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ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

uma mulher no trono papal

Segundo a Mitologia Grega, a primeira mulher veio ao mundo como castigo dos Deuses. Chamava-se Pandora e junto com ela veio a famosa caixa que não poderia ser aberta… mas ela abriu e, consequentemente, trouxe inúmeras desgraças.

Não ficou claro se ela abriu só a caixa ou “abriu mais alguma coisa”, mas o recado machista ficou bem definido…

Também relacionado à Grécia Antiga, vem outro exemplo de machismo:

Segundo os historiadores, em 393 d. C., o Imperador romano Teodósio (347-395), que era cristão, aboliu os Jogos Olímpicos que já existiam há mais de um milênio. Apesar de tais Jogos serem exclusivos dos homens, ele alegou que o evento estava ligado ao paganismo, exaltava o corpo humano e atentava contra a masculinidade.

Outro exemplo de machismo ocorreu na Idade das trevas, mais precisamente por volta de 855 da nossa era.

Segundo a lenda, uma jovem de nome Joana ou Joanne, extremamente inteligente e culta, teria chegado ao Papado com o nome de João VII.

Na época era proibido as mulheres estudarem, então ela “vestiu-se” de homem e foi galgando todos os cargos da Igreja: Monge, Padre, Bispo, Cardeal e finalmente Papa.

Certamente ela era muito inteligente senão não teria chegado aonde chegou. Mas, acima de tudo, ela era um ser humano e uma mulher e como tal acabou se apaixonando por um guarda suíço do Vaticano e dando suas “furunfadas”, acabou por engravidar.

Claro que ela escondeu isso enquanto pôde, mas um dia em uma das intermináveis e cansativas procissões, acabou dando a luz ao bebê em plena rua.

Resultado: a pobre coitada acabou amarrada ao rabo de um cavalo e arrastada até a morte.

Em outra ocasião, em 1859, quando Charles Darwin publicou o seu famoso trabalho “A Origem das Espécies”, sugerindo que o homem descendia dos macacos, foi um verdadeiro alvoroço. A Igreja queria “crucificá-lo” e mesmo a sociedade científica demorou em aceitar suas ideias.

Um de seus colegas, para ironizá-lo, teria dito: “Se ele afirmasse que a mulher descende de um macaco, ‘vá lá’, mas dizer que o homem descende do macaco é demais.”

O que eles não sabiam, e sabemos agora, é que descendemos de poeira estelar e bactérias há “trocentos” bilhões de anos atrás. Mas ainda tem gente que não acredita nisso e é perfeitamente normal que isso ocorra. É difícil alterar os ensinamentos “aculturados” durante anos e anos.

Estes fatos históricos, sendo totalmente verdadeiros ou não, demonstram como tem sido machista a humanidade. Resquícios desse machismo ainda existem em todos nós e é manifestado de várias maneiras.

Assim, cresci aprendendo que o homem, ou seja, o “cabra macho”, não chora, não lava louças, em sua casa quem manda é ele e por aí vai…

Dia desses a minha mulher veio com a seguinte conversa:

— Você tem que fazer o exame da próstata e já marquei com o médico.

Aquilo foi uma terrível notícia, eu sabia que tinha que fazê-lo, mas sabe como é: homem que é homem… Então respondi a ela:

— O que?! Ir lá para o cara meter o dedo no meu “fiofó”? Nem pensar!

Então, como na minha casa quem manda sou eu, adivinhe: fui!

Mas considerando aquele ditado que diz: Integridade é dizer a verdade a si mesmo e Honestidade é dizer a verdade aos outros, e como esse assunto é de interesse geral, vou contar como foi.

Já na véspera quando falei aos amigos a minha terrível missão, começaram as gozações:

— Relaxa, você vai acabar gostando e pedir para voltar – Disse um.

— Trate de levar um espelho retrovisor, nunca se sabe o que o médico vai enfiar lá… – disse outro.

— Cara, isto é como aquela peça de teatro: Trair e coçar, é só começar! – Afirmou outro. E tantas outras piadinhas do gênero.

No fatídico dia fiquei pensando: “Darci, você já passou por tantas situações difíceis nessa vida, não é um mísero dedinho que vai te assustar. Mas e se for um ‘dedão’?”

