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O Cortiço, de Aluísio Azevedo

RESUMO DA OBRA 

João Romão é um português que herdou a venda do patrão aqui no Brasil, entregando-se com vigor ao trabalho, sempre poupa o máximo que pode em um afã de enriquecer. Amiga-se com Bertoleza, mulher escravizada a quem engana dizendo ter-lhe pagado a alforria. Com a ajuda dela, João torna-se proprietário da pedreira que fica próxima à venda e, em algumas partes do terreno, constrói pequenas casinhas que aos poucos aumentam de número dando vida ao cortiço. 

Romão fundamenta sua ambição em Miranda, também português, dono do sobrado que fica ao lado do cortiço. Miranda é um burguês que obteve ascensão social por meio do dote e do nome de família que recebeu do seu casamento com D. Estela. Espelhando-se nisso, João, tendo enriquecido, ambiciona casar-se com Zulmira, filha do compatriota. Então, para livrar-se de Bertoleza, entrega-a aos antigos patrões; esta, num último ato de desespero, suicida-se cortando o ventre com a mesma faca que usava para limpar os peixes que eram comercializados na venda. 

No cortiço, vários personagens são apresentados, cada qual com sua história de vícios e misérias. O cortiço é usado pelo autor como um observatório do comportamento dos tipos humanos que pertencem àquela classe social marginalizada.  

Um dos personagens que se destaca na história é Jerônimo, outro lusitano, sério e conservador, casado com Piedade. Influenciado pelo “calor dos trópicos”, apaixona-se por Rita Baiana, descrita de forma estereotipada como uma mulher mestiça sensual e bela, que, por sua vez, namora Firmo, morador do Cabeça de Gato, cortiço concorrente ao de Romão. A disputa dos dois homens por Rita acaba com a morte de Firmo e numa rivalidade entre os cortiços. Jerônimo abandona a esposa para ficar com Rita e, ao contrário de João Romão, decai socialmente “abrasileirando-se”. 

FOCO NARRATIVO 

A escolha do autor por narrar o livro em terceira pessoa adequa-se perfeitamente à escola literária da qual O Cortiço faz parte, o Naturalismo; posto que o autor se posiciona como um cientista que observa a realidade para tomar nota dela.  

Assim, por meio da descrição dos fatos, muitas vezes repugnantes e grotescos, e apoiando-se numa atitude de cientificismo experimental, o autor distancia-se dos personagens para encontrar a explicação de seus atos no meio ambiente em que estão inseridos ou na “raça” a qual pertencem.

QUATRO PERSONAGENS 

Características físicas e psicológicas 

João Romão 

João Romão é descrito como um homem obcecado por riqueza, todas as suas atitudes são tomadas com o objetivo de acumular bens:  

não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa de seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois.

Sendo classificado pelo autor como portador de uma patologia: “Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda”. 

João é descrito como um

tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer […]

sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com seu eterno ar de cobiça, apoderando-se com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

No entanto, quando passa a invejar o baronato de Miranda, passa a usar “casaco branco e meias”, “relógio e cadeia de ouro” e, para sair a passeio, sempre de “casimira, calçado e de gravata”. 

Bertoleza 

“Crioula trintona”, quando se amiga com João Romão passa a cumprir o “papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante”.  

Na descrição de Bertoleza, implicitamente o autor dá a entender que, por ser negra, seu único papel e destino na sociedade é trabalhar, “Mourejava a valer, mas de cara alegre”, e servir à “raça superior”, “Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior”.  

Mesmo quando João Romão começa a mudar seu estilo de vida, Bertoleza, “à medida que ele galgava posição social, a desgraça fazia-a mais e mais escrava e rasteira” e continua “sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço”.  

A raça persegue toda a trajetória de Bertoleza, chegando ela mesma a ficar “envergonhada de si própria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste por sentir-se a mancha negra”.  

Adorava Romão, pois entendia sua condição inferior à do amigo, contentando-se com o pouco que este lhe dava: “Todo o dono, nos momentos de bom humor, afaga o seu cão…”. 

Rita Baiana  

Rita personifica o estereotipo da mulher mestiça sensual e bela:  

E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo a mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.

É uma mulher independente, tendo sobre o casamento uma ideia muito diferente do que era comum na época:  

— Casar? protestou Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu! E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que lhe era peculiar.

Jerônimo 

Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário; pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.

[Usava] calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru.

Nesse personagem, as qualidades morais transparecem em sua aparência e atitudes:  

Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem […]

Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôs assim para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Saía de casa para o serviço e do serviço para a casa.

CLASSE SOCIAL DOS PERSONAGENS 

A maioria dos personagens são pobres, alguns chegam a ser miseráveis.  

Os personagens que habitam o cortiço são divididos, basicamente, entre os trabalhadores, “aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação”, e as lavadeiras

AMBIENTE 

Espaço físico e social 

Os personagens são tipos que estão à margem da sociedade, vivem num mundo à parte, tanto que o autor chega a se referir ao cortiço como uma “república” que tem suas próprias regras de convivência social:  

De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! “Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!” mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.

FIGURA FEMININA 

A caracterização da mulher dá-se de forma objetiva, ressaltando aspectos físicos e “defeitos” morais, pois a figura feminina é vista como um ser traiçoeiro que utiliza seu poder “luxurioso” para manipular os homens, como quando o autor compara Rita (e todas as mulheres nela) com a serpente que levou Adão ao pecado:  

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Outro exemplo é a forma pejorativa (“mulherzinha”) como a esposa de Miranda é apresentada:  

D. Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante este tempo dera ao marido toda a sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério.

AMOR E CASAMENTO 

Na narrativa naturalista, o amor confunde-se com o instinto sexual, como na relação entre Rita e Firmo, “Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos”, ou na relação entre Rita e Jerônimo, em que o “amor” encontra sua expressão máxima na realização do desejo sexual:  

Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. […] E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. […] E, sem consciência de nada que o cercava, […] afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

Em ambas as relações, o amor, na verdade, é o instinto sexual que culmina na briga entre os dois machos pela fêmea luxuriosa que melhor apresenta-se ao ato sexual. Disputa que Jerônimo vence: “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior”. 

