Quebrado

Lobo triste

Parece que tem algo quebrado em minha mente

Não consigo respirar.

O suor frio corre pelas minhas costas, dá pra sentir meu coração acelerado, há uma carga elétrica em volta de mim, sei disso pois, quando fui pegar um copo de plástico para beber água, ele foi atraído quando aproximei minha mão trêmula.

Não consigo respirar.

Tento me concentrar em algo, ler costuma me acalmar – tentar desenhar algo ou assistir uma aula seria bom, mas essa tentativa exige muito esforço, a mente quer gritar, quer que eu chore, parte de mim está com muito medo de morrer, parte de mim quer morrer e acabar logo com isso.

Não consigo respirar.

Esse estado de luta constante é cansativo, e tem uma tristeza que cresce, uma espécie de solidão, de não ter com quem falar, olhar ao redor e ver dezenas de pessoas que não me veem, como se eu não existisse, a importância de meu ser é diluída pelas ruas por onde passo.

Não consigo respirar.

Racionalmente eu posso saber que tenho amigos, esposa, familiares que me querem bem, mas eu não me sinto à vontade comigo mesmo, me acho uma farsa, uma caricatura bizarra de quem eu poderia ser.

“Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha”

Clarisse – Legião Urbana

Não consigo respirar.

Quando durmo meu corpo não quer respirar, aí eu acordo em seguida e esse loop se repete, mesmo eu não estando fisicamente doente, acordo às 3 da madrugada e não durmo mais, e no dia seguinte me arrasto pela vida como um zumbi sem alma, tentando apenas atravessar as horas.

A terapia ajuda, longas horas de conversa tentando desvendar e talvez arrumar partes da minha mente quebrada. Não tive grandes traumas, não aconteceu nada demais nesse dia comum, mas é claro que tem algo errado, e vou continuar lutando contra essa parte de mim que me faz querer ser menos.

Essas crises de ansiedade podem ser bem fortes algumas vezes, eu recorro a podcasts ou textos sobre meditação, andei consumindo muito conteúdo budista, de auto-hipnose e mindfulness que tem me ajudado a entender essa fera que me devora por dentro fazendo o simples fato de respirar algo muito complicado de se lidar.

Com calma, com a mente limpa e contando, com foco no meu corpo e no que está ao meu redor eu finalmente consegui respirar.

O observador de formigas

formiga com espada contra formigas

Sempre que chego aqui me acontece uma espécie de rearranjo mental, em que o que até bem pouco era um problemão, transmuta-se em algo semelhante em tamanho, alcance e mobilidade a uma formiga insignificante perdida entre outras formigas.

É assim que meu pensamento caminha quando observo as pessoas deslizando por ruas em geral.

Eventualmente, elas se tornam numerosas a ponto de incomodar. Claro que posso pisá-las, mas eu as deixo andando por aí, em busca de alimento, em busca de algo que dê algum sentido à sua vidinha desgraçada. Não sei por que não piso em todas, ou arranjo algum veneno poderoso vendido ilegalmente em depósitos de material para construção ou pet shops de fundo de quintal.

Temo que elas possam se juntar e vir morder meus pés, fazendo com que eu fique me coçando, e isso é realmente irritante.

Lembro de ter visto um filme quando criança em que uma horda de formigas assassinas aterrorizam uma cidade, devorando pessoas.

Este tipo de coisas só acontecem em filmes, ou em revoluções.

negrinho do pastoreio formiga fantasmaAh! Tem a história do negrinho do pastoreio também, que foi deixado, por seu patrão malvado, em um formigueiro para ser devorado e depois virou uma espécie de entidade sobrenatural em busca de vingança contra o canalha que o havia matado (não me lembro se era sim, mas gosto de imaginar a história com o menino sendo devorado por formigas místicas de um antigo cemitério indígena, voltando dos mortos com poderes de formigas fantasmagóricas).

E agora aqui estou, quase saindo de um buraco da minha existência, onde me enfiei por meses, sem rumo, sem uma luz que me indicasse o melhor caminho a seguir.

Aliás, houve algumas luzes, mas levaram a armadilhas. Decidi confiar então em meus ouvidos e instintos, e nos aromas. Agora sim consigo sentir um pouco melhor as belezas do mundo que se apresenta ao meu redor.

