Belleville

As bicicletas de Belleville

As Bicicletas de Belleville (Les Tripletes de Belleville, 2003) é uma animação francesa que caricatura personagens, cenários e situações preenchendo-os de múltiplos significados… Mas, vamos começar do começo.

Pôster

 

O início

Nas cenas iniciais, somos apresentados ao menino Champion e sua avó, Madame Souza. Eles vivem numa área aparentemente afastada do centro urbano, num lugar de paz e tranquilidade, no entanto, o menino parece estar sempre deprimido. O que faz com que sua avó volte sua atenção para os gostos dele, em inúmeras tentativas de fazê-lo alegre novamente.

A certa altura, Souza percebe a fascinação do neto por bicicletas e, a partir daí, não só compra uma pra ele, como vira sua treinadora, já que a paixão pelas duas rodas leva Champion a se tornar um atleta extremamente dedicado.

Durante sua participação numa das etapas da Volta da França, um dos eventos mais importantes do mundo relacionados ao ciclismo, Champion é sequestrado no meio da corrida 😮 Sua vó percebe o sumiço e sai à procura do neto com a ajuda do cachorro da família, Bruno.

O garoto é levado para uma megalópole além do oceano chamada Belleville – que em tudo nos lembra dos Estados Unidos. Daqui pra frente, o filme parece estar fazendo uma crítica ao atual padrão de vida consumista que levamos, usando o American Way of Life como símbolo disso, quando, por exemplo, numa das primeiras imagens do país, mostra a Estátua da Liberdade obesa e, no lugar da tocha e da tábua de leis da verdadeira, a caricatura segura um hambúrguer e um milk-shake.

[Lembrando que a Estátua da Liberdade foi um presente da França para os EUA na ocasião de sua independência, uma das primeiras colônias do mundo a se tornar livre.]

Estátua da Liberdade - As bicicletas de Belleville

À margem da sociedade

Madame Souza segue Champion até Belleville usando o faro de Bruno, mas eles perdem o rastro quando a fumaça dos carros embaralha o olfato do cachorro. Sem dinheiro e sem amigos na metrópole, eles se preparam pra passar a noite embaixo de uma ponte. Aí, sem ter o que comer e sem conseguir dormir, Souza começa a “tirar um som” de um aro de bicicleta e é aí que as trigêmeas de Belleville [Les Tripletes de Belleville 😉 ] aparecem.

As irmãs levam os desabrigados para casa – pois, assim como Souza e Bruno, neste mundo em que o consumismo é o ideal maior, as trigêmeas, que um dia foram cantoras aclamadas, também estão à margem da sociedade por serem velhas e, assim, não serem mais consideradas capazes de produzir, de “contribuir” para o bem comum, sendo postas de lado socialmente.

As trigêmeas de Belleville

Esta, entre muitas outras, é uma das críticas que podemos ler nos sons e imagens da animação. Entretanto, também é um filme de entretenimento, pois, mesmo que não cheguemos nesta camada de interpretação, o filme é divertido pelas situações e personagens caricatos que encontramos no desenrolar da narrativa.

Trilha sonora

Assim, como qualquer filme de animação, As bicicletas abusa da linguagem não verbal por meio das expressões e cores usadas, na forma como os personagens são retratados (as caricaturas em si), usando a trilha sonora como um elemento narrativo etc.

O que a difere um pouco mais de outras animações mais recentes é o fato de ter pouquíssimas falas – o que é um elemento muito interessante, pois a “falta” de falas não atrapalha a evolução ou o entendimento da narrativa, pelo contrário, seu desenvolvimento se dá de maneira muito rica e poética no trabalho de todos os elementos não verbais do filme.

Hollyfood

Elementos estes que são explorados, por exemplo, na forma como é mostrada a passagem de tempo em vários momentos da narrativa, nos sonhos do cachorro Bruno, na mistura de live action e animação ou, ainda, quando os atletas sequestrados (Champion não foi o único) são mostrados em caçambas, sempre há ao fundo um som de relincho como que para ressaltar que não estão sendo tratados como pessoas, mas como animais explorados (e facilmente substituíveis) para algum propósito – de preferência, um que dê lucro.

Há ainda uma maravilhosa cena de perseguição (que provavelmente é a perseguição mais lenta da história do cinema! rs) que nos leva ao final da narrativa ao mesmo tempo em que ri de todos os clichês de filmes de ação de Hollywood.

Se ficou curioso, você pode assistir a animação completa no YouTube e não se esqueça de esperar pela cena pós-créditos 🙂

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Autora e editora dos blogs Cachorro Solitário e Cabruuum, integrante do podcast Cadeia de Eventos. Leitora voraz, a curiosidade é o que a move!