O casamento é uma conveniência social, utilizado como forma de ascensão social e financeira. Miranda, por exemplo, suporta as traições da mulher, pois:  

sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera […] Além do que, um rompimento brusco seria obra para escândalo e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre.

Invejava João Romão que se tornara rico sem ter que “casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro rico”. No entanto, mais tarde, João também utiliza o casamento com Zulmira, filha de Miranda, como forma de ascensão e de prestígio social. 

JERÔNIMO E POMBINHA – DETERMINISMO 

Jerônimo é influenciado de maneira decisiva pelo meio ambiente em que vive. A “culpa” pela transformação de sua personalidade é atribuída à “natureza alcoviteira”, principalmente ao sol:  

[…] todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem […]

[…] aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode […]

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se […] fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e violento.

Pombinha tem seu destino determinado pela genética. Visto que, mesmo morando no cortiço, tem origem burguesa, ou seja, de acordo com a ótica adotada pelo autor, pertence a uma raça superior. Aliando esses dois elementos (meio e raça) às experiências que absorveu ao escrever as cartas daquela gente pobre, “De sorte que a pobre rapariga ia acumulando nos seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor”, estava “determinado” que, cedo ou tarde, sua inteligência iria aflorar-se. Nesse caso, sua maturação intelectual confunde-se com sua maturação biológica:  

[…] só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento uma lucidez que a deliciava e surpreendia.

NATURALISMO E A TEORIA EVOLUCIONISTA 

Na história do cortiço, João Romão e Jerônimo, ambos portugueses, combatem o meio ambiente por meio de suas ações (trabalho) atribuídas à sua raça. No entanto, este perde a batalha deixando-se seduzir pela “natureza alcoviteira”; aquele representa uma espécie de “evolucionismo social”, sendo o mais “forte”, sobrevive e evolui de “classe social”.  

O cortiço ascende como o seu dono, depois do incêndio, passando por algumas reformas (“mutações”), passa a receber uma nova classe de trabalhadores, já não era qualquer um que podia habitar no cortiço: “notavam-se por último na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias”.  

Entretanto, Jerônimo também pode ser considerado sobrevivente, pois vence a disputa com Firmo por Rita Baiana, mudando seu comportamento para adaptar-se ao meio em que vive agora. 

RITA BAIANA E AS PERSONAGENS ROMÂNTICAS 

A mulher do Romantismo é sempre descrita como “a mulher ideal”, perfeita, muitas vezes até mesmo sagrada e, por isso, intocável, como Iracema, de José de Alencar. Iracema é indígena, a virgem sagrada de sua tribo que apaixona-se pelo homem branco Martim. Pertencendo a povos inimigos, o amor de Iracema é cheio de renúncia e sacrifícios. 

A mulher do Naturalismo, pelo contrário, é descrita de forma “carnal”, acessível a qualquer um, cheia de baixezas morais. Rita Baiana, por exemplo, ao provocar a briga entre Jerônimo e Firmo, não se assusta como os outros moradores do cortiço, mas “a certa distância, via, de braços cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os lábios”. 

PATOLOGIA SOCIAL 

Na narrativa naturalista é evidente o gosto pelas patologias sociais: taras, vícios, desajustes, etc. Um exemplo disso pode ser encontrado quando o autor apresenta a “tara militar” de Botelho: “Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo” […] “a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção”.  

Somando essa tara a um diálogo entre Botelho e Henriquinho, o autor deixa entrever, de forma caricata, a homossexualidade do personagem:  

Acho que você é um excelente menino, uma flor! […] Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as. […] E acarinhou-o tão vivamente desta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!…

REALISMO E NATURALISMO 

O Realismo é uma escola literária que se propôs a descrever e pôr à mostra a hipocrisia da sociedade burguesa da época. O Naturalismo, no seu exagero cientificista, analisa o coletivo. Não tem preocupação social, seu objetivo é descrever e mesmo classificar os vícios humanos.  

O Cortiço é usado pelo autor como um laboratório de observação. Na verdade, o próprio cortiço é tratado como um personagem (“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava”) que evolui dentro da história (antropomorfismo).  

Não há individualidade, só o coletivo. À medida que o cortiço sofre mudanças, os personagens também mudam. Aqueles que não “evoluem” são postos para fora, como Piedade que, abandonada pelo marido, entrega-se ao vício da bebida e depois de causar alguns incidentes é expulsa por João Romão, indo abrigar-se no Cabeça de Gato, cortiço que:  

à proporção que o São Romão [cortiço de propriedade de Romão] se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava.

Uma característica naturalista é o zoomorfismo. Os personagens são comparados a animais, posto que os instintos é que determinam os seus comportamentos:  

[…] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador […]

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe […]

Pombinha punha alegrias naqueles serões com as garrulices de pomba que prepara o ninho […] 

Outra característica é a importância dada ao meio ambiente. Por meio da narrativa, podemos perceber que o meio é decisivo no destino dos personagens, um determinado ambiente sempre irá “produzir” os mesmos resultados, os mesmos tipos humanos. O autor dá a entender, por exemplo, que Florinda será a nova Rita Baiana, trocando sempre de “homem” quando este não lhe satisfaz, e que Senhorinha terá o mesmo destino de Pombinha, já que a filha de Piedade é sua protegida, assim como ela fora de Léonie. 

Nessa perspectiva, o destino do homem está fatalmente traçado pelo meio ambiente em que vive e pela raça a qual pertence, não há como fugir. 

REFERÊNCIA 

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Klick, 1997. 


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O Quinze, Rachel de Queiroz

O Quinze nos conta da seca que ocorreu no Ceará, em 1915.

Assim, através do relato da vida de alguns personagens, Rachel de Queiroz apresenta várias situações a que um retirante está submetido para sobreviver.