Claro que tudo pode não passar de ilusão. Minha mente cansada do escuro, da solidão, rompeu com a sanidade e criou algo para me fazer viver mais, do desespero criou-se a vida, e, mesmo sabendo da farsa, continuo porque é melhor assim do que a dor da existência nula.

Então crio um mundo, e acabo enchendo-o de pessoas-formigas só pra ter aquele movimento, aquele vai e vem, mas só eu sei que apenas algumas delas são realmente importantes. Só não sei quem são.

 

Uma história de amor na Proclamação da República

Proclamacao da republica detalhe

Recebi de um amigo a seguinte mensagem: “Você que gosta da história da Roma Antiga, saiba que o dia 15 de novembro não se comemora só a Proclamação da República do Brasil, mas também se comemora o dia da Deusa Etrusco-Romana Ferônia, que era a Deusa dos Bosques e Florestas. Pelo menos uma vez te ‘passei a perna’, duvido que você já soubesse disso!”

Então, para não “passar em branco” o desafio dele, escrevi-lhe o texto que vou transcrever abaixo:

“Meu caríssimo, desta vez você me deu uma ‘feroniada’. Confesso, eu nunca tinha visto nem ouvido falar da tal de Ferônia, mas e daí? Que importância isso tem? Já que você tocou no assunto da Proclamação da República, você sabia que uma história de amor foi decisiva para a programação da nossa República?

Não? Então eu vou lhe contar:

Acontece que, por volta de 1883, quando o Marechal Deodoro prestava serviços no Rio Grande do Sul, ele conheceu uma viúva muito bela chamada Maria Adelaide, a Baronesa do Triunfo, e por ela se apaixonou.

Só que ela preferiu o gaúcho Gaspar Silveira e uma rivalidade histórica foi criada entre o Marechal Deodoro e o seu rival.

Ambos seguiram seus caminhos, O Marechal, é claro, sem o seu amor, mas a referida rivalidade entre os dois ‘machos’ persistiu e, sempre que podiam, um ‘cutucava’ o outro, enfim, tornaram-se inimigos declarados.

Em 1889, na época da Proclamação, o Marechal Deodoro tinha a mais alta patente do Exército e, tinha também, muita influência e prestígio nos meios militares; e o Gaspar Silveira, por sua vez, era um influente político da Corte.

Quando os militares do quartel da Praça da Aclamação se amotinaram (na atual Praça da República, no Rio de Janeiro), os interessados na mudança do governo, ou seja: a Igreja Católica, os militares, os cafeicultores, os maçons, entre outros, todos descontentes com a Monarquia, por um motivo ou por outro, viram uma oportunidade de efetivar o golpe militar, mas, para tanto, eles precisavam do apoio do Marechal Deodoro.

O problema é que o Marechal era um monarquista e, até então, não se envolvera nessa questão. Os tais ‘interessados’ tinham que achar uma maneira de ele mudar de lado e viram em sua rivalidade com o Gaspar Silveira, a essa altura já notória e pública, uma forma disso se concretizar.

Então fizeram chegar aos ouvidos do Marechal uma informação de que seu ‘querido’ rival seria o próximo Presidente do Conselho de Ministros (praticamente quem governava), em substituição ao Visconde de Ouro Preto (outro ‘querido’ inimigo do Marechal), e o pior: Que já estava pronta a ordem de prisão dele.

O que de fato aconteceu?

Nunca se comprovou se essas informações que o Marechal recebeu eram verdadeiras ou não, mas o fato é que ela surtiu o efeito desejado pelos republicanos, pois o velho Marechal, mesmo doente, no dia 15/11/1889, montou em seu cavalo e foi até a Praça da Aclamação (onde estavam os amotinados) e, em um gesto teatral, ainda montado em seu cavalo, retirou o seu chapéu militar e gritou: Viva a República! (Esta cena ficaria imortalizada no quadro de Benedito Calixto).

"Proclamação da República" de Benedito Calixto - 1893

“Proclamação da República” (1893). Óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo.

Outro fato interessante é que este gesto ficou conhecido na história como o da Proclamação da República, quando na verdade foi apenas uma demonstração da adesão do Marechal à causa republicana.

A Proclamação propriamente dita ocorreu no dia seguinte quando o Marechal assumiu a presidência do governo provisório. Provisório mesmo, porque seu primeiro ato foi determinar um referendo popular para que o povo aprovasse ou não, por meio de voto, a nova forma de governo.

E, mais interessante ainda, esse governo provisório ‘só’ durou 104 anos, porque somente em 1993 ocorreu o plebiscito referendando, definitivamente, essa forma de governo (este é o Brasil!).