Bem, lá fui eu e, é claro, levei minha mulher, pois precisava de um apoio moral nesse assustador momento.

O simpático Doutor, já com idade avançada, lá pelos seus 60 anos ou mais, começou com inúmeras perguntas. Fiquei pensando: “Por que tantas perguntas? Por que ele não vai logo aos ‘finalmentes’ e acaba logo com essa agonia de uma vez?”

Depois de inúmeras anotações, ele encostou-se à cadeira, fez uma pausa “estratégica” que parecia uma eternidade, olhou-me fixamente e disse:

— Bem, pelo que você me disse, sua saúde é ótima, então o que o senhor vem fazer em meu humilde consultório em uma tarde de sexta-feira, tão linda e ensolarada? – E já dando a resposta completou com um sorriso maroto: — Já sei! Quer experimentar o meu dedo? Já que está aqui, vamos para a sala ao lado.

Lá chegando já foi dando ordens:

— Deita aí na cama e baixe as calças.

Nessa altura dos acontecimentos, não aguentando mais, falei:

— Doutor, me deixa ver direito essa tua mão, afinal, cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém!

— Não se preocupe – respondeu ele, mostrando-me as suas mãos e continuando: — Veja, são pequenas e não tem nenhum anel ou aliança, vai ser moleza!

— É moleza porque não é no seu! – eu respondi.

Minha mulher que estava na sala ao lado ouvindo a conversa perguntou:

— Posso assistir?

Respondemos em coro:

— Nãaaao!!

A partir daí recuso-me a contar detalhes, mas dá para imaginar…

Depois dessa a época do machismo “já era”. Será?

Pois é, “assim caminha a humanidade”.

Que a paz esteja com todos.

Darci Men

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A sombra do burro

A sombra do burro
Relatado por Darci Men

Demóstenes (384-322 a. C.) foi o maior orador ateniense.

Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria, Demóstenes viu-se em apuros pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo.

Então, elevando a voz, disse que tinha uma história interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

— Certo jovem, precisando ir de sua casa até Megara durante o verão, alugou um burro, mas, antes de sair, o sol ficou a pino, muito quente, tanto o moço como o dono do animal alugado, queriam usar à sombra do burro e começaram a discutir quem ficaria com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não sua sombra, e o outro afirmava que, quando pagou o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura, Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se.

A multidão logo protestou desejosa de ouvir o resto da história. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, encarou com firmeza o auditório, dizendo:

— Atenienses! Que espécie de homens sois que insistem em saber a história da sombra de um burro e recusas tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pôde fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da história da sombra do burro.

Até hoje os oradores usam deste expediente quando necessitam atenção da plateia.

Algo parecido aconteceu comigo.

Certa vez fui designado para dar uma palestra sobre segurança patrimonial e pessoal para funcionários de agências do Banco onde trabalhava.

Acontece que o organizador do evento designou-me para falar após a palestra do Professor Marins, um catedrático em comunicação e o homem foi fantástico, e no “Cofee Break” (parada para o café) que seguiu a sua apresentação todos comentavam a sua atuação.

Aí percebi a “roubada” em que tinha entrado: tinha de falar de um assunto chato, não era especialista nisso e falaria logo após aquele show do Professor Marins, e fiquei pensando: “Tenho que apresentar alguma coisa especial ou estou perdido!”

Por sorte lembrei-me de algo que tinha visto nos jornais da época e acabei “salvando o dia”, comecei a palestra nos seguintes termos:

“Pessoal, falar de segurança após esse show do Professor Marins, me fez sentir como o 8º marido da Elizabeth Taylor na noite de núpcias, ele deve ter pensado: ‘O que vou fazer agora para satisfazer essa mulher!’”

Todos aplaudiram e a partir daí tudo ficou mais fácil e no final da palestra o próprio Professor Marins fez questão de me cumprimentar.

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Maria Louca

Maria Louca, por Darci Men

Escrito por Darci Men

Sentado na varanda da sua velha casa, em uma cadeira improvisada e amarrada com cipó da floresta, seu Nhonhô, como é conhecido por todos da região, apreciava o “vai e vem” de máquinas, caminhões e pessoas em direção as obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em plena floresta Amazônica.

