ônibus segue, passamos de novo pela mesma parte que foi no começo do sonho, eu percebo aí que é sonho.

Aparece uma carteira perdida do professor que sumiu, uso-a pra conversar com a garota que está sentada no meu colo e que sinto levemente o cheiro de seu pescoço, beijo de leve, mesmo sabendo que não é real, pergunto:

– Viu de quem era essa carteira?
– Hã… Não… De novo…

Abro a carteira e só vejo documentos meus ali… O pouco de ilusão que eu tinha vai se dissolvendo, não consigo mais sustentar o sonho.

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Sonho – Festa

Sonho - Festa

A festa estava rolando a tanto tempo que era difícil lembrar de como ou quando cheguei até lá.

Pessoas seminuas espalhadas por uma grande sala, uma piscina de onde eu vinha, música alta, cheiro de bebida, sexo e cigarros de vários tipos, todos meio bêbados, era dia ainda, mas parecia final da tarde, noite, calor.

Eu a vi no elevador, ela estava com sua bolsa, parecia que ia embora, eu corri e não consegui pegar o transporte, fui pelas escadas, a encontrei no estacionamento.

-Você vai embora assim? Sem nem dar tchau? Nós viemos juntos, pô!

-É, eu sei… Mas é que… tem gente me esperando.

-Ah! Marcou um encontro com alguém e vai me deixar aqui? Você era minha carona. Se eu soubesse tinha combinado com alguém, pqp… Não dá pra confiar em ninguém mesmo…

-Desculpa… Eu queria seu bem só…

-Meu bem? Me deixar aqui assim, sem ter nem como ir embora?

-Você tava se divertindo tanto…

-É… Tava mesmo e agora já era.

-Quer ir, eu te levo?

-Bora.

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No carro (conversível, vermelho):

– Você disse que ia encontrar alguém… Quem era mesmo?

– Ahhh… Quer mesmo saber?

Silêncio, troca de olhares, ela entende o sim.

– É o $%$%¨&&¨¨%¨ &¨%#%.

-Puta… Tinha que ser esse cara… Vai, cansei dessa merda, me deixa aqui mesmo. Vai! PARA ESSE  CARR————————

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Sonho – Acordar

Cabine telefônica - Sonho - Acordar

I

Em uma cabine telefônica alguém tenta convencer que é outra pessoa, alguém que morreu um ano antes de nascer, ele se veste como tal, se comporta e fala como tal, mas sua aparência é outra. Ele fala sobre realidades que se comportam como engrenagens e que se, uma delas falha, pode comprometer todo o sistema.

Corta a cena.

II

Dois mergulhadores estão de frente a uma espécie de gaiola de metal de formato arredondado, estão bem fundo, dessa gaiola sobe uma corrente do que parece ser um buraco no fundo de algum tipo de ilha flutuante. Dentro da gaiola tem uma bola de luz que parece contida ali, essa luz parece viva, um dos mergulhadores olha com atenção e ela parece mostrar imagens aleatórias, de pessoas diversas. Eles abrem a gaiola, a luz se dispersa em uma espécie de explosão silenciosa, eles sentem o impacto, que é leve, mas é claro que a energia passa por eles. Um dos mergulhadores começa a olhar para o alto e ali ele começa  a ver uma outra realidade, começa a me ver e eu o vejo, parece que a película entre nosso mundo e o deles estivesse mais tênue agora.

Eu acordo.

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Sonho – Ela

Para o homem que já tem tudo - cena - Sonho - Ela

Eu, saindo do trabalho em uma empresa muito boa aqui da região, fazia pouco tempo que eu estava lá, mas já bem integrado com os colegas, trabalho cansativo, mas feliz.

Ela me espera na esquina, no carro, eu me despeço do camarada que vinha junto comigo, entro no carro, nos beijamos, sorrimos, sinto a pele do meu braço se arrepiar de felicidade, ponho o cinto e o carro sai.

Estamos deitados, é meu quarto, estamos nus, abraçados, é o meio da noite, eu reforço o abraço, ela está de costas pra mim, estamos de conchinha, sinto o cheiro de seu pescoço, ela move seu quadril pra se encaixar melhor no meu, eu sorrio.

Tudo era tão perfeito, até difícil de acreditar.

Acordo, a luz da janela clareia o quarto, ela dorme, eu acho que nunca me senti tão feliz antes, passo a mão no ombro nu dela, e o aroma dela…

Ela se move, eu tiro a mão pra não acordá-la, me levanto um pouco e olho seu rosto, ela é tão linda, sua pele da cor dos primeiros raios da alvorada, começo a prestar mais atenção em uma pintinha que ela tem, e vejo que não consigo focar nela, olho pro seus olhos se abrindo, mas não consigo ver direito, seu queixo parece meio embaçado, sua pele vai mudando, aí eu percebo as nuances diferentes que aparecem ali, os padrões.

Ela acorda, eu já estou me afastando aí, chorando, ela olha pra mim, ela entende, me abraça, forte.

— Eu te amo…

O que vem do sonho pra realidade são minhas lágrimas, nada mais.

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Pós-sonho – Veja, eu recomendo pra quem quer ver um exemplo do tipo de sonho que eu tive.

Liga da Justiça – Para O Homem Que Já Tem Tudo

A diferença é que eu não tenho um Mongul pra socar.

Abraço.

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Sonho 002

Fogo

 

Cena 01

Estávamos eu e mais uma amiga em sua casa, final de tarde, o sol quase posto e as luzes da cidade se acendendo. Na laje da casa dela apreciávamos a “bela” vista do bairro suburbano quando vimos um grupo de 25, 30 pessoas caminhando apressadas, usavam uniformes de uma fábrica próxima e traziam pneus, alguns carregavam nos braços e outros em carrinhos de mão, uma pilha enorme rapidamente era formada no beco.

De onde nós estávamos era quase certo que não podíamos ser vistos, paramos de conversar e observamos. No final da turba estavam três sujeitos que parados apenas observavam a cena.

Eles eram estranhos, havia um brilho avermelhado nos olhos. Assim que os outros terminaram a pilha os três de olhos vermelhos sacaram estranhas armas e atiraram. Ficamos atônitos. As armas soltavam raios que “desmanchavam” partes das pessoas atingidas, sobrando apenas massas disformes.

Do grupo que carregava pneus sobraram 5 que se uniram aos outros 3 e juntaram os restos dos operários jogando pedaços de roupas, ossos e carnes deformados sobre a pilha.

E eles correram de lá.

Cena 02

Eu e minha amiga corremos pelos corredores de um bairro simples, era dia, conseguimos entrar em uma casa, fazia silêncio dentro e fora, cautelosos, fomos para a cozinha, procurei algo na geladeira, estava com sede e fome. Dividimos um pedaço de queijo sem falar.

Ouvi passos vindos de um cômodo próximo, alguém estava se aproximando, procurei onde nos esconder, mas não houve tempo, a porta se abriu, era um senhor de cerca de 50 anos, ele tinha um pé de cabra na mão, olhei seu olhos, não eram vermelhos.

Cena 03

Eu, minha amiga, o Sr. e sua neta de 10 anos ouvimos o som de correria da rua, corremos para nos esconder, mas a curiosidade era mais forte, ficamos em um dos quartos onde podíamos ver um pouco do que acontecia em uma fresta na janela. Pessoas correndo. Os “ciclopes” correm e atiram, vemos as pessoas se desmanchando, não podemos fazer nada. A neta vê que um amigo dela está correndo, ela não aguenta a impotência e tenta correr pra ajudar, o velho a segura, ela escapa, fico apreensivo, o velho desesperado, nós a seguimos.

Quando ela chega na rua os ciclopes já passaram em sua perseguição, e ela mostra com suas mãos o que parece ser a maior parte do que sobrou de seu amigo… Um tênis com parte de seu pé derretido dentro.

Cena 04

Voltamos para a casa dela para pegar algo, é noite, a cidade está apagada, a não ser por grandes fogueiras em diversos pontos da cidade formadas pelas pilhas de pneu e restos mortais de nossos vizinhos, amigos e parentes. O velho está ferido, é provável que não sobreviva, logo seremos apenas três, eu, minha amiga e a criança.

Em meus devaneios enquanto aguardamos o momento de partir me pergunto se essas fogueiras vistas do céu formam alguma imagem bonita.

Fim.

Sonho 001

Oi!
Sonhei com você de sábado pra domingo!

Eu estava em uma espécie de festival artístico, tinha teatro e música e leituras, e foi durante o dia todo, o lugar parecia uma universidade e ao mesmo tempo um parque, lembrava um pouco a escola onde estudei o segundo grau, mas de proporções maiores, lembrando a USP, mas não era plano o terreno.

Em determinado momento, quase no final do dia, eu passava por uma biblioteca com enormes janelas de vidro e encontrei você, conversamos e começamos a andar, você sempre ao meu lado, segurando meu braço. Fomos a um teatro onde uma banda tocava (Ultraje, eu acho). Muita gente, animação total, diversão e alegria. Depois ficamos por ali conversando após o show, começava a anoitecer.

 

Depois indo embora nos perdemos, andávamos por locais escuros ainda dentro dos limites do parque/escola, até que encontramos um portão, quase não tinha ninguém, só nós. Saímos em um bairro meio sinistro e você sempre junto a mim, parecia assutada, mas perfeitamente controlada, como se, de certa maneira, talvez por falta de opção, confiasse em mim. Encontramos uma espécie de posto policial/informações, na entrada encontrei um conhecido e fui me informar sobre como chegar ao metrô. Você ficou do lado de fora. Enquanto eu colhia informações, tive a ideia de pegar um táxi, saí pra te procurar e não te encontrei, tentei ligar e nada, e vi que você havia tentado me ligar.

Aí veio o conhecido de antes, me disse que havia te dado carona, porque eu tinha demorado, que você estava nervosa… Ele começou a elogiar sua beleza… Eu não podia acreditar, tentei ligar e nada… Perguntei pra ele, ameaçadoramente, o que ele havia feito e ele, com um sorriso idiota na cara… parti na direção dele, minhas mãos em direção ao pescoço do maldito.

Acordei.



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