Um detalhe interessante é que na obra não há menção ao ano em que se passa a narrativa, isso permite que, durante a leitura, façamos comparações com outras situações de seca: quer dizer, a história que está sendo contada pode ter acontecido (ou se repetido) em qualquer lugar e em qualquer tempo do sertão nordestino.

Os personagens

Chico Bento

Chico mora e trabalha na fazenda de Dona Maroca, na cidade de Aroeiras. Com a seca e a falta de esperança na chuva, a patroa manda soltar o gado para morrer pelo sertão e dispensa os empregados.

Como resultado, Chico e sua família – “Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos” – se veem obrigados a retirar: “Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto durasse a seca”.

Depois de passar por inúmeras privações durante a caminhada, os retirantes conseguem passagens para São Paulo, terra “onde sempre há farinha e sempre há inverno…”, ou seja, sempre há chuva.

No entanto, a narradora dá a entender o destino difícil daquela família na terra da garoa: “Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos…”.

Conceição

Conceição pertence a uma família que possui fazenda em Logradouro, perto de Quixadá, e tem condições de viver na cidade com a avó enquanto a seca castiga o interior; mesmo assim, de certa forma, convive com os efeitos da estiagem, pois trabalha como voluntária no Campo de Concentração: espécie de praça em que os retirantes convivem e sobrevivem de esmolas e de doações do governo local.

Dessa forma, ela é a personagem que faz a ligação entre as diferentes camadas sociais, demonstrando que o problema da seca na região afeta a todos, seja financeiramente, com o gado que morre de fome, ou socialmente, tornando boa parte da população em retirantes.

Conceição é apresentada como uma moça de 22 anos, com ideias extravagantes: “Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais ideias estranhas e absurdas a avó”.

Apesar da caridade e das suas leituras, era “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados”.

Preconceito que fica evidente quando ela expressa indignação ao pensar em um homem branco se envolvendo amorosamente com uma mulher negra: “Uma cabra, uma cunhã à-toa, de cabelo pixaim e dente podre!…”. Essas ideias pré-concebidas ajudam a impedir a concretização de seu envolvimento amoroso com Vicente.

A relação dos dois é narrada de modo a nos transmitir uma ideia de que o sol do sertão não seca só a garganta, mas também as almas, tornando-os incapazes de expressarem seus sentimentos, às vezes até os impedindo de sentir com humanidade: “Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!”.

Vicente

Vicente, por sua vez, é o sertanejo forte, branco, mas queimado de sol – “o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol”.

Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso” – com essa descrição, ele representa o homem que não abandona sua terra, mesmo na adversidade, demonstrando a esperança de vida no sertão: “Já comecei, termino! A seca também tem fim…”.

Os lugares

Como dissemos antes, o romance se passa no Ceará.

Grande parte da narrativa acontece no sertão, em Logradouro, cidade próxima a Quixadá – “Alongou os olhos pelo horizonte cinzento. O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo um cinzento de borralho”.

No entanto, os personagens se locomovem constantemente, caracterizando o êxodo para as cidades em de busca de soluções para a fome.

Esse ambiente seco condiciona, e não só condiciona, como também condena os personagens à fome e à subsistência: “Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…”.

Já outros, com melhores condições financeiras, o ambiente agreste lhes torna a alma agreste, como bem expressa Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Com relação ao ambiente social, não há uma grande separação do convívio entre ricos e pobres; há sim uma clara distinção das condições de sobrevivência de cada um desses grupos no período da seca.

A narração

O Quinze é narrado em terceira pessoa.

Esse tipo de narrador é onisciente, o que permite ao leitor conhecer os sentimentos dos personagens, mesmo quando não são expressos de maneira objetiva, mas apenas descritos: “E Chico Bento pensava: ‘Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?’”.

Há também o uso constante de reticências e exclamações, como se houvesse muito mais a dizer (…), mas que o espanto (!) diante da cena descrita não permite.

Assim, a linguagem que o livro utiliza é simples, possuindo, no entanto, imagens belíssimas e de rara sensibilidade diante da tristeza à vista da miséria humana.

Um exemplo disso é o episódio em que Chico Bento, atormentado pela fome e pelo apelo dos filhos por comida, pela primeira vez estende a mão para pedir esmola: “E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante”.

Outros exemplos de imagens podem ser verificados sempre que a autora compara a seca ao fogo – “Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água” – e às cores do sol – “Sombras cambaleantes se alongavam na tira ruiva da estrada” e “O sol poente se refletia vermelho nos trapos imundos e nos corpos descarnados”.

A época

O Quinze faz parte da 2ª geração modernista brasileira, movimento literário de ficção regionalista e social que apresenta, principalmente, questões relacionadas ao Nordeste.

Entretanto, apesar de descrever a seca e os retirantes, o romance não apresenta soluções prontas e nem cai numa tendência maniqueísta de separar os “pobres bonzinhos e sofredores” dos “ricos malvados” – o que acontece com alguns textos literários que se propõem a denunciar problemas sociais.

Não podemos esquecer também que Rachel de Queiroz militou no Partido Comunista e que, por isso, foi presa em 1937.

É uma grande autora brasileira, mulher de coragem para dizer o que pensa e que deixa bem clara sua opinião sobre a repressão na fala de um dos personagens d’O Quinze:

 — Palmatória quebra dedo, 
Chicote deixa vergão, 
Cacete quebra costela 
Mas não quebra opinião!...
Para saber mais sobre a autora:

Academia Brasileira de Letras
Portal da Crônica Brasileira

Referência:

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. São Paulo: Siciliano, 62ª ed., 1997.

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Livro: Lado Escuro

A Escuridão do título não é literal, ela se trata da escuridão que é interna, inerente a nós e nossos sentimentos e ações. Aqui nós temos uma coleção de poemas de temática pesada, muitas vezes tristes e aparentemente desesperançosos, mas que certamente trazem ao leitor certo grau de reflexão.
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Podcast Apokalipson 11 – Livros de Ficção Científica sobre o fim do mundo

Em mais um Apokalipson, Diogo Scooby e Bárbara Coelho recebem Thiago Miani e o decano da Ficção Científica brasileira Paulo Elache para comentar algumas das maiores obras de Literatura de Ficção Científica com a temática de fim do mundo.