Seu Nhonhô é o típico “barranqueiro”, como são conhecidos os moradores das margens dos rios amazônicos, mas com uma particularidade única: em uma região inóspita, onde a expectativa de vida é de, no máximo, 60 anos, aquele senhor ainda lúcido tem o dobro ou mais disso.

Ninguém, nem mesmo ele, sabe direito sua idade, quando lhe perguntaram se tem algum documento para ver sua idade, o velho ancião respondeu:

— Não tem não, sinhô. Perdi quando era moço, minha canoa aborcou – virou – no Rio Mamoré, perto do Forte.

Com o corpo “arcado” pelo tempo, a pele enrugada e as mãos trêmulas, mas com uma lucidez de fazer inveja às pessoas que o rodeavam, ele comentava com seu sotaque único e uma voz rouca e cansada:

— Apois pessoar, tanta bandaieira assim eu só vi nos tempo da “Maria Louca”. – Aponta o seu dedo trêmulo para um capão de mato e continua: — Ela vinha por aquele córgo – riacho –, toda cheia de trique-trique e não tinha arma viva que não parava pra ver ela passá, até o prégo – macaco prego – parava de brinca na castanhera – Castanheira (árvore típica da região).

As pessoas presentes se entreolharam, como se perguntando: “Quem é essa tal de Maria Louca?” Alguém logo esclareceu:

— Não se trata de D. Maria I, mãe de D. João VI, que também tinha esse apelido, nem tampouco de uma mulher. Maria Louca, ou Mad Maria, na versão mais sofisticada do escritor Márcio de Souza e também de uma mini-série da Rede Globo, era o apelido das locomotivas da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Esse apelido, que no sul do Brasil é carinhoso (Maria Fumaça), lá é pejorativo mesmo, devido às grandes dificuldades encontradas para a construção e operação da estrada e, principalmente, ao grande número de mortes na sua construção, gerando também outros apelidos, tais como: Estrada da Morte, Estrada do Diabo e assim por diante.

Demonstrando a incrível lucidez daquele ancião, que ouvia atentamente a conversa, ele comentou:

— Esta floresta não é de brincadeira seu moço, já venceu muita gente grande e continua braba. Meu pai, que era um caboclo valente e conhecia essa mata como ninguém, morreu quando abria picada – caminho no meio do mato – para a Estrada da Maria Louca.

Alguém logo perguntou:

— Ele morreu de malária, seu Nhonhô ?

Milhares de trabalhadores morreram disso na época da construção da estrada.

— Não, sinhô. – respondeu o ancião — Uma onça pegô ele, mas ela morreu primeiro! – afirmando com orgulho: — Meu pai furô ela todinha com a faca.

Ouvindo essas histórias e vendo o atual abandono dessa estrada, vem a pergunta: “O que levou o governo brasileiro a gastar milhões em uma obra ‘faraônica’, ‘ligando o nada a lugar nenhum’ (estima-se que na época foram gastos o equivalente a 28 toneladas de ouro), ao custo de tantas vidas e considerada uma das maiores do mundo para a época, inclusive comparada com a construção do Canal do Panamá?”

A resposta parece simples: Questão econômica. Mas foi só isso?

Na época, praticamente todo transporte da região era efetuado através dos rios, mas naquele local especificamente existia um problema: as grandes cachoeiras do Rio Madeira (onde atualmente estão em construção as Usinas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio).

Isto inviabilizava o transporte fluvial de um produto com alto preço no mercado internacional e abundante na região, o látex (ou borracha).

Era necessário encontrar uma maneira de transportar essa riqueza e, em 1.867, o Imperador D. Pedro II criou uma comissão para estudar a viabilidade de construir a estrada que foi logo descartada devido as dificuldades.

Mais de cinco anos depois, uma empresa inglesa, a Public Works, assumiu o “risco” de fazê-la, mas devido as dificuldades, principalmente as doenças, abandonou o projeto menos de um ano depois, sem construir um metro sequer.

O contrato foi transferido para outra empresa inglesa, a Reed Bross. E Co., que também não construiu nada e a questão foi parar nos tribunais, anulando-se o contrato em janeiro de 1877.

No ano seguinte, em 1878, novo contrato foi firmado com a empresa americana Phillip e Thomas Collins, que criou a Madeira Mamoré Railway, especialmente para construir a estrada. No mesmo ano, a empresa teve um de seus navios a vapor naufragado, o Metrópolis, matando 80 pessoas e perdendo todo o material que transportava.