Portanto, diante destes fatos, podemos dizer que o Marechal Deodoro foi mais ou menos ‘usado’ e impulsionado pelo seu coração apaixonado.

Você sabia disso, meu caro?”

Que a Paz esteja com todos,

Darci Men.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

uma mulher no trono papal

Segundo a Mitologia Grega, a primeira mulher veio ao mundo como castigo dos Deuses. Chamava-se Pandora e junto com ela veio a famosa caixa que não poderia ser aberta… mas ela abriu e, consequentemente, trouxe inúmeras desgraças.

Não ficou claro se ela abriu só a caixa ou “abriu mais alguma coisa”, mas o recado machista ficou bem definido…

Também relacionado à Grécia Antiga, vem outro exemplo de machismo:

Segundo os historiadores, em 393 d. C., o Imperador romano Teodósio (347-395), que era cristão, aboliu os Jogos Olímpicos que já existiam há mais de um milênio. Apesar de tais Jogos serem exclusivos dos homens, ele alegou que o evento estava ligado ao paganismo, exaltava o corpo humano e atentava contra a masculinidade.

Outro exemplo de machismo ocorreu na Idade das trevas, mais precisamente por volta de 855 da nossa era.

Segundo a lenda, uma jovem de nome Joana ou Joanne, extremamente inteligente e culta, teria chegado ao Papado com o nome de João VII.

Na época era proibido as mulheres estudarem, então ela “vestiu-se” de homem e foi galgando todos os cargos da Igreja: Monge, Padre, Bispo, Cardeal e finalmente Papa.

Certamente ela era muito inteligente senão não teria chegado aonde chegou. Mas, acima de tudo, ela era um ser humano e uma mulher e como tal acabou se apaixonando por um guarda suíço do Vaticano e dando suas “furunfadas”, acabou por engravidar.

Claro que ela escondeu isso enquanto pôde, mas um dia em uma das intermináveis e cansativas procissões, acabou dando a luz ao bebê em plena rua.

Resultado: a pobre coitada acabou amarrada ao rabo de um cavalo e arrastada até a morte.

Em outra ocasião, em 1859, quando Charles Darwin publicou o seu famoso trabalho “A Origem das Espécies”, sugerindo que o homem descendia dos macacos, foi um verdadeiro alvoroço. A Igreja queria “crucificá-lo” e mesmo a sociedade científica demorou em aceitar suas ideias.

Um de seus colegas, para ironizá-lo, teria dito: “Se ele afirmasse que a mulher descende de um macaco, ‘vá lá’, mas dizer que o homem descende do macaco é demais.”

O que eles não sabiam, e sabemos agora, é que descendemos de poeira estelar e bactérias há “trocentos” bilhões de anos atrás. Mas ainda tem gente que não acredita nisso e é perfeitamente normal que isso ocorra. É difícil alterar os ensinamentos “aculturados” durante anos e anos.

Estes fatos históricos, sendo totalmente verdadeiros ou não, demonstram como tem sido machista a humanidade. Resquícios desse machismo ainda existem em todos nós e é manifestado de várias maneiras.

Assim, cresci aprendendo que o homem, ou seja, o “cabra macho”, não chora, não lava louças, em sua casa quem manda é ele e por aí vai…

Dia desses a minha mulher veio com a seguinte conversa:

— Você tem que fazer o exame da próstata e já marquei com o médico.

Aquilo foi uma terrível notícia, eu sabia que tinha que fazê-lo, mas sabe como é: homem que é homem… Então respondi a ela:

— O que?! Ir lá para o cara meter o dedo no meu “fiofó”? Nem pensar!

Então, como na minha casa quem manda sou eu, adivinhe: fui!

Mas considerando aquele ditado que diz: Integridade é dizer a verdade a si mesmo e Honestidade é dizer a verdade aos outros, e como esse assunto é de interesse geral, vou contar como foi.

Já na véspera quando falei aos amigos a minha terrível missão, começaram as gozações:

— Relaxa, você vai acabar gostando e pedir para voltar – Disse um.

— Trate de levar um espelho retrovisor, nunca se sabe o que o médico vai enfiar lá… – disse outro.

— Cara, isto é como aquela peça de teatro: Trair e coçar, é só começar! – Afirmou outro. E tantas outras piadinhas do gênero.