Assine nosso podcast em seu agregador favorito.

Comentado no episódio:

Vejam o link do Youtube para o vídeo “VEREDAS: Um bate-papo inquieto sobre a Ficção Científica Brasileira”, com os verdadeiros decanos da FC brasileira:

Alguns livros comentados:

“Máquinas que pensam” (1983) “Não tenho boca e preciso gritar” (1967), de Harlan Ellison.

Trilogia “O Último Policial” (Ben H. Winters) Sinopse da Amazon do primeiro livro, “O Último Policial” (2012): (…) Qual o sentido de se investigar um crime quando o planeta tem apenas seis meses de vida? O detetive Hank Palace enfrenta essa questão desde que o asteroide 2011GV1 foi avistado em rota de colisão com a Terra. Em face da tragédia iminente, a maioria das pessoas abandona seus trabalhos, casas e famílias e as instituições começam a ruir, mas Palace insiste em investigar um suposto suicídio. Ganhador dos prêmios Edgar, dedicado à literatura policial e de mistério, e Philip K. Dick, voltado para livros de ficção científica, O último policial é a combinação perfeita do clássico romance noir com o melhor da ficção científica atual. Primeiro de uma trilogia, o livro pinta um retrato fascinante dos Estados Unidos pré-apocalipse através de um enredo original e envolvente e de um protagonista carismático. “Estranha, bela e assumidamente apocalíptica. Uma das minhas séries de mistério favoritas.” – John Green

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Edição: Diogo Lima

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O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon

Eu chamei pela Deusa e a encontrei em mim mesma.

Chegamos ao último capítulo da saga de Artur e, aqui, mais uma vez, conhecemos a trajetória desse lendário rei pelos olhos e vozes das mulheres que participaram dessa história. Neste livro em específico, a maior parte da narração é de Morgana, mas também ouvimos as vozes de Gwenhwyfar, Morgause e Nimue. 

Gales do Norte

Adentramos novamente esta saga em Gales do Norte, onde conhecemos um pouco da rotina de Morgana como rainha do rei Uriens:

[…] Nas longas e solitárias estações, Morgana experimentara temores e dúvidas permanentes; não era ela, então, mais do que a imagem feita por Uriens: uma rainha solitária que envelhece, corpo e mente e a alma secando e murchando?

Mesmo assim, manteve sua mão com firmeza nesse trabalho doméstico, assemelhando-se a uma camponesa ou a uma cortesã a quem todos deveriam recorrer, em busca de conselho e sabedoria. […]

Nesse local, as antigas e novas tradições se toleram e convivem em paz, pois, apesar do rei ter se convertido ao cristianismo e seguir as orientações de Camelot, ele não reprime aqueles do povo que ainda praticam velhos rituais.

Isso se dá também porque o povo da região sabe que sua rainha, Morgana, é uma representante dessas tradições. Um exemplo dessa convivência e de como o povo mistura as crenças sem julgamentos é que sua nora, Maline anseia por ter um menino, então pede uma simpatia à sogra “feiticeira”, mesmo sendo cristã. 

Camelot 

Na corte, reencontramos o novo Merlin, Kevin, que parece não ter o mesmo trato ou delicadeza de seu antecessor, Taliesin. No entanto, assim como o antigo Merlin, ele também acredita que ainda que os deuses sejam adorados com outros nomes, são os mesmos tanto na ilha quanto no reino, por isso, crê que as sagradas regalias (o cálice, o prato e a lança) devem ficar no mundo dos homens, pois o tempo da tradição de Avalon já passou.

Num jantar apenas para os parentes e amigos próximos antes da festa de Pentecostes, vários acontecimentos são relembrados e velhas feridas são reabertas e cutucadas. Esse imenso diálogo-jantar serve como uma retomada dos acontecimentos dos outros livros para que o leitor se situe no momento em que estamos da história.

É nesse jantar ainda que Morgause leva Gwydion para o apresentar à Corte; e todos se surpreendem com sua semelhança física com Lancelot. Alguns acabam desconfiando que o cavaleiro seja seu verdadeiro pai, outros apenas lembram que ele e Morgana são primos e isso talvez explique sua aparência. Gwydion, chamado de Mordred pelos saxões, aparentemente segue os ensinamentos de Avalon, mas tem ambição de subir ao trono de Artur. 

Durante as demonstrações de cavalaria, há uma continuidade dos diálogos do jantar, desta vez, no entanto, servem ao leitor não como rememoração das coisas que aconteceram, mas como indícios das intenções e dos embates que se desenham entre as personagens.

Um desses embates acontece quando Gwydion desafia Lancelot e acaba fazendo com que lhe concedam a ordem da cavalaria, tornando-se oficialmente um dos cavaleiros do rei. Isso permite que ele passe mais tempo na corte e tente influenciar seu pai biológico.

Uma detalhe interessante desse volume é que os narradores dizem em determinado momento que, como não há mais guerras, o rei entretém o povo com as cerimônias religiosas e comemorações em sua própria homenagem, o que ajudou a construir no imaginário da população a aura que existe em torno da lenda do rei Artur.

Excalibur

Morgana ainda se sente incomodada com o fato de Artur ter quebrado a promessa feita à Avalon, por isso, arma um plano para que Acolon, filho do meio de Uriens, o enfrente e tome a Excalibur. 

Com a desculpa de irem todos para Tintagel, defender os interesses de Morgana contra o cuidador do local, ela leva todos para o país das fadas através da neblina.

Lá, ela e a rainha do lugar nublam a mente de Artur e entregam a espada para Acolon. Quando Artur consegue se libertar do feitiço, luta contra Acolon. Protegido pela magia da espada, num primeiro momento, o enteado e amante de Morgana parece sair vitorioso, mas o rei consegue retomá-la e o mata.

Acolon é enviada à corte morto e tido como traidor. Artur fica na ilha dos padres se recuperando dos ferimentos, mas ele e Uriens sabem que foi Morgana quem orquestrou o ataque. Assim, com todos os seus planos despedaçados, ela foge.

No caminho, porém, ela visita o irmão. Com medo de que a espada e Artur tenham se tornado um só, ela rouba apenas a bainha e a joga no lago. De lá, vai para Tintagel e se isola do resto do reino e das pessoas, pois acredita que falhou com a deusa e, por isso, ela a abandonou.

Sagradas regalias

Depois de algum tempo, Kevin visita Morgana para pedir que volte à Avalon: a ilha se perderá nas brumas em breve, e o Merlim acredita que esse seja um bom destino para ela também: se perder nas brumas com sua ilha sagrada.

Seguindo os conselhos de seu antigo amante, ela vai e lá vive em paz por algum tempo até que um dia, Raven, que havia feito voto de silêncio, grita diante de uma visão da destruição de Avalon e Camelot. Ao consultar o poço para confirmar a profecia, as sacerdotisas veem Kevin entregando as sagradas regalias para o bispo Patrício, que pretende consagrá-las numa cerimônia cristã. 

Para impedir o que acreditam ser uma profanação do cálice, do prato e da lança, Morgana e Raven vão até Camelot e lançam um encantamento durante a consagração dos objetos, assim, Morgana acaba, de certa forma, participando da consagração, pois cada um dos participantes, inclusive o povo que assistia à cerimônia, tem uma visão diferente de acordo com suas crenças – e é assim que a deusa (vida) é venerada: por vários nomes e de várias formas.

Gwenhwyfar, por exemplo, vê a deusa em Morgana, mas para que essa visão caiba em sua crença, ela mistura essa imagem com a de Maria, mãe de Jesus, constantemente retratada utilizando um véu azul:

Depois, através do doce perfume e da felicidade, o anjo estava diante dela, o cálice em seus lábios. Trêmula, ela bebeu, abaixando os olhos, mas logo sentiu um toque em sua cabeça e olhou para cima, e viu não um anjo, mas uma mulher com um véu azul, com grandes olhos tristes. Não havia som, mas a mulher lhe disse: Antes que Cristo fosse, Eu sou, e sou Eu quem lhe faz ser o que é. Portanto, minha amada filha, esqueça toda vergonha e seja feliz, pois você também tem a mesma natureza que eu!

No final da visão, Morgana lança os objetos onde nenhum homem poderá encontrá-los, o que faz com que os cavaleiros da Távola Redonda saiam em busca do que agora chamam de Graal.

A segunda parte da missão das sacerdotisas é fazer com que Kevin retorne a Avalon para ser punido pelo uso profano que fez das regalias. Para isso, Nimue, filha de Elaine e Lancelot, criada na ilha, fica na corte e se aproxima do Merlin, fazendo-o se apaixonar por ela e usando encantamentos para levá-lo a Avalon. Lá, no momento em que é morto, o carvalho ao pé do qual ele seria enterrado é atingido por um raio que o parte ao meio; seu corpo então é disposto não na terra, mas no meio do tronco da árvore. 

Fim

Algum tempo se passa e Morgana acredita que seja o fim dos cavaleiros da Távola Redonda, que se perderam no mundo em busca do Graal, e de Avalon, pois as donzelas se perderam no mundo dos homens ou no mundo das fadas e só as mais velhas sacerdotisas ainda conseguem abrir caminho pela bruma.

Os cavaleiros que sobreviveram à busca pelo Graal voltam à corte para as comemorações do Pentecostes, durante as quais Artur assume Gwydion como seu filho diante de todos. E, numa conversa do agora herdeiro do trono com Niniane, sacerdotisa da ilha, conhecemos mais de suas ideias e intenções: ele despreza as tradições matriarcais representadas por Avalon:

O mundo agora, Niniane, não é o das deusas, mas dos deuses, talvez de um deus. Não devo tentar derrubar Artur. O tempo e a mudança fá-lo-ão.

Apesar disso, para “livrar-se” da rainha, que não o vê com bons olhos, Gwydion concorda com o plano de sua mãe adotiva Morgause que pretende flagrar Gwenhwyfar com Lancelot, usando Gareth, Gwaine e outros como testemunhas da traição dos amantes para com o rei. 

Na confusão, Lancelot consegue se livrar dos cavaleiros e foge com sua amada, mas acaba matando Gareth no processo. No meio da fuga, a rainha decide se recolher a um convento para que Lancelot possa voltar e ajudar Artur contra os planos de Gwydion. O cavaleiro já envelhecido reluta, mas aceita essas condições. 

No entanto, Gwydion já lidera metade dos homens de seu pai, mais saxões e nortistas contra o rei. Numa das batalhas, ao se encararem, Artur acaba matando o próprio filho, mas também é ferido na luta e morre nos braços de Morgana. 

— Morgana – ele sussurrou. Seus olhos estavam intrigados e cheios de dor. — Morgana, foi tudo isto por nada, o que fizemos, e tudo o que tentamos fazer? Por que falhamos?

Esta era minha própria pergunta, e eu não tinha nenhuma resposta; mas ela veio de algum lugar: — Você não falhou, meu irmão, meu amor, meu filho. Você manteve esta terra em paz por muitos anos; por isso os saxões não a destruíram. Afastou a escuridão para uma geração inteira, até que eles fossem homens civilizados, com estudo, música e fé em Deus, que lutarão para salvar a beleza dos tempos passados. Se esta terra tivesse caído nas mãos dos saxões quando Uther morreu, então tudo o que havia de belo e bom teria perecido na Bretanha. Então, você não falhou, meu amor. Nenhum de nós sabe como Ela fará cumprir os seus desígnios… apenas que será feito.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

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Teresas

Teresa
Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo 
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

No poema de Bandeira não há rigor formal: ele é composto por três estrofes, de três versos cada, mas que não seguem um padrão métrico ou rítmico.

O tom com o qual o eu lírico nos fala é coloquial, quase de banalidade, sem os exageros dos românticos, por exemplo.

Nas primeira e segunda estrofes, o eu lírico diz de suas impressões ao ver Teresa (fisicamente): as pernas eram estúpidas, a cara (não face ou rosto) parecia uma perna, e os olhos, velhos. Ele não só descreve o que está vendo, mas faz comparações inusitadas (cara = perna).

Já na terceira estrofe, o eu lírico não vê (“Da terceira vez não vi mais nada”), mas parece que é somente neste momento do não ver que ocorre o encontro com o sentimento amoroso e todo o seu inebriamento (“Os céus se misturam com a terra”).

O “Adeus” de Teresa
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala

E ela, corando, murmurou-me: "adeus.

"Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei! descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

No poema de Castro Alves há um rigor maior com relação à forma: são oito estrofes intercaladas por estrofes de cinco versos e estrofes de um verso; os versos são decassílabos e possuem rima final. As estrofes de um verso parecem funcionar no poema como repetição da separação dos amantes, mas também como estribilho do “adeus”.

O eu lírico desse poema se apresenta desde a primeira estrofe como alguém tomado de emoção, sem reflexão sobre suas ações (“Como as plantas que arrasta a correnteza”).

As estrofes de cinco versos contam do encontro amoroso entre o eu lírico e Teresa (com exceção da última em que há o encontro de Teresa, mas com outro), enquanto as estrofes de um verso dizem do adeus.

Teresa, de Bandeira, parece descrever a mulher e, por fim, relatar do seu encontro com o sentimento amoroso; O “Adeus” de Teresa trata do amor romântico – apesar de haver encontro (carnal também) -, mas a separação já está anunciada desde o título.

Os dois poemas possuem três momentos que dialogam: no poema de Bandeira, o olhar primeiro são para as pernas que se relacionam com a valsa, que é a dança do primeiro encontro do poema de Castro Alves; num segundo momento, o eu lírico do primeiro poema volta-se para os olhos de Teresa, enquanto o de Castro Alves concretiza o amor carnal e, finalmente, na terceira estrofe de Bandeira, há o encontro com o sentimento, a emoção, enquanto em Castro Alves, ocorre a separação anunciada desde o início.

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Leia mais no blog:

O bicho – Manuel Bandeira

Secos & Molhados

Poesia e a descoberta do mundo

Fabricando Poesia

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O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon

Livro 3 - As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

“… pois todos os animais nasceram e se juntaram aos outros de sua espécie e viveram e trabalharam de acordo com as forças da vida e, por fim, entregaram novamente seus espíritos à guarda da Senhora…” (Gwydion)

O título pode passar a impressão que o enredo se centrará num personagem masculino e isto é verdade até certo ponto, porém ainda conhecemos os fatos pelas narrativas e visões das mulheres.

Contrapondo-se ao A Grande Rainha (Livro 2) – que começa no inverno, nos domínios de Lot –, este O Gamo-Rei inicia-se no mesmo reino, mas no verão. Após a morte do marido, Morgause governa de modo incontestável já que a população local está acostumada com figuras femininas de poder – simbolizadas pela deusa e suas sacerdotisas. Neste contexto e pelo olhar da mãe adotiva, somos apresentados a Gwydion: rebelde e indomável, inteligente e sagaz, possuidor da Visão e nem mesmo Morgause consegue manipulá-lo. Ainda por este olhar sabemos que ele é vaidoso – como sua mãe biológica, Morgana.

“Avalon. E então Morgause viu o sorriso secreto de Gwydion, e soube que ele estava esperando por isso. Mas ele nunca falou da Visão. Qualquer criança teria se vangloriado dela, se a tivesse! Compreendeu de súbito que Gwydion podia disfarçá-la, sentir maior prazer nela por ser secreta, e isto lhe pareceu estranho, a tal ponto que teve um movimento de repulsa, quase de medo, do seu filho adotivo. […]

Viviane, Kevin e Niniane (última descendente da velha linhagem real de Avalon) decidem levá-lo para a ilha – planejam que se torne o próximo rei e que honre os compromissos de Camelot com a velha religião, já que Artur se tornou um rei cristão e está negligenciando este tratado.


O que acontecerá ao Gamo-Rei quando o pequeno gamo tiver crescido?

As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

Pentecostes

Na corte, muitos se reúnem para as festividades anuais de Pentecostes. Taliesin, Lancelot e Morgana são alguns dos personagens que estão lá, assim como os reis vassalos, a fim de renovarem seus votos de fidelidade a Camelot, e muitos elementos do povo que levam petições e pedidos de justiça ao rei.

A festa, no entanto, não é motivo de alegria para todos os presentes. Taliesin está cheio de premonições sobre o futuro, não necessariamente boas. Lancelot ainda se sente perturbado por seu amor a Gwenhwyfar e Artur. E Morgana carrega a culpa por esconder o filho que teve com o rei, fazendo-o acreditar ser infértil, ao mesmo tempo em que sente vergonha por ter engravidado do próprio irmão. Mais uma vez, ela é a síntese das mudanças pelas quais aquela sociedade está passando, é um amálgama entre as duas religiões: a celebração da vida na deusa e a culpa cristã.

Outra pessoa presente na corte é Viviane, que vai exigir que Artur cumpra suas promessas de proteger Avalon, pois os reis subalternos estão proibindo os velhos cultos em seus domínios, profanando os bosques sagrados da velha religião. No momento em que a Senhora do Lago apresentava sua petição ao rei, Balim a mata…

— Senhor meu rei – gritou ainda Balim –, deixe-me acabar com todas essas feiticeiras e magos, em nome do Cristo que os odeia a todos…

Este acontecimento torna-se um marco da corte que passa a ser estritamente cristã. Ainda assim, Artur pede que ela seja enterrada na praça de Glastonbury, como homenagem, já que lá é também um lugar de peregrinação. Dessa forma, vamos assistindo aos velhos ritos sendo incorporados aos novos, as religiões se fundindo ao incorporarem a tradição com uma nova roupagem.

Livro 3

Nesta terceira parte, continuamos com os excertos dos pensamentos de Morgana que, tecendo comentários sobre os acontecimentos, torna essas reflexões numa espécie de salto temporal para a narrativa, pois é nestes trechos, por exemplo, que sabemos de alguns fatos, como a morte do velho Merlim.

O Gamo-Rei

Um novo personagem, Meleagrant, aparece durante as festividades alegando ser herdeiro de Leodengraz, pai de Gwenhwyfar e, portanto, sucessor de direito daquele reino. A rainha o despreza, dizendo não passar de um bastardo. Por isso, ele toma o país do verão à força, mas depois, sob trégua, pede que ele e a irmã resolvam a situação amigavelmente.

Gwen vai sozinha, pois quer provar a todos que pode ser útil em seu reinado, e não apenas uma tola – aos olhos de Morgana e de todos na corte. Mas as coisas dão errado. A trégua era uma armadilha de Meleagrant, que a violenta, pensando que isso fará Artur a desprezar e legitimá-lo como senhor daqueles domínios. O que mais surpreende nesta passagem é que mesmo diante de tamanha violência injustificada, tudo o que ela consegue pensar é que está sendo punida por ter pecado, ao mesmo tempo em que se sente responsável, assumindo a culpa pelo estupro, afinal “nenhuma mulher era violentada se não tivesse tentado algum homem a isso…”.

Estre trecho da trama é bem forte e um símbolo da culpa cristã jogada sobre as mulheres. Mas também se torna um ponto de virada para a personagem – que se liberta, momentaneamente, de seus pudores e tem um caso com Lancelot.

“Deus não me compensou pela minha virtude. O que me faz pensar que ele poderia me castigar? E teve, em seguida, um pensamento que lhe deu medo: Talvez não exista Deus, nem qualquer dos deuses que as pessoas acreditam. Talvez seja tudo uma grande mentira dos padres, para que possam dizer à humanidade o que fazer, o que não fazer, no que acreditar, dar ordens até mesmo ao rei.”

Para evitar que a “vergonha” da traição caia sobre o irmão, Morgana conspira com Elaine para forçar um casamento entre esta, dama de companhia da rainha, e Lancelot. Então, como Viviane antes dela, Morgana interfere no destino das pessoas próximas a si em nome do bem do reino.

Passamos a entender um pouco melhor as falhas e frustrações de Gwenhwyfar, pois o foco da narração intercala entre ela e Morgana, fazendo mais uma vez os contrapontos entre seus diferentes pontos de vista, numa alegoria das mudanças e contradições sociais e religiosas daquele tempo encarnada nessas personagens. Assim como o povo que continua realizando alguns ritos pagãos apesar da cristianização – como a escolha da Virgem da Primavera: uma jovem é escolhida para percorrer os campos em procissão ao mesmo tempo em que os padres abençoam a terra.

Depois do casamento de Lancelot, a rainha se volta novamente para a religião e, numa tentativa de expurgar o pecado de sua vida, conta para Artur o segredo de Morgana e insiste que ele o confesse para o bispo, penitenciando-se e colocando-se (e ao reino) nas mãos dos padres – o que é um prenúncio do que ocorrerá no futuro com os Estados europeus.

Morgana, por sua vez, casada agora com o rei Uriens, pensa em restaurar os velhos ritos, pois fez as pazes com a antiga religião e volta às suas práticas.

“Se eu tivesse me casado com ele na idade certa, Gales do Norte talvez nunca tivesse se tornado cristã. Mas ainda não é tarde demais. Há os que não se esqueceram de que o rei ainda traz, embora desbotadas, as serpentes de Avalon em seus braços. E casou-se com uma mulher que foi sacerdotisa da Senhora do Lago. Eu poderia ter continuado a sua obra aqui melhor do que durante todos aqueles anos na corte de Artur, à sombra de Gwenhwyfar.”

E vamos nos encaminhando para o quarto e último livro da série, O Prisioneiro da Árvore: as religiões e seus praticantes se misturando e o reino, agora em paz com os saxões, na iminência de uma guerra com Roma.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon (Livro 4)

Projeto Leia Mulheres

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A Grande Rainha – As Brumas de Avalon

A Grande Rainha

Igraine pôs de lado o bordado. Afinal de contas, não estava manchado; as lágrimas vertidas pelas mulheres não deixam marcas no mundo, pensou com amargura.”

Neste segundo grande capítulo de As Brumas de Avalon, Gwenhwyfar e Morgana polarizam a história. Uma representando o cristianismo, a outra, a velha crença. Uma, recatada e reprimida pelos pudores da religião, a outra, senhora de si e de suas paixões. Uma, como símbolo de Camelot, a outra, de Avalon…

Poderíamos seguir com muitos mais exemplos, pois este contraste entre as personagens reforça a imagem de como o cristianismo – guiado por homens – podou o feminino, tornando-nos paranoicas e receosas de nossos próprios corpos. Tema representado por toda a falta de confiança em si mesma que Gwenhwyfar mostra durante boa parte da trama.

Morgana é o contraponto a esta representação, personificando a luta pelo direito ao feminino como forte, como o próprio direito a vida. E, mesmo com inseguranças normais a qualquer pessoa, segura de si e do direito a usufruir de seu corpo conforme sua vontade.

– Sua voz é linda, irmã. Você aprendeu a cantar assim em Avalon?

– Sim, minha senhora, a música é sagrada. Não aprendeu harpa no convento?

– Não, pois parecia impróprio a uma mulher erguer a voz ante o Senhor – respondeu Gwenhwyfar com um recuo.

– Vocês, cristãos, gostam demais da palavra impróprio, especialmente se no que se relaciona às mulheres. Se a música é um mal, é mal também para os homens. E se é uma coisa boa, não devem as mulheres fazer todo o bem que puderem para compensar o suposto pecado cometido na criação do mundo?