No ano seguinte, o próprio Collins foi atacado por índios e sobreviveu por pura sorte; sua empresa faliu com apenas sete quilômetros de trilhos assentados. Tudo foi abandonado novamente.

Nesse período ocorreu a guerra entre a Bolívia e o Chile, tendo a primeira perdido o temad mariarritório que dava aceso ao Oceano Pacífico, passando a depender do transporte fluvial para o Oceano Atlântico através dos rios amazônicos: Mamoré, Madeira e Amazonas. Mas as já mencionadas cachoeiras do Rio Madeira eram o grande problema, sem contar a floresta densa, os índios, as doenças e, principalmente, os conflitos com os brasileiros da fronteira.

Em 1.899 ocorreu a chamada Revolução Acreana e, para evitar uma guerra de maiores proporções, os governos brasileiro e boliviano assinaram em 17.11.1903, o “Tratado de Petrópolis”, tendo o governo boliviano cedido o território do Acre que lhe pertencia em troca do governo brasileiro construir a Estrada de Ferro de 366 km, ligando Guajará-Mirim, no Rio Mamoré, ao Porto de Santo Antonio, no Rio Madeira (Atual Porto Velho).

A concorrência para o novo contrato foi vencida pelo engenheiro brasileiro Joaquim Catramby, que nada mais era que um “testa de ferro” do mega investidor americano Percival Farguar, este, um polêmico empresário com vários projetos no Brasil e no mundo.

A obra foi alardeada no mundo inteiro como o mais ambicioso projeto do século, mas acabou sendo ofuscada pela construção do Canal do Panamá, que foi efetuada na mesma época.

A construção da estrada durou de 1.909 à 1912, envolvendo mais de 20.000 trabalhadores do mundo inteiro.

Nesse período ocorreram greves, tumultos e muitas mortes (mais de 1.500, sem contar os desaparecidos), intrigas palacianas entre o empresário Faguar e o ministro Juvenal de Castro, do então presidente Marechal Hermes da Fonseca (contrário a construção da estrada) e muitos gastos que levaram à falência da Companhia. (Esse período é demonstrado na minissérie Mad Maria, da Globo).

Mais incrível ainda: assim que a estrada ficou pronta, o preço da borracha despencou, a Bolívia encontrou outro caminho via Argentina, o canal do Panamá passou a operar e fazer concorrência e a operação da ferrovia (o mais ambicioso projeto do século) tornou-se deficitária.

Em julho de 1931, o governo brasileiro assumiu o controle da Ferrovia e, em 1966, depois de 54 anos de prejuízos, foi desativada e substituída por uma rodovia e todo o seu acervo abandonado.

Em 1972 a maior parte desse acervo foi vendida como sucata para uma empresa de Mogi das Cruzes, em São Paulo.

Realmente a Maria Louca merece o apelido que ganhou. Hilariante, não acham?

Seu Nhonhô, em sua simplicidade, falou uma grande verdade: a Floresta Amazônica não é para brincadeiras e já derrubou muita “gente grande”, que o digam Henry Ford (Fodlândia), Daniel Ludwig (Projeto Jari), Percival Farguar, entre outros que a desafiaram e perderam, sem contar os governos do Brasil, que investiu milhões em troca de um monte de ferro velho e da Bolívia que cedeu território em troca de nada.

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O pescador

Veraneio
Baseado em fatos reais

A relação do homem com os peixes é tão antiga quanto a própria história da humanidade.

Mas o que eu pretendo é contar um pouco da história de um pescador recreativo, ou seja: aquele que pesca por prazer, além de prestar uma homenagem a uma pessoa incrível que, com sua simplicidade e seu jeito de ser, ensinou-me belas lições de vida.

Trata-se de José Martinez Requena, o Pepe (8.10.1917-8.3.1984).

Eu sempre tive a curiosidade de saber por que os espanhóis colocam o apelido de Pepe para quem chama se José, mas nunca dei muita atenção e o tempo foi passando.