No fatídico dia fiquei pensando: “Darci, você já passou por tantas situações difíceis nessa vida, não é um mísero dedinho que vai te assustar. Mas e se for um ‘dedão’?”

Bem, lá fui eu e, é claro, levei minha mulher, pois precisava de um apoio moral nesse assustador momento.

O simpático Doutor, já com idade avançada, lá pelos seus 60 anos ou mais, começou com inúmeras perguntas. Fiquei pensando: “Por que tantas perguntas? Por que ele não vai logo aos ‘finalmentes’ e acaba logo com essa agonia de uma vez?”

Depois de inúmeras anotações, ele encostou-se à cadeira, fez uma pausa “estratégica” que parecia uma eternidade, olhou-me fixamente e disse:

— Bem, pelo que você me disse, sua saúde é ótima, então o que o senhor vem fazer em meu humilde consultório em uma tarde de sexta-feira, tão linda e ensolarada? – E já dando a resposta completou com um sorriso maroto: — Já sei! Quer experimentar o meu dedo? Já que está aqui, vamos para a sala ao lado.

Lá chegando já foi dando ordens:

— Deita aí na cama e baixe as calças.

Nessa altura dos acontecimentos, não aguentando mais, falei:

— Doutor, me deixa ver direito essa tua mão, afinal, cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém!

— Não se preocupe – respondeu ele, mostrando-me as suas mãos e continuando: — Veja, são pequenas e não tem nenhum anel ou aliança, vai ser moleza!

— É moleza porque não é no seu! – eu respondi.

Minha mulher que estava na sala ao lado ouvindo a conversa perguntou:

— Posso assistir?

Respondemos em coro:

— Nãaaao!!

A partir daí recuso-me a contar detalhes, mas dá para imaginar…

Depois dessa a época do machismo “já era”. Será?

Pois é, “assim caminha a humanidade”.

Que a paz esteja com todos.

Darci Men

Brasil & Cabo Verde: Irmãos de Almas Agrestes

pés_seca - Brasil & Cabo Verde

TRAIÇÃO DO TEMPO – DINA SALÚSTIO

SÃO BERNARDO – GRACILIANO RAMOS

Brasil e a África possuem muitos aspectos em comum, principalmente com os países africanos colonizados por Portugal e que têm, também, a Língua Portuguesa como língua oficial.

No entanto, as semelhanças não se restringem à língua ou aos costumes que herdamos dos escravos africanos que para cá vieram, as semelhanças são também os problemas sociais como a fome, a pobreza, o analfabetismo e tantos outros que estamos já acostumados a ver noticiados em jornais ou na televisão.

Destacamos aqui uma destas semelhanças: a seca que assola tanto o nordeste brasileiro como as ilhas africanas de Cabo Verde.

No Brasil, a seca, como um dos grandes problemas do país, sempre foi tema de escritores que, preocupados com sua função social, fizeram da miséria causada pela seca, tema de seus contos e romances.

Como uma das semelhanças entre países, a seca em Cabo Verde também é assunto constante na literatura do país.

Muitos autores procuraram mostrar em suas obras os efeitos da seca em seus aspectos físicos e práticos no ambiente, tornando subtemas de seus escritos a caatinga, o gado magro, os rios secos, o homem animalizado em suas atitudes pela fome etc.

Almas agrestes

Entretanto a crônica Traição do tempo da escritora de Cabo Verde Dina Salústio e o romance São Bernardo do brasileiro Graciliano Ramos parecem enfatizar que os efeitos da seca não são sentidos apenas no corpo ou na paisagem, mas também na alma e no humor das pessoas que convivem com ela.

Dina Salústio descreve na sua crônica Traição do tempo como o humor do habitante das ilhas de Cabo Verde parecem estar extremamente ligado com a seca, ou melhor, com a falta da chuva.

A autora conta como o crioulo espera pela chuva olhando para o céu que aparece sempre límpido e sem nuvens e de como essa esperança que não se concretiza vai tornando o crioulo um ser amargo.

Em São Bernardo, Graciliano Ramos conta a história de Paulo Honório e de sua fazenda que dá nome ao romance. A narrativa é feita pelo personagem principal que conta como aquela terra seca tornou-lhe também a alma seca.

Graciliano Ramos demonstra que o ambiente influencia no caráter e na personalidade do indivíduo.