A Grande Rainha

Camelot

Seguindo a forma do Livro 1, continuamos a conhecer a lenda do rei Artur pela visão de suas heroínas – Gwenhwyfar, sua esposa; Igraine, sua mãe; Viviane, a Grande Sacerdotisa de Avalon e sua tia; e Morgana, Senhora do Lago e sua irmã – nas terras que mais tarde se tornariam a Grã-Bretanha – sua luta contra as invasões saxônicas e seu esforço para unificar o reino.

É neste Livro 2, por exemplo, que Artur transfere a corte para Camelot por questões estratégicas de guerra, por ser um território mais fácil de defender do que as terras da antiga capital do reino, Caerleon.

Livro 2

Como prelúdio desta jornada, acompanhamos a gravidez de Morgana. Para esconder de todos sua condição, ela foi para o Norte, ficar com a tia Morgause, que não a julgaria. Ainda assim, não confia o suficiente para se abrir, para contar quem é o pai e por que algo que poderia ser uma dádiva é tão doloroso.

Lot e Morgause fazem planos para o filho da sobrinha. A criança é rival de seus próprios filhos na sucessão ao trono de Artur, já que ele não tem herdeiros. Lot quer aproveitar que Morgana teve um parto difícil e, de alguma forma, usar esta circunstância como desculpa para matar a criança, mas, por alguma razão não totalmente explicada, Morgause não o faz.

A Grande Rainha

Filha do rei Leodegranz, seu pai faz um acordo com Artur para que se case com ela. Gwenhwyfar, entretanto, tem medo dos planos do pai, tem medo de espaços abertos, tem medo das mudanças que estão prestes a acontecer… Ela parece estar sempre assustada e com medo de tudo e de todos.

Da forma como são descritas as suas fobias, parece que ela tem agorafobia, por isso vive presa entre os muros do castelo e, talvez, isto seja uma metáfora para as paredes de uma prisão ideológica – religiosa – em que o cristianismo a confinou.

Conforme a narrativa avança, outras pressões fazem com que a rainha não seja tão severa quanto à religião, mesmo tendo sérias discussões com Artur sobre pagãos x cristãos, em certo momento da história pede um talismã ou feitiço à Morgana para ter um filho, posto que uma de suas (poucas) funções como rainha é dar um herdeiro para o reino.

Gwen é uma personagem que está sempre em conflito entre os seus desejos mais íntimos e suas convicções religiosas. Nisto, ela e Morgana são parecidas – pois as duas acreditam que as coisas ruins que lhes aconteceram são resultado de terem falhado cada qual com a sua fé.

À volta dela, a noite parecia respirar tristeza e desalento.

Por quê?, perguntava-se Gwenhyfar. Artur está feliz. De nada pode me censurar. De onde vem essa tristeza que paira no ar?

A velha e a nova religião

Artur jurou proteger Avalon, mas escolhe para esposa uma mulher cristã. O que é mais um indício do conflito de fé naquelas terras e nos corações dos personagens.

Tanto assim, que o rei escolhe como dois de seus conselheiros o Merlin e padre Patrício, que estão sempre discutindo assuntos religiosos. O mago sempre mais tolerante quanto à intolerância do padre. O livro é pautado por estes debates teológicos como se fossem personificações dos sentimentos contraditórios dos outros personagens que estão ao redor.

Representando a nova ou a velha religião, porém, ninguém está (ou estará) como ou com quem realmente queria, estão todos servindo suas vidas ao reino e, consequentemente, aos seus deuses. Este é o peso da crença, seja ela qual for.

Mas também há uma passagem muito bonita na narrativa quando cristãos e pagãos abandonam suas diferenças e se deixam levar pela beleza da arte, da música:

Levou as mãos às cordas e começou a tocar. Gwenhwyfar ouvia, encantada, e suas servas aglomeraram-se na porta para ouvir também, sabendo que partilhavam de uma exibição real. Ele tocou por muito tempo na penumbra que se intensificava, e, enquanto ouvia, Gwenhwyfar sentiu-se transportada para um mundo em que pagão ou cristão era a mesma coisa, guerra ou paz também, mas onde apenas o espírito humano, flamejando contra as trevas como uma tocha sempre acesa, tinha valor. Quando as notas da harpa finalmente silenciaram, ela não podia falar, e viu que Elaine chorava em silêncio.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon (Livro 4)

Projeto Leia Mulheres

A mulher desiludida

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Projeto Leia Mulheres

Leia Mulheres

Não me lembro exatamente como fiquei sabendo do projeto Leia Mulheres, mas me lembro de como a proposta me fez olhar a minha estante e buscar na memória as obras que li durante a vida e quantas delas tinham sido escritas por mulheres…

É claro que havia autoras em meio ao meu percurso literário e que foram importantes na formação do meu senso estético e artístico, mas o passo seguinte desta busca foi me fazer reparar na discrepância em relação à quantidade de artistas homens e mulheres.

Era um número gritante, e foi assustador tomar consciência dele.

Desde então, tenho pensado mais minhas escolhas de leitura. E isso não significa que não leio mais homens – alguns deles ainda são meus favoritos rs –, significa que tenho sido mais crítica com minhas leituras e suas influências.

O projeto existe em várias cidades do Brasil, e confesso que, apesar de acompanhar pela internet há algum tempo e até já ter lido alguns dos livros discutidos no grupo de São Bernardo, a primeira vez em que fui num encontro presencial foi somente em setembro.

Ah, apesar do nome do projeto deixar algumas pessoas confusas, os clubes de leitura não são só para mulheres, homens podem ler e participar. O nome refere-se apenas ao conteúdo, que é – evidentemente – ler (obras escritas por) mulheres.

Você pode acompanhar o projeto pelo site que, além da divulgação das agendas dos grupos de leitura, também tem resenhas e outros conteúdos relacionados, ou pelo Facebook, Instagram, Twitter e Pinterest.

Eu achei a experiência enriquecedora e espero poder participar dos próximos encontros!

E você, já participou (ou participa) de algum clube de leitura? Conte-nos sua experiência nos comentários!

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon

Clarice Lispector

A mulher desiludida 

Dina Salústio e Graciliano Ramos

Narradores de Javé, de Eliane Caffé

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