A explicação veio por acaso, quando, certo dia, um colega me mandou algumas curiosidades e entre elas dizia:

“Nos conventos da Idade Média, durante a leitura das Escrituras Sagradas, ao se referir ao São José, diziam sempre: Pater Pretativos, ou seja: Pai Suposto e abreviavam para P.P. Assim surgiu o hábito, nos países de colonização espanhola, de chamar o José de Pepe”.

Pepe nasceu na Andaluzia (Andalucía para os castelhanos), uma província ao sul da Espanha e próxima de Portugal.

É uma região antiguíssima e lá viveram fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, visigodos e, principalmente, os muçulmanos que dominaram a região por oito séculos e só deixaram a região depois da conquista de Granada pelos “Reis Católicos” em 1492.

Aliás, Andaluzia vem de Al-Andalus, nome dado pelos muçulmanos à Península Ibérica no século VIII.

Sua infância e juventude foram difíceis, pois a região era muito pobre e dominada por latifundiários, militares e pela Igreja Católica, enquanto a população passava fome.

Além disso, era uma guerra após a outra, às vezes pelo poder, como a ditadura de Primo Rivera (1923-1930), outra por questões ideológicas, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), da qual o pobre Pepe e sua família participaram e sofreram coisas terríveis.

Essa guerra simplesmente arrasou toda a Espanha.

Pepe contou-me que os fuzilamentos eram quase diários e os historiadores calculam que ocorreram mais de 400.000 mortes, sendo apenas 1/3 delas na guerra.

A renda per capita caiu em mais de 30%. Aliás, contam ainda os historiadores, que essa foi uma guerra civil “internacionalizada”, pois de um lado Franco, que depois se tornaria ditador por muitos anos, tinha o apoio dos nazistas alemães, dos fascistas portugueses e italianos; e os republicanos contavam com o apoio de Stalin, da União Soviética e de milhares de voluntários esquerdistas de 53 nações de toda a Europa.

Guernica - Pablo PicassoDizem ainda os historiadores que essa guerra foi “alimentada” pela Alemanha e outros países europeus que, após a Primeira Guerra Mundial, “testavam” novos armamentos lá (quem conhece a história da obra prima de Picasso “Guernica”, sabe bem disso).

Nesse “mundo” tumultuado vivia Pepe, até que em 18.1.1942, em Barcelona, casou-se com sua prima, Josefa Perucha de Martinez, a Pepa e, em 2.8.1944, tiveram a primeira filha, Magdalena Martinez Perucha, a Mada.

Em 1950 ele resolveu procurar um lugar melhor para viver, deixou a família em La Carolina, uma cidadezinha da província de Jaén, na Espanha, onde morava e, em companhia do amigo Henriques, partiu para as Ilhas Canárias, mas não gostou de lá e partiu para o Brasil, desembarcando no Porto de Santos em 25.2.1951.

Aqui, em São Paulo, na Vila Diva, começou a trabalhar com móveis e mais tarde montaria uma fábrica de “copas” (móveis de cozinha) e naquele mesmo ano, sua esposa e a filha também vieram para o Brasil e desembarcaram no Porto de Santos em 11.10.1951.

Mais tarde traria também sua sogra, a saudosa Mama Petra – como eles a chamavam (uma verdadeira mãe para ele) –, além de irmãos e cunhada.

Em 25.1.1953 o casal teve mais uma filha, Maria dos Anjos Martinez Perucha, a Angélica, que mais tarde seria a minha esposa.

Pepe tinha uma personalidade única, não era um individualista, mas dificilmente se apegava muito às pessoas e seus amigos eram variados.

PepeefamíliaGostava de festas, mas sempre a seu modo e a “fartura” que alcançou aqui, contrastava muito com a fome que passou durante sua infância e juventude.

Assim, ele vivia promovendo festas com muita comida e bebida.

Ele era um artesão e fazia verdadeiras obras de arte com móveis, gostava de jogar snooker e dominó, neste jogo ele era quase imbatível, mas o que gostava mesmo era de pescar.

Lá pelos idos de 1975, eu ia até sua casa para namorar a Angélica, mas ele me chamava para sua “oficina” de móveis que ficava ao lado e, no meio do galpão, acendia um fogo improvisado e assava uma costela e, entre umas e muitas doses de whisky, ficava me contando suas histórias.

Como já disse, ele adorava pescar, e sempre, mas sempre mesmo, vivia me convidando para ir pescar com ele, mas eu, que não gostava muito de pescaria, sempre adiava.

