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A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon

A Senhora da Magia

 “… um país governado por sacerdotes é um país cheio de tiranos na Terra e no Céu.” (Morgause)

Morgana é quem nos guiará através das tramas que levaram a que fosse conhecida como Morgana, a Fada (ou Morgana das Fadas) e à ascensão e queda de seu irmão Artur como Grande Rei de toda a Bretanha.

Apesar de estar diretamente envolvida na história, Morgana é uma boa narradora já que parece ter uma percepção excepcional, muito sensível ao que acontece ao seu redor desde tenra idade.

Esta será uma marca desta série de livros: os acontecimentos que regeram a vida das pessoas do reino pela visão das mulheres que ali estiveram presentes como sujeitos e agentes das mudanças.

PrólogoAsBrumasDeAvalon

As Brumas de Avalon

A narração propriamente dita começa no verão em Tintagel. Aqui, somos apresentados à Igraine, esposa do Duque Gorlois, irmã de Viviane – Grande Sacerdotisa do Lago – e mãe de Morgana – futura Senhora do Lago.

Por Igraine nos é apresentado o primeiro contraste entre as estruturas do cristianismo nascente e da Velha Religião, pois, apesar de não ter se aprofundado nos mistérios da Ilha Sagrada – Avalon, ela é muito mais instruída e culta do que o padre responsável pela Cornualha, por exemplo, mas para o qual tem que mostrar respeito e silêncio por ter se casado com um homem cristão.

O contraste não se dá apenas pela diferença de instrução e “importância social”, mas também pelo grau de liberdade que as mulheres da Ilha têm e que as mulheres cristãs não têm. Na verdade, mesmo os homens parecem ser tolhidos em pensamentos e ações pelas restrições do cristianismo.

Nesta mesma casa, conhecemos Morgause, a caçula das três irmãs que descendem da linhagem real de Avalon, e que terá um papel importante nos destinos do reino, atuando sempre nas sombras.

Numa conversa entre as três irmãs, também participa o Merlim – pai de Igraine, mas não de Morgause e Viviane. E aqui percebemos como as mulheres de Avalon são livres para exercer sua sexualidade sem amarras (é claro que isso inclui a liberdade sexual dos homens também). Enfatizando mais uma vez a liberdade frente às censuras cristãs.

Por isso, muitas vezes, as mulheres (sacerdotisas) da Ilha de Avalon são chamadas de bruxas e feiticeiras, não por suas visões e “poções”, mas por suas atitudes. Negando-se a serem as mulheres submissas e recatadas que o cristianismo pregava.

Esta será uma característica constante do enredo. Os personagens, por suas ações e palavras, espelham as diferenças filosóficas entre o cristianismo e a Velha Religião. Normalmente, colocando a Velha como uma crença que celebra a vida e sua plenitude, e o Cristo como um ser triste que pesa a vida com a morte.

Um bom exemplo de como este contraste se faz presente mesmo quando não se está referindo a ele objetivamente é a relação entre Igraine e Gorlois. Em muitas situações, eles parecem representar Ceridwen e Cristo respectivamente. Ceridwen, apesar de ícone de uma velha tradição, parece jovial pela sua celebração à vida e liberdade que confere aos seus crentes. Já o Cristo, mesmo representando uma religião nascente, com todas as suas restrições e noções de pecado parece ter nascido como um velho monge intransigente.

No entanto, esta aparente liberdade também guarda os seus dogmas. Quando Morgana fala de seus anos como “noviça” na Ilha, por exemplo, tudo o que ela diz é

“— O que não é óbvio é secreto.”

Numa outra cena, Galahad (Lancelote) fala como vê a mãe, Viviane, enquanto Sacerdotisa e, por isso, como representante da Deusa na Terra:

“— Ela é grande, terrível e bela, e só se pode amá-la, adorá-la e temê-la.”

Ainda naquela mesma conversa, é revelado como Viviane e o Merlim tramam para que o próximo rei seja um que consiga fazer com que a velha e a nova religião convivam pacificamente. Para isso, planejam sua vida mesmo antes de seu nascimento…

“— Você acha que a nossa feitiçaria pode fazer coisas além da vontade de Deus, minha filha?”