Num dos trechos de São Bernardo em que Graciliano Ramos está apresentando o personagem, este declara sobre si “a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste” e Dina Salústio termina sua crônica com esta frase: “Depois, recuso acordar, temendo enfrentar a cidade seca, as gentes secas, os amores secos.”

Os dois autores demonstram como a seca influencia não apenas os aspectos econômicos e sociais de um país, mas também os humores e as esperanças das pessoas que habitam nele.

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A sombra do burro

A sombra do burro
Relatado por Darci Men

Demóstenes (384-322 a. C.) foi o maior orador ateniense.

Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria, Demóstenes viu-se em apuros pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo.

Então, elevando a voz, disse que tinha uma história interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

— Certo jovem, precisando ir de sua casa até Megara durante o verão, alugou um burro, mas, antes de sair, o sol ficou a pino, muito quente, tanto o moço como o dono do animal alugado, queriam usar à sombra do burro e começaram a discutir quem ficaria com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não sua sombra, e o outro afirmava que, quando pagou o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura, Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se.

A multidão logo protestou desejosa de ouvir o resto da história. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, encarou com firmeza o auditório, dizendo:

— Atenienses! Que espécie de homens sois que insistem em saber a história da sombra de um burro e recusas tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pôde fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da história da sombra do burro.

Até hoje os oradores usam deste expediente quando necessitam atenção da plateia.

Algo parecido aconteceu comigo.

Certa vez fui designado para dar uma palestra sobre segurança patrimonial e pessoal para funcionários de agências do Banco onde trabalhava.

Acontece que o organizador do evento designou-me para falar após a palestra do Professor Marins, um catedrático em comunicação e o homem foi fantástico, e no “Cofee Break” (parada para o café) que seguiu a sua apresentação todos comentavam a sua atuação.

Aí percebi a “roubada” em que tinha entrado: tinha de falar de um assunto chato, não era especialista nisso e falaria logo após aquele show do Professor Marins, e fiquei pensando: “Tenho que apresentar alguma coisa especial ou estou perdido!”

Por sorte lembrei-me de algo que tinha visto nos jornais da época e acabei “salvando o dia”, comecei a palestra nos seguintes termos:

“Pessoal, falar de segurança após esse show do Professor Marins, me fez sentir como o 8º marido da Elizabeth Taylor na noite de núpcias, ele deve ter pensado: ‘O que vou fazer agora para satisfazer essa mulher!’”

Todos aplaudiram e a partir daí tudo ficou mais fácil e no final da palestra o próprio Professor Marins fez questão de me cumprimentar.

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A Lenda do Aparecido

A lenda do Aparecido
Escrito por Darci Men

    Naquela tarde de dezembro de 1974, em uma estrada de terra cheia de buracos e perigos, Seu Quitério, como era conhecido, dirigia sua Perua Rural com todo o cuidado.

Estava feliz e preocupado ao mesmo tempo.

Feliz porque, ao seu lado, juntamente com sua esposa Rosa, estava a sua bela filha Elisabete, a Beta, de 22 anos, depois de um longo período estudando na Faculdade da capital, finalmente ela retornava para sua casa, uma fazenda de gado nos confins da região sul da Selva Amazônica.

Preocupado porque ainda tinha que percorrer mais de 300 km por aquela estrada esburacada e deserta, no meio de uma floresta densa e perigosa, onde a casa mais próxima ficava a, pelo menos, 20 km, além disso, aquela era uma época de chuvas na região e as nuvens escuras e ameaçadoras mostravam que não demorariam a cair e o que mais o preocupava era o horário, pois a noite já estava chegando, tornando a viagem mais perigosa ainda.

As mulheres conversavam animadamente, cada uma contando as suas novidades, enquanto Seu Quitério, já com 50 anos, permanecia calado, alternando suas preocupações com as lembranças da sua vida atribulada e vencedora.

Ele tinha vindo do sul do país e, ao contrário da maioria daqueles que se aventuraram por aquelas bandas, tinha vencido todos os obstáculos e era agora uma pessoa muito respeitada na região, não só pelas muitas propriedades que possuía, mas, principalmente, porque era um trabalhador incansável, justo e honesto.

O casal só teve dois filhos, mas o primeiro, um menino alegre, contraiu uma doença grave e faleceu antes de completar 12 anos.

Seu Quitério, então, não mediu esforços para que a filha Beta estudasse na melhor Faculdade da região e agora ela retornava para casa formada em Medicina e já faziam planos de montar uma clínica médica, tão carente por aqueles lados.