Claro que nessas ocasiões o que eu queria mesmo era namorar, mas confesso, gostava de ficar conversando com ele e era recíproco, pois em várias ocasiões ele me confidenciava até seus problemas particulares.

Era um péssimo motorista e, certa ocasião, foi levar a família e amigos para uma pescaria na região do Riacho Grande (próximo de São Bernardo do Campo).

Apesar do alerta dos demais passageiros, passou a entrada e quando percebeu já estava no pedágio da Anchieta, parou o carro no meio da estrada e ficou sem saber o que fazer, até que uma viatura da polícia rodoviária o obrigou a seguir em frente e ele teve que pagar o pedágio e retornar quilômetros à frente.

Em outra ocasião foi levar os amigos para pescar em sua Belina novinha e o carro atolou: só puderam resgatá-la dois dias depois.

Outra vez foi pescar de tarrafa (para quem não sabe, a tarrafa é lançada com as duas mãos e com a boca) e, quando foi lançá-la, foi-se junto sua dentadura e, o mais incrível: anos depois ele foi pescar no mesmo local e encontrou sua preciosa dentadura e voltou para casa mostrando para todos a sua façanha.

Um dia, de tanto ele insistir eu aceitei ir com ele pescar. Levei comigo minha mãe e meus dois irmão, ainda garotos.

Fomos com a sua Veraneio lotada, lá pelos “fundos” da Represa Billings e o Pepe que já tinha tomado uma e tantas outras ia, com seu jeitão único, contando um filme do “Gordo e o Magro” que tinha assistido e que, pelo modo como ele contava, ficou gravado na memória de todos.

O filme retratava os dois “heróis” em um trem a vapor fugindo de alguma coisa e como não tinham mais lenha para alimentar as caldeiras, um deles ficava gritando “mais lenha” e o outro passou a utilizar a madeira do vagão até ficar só com a locomotiva.

Pepe, onde você está certamente não tem o whisky que você tanto gostava, mas não vai faltar colega de pescaria. Pra começar, não se esqueça que São Pedro também era um pescador!

Por Darci Men (por enquanto, perdido na selva…)

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Os Ossos do Imperador – 2 – O Boi de Piranha e a Mulher

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes!

III – O boi de piranha

Fiquei me perguntando: “Por que arma?” A tal missão se restringia aos serviços de motorista, além disso, naquele quartel os soldados não usavam armas, só em treinamentos ou quando ficávamos de guarda no quartel, ainda assim muito raramente.

Não achei resposta e me dediquei em decorar todos os detalhes da “missão” até que o Sargento chegou e, antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele já foi dizendo:

— Já sei, quer saber da arma, ela estará no porta-luvas do carro, carregada e travada, é uma pistola igual àquela do treinamento. Você se lembra do treinamento, não? – E antes que eu respondesse continuou: — Não precisa examinar a arma, ela é nova e foi devidamente testada. Lembre-se da ordem: só a use em caso de extrema necessidade, mas, se precisar, não se esqueça de destravá-la. – Ficamos parados os dois, cada um com seus pensamentos até que ele falou: — Vamos, Soldado, sei que quer perguntar alguma coisa, “desembuche”?

Eu respondi:

— Sargento, os detalhes da arma são importantes, mas o que eu quero saber mesmo é por que tudo isso? O sigilo, a arma, enfim, por que toda essa operação de guerra? Afinal serei só um motorista transportando o Comandante e sua esposa para ver “Os Ossos do Imperador”.

Ele ficou parado me olhando como se estivesse me medindo, até que falou:

— Bem, não era pra eu te contar, mas é inteligente e já percebeu que não são só os “Ossos do Imperador”, além disso, acho que merece saber, mas vou alertá-lo novamente, para o seu próprio bem, nunca comente isto com ninguém.

Em seguida me explicou que o Tenente Coronel Amador, nosso Comandante, em anos anteriores teria participado da repressão aos “terroristas” e agora vinha recebendo ameaças de morte, e o que mais preocupava é que os tais “terroristas” sabiam até que ele tinha sido convidado para o casamento da Maria do Carmo e que iria participar das comemorações do “sepultamento” dos restos mortais de D. Pedro I.