Esta fala de Merlim demonstra como ele realmente acreditava que a convivência pacífica entre as duas religiões seria possível. Mas nada é tão simples quanto parece, pois, além da missão de unir estas diferentes crenças, Artur – o rei predestinado – também teria a missão de unir todos os pequenos reinos da Bretanha para que conseguissem impedir de uma vez por todas as invasões saxãs, contras as quais lutavam há muitas décadas e lutariam por muitas ainda mais.

Intrigas permearão toda a saga, sejam elas tramadas nos corredores do castelo de Camelot ou nas terras ensolaradas de Avalon – todos tentando desesperadamente defender o seu quinhão, seja por um ideal ou ganância.

Livro 1 – A Senhora da Magia

Capa - Livro 1 - As Brumas de Avalon - A Senhora da Magia

Com relação ao título, apesar de, em certo ponto da história, Morgana ser chamada de Senhora do Lago, esta Senhora da Magia pode ser entendido como Morgana – representando um último suspiro de uma religião que está morrendo – ou como Viviane – última grande sacerdotisa desta crença.

Ler este volume foi como presenciar os últimos lampejos de força de uma religião antiga – que veio de uma mais antiga ainda – e os esforços de seus seguidores mais fiéis na tentativa de mantê-la viva e, talvez, com parte da grandeza e vigor que possuiu um dia.

Leia mais no blog:

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon (Livro 4)

Projeto Leia Mulheres

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Os sofrimentos do jovem Werther

os_sofrimento_do_jovem_werther - Breve resumo

Breve resumo

O título original deste livro é apenas Werther e foi escrito pelo alemão Goethe em 1774. É a obra que marca o início do Romantismo na literatura mundial.

O romance é epistolar, assim, a história contada através de cartas tem muito de autobiografia, mas o autor mudou fatos, nomes de pessoas e locais. Por isso, mesmo baseando-se em fatos verdadeiros, este romance é uma ficção.

O personagem escreve para um amigo, Wilhelm, e nessas cartas conta-lhe o início e o desenrolar de uma paixão intensa por Carlota – que é comprometida com Albert.

[Lembrei-me do poema do Drummond… apesar destes dois autores terem estilos completamente diferentes…]

Mesmo sem se envolver, Werther convive com Carlota e Albert, sufocando sua paixão, tornando-a avassaladora.

Os sofrimentos do jovem Werther levam-no a buscar refúgio na natureza, mas a certeza da impossibilidade de concretização do amor leva-o ao desespero – culminando com seu suicídio.

A obra serviu de parâmetro para algumas das principias características do Romantismo como o sentimentalismo exagerado, a morte como solução e a descrição da natureza como refúgio para a dor.

Na época em que foi publicado, Os sofrimentos do jovem Werther causou tamanho impacto na Alemanha que os jovens começaram a se vestir como o personagem é descrito no livro e, muitos deles, inspirados também pela obra, cometeram suicídio como se fosse um ato de coragem romântica, como uma valorização do sentimento frente aos sofrimentos causados pelas limitações práticas e morais da sociedade.

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Clarice

Assinatura Clarice

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, mas veio para o Brasil ainda criança. Morou em Maceió, em Recife e no Rio de Janeiro. Considerava-se brasileira e nordestina – tanto que fez questão de se naturalizar.

Formou-se em Direito, mas pendendo para o meio literário, começou nele como tradutora, consagrando-se mais tarde como escritora, jornalista, contista e ensaísta. Além de ser uma das mais importantes escritoras brasileiras, também é considerada a maior escritora judia desde Franz Kafka.

Sua estreia literária se deu com a publicação do romance Perto do coração selvagem (1943). Neste texto, no entanto, vamos nos focar no conto Amor, que faz parte da coletânea Laços de Família (1960).

Sua escrita inovou o romance brasileiro com sua abordagem feminina, introspectiva e psicológica das personagens, em detrimento dos acontecimentos em si mesmos.

E sua narrativa aparenta estar cheia de banalidades apenas, porém, se prestarmos atenção aos recursos de estilo e às expressões pouco convencionais utilizados pela autora, estes elementos podem obscurecer ou trazer à luz o sentido que está nas entrelinhas do texto.

Epifania

Seus livros de contos parecem ser temáticos, pois as personagens, em sua maioria, são mães, esposas em situações familiares que fogem da rotina, espécies de crises – iniciadas por epifanias.

No conto Amor, por exemplo, a personagem Ana é uma dona de casa que, após ver um cego mascando chiclete num ponto de ônibus, desequilibra-se de tal modo que passa a ver o mundo à sua volta de maneira diferente, enxergando coisas superficiais e profundas que não via antes.

Este é um tipo de acontecimento recorrente na obra de Clarice: um fato, aparentemente banal, faz com que a personagem tenha uma epifania, de tal maneira que não consiga mais enxergar a si mesma como gostaria de ser, por dentro e por fora.

Epifania vem do grego, e foi (é) usada por cristãos como sinônimo de revelação – a revelação do Mistério religioso. Na literatura, depois de Joyce, ganhou status de revelação, transformação súbita pela qual uma personagem passa, causada por uma visão cotidiana. A epifania religiosa pode ser entendida como algo coletivo; já a literária, individual.

Ainda segundo o crítico Benedito Nunes*, a epifania, dentro do texto literário, pode ser entendida como “momentos de pausa contemplativa, que proporcionam, independentemente do entendimento verbal e discursivo, um saber imediato arraigado à percepção em estado bruto”.

Obviamente, em Clarice, a epifania não nos vem no sentido religioso, mas sim no de desmascarar os recalques dos papéis sociais que assumimos. Esta percepção perturba tanto as personagens que elas não sabem mais como voltar ao normal quando “estranharam” tanto a vida que viviam.

Amor

No entanto, não é exatamente assim que acontece com Ana. A protagonista de Amor passa pelo seu processo de epifania tendo até mesmo “sintomas” físicos, como náusea.

Ela desce do bonde em que estava e começa a vagar pelas ruas, indo parar no Jardim Botânico que, teoricamente, seria um lugar de calma, mas se torna perturbador, pois, após a revelação, ela passa a olhar e realmente ver as coisas ao seu redor, da forma como são, sem enfeites e sem explicações – apenas são:

“Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria.”

Movimento que a faz ver também suas relações familiares, a vida que escolheu construir, sendo mantida por muitos fios, mas todos muito frágeis. Aí, quando tudo faz pensar que haveria uma ruptura, há uma confirmação do amor familiar, do aconchego do lar, do marido acolhedor, que a fazem retornar à calma da rotina. Mas agora sabendo que há mais do que o que conseguimos olhar sem ver.

“Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.”

Todas estas sensações e percepções contraditórias se espelham na linhagem, quando a escritora cria expressões singulares usando ideias aparentemente contrárias: A crueza do mundo era tranquila.”, “o cego a guiara até ele”, “Era fascinante, e ela sentia nojo.”, “O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” – num nível superficial, a autora estava falando do Jardim Botânico, mas podemos entender também este Jardim como o Éden, paraíso terrestre perdido, em contraste com o Inferno -, entre muitas outras.

O absurdo da vida

Ao se dispor a ler algum escrito da autora, você deve estar preparado para se despir de todo olhar viciado sobre as coisas, vendo assim algo do cotidiano como se fosse a primeira vez – descobrindo um novo objeto e todo o seu absurdo diante da vida, como algo que não tem nome, mas que ainda assim existe.

Talvez pareça ser uma escrita descolada da realidade social, mas se olharmos numa camada mais profunda também poderemos ver nessas pequenas epifanias banais, um incômodo, quem sabe até um questionamento que não se chegou a formular sobre os papéis sociais aos quais aderimos para viver em sociedade, incluindo aí questões relacionadas às “funções” de cada gênero no ambiente familiar e comunitário, já que as personagens principais são mulheres, e donas de casa.

Mas, mesmo que não haja essa camada de significação no texto, isso não quer dizer que a pessoa da escritora vivia alienada dos problemas da sociedade em que vivia.

No texto Liberdade e Justiça, por exemplo, ela discorre justamente sobre o fato de não conseguir escrever claramente sobre justiça social em seus trabalhos, e, em Mineirinho, ela faz uma reflexão sobre o papel da justiça em si na sociedade.

***

Veja mais:

– O Instituto Moreira Salles tem um material muito bom sobre Clarice, incluindo duas videoaulas ministradas por José Miguel Wisnik e Nádia Gotlib.

Entrevista concedida por Clarice ao jornalista Júlio Lerner, para a TV Cultura, em 1977, meses antes de seu falecimento.

Café Filosófico sobre A Legião Estrangeira (1964), palestra ministrada por Noemi Jaffe.

*NUNES, Benedito. O drama da linguagem, 2ª ed., São Paulo: Ática, 1995.

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Poesia concretista

poesia

Um poema é feito de palavras e silêncios.

Décio Pignatari

No livro Teoria da Poesia Concreta, os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari reuniram estudos e textos críticos traçando um panorama teórico-estético da poesia até chegar à poesia concreta, enfatizando, é claro, as vanguardas que seriam as precursoras desta nova forma de ver e fazer arte.

Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos
Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos

Vanguardas

Os textos reunidos neste volume foram publicados em jornais e revistas durante os anos de 1950 a 1960 – época considerada a fase heroica do movimento que tentava se explicar e se afirmar.

Os três são os idealizadores e principais expoentes deste movimento literário que afirma ser o único que não foi adaptado do exterior – comparando-se a escolas anteriores como Romantismo, Realismo, Naturalismo e todas as outras, incluindo o próprio Modernismo.

Entre os artistas que são citados como precursores do novo movimento estão alguns dos mais relevantes para a forma como se faz poesia hoje em dia, como Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, e. e. cummings – assim mesmo, tudo minúsculo, era como ele assinava o próprio nome –, James Joyce, Vladimir Maiakovski, entre outros, criando um paralelo entre as obras destes vanguardistas com a proposta estética da poesia concreta.

Incluindo, também, em seu arcabouço teórico as teorias da Gestalt, da Semântica Geral e da Semiótica para explicar e exemplificar os conceitos que apresentavam (e representavam) nas formas e conteúdos dos poemas.

A verdade é que as “subdivisões prismáticas da Ideia” de Mallarmé, o método ideogrâmico de Pound, a apresentação “verbivocovisual” joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo conceito de composição, para uma nova teoria da forma – uma organoforma – onde noções tradicionais como princípio-meio-fim, silogismo, verso tendem a desaparecer e ser superadas por uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA CONCRETA.

Augusto de Campos

O verso

Dentre estas conexões, os concretistas construíram um paralelo entre a poesia e o ideograma chinês, mostrando a superação do verso linear e do discurso lógico tradicional [poema “normal”, como um soneto, por exemplo, em que os versos seguem a ordem de leitura da esquerda pra direita, de cima pra baixo, e seu significado é apreendido pelo conteúdo abstrato das palavras] pelo verso espalhado pela página do livro e pela sua organização analógica visual [poemas que usam as palavras como “objetos”, espalhando-as pela página, assim, a leitura pode seguir padrões diferentes da tradicional e seu significado é apreendido não só pelo conteúdo abstrato das palavras, mas também pelo “desenho” que formam no papel/tela].

Este novo tipo de verso faz com que o leitor enxergue o poema como um todo, absorvendo-o pelos sentidos e não somente pela leitura sintática linear.

Clamavam assim por uma poesia que fosse capaz de transmitir com eficácia os fluxos e refluxos do pensamento, usando poucos (ou nenhum) conectivos entre as palavras, fazendo com que o espaço em branco da página funcionasse como pontuação e ditasse o ritmo da leitura.

Verbivocovisual

O que levou a outra definição da poesia concreta: a verbivocovisualidade:

a palavra tem uma dimensão GRÁFICO-ESPACIAL

uma dimensão ACÚSTICO-ORAL

uma dimensão CONTEUDÍSTICA

agindo sobre os comandos da palavra nessas

3                          dimensões                           3

Haroldo de Campos

Quer dizer, o poema proporcionaria estímulos óticos (visuais), acústicos (sonoros) e significantes (no sentido do conteúdo e das estruturas verbais) todos ao mesmo tempo durante a leitura.

É preciso ainda ter em mente que a poesia concreta é diferente da poesia apenas visual. A poesia visual seria aquela cuja forma se adequa ao conteúdo de forma arbitraria, enquanto que na poesia concreta o visual é o próprio conteúdo e ao mesmo tempo sua estrutura.

Exemplo de poema tradicional:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Exemplo de poema visual:

Um dos caligramas de Apollinaire
Um dos caligramas de Apollinaire

 Exemplo de poema concreto:

Velocidade - poema de Reinaldo de Azeredo
Velocidade – poema de Ronaldo Azeredo

Hoje

É claro que, como toda nova ideia que se propõe a renovar algo que é tido como pronto e acabado, as inovações dos concretistas não foram totalmente aceitas pela “classe poética” da época (e por alguns indivíduos ainda hoje em dia), que os acusou, inclusive, de cometer “terrorismo cultural” – seja lá o que isso quer dizer.

Mas, como responderam os próprios poetas, “É estranho que um pequeno grupo de poetas tenha aterrorizado a poesia brasileira. Ou esta era muito fraca, ou as ideias deles eram muitos fortes”.

No entanto, “gostando” ou não da nova poesia, é possível reconhecer a influência dessa nova estética em muitos poetas atuais e no formato da publicidade nos dias de hoje, por exemplo (já que um dos princípios era a comunicação rápida: o leitor/espectador “bate o olho” e já associa aquela imagem ou conjunto de palavras a algum significado).

Pra quem se interessa por poesia, principalmente os princípios filosóficos e estéticos relacionados a ela, e também por arte em geral, é uma leitura muito interessante, já que nos textos o trio de poetas faz um percurso entre várias manifestações artísticas, associando-as ao nosso modo de vida contemporâneo, explicitando assim uma das vocações da arte que é ser uma manifestação das angústias e esperanças de cada tempo.

Livro: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960

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Até Mais, e Obrigado pelos Peixes!

Volume Quatro

Volume Quatro da Série

Depois de viajar pelo Universo, sobrevivendo à poesia Vogon e guerras interestelares, Arthur Dent está de volta ao seu planeta natal… Mas a Terra havia sido destruída, então, o que diabos está acontecendo?

[Se quiser ter uma ideia do que aconteceu até aqui, pode começar pelas resenhas dos volumes Um, Dois e Três d’O Guia do Mochileiro das Galáxias.]

O caminho que vamos percorrer neste Volume Quatro, acompanhando os protagonistas, será para tentar descobrir o que aconteceu com a Terra anterior… se é que houve mesmo destruição.

Nesta busca por respostas, boa parte da ação se passará aqui no planeta azul, que é onde nos deparamos também com um tema novo na série: romance.

É claro que isto faz com que o livro tenha um tom diferente dos outros, assim como cada um dos volumes entre si, porém, Douglas Adams mostra mais uma vez sua habilidade de contador de histórias ao inserir cenas muito bonitas e poéticas num enredo de ficção científica sem cair em clichês fáceis ou descambar para a breguice.

Podem ficar tranquilos, pois as cenas e diálogos absurdos que escancaram quão risível é a nossa sociedade ainda estão lá, com suas tiradas sarcásticas e inteligentes.

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Novos personagens

Somos apresentados a novos personagens, como Fenny, a garota que é introduzida no prólogo, e Rob McKenna – cujas cenas são algumas das partes mais divertidas do livro –, um motorista de caminhão que vive de mau humor, pois o mau tempo (a chuva) sempre o acompanha na estrada, fenômeno que tem uma estranha explicação, mas não tão estranha para o universo d’O Guia do Mochileiro das Galáxias.

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Velhos conhecidos

Obviamente, ainda temos Ford Prefect, tão louco quanto antes, se metendo em confusões desnecessárias e hilárias. É aqui também que conhecemos o texto de sua contribuição para a edição do verbete d’O Guia sobre a Terra: Praticamente inofensiva – que é o nome do próximo volume.

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Ah, o Marvin, nosso androide paranoide preferido, também está de volta, mas não tanto quanto gostaríamos: “Os que querem respostas devem continuar lendo. Outros podem preferir pular direto para o último capítulo, que é bem legal e é onde aparece o Marvin”.

Outra coisa que gostei bastante, e da qual ri muito, foi a parte em que um grande número de pessoas acredita que a destruição da Terra na verdade foi uma alucinação coletiva provocada pela CIA.

Daí que, como é comum com teorias da conspiração, cada um acha um motivo mais louco do que o outro do como e por que a CIA teria feito isso.

Apesar do tom diferente da história, continua sendo uma leitura boa e divertida. É quase impossível se decepcionar num enredo quando o próprio escritor se coloca em pé de igualdade com seus personagens: “Havia um motivo para contar esta história, mas, temporariamente, fugiu da mente do autor”.

No entanto, este ainda não é o final, ainda temos o Volume Cinco na coleção e o E tem outra coisa… – lançado no 30º aniversário de publicação do primeiro livro d’O Guia, foi escrito por Eoin Colfer com autorização da família de Adams.

Nos encontramos no próximo!

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A volta ao mundo em 80 dias

Phileas Fogg era membro do Reform Club

Enquanto não me é possível fazer um tour físico pelo mundo, vou viajando pelos livros. E um dos que fazem com que demos a volta ao globo é A volta ao mundo em 80 dias, do francês Júlio Verne.

A história começa nos apresentando a rotina meticulosamente pontual do senhor Phileas Fogg, um homem de personalidade um tanto quanto nebulosa na opinião de seus conhecidos por ser muito reservado – daí a brincadeira do autor com o sobrenome do personagem: Fogg vem de foggy: nebuloso, nevoento, cerrado, enevoado, brumoso.

Fazendo jus ao seu temperamento, seus dias seguem sempre iguais: acorda cedo, barbeia-se, toma café da manhã e vai para o Reform Club, local em que almoça e lê os jornais do dia. À noite, joga tuíste com seus colegas de clube e volta para casa à meia-noite.

E assim segue até o dia em que uma notícia em particular chama atenção dos cavalheiros: o assalto ao Banco da Inglaterra.

Na conversa sobre o crime, Fogg afirma que, para a fuga, usando o dinheiro roubado, o ladrão seria capaz de dar a volta ao mundo em 80 dias. Surge daí a aposta entre os gentlemen.

E, nesta mesma noite, nosso protagonista sai em sua aventura acompanhado de seu empregado Passepartout – outro trocadilho com os nomes dos personagens, explicado pelo próprio no início do primeiro capítulo:

Um moço de uns trinta anos de idade apresentou-se e cumprimentou.

– É francês e chama-se John? – perguntou-lhe Phileas Fogg.

– Jean, se não lhe desagradar, respondeu o recém-vindo, Jean Passepartout, sobrenome que me ficou, e que justificava a minha aptidão natural para me safar de apuros. Considero-me um rapaz honesto, senhor, mas, para ser franco, já exerci muitas profissões. Fui cantor ambulante, artista de circo, saltando como Léotard, dançando na corda como Blondin; depois fiz-me professor de ginástica, para tornar mais úteis os meus talentos, e, por fim, fui sargento de bombeiros em Paris. Tenho até em meu currículo alguns incêndios notáveis. Mas já faz cinco anos que deixei a França e que, desejando gozar a vida de família, sou criado de quarto na Inglaterra. Ora, achando-me sem colocação e tendo sabido que Mr. Phileas Fogg era a pessoa mais exata e mais sedentária do Reino Unido, aqui me apresentei em sua casa na esperança de viver tranquilo e até esquecer este nome de Passepartout.

Vemos que os planos de sossego de Passepartout foram logo frustrados…

Passando por Suez, o detetive da Scotland Yard, senhor Fix – outra brincadeira do autor com os sobrenomes… –, vê muitas semelhanças entre o retrato falado do assaltante do Banco da Inglaterra e o senhor Fogg.

Passando então a seguir seus passos – para não perdê-lo de vista – enquanto espera que o mandado de prisão chegue em suas mãos. O que acaba fazendo com que detetive e mandado façam boa parte do percurso da volta ao mundo! Rs

Os personagens passam por muitos lugares e situações em que se deparam com costumes e culturas diferentes. O que enriquece e torna a narrativa interessante para quem é curioso por conhecer “novos mundos”… Pra não entregar muito, vou parando o relato por aqui, recomendando o livro a todos que queiram fazer uma viagem pelo mundo 😉

Você pode ler o livro completo na Biblioteca Júlio Verne ou baixá-lo no site do Domínio Público.

A história também teve duas adaptações cinematográficas, uma de 1956 e outra de 2004:

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O Homem que Ri – 1928

homem ri

 

Até hoje vi poucos filmes mudos, o que mais manjo de Expressionismo alemão é aquele clipe doido do Red Hot Chili Peppers:

E, mais recentemente, o filme australiano Babadook, que tem uma certa influência.

Dentre as grandes obras inspiradas nesse estilo cinematográfico, me interessei em O Homem que Ri, adaptação do livro do brilhante escitor francês Victor Hugo, é tido como inspiração para que se criasse um dos maiores vilões de TODOS os tempos, nada mais, nada menos, que o Joker… o Palhaço… o Coringa!

Coringa o homem que ri

Segue abaixo o filme!

Lembrando que em 2012 saiu uma versão “nolanzada” do livro que eu não vi nem verei:

Abraço!

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O Caçador de Palavras

Walcyr Carrasco, escritor

Aproveitando o Dia do Leitor – que é hoje, 7/1 – vou falar um pouquinho sobre um dos meus livros favoritos da vida!

O livro é O Caçador de Palavras do Walcyr Carrasco.

[Sim, é ele mesmo, o cara que (também) escreve novelas]

Eu ganhei esse “livrinho” – que cabe na mão – quando comprei um minidicionário pra eu usar na escola. Eu tinha, mais ou menos, 8 anos de idade e estava na segunda série.

O Caçador de Palavras

Não que meus pais tenham “escolhido” me dar o livro de presente ou que eu o tenha pedido.

Na verdade, ele vinha como brinde na compra do Minidicionário Luft, mas, nessa história de colocar os cadernos e livros que não íamos usar mais naquela grade que fica embaixo da carteira, um dia eu acabei esquecendo o dicionário na escola e nunca mais o achei :'(

4ª capa do livro
4ª capa do livro

Aliás, foi assim também que eu perdi O Pequeno Príncipe e o Fernão Capelo Gaivota, que eram do meu pai.

Fiquei com medo dele não deixar mais eu pegar os livros da estante pra ler e, depois dessa terceira vez, finalmente parei de colocar os livros embaixo da carteira rs

Mas continuei lendo! 😀

Como dá pra perceber – e segundo relatos da minha mãe :p –, eu sou uma leitora voraz desde que aprendi a ler!

Eu lia muito e de tudo. Eu era (sou) apaixonada por palavras e quando comecei a ler O Caçador de Palavras me identifiquei na hora, já que o personagem principal, o Júlio, também se apaixona pelas palavras.

Esse é o prefácio do livro e, como vcs podem ver pelas marcas do tempo, o livro já tem uma certa idade... rs Ah, os grifos são meus, mas de uma leitura que fiz depois de adulta – eu sempre releio esse livro!
Esse é o prefácio do livro e, como vocês podem ver pelas marcas do tempo, o livro já tem uma certa idade rs Ah, os grifos são meus, mas de uma leitura que fiz depois de adulta – eu sempre releio esse livro!

No caso do Júlio, ele tem sua paixão despertada depois de passar uma noite inteira preso num cinema, lendo um dicionário – que estava sendo usado como calço e se tornou sua única distração na espera de que o cinema abrisse pela manhã para que ele pudesse sair…

[E, sim, depois de ler isso, eu comecei a ler o dicionário que tinha comprado, mas não passei da letra A…]

Sua paixão é tanta que ele decide fazer com que uma palavra – Ife, que significa “amor” – passe a ser usada pelas pessoas, e é por causa de uma palavra que ele vive situações e conhece pessoas incríveis e diferentes, assim, enquanto Júlio vive por causa de uma palavra, nós, leitores, vivemos pelas palavras as suas aventuras!

Um sonho de amor pelas palavras ;)
Um sonho de amor pelas palavras 😉

E aos leitores, boas leituras!

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A Vida, o Universo e Tudo Mais

Volume Três d'O Guia do Mochileiro das Galáxias

Volume Três da Série

E então chegamos ao Volume Três da Série d’O Guia do Mochileiro das Galáxias (quem quiser ler o que escrevi sobre o 1º e 2º estão aqui e aqui). 

Assim como o Volume Dois é diferente do Volume Um, esse Volume Três é diferente dos outros dois, tanto no tom como, para mim, na temática também. O tom que rege o livro é melancólico e, por que não, parece ser meio desiludido também com o mundo (o Universo) e os seres [não posso dizer “pessoas”, pois, afinal, estamos num Universo com formas de vida muito diferentes da nossa rs]:

“Contudo, no final foram as tardes de domingo que se tornaram insuportáveis: aquela terrível sensação de não ter absolutamente nada para fazer que se instala em torno de 14h55, quando você sabe que já tomou um número mais que razoável de banhos naquele dia, quando sabe que, por mais que tente se concentrar nos artigos dos jornais, você nunca conseguirá lê-los nem colocar em prática a nova e revolucionária técnica de jardinagem que eles descrevem, e quando sabe que, enquanto olha para o relógio, os ponteiros se movem impiedosamente em direção às 16 horas e logo você entrará no longo e sombrio entardecer da alma.

A partir daí as coisas começaram a perder o sentido. Os sorrisos alegres que costumava distribuir durante os funerais dos outros começaram a sumir. Aos poucos, começou a desprezar o Universo em geral e cada um dos seus habitantes em particular.”

Você se depara com esses parágrafos logo no Capítulo 1, imagine o que vem pela frente… E o que temos pela frente é a história de várias guerras que ocorreram no Universo e uma que está prestar a recomeçar, e que os nossos amigos dos outros volumes, os personagens principais, tentam evitar… talvez não tentem tanto assim rs, mas é em torno desse tema que o livro é desenvolvido. Acredito que por tratar de um “assunto sério” como a guerra (e seus motivos idiotas para acontecerem) é que o livro tenha esse tom mais melancólico. Para vocês terem uma ideia, até mesmo o nosso sempre-animado-e-pronto-para-uma-festa, Zaphod, está enfrentando, nesse terceiro volume, uma crise de identidade, uma depressão, enfim, o cara não está legal…

[P.S.: Não vou falar muito sobre a(s) guerra(s) para não dar spoiler para quem não leu ainda 🙂 ]

Volume Três da Série

POP

O Volume Três é o menos engraçado até agora; os sarcasmos e ironias ainda estão lá, mas, como disse antes, o tom é bem diferente dos outros. Mas há uma cena em que eu ri bastante [aqui acho que pode ser considerado spoiler por alguns, mas vamos lá], que é a cena em que Ford procura algo que ele diz ser um POP, Problema de Outra Pessoa:

“— Um o quê? – perguntou.

— Um POP.

— Um P…?

— … OP.

— E isso seria?

— Um Problema de Outra Pessoa.

— Ah, que bom – disse Arthur, relaxando. Não tinha ideia do que se tratava, mas o assunto parecia ter terminado. Não tinha.

— Lá – disse Ford, apontando novamente para os gigantescos outdoors e olhando para o campo.

— Onde?

— Ali! – disse Ford.

— Estou vendo – disse Arthur, que não estava.

— Está? – disse Ford.

— O quê? – disse Arthur.

— Você está vendo – disse Ford, pacientemente – o POP?

— Achei que você tinha dito que era problema de outra pessoa.

— Exato.

Arthur assentiu lentamente, cuidadosamente e com uma cara de total imbecilidade.

— E quero saber – disse Ford – se você consegue vê-lo.

— Quer mesmo?

— Sim.

— E com o que – disse Arthur – ele se parece?

— E como diabos vou saber, seu burro? – gritou Ford. — Se você consegue vê-lo, você é quem tem que me dizer.”

E a conversa vai ficando cada vez mais maluca e mais engraçada quando você descobre como funciona o conceito de POP, inclusive, em alguns momentos acho que vou tentar aplicá-lo na minha vida… 😉

E vamos para o Volume Quatro!

 

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