De repente um imenso clarão surgiu no horizonte e os três ocupantes daquele veículo ficaram quietos e amedrontados. Logo Dona Rosa perguntou:

— O que foi isso Quitério? Foi um raio?

— Não sei não Rosa. – Respondeu Quitério, com ar de preocupação. — Raios fazem barulho e não ouvi nada! Muito estranho!

O instante seguinte foi mais inexplicável ainda, parecia que o tempo tinha parado: os pássaros não voavam nem cantavam, as árvores não balançavam e até o vento parecia não soprar mais.

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Rotina

Rosa azul

Sexta-feira. Finalmente é sexta-feira, pensou enquanto se espreguiçava e lutava contra a preguiça para levantar da cama. Estava tentando lembrar-se do sonho perdido com o barulho do despertador. Não conseguiu.

Levantou-se, lavou o rosto e reparou em algumas rugas refletidas no espelho, não as conhecia. Foi até a cozinha e bebeu café requentado. Saiu.

Depois de uma hora, chegou ao prédio onde trabalha. Já no apartamento, foi direto para o banheiro vestir a roupa velha. Roupa de faxina.

Lavou e passou. Varreu e suou. Sete horas mais tarde, deu-se ao luxo de sentar-se. Cansou-se. Era hora de trocar de roupa novamente e fazer o caminho de volta. E foi o que fez.

Talvez seja pra mim… pensou maria, quando viu aquela rosa abandonada ao pé de sua porta. Apanhou-a do chão e entrou em casa sorrindo para o sábado.

20/8/2007

O pescador

Veraneio
Baseado em fatos reais

A relação do homem com os peixes é tão antiga quanto a própria história da humanidade.

Mas o que eu pretendo é contar um pouco da história de um pescador recreativo, ou seja: aquele que pesca por prazer, além de prestar uma homenagem a uma pessoa incrível que, com sua simplicidade e seu jeito de ser, ensinou-me belas lições de vida.

Trata-se de José Martinez Requena, o Pepe (8.10.1917-8.3.1984).

Eu sempre tive a curiosidade de saber por que os espanhóis colocam o apelido de Pepe para quem chama se José, mas nunca dei muita atenção e o tempo foi passando.

A explicação veio por acaso, quando, certo dia, um colega me mandou algumas curiosidades e entre elas dizia:

“Nos conventos da Idade Média, durante a leitura das Escrituras Sagradas, ao se referir ao São José, diziam sempre: Pater Pretativos, ou seja: Pai Suposto e abreviavam para P.P. Assim surgiu o hábito, nos países de colonização espanhola, de chamar o José de Pepe”.

Pepe nasceu na Andaluzia (Andalucía para os castelhanos), uma província ao sul da Espanha e próxima de Portugal.

É uma região antiguíssima e lá viveram fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, visigodos e, principalmente, os muçulmanos que dominaram a região por oito séculos e só deixaram a região depois da conquista de Granada pelos “Reis Católicos” em 1492.

Aliás, Andaluzia vem de Al-Andalus, nome dado pelos muçulmanos à Península Ibérica no século VIII.

Sua infância e juventude foram difíceis, pois a região era muito pobre e dominada por latifundiários, militares e pela Igreja Católica, enquanto a população passava fome.

Além disso, era uma guerra após a outra, às vezes pelo poder, como a ditadura de Primo Rivera (1923-1930), outra por questões ideológicas, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), da qual o pobre Pepe e sua família participaram e sofreram coisas terríveis.

Essa guerra simplesmente arrasou toda a Espanha.

Pepe contou-me que os fuzilamentos eram quase diários e os historiadores calculam que ocorreram mais de 400.000 mortes, sendo apenas 1/3 delas na guerra.

A renda per capita caiu em mais de 30%. Aliás, contam ainda os historiadores, que essa foi uma guerra civil “internacionalizada”, pois de um lado Franco, que depois se tornaria ditador por muitos anos, tinha o apoio dos nazistas alemães, dos fascistas portugueses e italianos; e os republicanos contavam com o apoio de Stalin, da União Soviética e de milhares de voluntários esquerdistas de 53 nações de toda a Europa.

Guernica - Pablo PicassoDizem ainda os historiadores que essa guerra foi “alimentada” pela Alemanha e outros países europeus que, após a Primeira Guerra Mundial, “testavam” novos armamentos lá (quem conhece a história da obra prima de Picasso “Guernica”, sabe bem disso).

Nesse “mundo” tumultuado vivia Pepe, até que em 18.1.1942, em Barcelona, casou-se com sua prima, Josefa Perucha de Martinez, a Pepa e, em 2.8.1944, tiveram a primeira filha, Magdalena Martinez Perucha, a Mada.

Em 1950 ele resolveu procurar um lugar melhor para viver, deixou a família em La Carolina, uma cidadezinha da província de Jaén, na Espanha, onde morava e, em companhia do amigo Henriques, partiu para as Ilhas Canárias, mas não gostou de lá e partiu para o Brasil, desembarcando no Porto de Santos em 25.2.1951.

Aqui, em São Paulo, na Vila Diva, começou a trabalhar com móveis e mais tarde montaria uma fábrica de “copas” (móveis de cozinha) e naquele mesmo ano, sua esposa e a filha também vieram para o Brasil e desembarcaram no Porto de Santos em 11.10.1951.

Mais tarde traria também sua sogra, a saudosa Mama Petra – como eles a chamavam (uma verdadeira mãe para ele) –, além de irmãos e cunhada.

Em 25.1.1953 o casal teve mais uma filha, Maria dos Anjos Martinez Perucha, a Angélica, que mais tarde seria a minha esposa.

Pepe tinha uma personalidade única, não era um individualista, mas dificilmente se apegava muito às pessoas e seus amigos eram variados.

PepeefamíliaGostava de festas, mas sempre a seu modo e a “fartura” que alcançou aqui, contrastava muito com a fome que passou durante sua infância e juventude.

Assim, ele vivia promovendo festas com muita comida e bebida.

Ele era um artesão e fazia verdadeiras obras de arte com móveis, gostava de jogar snooker e dominó, neste jogo ele era quase imbatível, mas o que gostava mesmo era de pescar.

Lá pelos idos de 1975, eu ia até sua casa para namorar a Angélica, mas ele me chamava para sua “oficina” de móveis que ficava ao lado e, no meio do galpão, acendia um fogo improvisado e assava uma costela e, entre umas e muitas doses de whisky, ficava me contando suas histórias.

Como já disse, ele adorava pescar, e sempre, mas sempre mesmo, vivia me convidando para ir pescar com ele, mas eu, que não gostava muito de pescaria, sempre adiava.

Claro que nessas ocasiões o que eu queria mesmo era namorar, mas confesso, gostava de ficar conversando com ele e era recíproco, pois em várias ocasiões ele me confidenciava até seus problemas particulares.

Era um péssimo motorista e, certa ocasião, foi levar a família e amigos para uma pescaria na região do Riacho Grande (próximo de São Bernardo do Campo).

Apesar do alerta dos demais passageiros, passou a entrada e quando percebeu já estava no pedágio da Anchieta, parou o carro no meio da estrada e ficou sem saber o que fazer, até que uma viatura da polícia rodoviária o obrigou a seguir em frente e ele teve que pagar o pedágio e retornar quilômetros à frente.

Em outra ocasião foi levar os amigos para pescar em sua Belina novinha e o carro atolou: só puderam resgatá-la dois dias depois.

Outra vez foi pescar de tarrafa (para quem não sabe, a tarrafa é lançada com as duas mãos e com a boca) e, quando foi lançá-la, foi-se junto sua dentadura e, o mais incrível: anos depois ele foi pescar no mesmo local e encontrou sua preciosa dentadura e voltou para casa mostrando para todos a sua façanha.

Um dia, de tanto ele insistir eu aceitei ir com ele pescar. Levei comigo minha mãe e meus dois irmão, ainda garotos.

Fomos com a sua Veraneio lotada, lá pelos “fundos” da Represa Billings e o Pepe que já tinha tomado uma e tantas outras ia, com seu jeitão único, contando um filme do “Gordo e o Magro” que tinha assistido e que, pelo modo como ele contava, ficou gravado na memória de todos.

O filme retratava os dois “heróis” em um trem a vapor fugindo de alguma coisa e como não tinham mais lenha para alimentar as caldeiras, um deles ficava gritando “mais lenha” e o outro passou a utilizar a madeira do vagão até ficar só com a locomotiva.

Pepe, onde você está certamente não tem o whisky que você tanto gostava, mas não vai faltar colega de pescaria. Pra começar, não se esqueça que São Pedro também era um pescador!

Por Darci Men (por enquanto, perdido na selva…)

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