O Comandante não quis “abrir mão” de participar desses eventos e, para não “chamar a atenção”, determinara a indicação de um soldado do quartel para levá-lo, com escolta de profissionais à distância.

Essa era a versão oficial, só que o indicado foi o idiota aqui.

[Pra quem não sabe, nas solenidades do Sesquicentenário da Independência, fazia parte o “sepultamento” definitivo do corpo do Imperador no mausoléu do Museu do Ipiranga, que ocorreria às 16h, do dia 6.9.1972, com a presença do presidente Médici, do governador Laudo Natel, do prefeito Figueiredo Ferraz e até do primeiro-ministro português Marcello Caetano. O corpo do Imperador saiu de Portugal e chegou ao Brasil meses antes, mas passou por várias cidades antes do sepultamento definitivo no mausoléu do Museu do Ipiranga.]

Se eu já estava preocupado, agora estava apavorado, e ele percebeu isso dizendo:

— Não se preocupe, Soldado, você terá toda a cobertura necessária.

Pensei um pouco, criei coragem e falei:

— Não sou idiota, é uma “isca”. Não dá pra indicar outra pessoa?

Ele respondeu que era tarde demais e acrescentou:

— É pra isto que servem os soldados: pra ariscar a vida pelos outros.

Ficamos calados novamente, um olhando para o outro enquanto eu pensava: “Diabo! Sou um soldado, tenho que enfrentar, senão, como ficarei se fraquejar agora?” Até que falei:

— Está bem, Sargento, farei o melhor que puder, mas o senhor sabe que estão me fazendo de “boi de piranha”. – Aquela lenda que dizia que os vaqueiros, quando iam atravessar a boiada em um rio infestado de piranhas, jogavam um boi velho para atrair as piranhas e atravessavam a boiada em outro lugar do rio em segurança.

Ele levantou-se, olhou-me diretamente nos olhos e falou:

— Vá para casa e descanse, amanhã será um longo dia e cumpra com o seu dever. – Em seguida fez continência e disse: — Boa sorte, Soldado.

IV – Uma linda mulher

Naquela noite quase não dormi e pela manhã, antes das 6h30min, já estava na tal garagem e, assim que cheguei ao portão, o tal Argemiro apareceu, se apresentou, olhou para um lado e depois para o outro da rua e foi logo falando:

— Você é pontual. Entra logo.

Assim que entramos percebi que havia mais dois homens ali, ambos armados, só observando. Ele tirou do bolso uma chave e entregou-me dizendo:

— O carro é aquele ali, vá pegá-lo que eu abro o portão.

Eu olhei para o carro e vi um Opala vermelho de quatro portas, novinho em folha, brilhava tanto que dava para se espelhar nele, aí perguntei:

— E os documentos do carro?

— No porta-luvas, mas você não vai precisar deles, deixe-os lá.

Subi no carro, abri o porta-luvas e, como o Sargento dissera, lá estava o inconfundível cinturão do exército com a pistola dentro, peguei-o e coloquei-o na cintura.

Então comecei a observar os comandos do carro – nunca tinha dirigido um carro daqueles –, mas logo percebi que não haveria grandes dificuldades, coloquei o carro em marcha e o tal Argemiro já estava abrindo o portão.

Assim que passei, ele falou:

— Olho vivo. Boa sorte.

A casa do Comandante era perto e logo cheguei, estacionei o carro bem em frente, mas antes de descer lembrei-me da recomendação do Argemiro para ficar de “olho vivo” e comecei a observar a rua.

Não se via “viva alma”, carros, nada, apenas as árvores que balançavam ao vento, e percebi como o lugar era bonito, as casas todas belas e bem cuidadas, a rua toda arborizada, a calçada limpa e pensei: “Esse Comandante deve ‘ganhar’ muito para viver num lugar assim.” Bem, desci do carro, sempre observando aqui e ali e dirigi-me ao portão da casa, ia tocar a campainha quando o portão abriu-se por dentro e lá estava um homem, vestido à paisana (sem uniforme), com cara de poucos amigos, que foi logo dizendo:

— Entra logo, não temos o dia inteiro.

Entrei e não pude deixar de notar o belo jardim da casa, com muitas plantas floridas de vários tipos e com um caminho entre elas que dava para a porta principal e, não sei por que, lembrei-me da minha mãe, quando morávamos no sítio ela tinha um jardim bem parecido…

Bem, segui em direção à porta, olhei para trás e o homem que me abriu o portão ficou espiando a rua.bonequinha

Assim que cheguei à porta, ela também se abriu por dentro e, ali, havia outro homem, nas mesmas características do anterior e até com a mesma cara de poucos amigos, ele não disse nada, limitou-se a fechar a porta assim que entrei.

Fiquei ali parado esperando acontecer alguma coisa até que entra uma mulher lindíssima, magra, vestida maravilhosamente e, apesar do olhar um pouco triste, ela sorriu para mim e disse:

— Você é que vai nos levar? Quer tomar café?

Eu estava paralisado, ela logo me lembrou aquela artista do filme “Bonequinha de Luxo”, com um nome complicado, se não me engano, Audrey [Hepburn] qualquer coisa, e em seguida lembrei-me da charge do “Campelo” e pensei: “Campelo, essa é aquela mulher gorda, brava e feia que você desenhou?”

Bem, “voltei a si”, agradeci a gentileza dela e disse que já tinha tomado café. Ela completou:

— Muito bem, aguarde um pouco que o Amador já vem, vamos sair logo em seguida.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Não deixe de ler OS ATENTADOS, o próximo capítulo da história!

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Fut Dog 4 – Brasil x Argentina

Fut Dog

Confesso que quando o assunto são seleções nacionais, não sou tão fanático quanto quando meu time joga, mas Brasil x Argentina sempre é uma expectativa de um grande jogo, pois estão em campo, duas das melhores seleções do mundo.

Brasil x Argentina
Brasil x Argentina

Esse jogo é tão diferente, que só o jogo em si não é o suficiente para comparações, afinal, sempre fica a pergunta: “Quem foi melhor? Pelé ou Maradona?”, claro que essa pergunta nunca vai ser respondida.

Já que falamos no Rei, vai aí um gol feio que ele marcou em cima “de los hermanos” :

Como todo clássico histórico é cheio de polêmicas, esse não foge a regra, não faltaram polêmicas, pontapés, bordoadas e água batiza.

Em 1978, os 2 times se enfrentaram em Rosário, e a Copa daquele ano foi cheia de polêmicas, o jogo em si foi x0x0, mas depois, o Brasil ganhou da Polônia, e a Argentina precisaria fazer 4 gols para se classificar, e não deu outra, 6×0 em cima do Peru. Até hoje a história é contada, muitos dizem que ofereceram mala preta para os jogadores peruanos. A conquista da Copa serviu para amenizar a dor do argentino, que vivia na época sua ditadura.

Em 1990, foi a vez da água batizada, o massagista argentino deu água batizada para os jogadores brasileiros, e o jogador Branco ficou visivelmente tonto durante o jogo, bom, na minha opinião, ele já tava tonto ao aceitar uma água de um argentino, não se aceita bala de estranhos, imagine então água de argentino.

Vai o vídeo do Maradona confessando que deram água batizada para o Branco:

Agora o vídeo do jogo:

Em 2004, Copa América, o gol de empate do Brasil no final foi irregular, mas foi um dos jogos mais emocionantes em seus minutos finais:

Em 2005 nossos fregueses do século 21 perderam novamente, dessa vez na Copa das Confederações. Resultado: 4×1 Brasil.

Segue o vídeo e uma observação, parece que o narrador não gostava muito da Argentina, mas afinal, quem gosta?

Nosso último triunfo em cima deles, foi em 2007 na Copa América da Venezuela, o Brasil com sua seleção X, conseguiu vencer eles por 3×0, e eles estavam completos, Riquelme, Messi & CIA, mas não deu, dá-lhe Brasil!

O último jogo foi x0x0, válido pelas Eliminatórias. Eu espero que esse jogo do returno seja bem melhor do que foi o último, pois em um clássico desse porte, tem que ter todos os ingredientes possíveis.

UPDATE:

HAHAHAHAHA!! CHUPAAAAAAAAAAAAA ARGENTINA!!!

Ver a cara do Maradona não tem preço, vai ter que cheirar muito pra esquecer essa derrota hein?

Se eles ficarem fora, eu vou dar muita risada…

… Veja os gols do jogo: