Publicado em Deixe um comentário

A cerveja

bebum

Deusa - Cerveja— É grave doutor?

— Não, se você seguir corretamente as minhas recomendações. Pra começar, o senhor pode esquecer-se da cerveja que tanto gosta! – Disse o médico e continuou: — Pelo menos durante dois anos só vai beber leite.

— Outra vez, doutor?!

— O quê?! O senhor já fez esse tratamento?

— Já. Durante os dois primeiros anos da minha vida.

Essa piadinha ilustra bem a fixação que os homens têm pela cerveja, essa bebida que, sem sombra de dúvidas, é uma preferência mundial.

Dizem que a cerveja é uma das primeiras bebidas alcoólicas produzidas pelo homem e, historicamente, existem registros do uso da bebida desde 4.000 anos a. C., quando os sumérios já adoravam a “loirinha”. Só não sei se na época ela era “loirinha”, mas não importa, o fato é que eles adoravam e até tinham uma Deusa da Cerveja, chamada “Ninkasi”. Nos dias de hoje, as “deusas” são outras: geralmente aquelas modelos seminuas que fazem as propagandas de cerveja.

Ramsés - Faraó - CervejaTem até um Faraó do Egito que ficou conhecido como o Faraó-Cervejeiro. Ramsés III (1.184 – 1.153 a. C.), para acalmar os Deuses, doou ao Templo de Amon cerca de um milhão de litros de cerveja (como bebiam esses deuses!).

O Famoso Código de Hamurabi, do Rei da Babilônia (aproximadamente 1.750 a. C.), já incluía leis de comercialização da cerveja. Também não sei se existia competição entre os fabricantes, nem se faziam propagandas, do tipo: “Cerveja que desce redondo” e coisas do gênero, mas já tinham marca. Isto ficou comprovado depois que arqueólogos encontraram ânforas com o símbolo do fabricante da cerveja.

Já os antigos romanos não gostavam muito de cerveja que era considerada a bebida da plebe e dos bárbaros.

Na época de Jesus, a cerveja era consumida nas refeições em grande escala, principalmente nas casas dos menos “abastados”, não como bebida alcoólica, mas como acompanhamento da refeição.

Bem, o fato é que a cerveja tornou-se uma “companheira” dos homens de hoje e não pode faltar nas reuniões sociais ou mesmo nos encontros casuais. Já inventaram até o Dia da Cerveja (às sextas-feiras) e tem até aquele que afirma:

— Cerveja faz mal, meu! Quando falta!!!

E aquele outro que afirma orgulhoso:

— Depois de mulher, a coisa que mais gosto é de cerveja! Não gosto de dinheiro, tanto que, quando tenho algum gasto logo com cerveja!

Outro mais radical aconselha:

— Evite a ressaca da cerveja, mantenha-se bêbado.

Ou ainda:

— Não maltrate o amante da cerveja, encaminhe-o ao bar mais próximo.

E aquele que perguntou:

— Cerveja mata?

O outro respondeu:

— Sim! Sobretudo se a pessoa for atingida na cabeça por uma caixa de cerveja ou ainda por infarto no miocárdio, caso um velhinho mais afoito olhar aquelas modelos deslumbrantes seminuas, fazendo propaganda de cerveja.

Mas falando de cerveja, não poderia deixar de mencionar o meu amigo e compadre Tuca (um verdadeiro amante da cerveja).

Anos atrás ele tinha um bar perto da minha casa e meu cunhado Rinaldo, outro amante da “loirinha”, veio me visitar e eu o levei ao bar do Tuca. Aliás, falando do Rinaldo, acho que ele deve ter incorporado algum espírito romano, pois atualmente só fala de vinhos, coisas dos amantes do álcool.

Mas vamos ao Tuca. Assim que chegamos ao seu bar, ele abriu duas garrafas de cerveja e três copos (ele era assim, servia o cliente e se servia também).

Depois de quase uma dúzia de garrafas vazias, acabamos os três bêbados ou “borrachos” como falam os espanhóis e ficamos os três cantando aquela música da Elizeth Cardoso: “Eu bebo sim! / Eu tô vivendo / Tem gente que não bebe / E tá morrendo”…

Algum tempo depois chegou minha irmã e minha mulher e nos “convidaram” a ir para casa, deixando o pobre Tuca desolado de perder os companheiros de bebedeira e o Rinaldo foi cantando o Hino Nacional de trás para frente.

Outra do Tuca aconteceu no último dia 31 de dezembro, quando fomos a um churrasco na casa de um amigo.

O Tuca “deu um jeito” de eu levá-lo no meu carro. A intenção era clara: sem precisar dirigir, ele podia tomar todas e mais um pouco.

O pior é que no dia seguinte fomos ao apartamento de outro amigo para um almoço e ele me “tapeou” de novo e tive que levá-lo novamente.

Finalmente uma piadinha para descontrair:

Duas formigas japonesas encontraram na rua, ao mesmo tempo, uma latinha de cerveja com restos do precioso líquido.

Como sempre faz, a cerveja acabou “atiçando” a amizade das duas até que uma perguntou a outra:

Fu Miga— Qual é o seu nome?

— Fu.

— Fu o quê?

— Fu Miga.

— E o seu nome, qual é?

— Ota.

— Ota o quê?

— Ota Fu Miga.

———-

 

Publicado em 1 comentário

A chuva

Enchente

São Paulo, a terra da garoa, nos últimos tempos transformou-se na terra da “chuvoa”, de tanta água que tem caído. Aliás, não é só aqui, por todo lado só se ouve falar em enchentes, desmoronamentos, inundações e por aí afora.

Nessas horas você vê todos correndo da chuva ou será que é correndo na chuva? Logo alguém ensina:

— Ô meu! Não sabe que correndo na chuva você vai se molhar mais que andando? Dizem os cientistas que os pingos da chuva podem cair diretamente sobre a cabeça da pessoa ou, quando a pessoa correr, encontrar-se diretamente com ela. Como a área da superfície da frente de um indivíduo é muito maior do que a cabeça e os ombros, você molha-se mais se correr do que andando normalmente!

O melhor mesmo é curtir a chuva e fazer como o Gene Kelly, no famoso filme “Cantando na Chuva” ou “Singin’ in the Rain”, de 1951. Aliás, dizem que quando Gene Kelly gravou aquelas cenas estava com 39 graus de febre. Pelo jeito ele gostava mais de chuva que os paulistanos!

Dançando na chuvaMas os paulistanos gostam mesmo de chuva? Tem de gostar! Não tem outro jeito! Quando não é chuva é tempestade e quando não é nem uma das duas é a irritante garoa (que não deixa de ser uma chuva). Quando faz sol pela manhã chove à tarde ou vice-versa.

Portanto o paulistano gosta de chuva e não se fala mais nisso. Ele é “perseguido” pela chuva, veja alguns exemplos:

a) Diariamente enfrenta sol, calor, frio e, principalmente, a chuva. Tudo isso no mesmo dia.
b) Tem a mania de lavar e polir o carro no final de semana, mas basta terminar o serviço e cai aquele temporal.
c) Passa a temporada na praia, mesmo sabendo que vai chover a maior parte do tempo. Já chama Praia Grande de Praia Granchuva e Ubatuba de Ubachuva.

E assim por diante…

d) Quando leva o guarda-chuva não precisa dele, só estorva. Mas quando não leva, é “batata”, volta todo molhado!
e) Compra móveis novos para pagar em “trocentas” prestações e a enchente estraga tudo.
f) Mas, o duro mesmo é enfrentar o “manda-chuva” (seu patrão ou chefe). Geralmente esses caras são tão chatos que fazem até “chover no molhado”.

Mas a chuva também trouxe coisa boa para o paulistano, basta lembrar-se de algumas obras e de artistas que usaram o tema, entre elas eu destaco “Os Demônios da Garoa” e as inesquecíveis obras de Adoniran Barbosa, Mário Lago, Ataulfo Alves e tantos outros. Basta lembrar deles e a gente tem vontade de cantar suas músicas, algumas delas:

Estação de tremTrem das onze, de 1965 (acabou virando música símbolo da cidade de São Paulo). Vamos cantar juntos: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã”…

Samba do Arnesto, de 1958, : “O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás / Nós fumos não encontremos ninguém”…

Amélia, de 1961, : “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia / Aquilo sim é que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer”…

Salve a chuva, gente!

—–

 

Publicado em Deixe um comentário

Os Ossos do Imperador – 4 – Parte Final

Os ossos do Imperador, por Darci Men

VI – Outra Missão

O comandante voltou e me chamou para dentro da casa, entrei e notei que dona Marta estava sentada em um sofá em estado lastimável, seu lindo vestido estava manchado de sangue e na testa um pano também ensanguentado, perguntei:

— Foi grave assim?

O comandante deu um sorriso e respondeu:

— Não! É menos grave do que parece. – E continuou: — Hoje o senhor foi ótimo, parabéns, mas tenho outra missão para o senhor. – Pensei comigo: “Já está me chamando de senhor ao invés de Soldado, a coisa está melhorando!”. Ele continuou: — Como pode ver a Marta não pode continuar, você vai levá-la para a casa de sua mãe e depois vá até o Museu do Ipiranga e se apresente ao Coronel Ferreira, aqui está o endereço.

Olhei o papel, nem vi direito o nome da rua, mas vi Vila Prudente, logo pensei: “Fácil, é aqui perto.”

A coisa estava tão tumultuada que só então reparei que os donos da casa estavam em um canto, quietos, era um casal já com idade avançada, lá pelos 60 anos ou mais e uma menina de 15 ou 16 anos, não sei por que, mas olhei para eles e falei:

— Muito obrigado por tudo.

oficialEntra o Sargento anunciando:

— O carro chegou, já podem ir.

O comandante olhou para mim e disse:

— Tenho compromissos e não posso ir com vocês.

Eu pensei um pouco e perguntei ao Comandante:

— Vamos ter escolta?

Ele olhou para o Sargento que balançou a cabeça negativamente e respondeu:

— Não, não vemos necessidade.

Eu insisti:

— Pode ter mais dessa gente por aí e podem pensar que o Comandante está no carro escondido.

O Comandante pensou um pouco, olhou para o Sargento e disse:

— Ele tem razão, não custa ter precaução, arrume uma viatura e alguns soldados bem armados para acompanhá-lo.

O Sargento saiu meio contrariado e foi tomar suas providências.

Dona Marta estava “acabada”, não dizia nada, mas levantou-se e nos acompanhou para fora, notei que cambaleava um pouco, mas foi, e quando eu vi o carro olhei para o Sargento com ar de reprovação, era um Volkswagen TL já bem surrado e ele entendeu meu olhar falando:

— Era o que tínhamos disponível no momento.

Eu abri a porta para dona Marta entrar e perguntei ao Sargento:

— Como pego a Avenida dos Estados? E a escolta está pronta? – O Sargento indicou-me o caminho e disse que poderia ir pois a escolta já estava pronta. Entrei no carro, saí e uma caminhonete rural verde do exército, sem capotas, com alguns soldados dentro, me seguia de perto.

Quando cheguei a Avenida dos Estados perguntei à dona Marta, que estava no banco dos passageiros:

— Dona Marta pode me ajudar com o endereço da sua mãe? – Ela não respondeu, olhei para ela e estava inerte encostada no banco. Pensei: “PQP! Só me faltava essa!”

Encostei o carro e fui examiná-la: estava desmaiada, mas seu pulso estava normal, dei-lhes uns tapas no rosto para ver se acordava e nada, um dos soldados da escolta chegou perguntando:

— O que houve? Porque parou? – Informei-o que a mulher desmaiara e ele, ao invés de me ajudar, veio com outra pergunta: — O que você vai fazer?

Eu respondi:

— Sei lá, não sou médico, tenho de levá-la para um hospital.

jipeEnquanto conversávamos notei que ela começou a “voltar”, eu perguntei:

— Dona Marta, tudo bem?

Pergunta idiota, a mulher estava mais branca que neve, mas ela respondeu:

— Acho que desmaiei, estou tonta, ajude-me a sair do carro para respirar ar fresco.

Ajudei-a enquanto olhava a Avenida um lado e depois o outro procurando algum lugar para ela ficar e só via terrenos baldios e casas mal conservadas, olhei para a viatura da escolta e os soldados ainda estavam dentro, sentados, fiquei com raiva e gritei:

— Que espécie de escolta é essa?! Desçam daí e fiquem atentos!

Vi que eles pularam do carro e cada um procurou se posicionar, um no muro, outro no poste e assim por diante.

Sentei dona Marta em um tijolo que encontrei e comentei:

— Seu vestido já está sujo mesmo, um pouco mais não vai fazer diferença…

Ela deu um sorrisinho e notei que estava melhorando até que ela comentou:

— Não pareço nada com a gorda e brava mulher da charge, não é mesmo

Fiquei eufórico, não só pela recuperação dela, mas principalmente pelo seu modo de falar, que, mesmo naquela situação ela conseguia manter a postura e a elegância. Eu pedi desculpas pelos rapazes do quartel, dizendo que eram garotos ainda e coisas do gênero, mas ela disse que até tinha gostado e se divertiu bastante quando mostrou a charge para as amigas.

Estávamos conversando quando um carro se aproximava lentamente, instintivamente peguei minha arma enquanto gritava:

— Atenção com aquele carro!

Instantaneamente os quatro soltados cercaram o carro com os fuzis prontos para disparar, enquanto eu puxava dona Marta para trás do TL, ela escorregou e esfolou o joelho.

Não era nada, apenas um carro com problemas mecânicos, olhei para ela e falei:

— Dona Marta, mil desculpas, o dia de hoje está me deixando estressado.

Ela sorriu para mim e respondeu:

— Você não tem que se desculpar, está cumprindo seu dever.

Bem, ela já estava recuperada, levei-a a casa de sua mãe e ao me despedir ela falou:

— Obrigada! Vá com Deus, saiba que jamais me esquecerei de você.

VII – O Sepultamento do Imperador

Saí de lá mais “cheio” que um balão. Dei ordens aos rapazes para seguirmos para o Museu e quando lá cheguei fui procurar o tal Coronel Ferreira e alguém me indicou um senhor aparentando mais de 50 anos, com uniforme de campanha (farda comum, capacete, armas etc), cheguei perto dele e me apresentei:

— Soldado Men se apresentando.

Ele olhou para mim com um sorriso e falou:

— Ah! Você é o tal? Passou por maus “bocados” hoje, hein? Ser soldado não é nada fácil, hein? Mas que é emocionante, isto é. Aguarde um pouco que vou mandar chamar o Tenente Amador.

Dom PedroEnquanto aguardava fiquei pensando: “Só me faltava ele vir com outra missão.” Mas não tinha não, logo que ele chegou disse que tinha conversado com a esposa por telefone e que já estava a par dos últimos acontecimentos, que eu estava dispensado, que deveria apenas levar o carro e a arma até a “garagem” e entregá-los ao tal Argemiro, que não deveria ir ao quartel porque não queria que me vissem por lá hoje, que no dia seguinte deveria me apresentar ao Sargento Souza e participar do desfile e acrescentou:

— Se quiser, fique e assista a cerimônia de “sepultamento”, o Coronel Ferreira providenciará alimentação e o que mais precisar e, mais uma coisa, lembra da caixa que você colocou no porta-malas do Opala? Salvou minha vida, ela estava bem atrás de mim e encontramos dois projéteis na estátua de bronze. Se ela não estivesse lá, os tiros teriam atravessado o banco e me atingido.

A minha curiosidade era grande e não aguentando mais perguntei:

— O que aconteceu com os “terroristas”?

Ele respondeu:

— É melhor você não saber, esse assunto fede mais que carniça e você tem suas ordens, esqueça tudo isso. – E foi embora.

Assim que o Comandante saiu, o Coronel Ferreira comentou:

— É sempre assim, nós – enfatizou bem o “nós” – soldados nunca sabemos de nada, só que na hora “H”, nós é que temos que atirar, ou pior, levar tiro, mas venha, vamos comer alguma coisa que estou com fome.

Resolvi ficar e, como podem ver, cumpri a ordem e guardei comigo esse segredo por 37 anos, mas esquecer foi impossível. Bem, sobrou algo de bom, mesmo que indiretamente e, aos “trancos e barrancos”, participei desse importante evento da história do Brasil, ou seja, a cerimônia de sepultamento definitivo dos “Ossos do Imperador”.

———-

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais. Alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Fim.

————————

Publicado em 5 comentários

Corinthians, 1964

Corinthians, 1964 - por Darci Men

História de corinthiano

Meu amigo Scooby pediu-me para contar uma história de corinthiano. Fiquei me perguntando: “Acho que ele não me conhece bem! Eu, um palmeirense, contar história de corinthiano?”

Mas, pensando bem, acho que ele me conhece melhor do que imagino, ele sabe que eu sou um pobre palmeirense, rodeado de corinthianos por todos os lados: minha mulher, meus filhos, meus sogros, meus cachorros, gatos e até a tartaruginha é corinthiana.

Dia desses fui dar-lhe uma verdura bem verdinha (linda mesmo) e a danada recusou, logo em seguida a vi saboreando um pedaço de maçã que encontrou pelo chão, já “preta e branca” de tanta sujeira. Ai de mim, sacanagem não acha?

Portanto, história de corinthiano é o que não falta para mim e vou contar uma bem antiga, de quase meio século.

Meu sogro Pepe, além de gostar muito de pescaria, era um corinthiano roxo.

Na década de 60 o grande rival do Corinthians não era o Palmeiras, mas o Santos, do Rei Pelé e, em 20.9.1964 estava programado um clássico alvinegro, na Vila Belmiro, e o Pepe resolveu que não iria perdê-lo por nada.

Darci-carroPegou seu V-8, um Pontiac preto 1951, a mulher, as duas filhas e o Luis (na época era namorado da Magdalena, que mais tarde viria a ser minha cunhada predileta) e lá se foram pela famosa Estrada Velha de Santos.

Se tem uma coisa que admiro em corinthiano é a persistência.

Naquele dia o calor estava infernal, a velha e famosa Estrada Velha de Santos, toda congestionada, mas o Pepe chegou lá e logo percebeu que o problema era mais embaixo, ou em cima, não sei, pois o local estava tão lotado, que mal dava para se mexer, tinha mais corinthiano que chuchu na cerca e o velho estádio da Vila Belmiro recebia um recorde de público: quase 33 mil pagantes.

Ele deixou as mulheres no carro e, acompanhado do Luis, conseguiu entrar no estádio. Nem bem começou a partida, e a super lotação do estádio teve sua consequência: parte da arquibancada caiu, ferindo mais de 180 pessoas (felizmente ninguém morreu).

Corinthians, 1964Gritos, correria, entra e sai de ambulâncias e nada dos dois aparecerem, até que a dupla de espanhóis surgiu no meio da multidão, assustados, mas ilesos e o Pepe reclamando em seu sotaque castelhano:

— Mala Letche, no consegui nem ver la pelota rolar.

Nem preciso dizer que a partida foi suspensa e remarcada para o dia 30.9.64, no Pacaembu, e acabou ficando em um mísero empate de 1×1, gols de Flávio para o “Timão” e Pelé para o Santos.

O curioso nessa partida é que o “Rei” conseguiu perder um pênalti, que foi defendido pelo goleiro corinthiano Heitor.

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais.

——————-

Publicado em 5 comentários

Os Ossos do Imperador – 3 – Os Atentados

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes! Aqui as partes 1 e 2! 😉

V – Os atentados

Entra o Comandante, usava o fardamento de gala do exército, com inúmeras medalhas no peito, pensei comigo: “Ele não quer chamar a atenção e parece uma árvore de natal.” Fiz-lhe a continência e ele:

— À vontade, Soldado! Decorou bem o caminho? – Eu disse que sim e ele continuou: — Vamos devagar, temos bastante tempo. – Olhou para mim e disse: — Soldado traga esta caixa.

Olhei para ela e vi que estava embrulhada para presente, não era muito grande, mais ou menos 80 x 80 centímetros, peguei-a e era pesadíssima, quase não aguentei, pensei: “O que tem aqui dentro?” Não perguntei, mas dona Marta esclareceu:

— Pesado, não? É uma peça antiga em bronze, raríssima, presente para a Maria do Carmo, tenha cuidado.

Eu fui colocar a caixa no porta-malas enquanto o comandante e dona Marta sentaram no banco de trás, nem bem entrei no carro e o comandante ordenou:

— Ligue o rádio, quero ouvir as notícias. – Na pressa nem tinha notado que aquele carro tinha rádio, atrapalhei-me um pouco até que consegui e o comandante voltou a ordenar: — Essa emissora não, a outra mais à direita.

Pensei comigo: “Tanta preocupação e esse chato fica ‘enchendo o saco’ com rádio!”

Liguei o carro e saí, nem estava prestando atenção no que diziam no rádio até que o comandante falou:

— Meu Deus, a coisa está feia.

Só então me interei que o locutor falava dos últimos acontecimentos nos Jogos Olímpicos de Munique.

(Coincidentemente, naquela ocasião aconteciam os Jogos Olímpicos e, na manhã de 5.9.72, terroristas palestinos do grupo “Setembro Negro”, entraram no alojamento dos atletas israelenses, resultando na morte de 19 pessoas e muitos feridos, no que ficou conhecido como “A Tragédia de Munique”).

Tentei prestar atenção no rádio, mas um carro atrás de nós me chamou a atenção, já o tinha visto em outra rua que passamos, era um Corcel de quatro portas e estava cheio de homens dentro, falei:

— Comandante tem um carro estranho nos seguindo.

O comandante virou-se para trás perguntando:

— Não é nosso pessoal? – Eu disse que não, pois tinha visto nosso pessoal e eles estavam em um carro maior tipo Veraneio. Ele ordenou: — “Pisa fundo” e trate da sair do roteiro o mais rápido que puder.

Obedeci, acelerei o mais que pude, entrei em uma rua estreita toda esburacada, virei em outra mais longa, mas não menos esburacada e pude notar que o Corcel continuava nos seguindo, até que ouvi disparos de arma, gritei:

— Abaixem! Estão atirando! Cadê nossa “cobertura”?

Só aí vi que a Veraneio apareceu bem na nossa frente, saindo de uma rua transversal e o Comandante ordenou:

— Continua, continua que o nosso pessoal toma conta deles.

Pude ouvir mais alguns disparos de arma, mas a rua tinha uma curva e não vi mais nada, continuei em alta velocidade, entrei em outra rua, tentando me localizar, mas não sabia onde estava até que passei por um enorme buraco, o carro pulou tanto que dona Marta subiu até o teto, bateu nele e voltou e o carro começou a fazer um barulho estranho, a direção ficou “boba” e tive que diminuir a velocidade, o Comandante logo perguntou:

— Porque diminuiu a velocidade?

Respondi:

— A suspensão quebrou, vou ter que parar, o senhor desce do carro e procure abrigo que darei cobertura.

Parei o carro e desci, ao mesmo tempo tirava a arma do coldre e lembrei-me do Sargento: “— Não se esqueça de destravar a arma”.

Posicionei-me atrás de um poste e vi que o Comandante tentava abrir um portão e não estava conseguindo, olhei atrás de mim e havia outro portão, dei-lhe um pontapé com o coturno e o portão abriu, gritei:

— Por aqui.

E o Comandante veio carregando a esposa, ela mal andava e sua testa estava sangrando, então perguntei:

— Tudo bem com ela? – Ele respondeu que sim, e que continuasse atento à rua.

Incrivelmente, àquela altura, tudo ficou quieto, ninguém na rua, nada, saí de trás do poste e olhei pelo portão e não vi ninguém, pensei: “O Comandante deve ter entrado na casa”; só então me dei conta que tinha deixado o carro ligado e ainda funcionava, era o único barulho que se ouvia até que vi um homem andando e olhando para o carro, instintivamente apontei a arma para o seu peito e, por muito pouco não atiro, até que percebi tratar-se de um transeunte qualquer e gritei:

— Sai, sai daqui, o senhor está correndo perigo. – O homem hesitou um pouco e saiu correndo.

Passou algum tempo e nada mais aconteceu até que chega o Comandante perguntando:

— Tudo bem? – Eu disse que sim e ele continuou: — Já chamei ajuda por telefone, aguente firme.

Já ia voltando para a casa e eu perguntei-lhe:

— E dona Marta?

Ele respondeu:

— Machucou a testa, um belo “galo” e um pouco tonta, mas tudo bem.

Logo o local estava cheio de viaturas militares com muitos soldados, todos armados com fuzis e metralhadoras e um Sargento me perguntou pelo Comandante.

Indiquei que estava dentro da casa e ele, olhando para o Opala, comentou:

— Parece uma “peneira”; todos estão bem?

Só então reparei que a traseira do Opala tinha diversas perfurações de bala, aí “caiu a ficha”, minhas pernas começaram a tremer, nem respondi ao Sargento, sentei no chão, deixei a arma de lado e assim fiquei por um bom tempo até que o Sargento pegou a arma e me devolveu, deu-me uns tapinhas no ombro e disse:

— A primeira vez é assim mesmo, você se acostuma. – Saiu e entrou na casa.

Quando ele retornou eu já estava “recuperado”, aí eu disse:

— Vamos precisar de outro veículo. – Ele respondeu simplesmente que já estava sendo providenciado e seguiu em direção aos demais soldados, dando ordens aqui e ali.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Publicado em 8 comentários

Os Ossos do Imperador – 2 – O Boi de Piranha e a Mulher

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes!

III – O boi de piranha

Fiquei me perguntando: “Por que arma?” A tal missão se restringia aos serviços de motorista, além disso, naquele quartel os soldados não usavam armas, só em treinamentos ou quando ficávamos de guarda no quartel, ainda assim muito raramente.

Não achei resposta e me dediquei em decorar todos os detalhes da “missão” até que o Sargento chegou e, antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele já foi dizendo:

— Já sei, quer saber da arma, ela estará no porta-luvas do carro, carregada e travada, é uma pistola igual àquela do treinamento. Você se lembra do treinamento, não? – E antes que eu respondesse continuou: — Não precisa examinar a arma, ela é nova e foi devidamente testada. Lembre-se da ordem: só a use em caso de extrema necessidade, mas, se precisar, não se esqueça de destravá-la. – Ficamos parados os dois, cada um com seus pensamentos até que ele falou: — Vamos, Soldado, sei que quer perguntar alguma coisa, “desembuche”?

Eu respondi:

— Sargento, os detalhes da arma são importantes, mas o que eu quero saber mesmo é por que tudo isso? O sigilo, a arma, enfim, por que toda essa operação de guerra? Afinal serei só um motorista transportando o Comandante e sua esposa para ver “Os Ossos do Imperador”.

Ele ficou parado me olhando como se estivesse me medindo, até que falou:

— Bem, não era pra eu te contar, mas é inteligente e já percebeu que não são só os “Ossos do Imperador”, além disso, acho que merece saber, mas vou alertá-lo novamente, para o seu próprio bem, nunca comente isto com ninguém.

Em seguida me explicou que o Tenente Coronel Amador, nosso Comandante, em anos anteriores teria participado da repressão aos “terroristas” e agora vinha recebendo ameaças de morte, e o que mais preocupava é que os tais “terroristas” sabiam até que ele tinha sido convidado para o casamento da Maria do Carmo e que iria participar das comemorações do “sepultamento” dos restos mortais de D. Pedro I.

O Comandante não quis “abrir mão” de participar desses eventos e, para não “chamar a atenção”, determinara a indicação de um soldado do quartel para levá-lo, com escolta de profissionais à distância.

Essa era a versão oficial, só que o indicado foi o idiota aqui.

[Pra quem não sabe, nas solenidades do Sesquicentenário da Independência, fazia parte o “sepultamento” definitivo do corpo do Imperador no mausoléu do Museu do Ipiranga, que ocorreria às 16h, do dia 6.9.1972, com a presença do presidente Médici, do governador Laudo Natel, do prefeito Figueiredo Ferraz e até do primeiro-ministro português Marcello Caetano. O corpo do Imperador saiu de Portugal e chegou ao Brasil meses antes, mas passou por várias cidades antes do sepultamento definitivo no mausoléu do Museu do Ipiranga.]

Se eu já estava preocupado, agora estava apavorado, e ele percebeu isso dizendo:

— Não se preocupe, Soldado, você terá toda a cobertura necessária.

Pensei um pouco, criei coragem e falei:

— Não sou idiota, é uma “isca”. Não dá pra indicar outra pessoa?

Ele respondeu que era tarde demais e acrescentou:

— É pra isto que servem os soldados: pra ariscar a vida pelos outros.

Ficamos calados novamente, um olhando para o outro enquanto eu pensava: “Diabo! Sou um soldado, tenho que enfrentar, senão, como ficarei se fraquejar agora?” Até que falei:

— Está bem, Sargento, farei o melhor que puder, mas o senhor sabe que estão me fazendo de “boi de piranha”. – Aquela lenda que dizia que os vaqueiros, quando iam atravessar a boiada em um rio infestado de piranhas, jogavam um boi velho para atrair as piranhas e atravessavam a boiada em outro lugar do rio em segurança.

Ele levantou-se, olhou-me diretamente nos olhos e falou:

— Vá para casa e descanse, amanhã será um longo dia e cumpra com o seu dever. – Em seguida fez continência e disse: — Boa sorte, Soldado.

IV – Uma linda mulher

Naquela noite quase não dormi e pela manhã, antes das 6h30min, já estava na tal garagem e, assim que cheguei ao portão, o tal Argemiro apareceu, se apresentou, olhou para um lado e depois para o outro da rua e foi logo falando:

— Você é pontual. Entra logo.

Assim que entramos percebi que havia mais dois homens ali, ambos armados, só observando. Ele tirou do bolso uma chave e entregou-me dizendo:

— O carro é aquele ali, vá pegá-lo que eu abro o portão.

Eu olhei para o carro e vi um Opala vermelho de quatro portas, novinho em folha, brilhava tanto que dava para se espelhar nele, aí perguntei:

— E os documentos do carro?

— No porta-luvas, mas você não vai precisar deles, deixe-os lá.

Subi no carro, abri o porta-luvas e, como o Sargento dissera, lá estava o inconfundível cinturão do exército com a pistola dentro, peguei-o e coloquei-o na cintura.

Então comecei a observar os comandos do carro – nunca tinha dirigido um carro daqueles –, mas logo percebi que não haveria grandes dificuldades, coloquei o carro em marcha e o tal Argemiro já estava abrindo o portão.

Assim que passei, ele falou:

— Olho vivo. Boa sorte.

A casa do Comandante era perto e logo cheguei, estacionei o carro bem em frente, mas antes de descer lembrei-me da recomendação do Argemiro para ficar de “olho vivo” e comecei a observar a rua.

Não se via “viva alma”, carros, nada, apenas as árvores que balançavam ao vento, e percebi como o lugar era bonito, as casas todas belas e bem cuidadas, a rua toda arborizada, a calçada limpa e pensei: “Esse Comandante deve ‘ganhar’ muito para viver num lugar assim.” Bem, desci do carro, sempre observando aqui e ali e dirigi-me ao portão da casa, ia tocar a campainha quando o portão abriu-se por dentro e lá estava um homem, vestido à paisana (sem uniforme), com cara de poucos amigos, que foi logo dizendo:

— Entra logo, não temos o dia inteiro.

Entrei e não pude deixar de notar o belo jardim da casa, com muitas plantas floridas de vários tipos e com um caminho entre elas que dava para a porta principal e, não sei por que, lembrei-me da minha mãe, quando morávamos no sítio ela tinha um jardim bem parecido…

Bem, segui em direção à porta, olhei para trás e o homem que me abriu o portão ficou espiando a rua.bonequinha

Assim que cheguei à porta, ela também se abriu por dentro e, ali, havia outro homem, nas mesmas características do anterior e até com a mesma cara de poucos amigos, ele não disse nada, limitou-se a fechar a porta assim que entrei.

Fiquei ali parado esperando acontecer alguma coisa até que entra uma mulher lindíssima, magra, vestida maravilhosamente e, apesar do olhar um pouco triste, ela sorriu para mim e disse:

— Você é que vai nos levar? Quer tomar café?

Eu estava paralisado, ela logo me lembrou aquela artista do filme “Bonequinha de Luxo”, com um nome complicado, se não me engano, Audrey [Hepburn] qualquer coisa, e em seguida lembrei-me da charge do “Campelo” e pensei: “Campelo, essa é aquela mulher gorda, brava e feia que você desenhou?”

Bem, “voltei a si”, agradeci a gentileza dela e disse que já tinha tomado café. Ela completou:

— Muito bem, aguarde um pouco que o Amador já vem, vamos sair logo em seguida.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Não deixe de ler OS ATENTADOS, o próximo capítulo da história!

Publicado em 9 comentários

Os Ossos do Imperador – 1 – A Charge e A Missão

Os ossos do Imperador, por Darci Men

 I – A charge

Era uma linda manhã do dia 5 de setembro de 1972, estávamos no pátio do quartel onde eu prestava o serviço militar.

Eu e toda a “CIA” (grupo de soldados) estávamos ensaiando para o desfile do dia 7 de setembro, quando o Sargento Souza gritou:

— Men, saia de forma. – Men era o meu “nome de guerra”, ou seja, nome simplificado adotado pelos militares para facilitar a comunicação. Eles costumam colocar esse nome no uniforme, sempre do lado direito do peito. – E o Sargento continuou: — Vá até a sala do Comandante, ele quer falar com você. – Eu hesitei um pouco para cumprir a ordem e ele logo gritou: — Acelerado, Soldado, está esperando o quê? Um tapete vermelho?

Aquela ordem não era nada comum, o Comandante era a autoridade máxima do quartel e nunca soube um caso sequer de ele convocar um soldado para sua sala, tudo era tratado com os sargentos. Além disso, o Comandante, que tinha a patente de Tenente-Coronel, era conhecido pelo seu mau humor.

Muitas perguntas começaram a passar pela minha cabeça: “O que o todo-poderoso Comandante queria comigo? Seria o caso da charge?!” Bem, eu explico melhor:

O meu melhor amigo no quartel tinha o “nome de guerra” de Campili, mas todos o chamavam de “Campelo”, e ele gostava de fazer charges engraçadas de tudo e de todos, e o danado era bom nisso, era só acontecer um fato curioso com alguém e ele logo tirava da mochila seus lápis de giz de cera e uma folha de papel e, em alguns minutos, a charge estava pronta. Essas charges circulavam entre os soldados e até entre os sargentos e todos se divertiam com elas.

Continuar lendo Os Ossos do Imperador — 1 — A Charge e A Missão

Publicado em 8 comentários

A mulher dos meus sonhos

A mulher dos meus sonhos, por Darci Men

I – Eva Maria

Plagiando o célebre francês Blaise Pascal, autor da famosa frase: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, eu digo: “O cérebro tem mistérios que o próprio cérebro desconhece”.

É o que o que pretendo mostrar-lhes nessa história.

Certa noite há muitos anos atrás, eu acordei com minha mulher me sacudindo:

— Pai – há muito tempo ela costuma me chamar de “Pai” –, acorda, você está tendo um pesadelo. – Eu estava cansado, suado e com a mão direita machucada e que doía bastante. Ela continuou: — Veja só o que você fez! Andou brigando durante o sono, está ficando perigoso dormir com você, já pensou se você me acerta?

Olhei para o lado e o abajur estava em um canto estraçalhado e o criado-mudo com as pernas para cima. Sentei na cama meio “abobalhado”, enquanto Angélica, minha esposa, providenciava um copo com água e antisséptico para o ferimento da mão.

Não sabia bem o que tinha acontecido e fiquei tentando entender tudo aquilo. Ela não parava com as perguntas:

— O que aconteceu? Com quem estava brigando? Você não é de ter pesadelos, muito menos de brigar, por que isso agora?

Tentei buscar no meu subconsciente alguma lembrança e respondi:

— Não sei, meu bem, não lembro direito; parece que eu estava defendendo uma mulher, com o nome de Maria Eva ou Eva Maria. Está meio nebuloso, mas parece que essa mulher é rica e mora numa bela mansão e é de origem castelhana, você conhece alguém com esse nome?

Ela pensou um pouco e respondeu negativamente. Vi em seu rosto um pontinho de ciúme e tratei de acalmá-la:

— Não é o que você está pensando, estou mais perdido que você e não tenho a mínima ideia de quem se trata.

II – Buenos Aires

Naquele dia fui trabalhar com isso na cabeça e logo começaram as perguntas:

— O que houve com a mão? – disse um.

— Você está estranho hoje! – afirmou outro e assim por diante.

Contei-lhes minha “aventura” daquela noite e, como era costume nessas ocasiões, começaram as gozações: “Ah, já sei! Arrumou um ‘caso’ e agora está com dor na consciência!”. Logo outro emendou: “Vai ver estava brigando com o namorado dela!”. Um outro chegou a dizer: “Acho que você brigou com a tua mulher e inventou essa história.”.

Eles “levaram” tudo na brincadeira e não adiantou eu insistir que a coisa era séria e que eu estava abalado com aqueles acontecimentos.

Apenas um dos meus amigos, percebendo a gravidade da situação, se interessou e quis saber mais detalhes.

Contei-lhe tudo que pude lembrar e ele ficou pensando e falando alto ao mesmo tempo:

— Hum! Maria Eva, mansão, castelhano… conte-me mais sobre ela.

Eu disse que não lembrava direito, mas que não era o meu “tipo”; pra começar era “mandona” e eu detesto pessoas assim, devia ter 30 anos ou mais, baixa, “magricela” e uma beleza mediana e não lembrava mais nada. 

Fiquei curioso com o interesse dele e perguntei-lhe:

— Vai me dizer que a conhece?

Ele respondeu:

— Não, mas vi em uma reportagem alguém que se “encaixa”, vou ver se encontro a revista e trarei amanhã.

Naquela noite, Angélica foi dormir preocupada e até brincou comigo:

— Acho que vou dormir de capacete! Sabe? Por precaução!

Mas nada aconteceu. Pelo menos nada que eu me lembre.

No dia seguinte, assim que cheguei ao serviço meu amigo veio com uma revista na mão, abriu-a e falou:

— Achei! É esta “a mulher dos seus sonhos”? – E mostrou-me a foto na revista.

Assim que vi a foto “gelei” e a lembrança daquele sonho voltou totalmente, até coisas que então não lembrava agora “apareciam” nitidamente. Na foto ela estava um pouco diferente, talvez com outro cabelo, não sei, mas aqueles olhos penetrantes e autoritários não deixavam dúvidas, era ela.

Olhei o título da reportagem e estava escrito: “Evita, uma vida, uma lenda e um mito”. Virei a página e a foto do interior de um palácio também me lembrou do sonho, era como se aquela foto adquirisse vida e eu por ali circulava. Embaixo da foto estava escrito: “Palácio de Unzué, residência presidencial”.

Li a reportagem de pouco mais de três páginas, que contava, resumidamente, a vida “atribulada” daquela mulher, desde sua infância pobre de filha bastarda até depois da sua morte, quando, depois de mumificada e muito “vaivém”, foi enterrada definitivamente, em Buenos Aires.

Meu amigo, que até então permanecera calado, indagou:

— E aí? É ela?

Eu respondi como se estivesse falando comigo mesmo:

— Sim, é ela mesma! Mas como essa mulher foi parar no meu sonho?

Ele balançou os ombros, abriu os braços e respondeu:

— Se você mesmo não sabe; como eu vou saber?!

Eu continuei falando com ele como se estivesse falando comigo:

— Aqui diz que ela morreu cinco meses antes de eu nascer, viveu e morreu em um país onde eu nunca estive e que praticamente não conheço nada, só ouvira falar dela vagamente e nem conhecia seu rosto, como posso sonhar com ela? E pior ainda: brigar por ela?!

Ele começou a rir e falou:

— Sei lá! Pode ficar com a revista.

Eu pensei um pouco, olhei para ele que continuava com um sorrisinho maroto e aquele sorrisinho me alertou para algo e eu pensei: “Estou fazendo um papel ridículo nessa história e se eu conheço bem esses caras, vão me ‘crucificar’”. 

Então eu falei para meu amigo:

— Não! Melhor esquecer tudo isso, tome sua revista.

Não “deu outra”, a novidade se espalhou e tive que aguentar as gozações dos meus colegas por um bom tempo, coisas do tipo:

— Bom dia, Darci, tudo bem? E a Evita como vai?

Outro mais “radical” falou:

— E aí? Já conseguiu alguma coisa com a Evita ou não passou das “preliminares”?

E tantas outras piadinhas do tipo.

Quando contei para Angélica a minha descoberta ela comentou:

— Deve ser uma reencarnação ou coisa do gênero.

Este comentário me deixou mais preocupado ainda, principalmente porque não acredito nisso e acho que tudo tem uma explicação lógica, nós é que, muitas vezes, não sabemos qual é, mas, para sorte minha, não sei, o tempo passou, os sonhos não voltaram e o assunto foi caindo no esquecimento, isto é, não voltaram por um tempo!

Mais de um ano depois voltei a sonhar com ela e tais sonhos começaram a repetir-se com certa frequência. Sempre aquelas conversas em castelhano, aquele ambiente refinado e ela sempre era o centro de tudo.

Eu, bem, eu era um amigo muito próximo ou um colaborador de confiança, não sei, nunca consegui descobrir com precisão.

Minha esposa conta que eu ficava falando durante o sono, falando não, “balbuciando” em idioma castelhano. A parte “chata” disso tudo é que nunca conseguia lembrar direito, apenas partes de uma conversa aqui e ali, um lugar ou pessoa diferente que nunca fazia sentido, mas uma coisa eu tinha certeza: tudo se relacionava a ela.

Num desses sonhos ela deu-me um presente. Era um livro mediano, mais ou menos 25x20x2 centímetros, com capa dura e uma ilustração de um campo com cavalos, em tons dourado e preto.

Não lembro do título nem do autor, mas lembro-me bem que ela “determinou” que eu o lesse e depois informasse o meu parecer. O estranho aqui é que no sonho seguinte ela me “cobrou” se eu tinha lido o livro e essas cobranças se repetiram várias vezes.

Eu, que até então e não sem motivos, só falava desses novos sonhos para a Angélica ou para pessoas muito próximas, comentei com ela:

— Tenho que encontrar esse livro ou essa mulher não me deixa sossegado!

III – Evita

Virei um assíduo frequentador de livrarias, sempre a procura de publicações argentinas das décadas de 1930, 1940 e 1950, embora não soubesse seu título e autor, nem de que assunto se tratava, se o visse, eu o reconheceria, pois sua capa estava nítida em minha memória, mas nunca encontrei tal livro.

Nesse período, eu lia tudo que encontrava sobre ela e olha que existem “trocentas” publicações a respeito e ainda tenho alguns livros que comprei ou ganhei de presente, entre eles eu destaco: Evita, imagens de uma paixão, que é uma publicação biográfica lindíssima, com imagens compiladas por Fernando Diogo Garcia, Alejandro Labade e Enrique Carlos Válques; tenho também um romance: Santa Evita, do escritor e jornalista Tomás Eloy Martínez; entre outros.

Bem, não sei por que, mas há vários anos que ela não me “visita” e ficou a pergunta: O que é tudo isso? E eu candidamente lhe responderei: Sei lá! Dezenas de “entendidos” tentaram me explicar, mas ninguém conseguiu me dar uma explicação convincente.

Mas, afinal, quem foi “a mulher dos meus sonhos”?

Sua história é tão intrigante e cheia de mistérios que fica difícil separar a realidade do mito, senão, vejamos:

Maria Eva Duarte de Perón, a “Evita” (7.5.1919-26.7.1952), nasceu como Maria Eva Ibarguren, filha bastarda e pobre em uma vila nos “confins” dos pampas argentinos.

Li um relato que afirmava: “Sua mãe, Juana Ibarguren, que era costureira, começou o relacionamento com seu pai, um rico estancieiro de nome Juan Duarte, em troca de um jumento e uma carroça. Tiveram seis filhos e, curiosamente, Maria Eva, foi a única que não foi reconhecida e registrada como sua filha”.

Assim a retratou o escritor Tomás Eloy Martínez: “Em 1935 ela era nada ou menos que nada; um pardal ciscando migalhas, uma bala cuspida no chão, tão magrinha que até dava pena.

Ela mendigou de tudo: um café com leite, um cobertor, um cantinho na cama, uma foto na revista, uma mísera fala na radionovela. Teve frieira e piolhos e, por mais de um ano, suas únicas roupas eram duas ou três calcinhas, uma blusa de linho desbotado e uma saia de algodão”.

Tornou-se modelo de fotos pornográficas, artista de rádio, teatro e cinema, foi amante de diversos homens e, em 1944, casou-se com o então vice-presidente da Argentina, Ministro do Trabalho e da Guerra, Juan Domingo Perón.

Os historiadores contam que o encontro deles não foi nada casual: em 1944, em uma cerimônia, ela aproveitou-se da saída de alguém que estava sentado ao lado de Perón, sentou-se em seu lugar e disse uma frase que mais tarde se tornaria célebre: “Coronel, obrigado por existir” (como já perceberam, acabou conquistando o homem).

Virou uma “lenda viva”, adorada pelo povo e detestada pela oligarquia argentina. Os historiadores contam que quando era a primeira-dama da Argentina ela cercou-se de uma rede de ministros, espiões e puxa-sacos que a mantinham a par de tudo o que acontecia no governo (será que eu já fui um deles?).

Houve até quem afirmasse que ela castrou direta ou indiretamente vários opositores. Os adversários eram torturados com choques elétricos nos genitais, que os deixavam impotentes. Outros foram castrados mesmo e os seus testículos conservados em um recipiente de vidro que ficava exposto em sua escrivaninha de trabalho.

Embora nunca tenha exercido nenhum cargo oficial no governo, tornou-se uma das mulheres mais poderosas da sua época e foi recebida pelo Papa e em diversos países que visitou foi recebida com honras de chefe de Estado.

Outra lenda, ou verdade, não se sabe, conta: “Quando ficou doente e impedida de cumprir seus deveres conjugais, ela nunca deixou de satisfazer seu marido. Ela usou meios alternativos e o ditador nunca se havia beneficiado de um sexo tão sábio”.

Morreu com 33 anos, de câncer uterino, foi embalsamada de forma tão perfeita que tinha a aparência normal, de alguém dormindo e não de uma morta. Posteriormente foi colocada em uma redoma de vidro e seu velório durou 14 dias, com a participação de milhões de pessoas.

Seu corpo ficou exposto à visitação pública até 1955, quando um golpe militar derrubou Perón e seu cadáver tornou-se um fardo pesado demais para qualquer regime.

Assim, teve início uma das mais insólitas peregrinações de que se tem notícia. Sequestrado pelo Serviço Secreto de Inteligência do Exército, o cadáver vagou semanas de um lugar para outro até estacionar durante meses nos fundos de um cinema, prestou-se a todo tipo de paixões por um capitão desmiolado até reaparecer, 16 anos mais tarde, num cemitério, em Milão, na Itália.

Em 1971 seu corpo foi exumado, transladado para Madri, na Espanha, e entregue ao ex-presidente Perón, que ali se encontrava exilado. Em 1973 Perón voltou à Argentina e foi reeleito presidente, tendo a terceira mulher, Isabelita Perón, como vice. Em 1974 Perón morreu e Isabelita trouxe o corpo de Evita para a Argentina, onde, novamente, permaneceu exposto à visitação pública e só então foi enterrada no mausoléu da família Duarte, no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires.

Mais tarde ela seria “eternizada” na ópera rock Evita, de Andrew Lloyde Webber e Tin Rice, ou no cinema em Evita, protagonizada pela pop star Madonna, além de tantas outras obras. Quem não conhece: “Não chores por mim, Argentina…”.

Bem, essa é a história da “mulher dos meus sonhos”.

Baseado em fatos reais e relatado por Darci Men

——————-

Publicado em 3 comentários

A garagem

A garagem, por Darci Men

Em um sábado de novembro de 1995 eu morava em um sobrado na Avenida Luca, perto do Tatuapé.

Levantei bem cedo porque tinha que arrumar alguma coisa na roda do meu carro, um Opala Diplomata, com câmbio automático, que me deixou muitas saudades.

Mas aquele dia ia ser terrível, uma verdadeira “merda”.

Fui até a garagem e logo percebi o que teria que enfrentar: o cachorrinho da minha filha Aline, Neguinho, um pinscher, tinha feito daquela roda o seu “banheiro”, e que pontaria ele tinha: a roda estava toda “lambuzada”.

Soltei alguns impropérios que não dá para relatar aqui, tomei coragem e, pacientemente, limpei a roda e comecei o trabalho.

Logo depois precisei de uma ferramenta que estava em um “quartinho”, nos fundos da garagem.

Quando lá cheguei levei um tremendo escorregão e aí percebi como era grande o “banheiro” do Neguinho, meu chinelo estava todo cheio de merda e como fedia!

Não aguentei e comecei a xingar: “Seu f. da p., desg., maldito e nojento, cadê você?” Saí à caça dele, mas o danado era esperto e nessas horas desaparecia sem deixar vestígios.

Claro que se eu o encontrasse torceria o seu pescoço.

Joguei o chinelo longe e continuei descalço, enquanto pensava: “Preciso me acalmar, vou fazer um refresco e depois continuo.”

Fui até a dispensa para pegar um vidro de suco e, acreditem ou não, “plovt”: pisei novamente, desta vez descalço, e era do gatinho, que fedia muito mais que o anterior.

Saí pulando igual um Saci-Pererê, tropecei em uma bicicletinha que alguém tinha abandonado no meio do caminho e levei um belo tombo. Mas não pensem besteira não, eu estava bem, estava uma verdadeira “feeera”.

Acabei acordando toda a família, mas ao invés deles me ajudarem, refugiaram-se em um banheiro e riam pra valer. Bem que me avisaram: “Filhos, melhor não tê-los”.

Não havia muito que fazer e tratei de limpar aquela sujeira toda e, enquanto trabalhava nessa árdua e fedorenta tarefa, pensava em algo que tinha lido sobre as garagens dos americanos e o texto falava que eles usavam a garagem para tudo: era laboratório, palco, estúdio e até servia para guardar carros.

Pensei comigo: “Será que também serviam como ‘banheiro’ de cães e gatos?”

Bem, o texto é interessante e vou reproduzi-lo:

Um dos costumes dos americanos é utilizar sua garagem para inúmeras atividades: é comum a garagem deles se transformar em palco de espetáculos, laboratórios e outras atividades.

Foi nessas garagens que nasceram grandes empresas americanas, lugar que alguns sonhadores usaram e transformaram o mundo. Alguns exemplos:

– Foi em uma garagem que Henry Ford efetuou seus primeiros experimentos com um motor primitivo. Claro que a vizinhança reclamava da barulheira. Um dos vizinhos, para se livrar dos problemas, cedeu-lhe parte de um depósito de carvão que, de tão pequeno, foi necessário derrubar a parede para que de lá saísse a “carruagem sem cavalos”, como Ford chamou seu primeiro carro.

Aliás, ainda sobre Henry Ford, muito tempo depois, quando já milionário, alguém perguntou a ele porque ia ao gabinete de seus diretores em vez de lhes pedir que fossem ao seu, ele respondeu: “Descobri que é mais fácil para eu sair do gabinete deles que fazê-los sair do meu”.

– Também foi em uma garagem que Walt Disney construiu, com caixas de madeira, um suporte de câmera rudimentar e os rolos de desenho animado. Os desenhos eram figuras simples, com piadas impressas dentro de balões, como nas histórias em quadrinhos, mas esse foi o começo da Walt Disney Company.

– Em Palo Alto, na Califórnia, em um despretensioso prédio, com trepadeiras na fachada, existe uma garagem que anuncia ser ali o berço do principal núcleo de alta tecnologia dos Estados Unidos.

Naquela garagem, em 1938, dois jovens colocaram uma série de peças recém pintadas dentro de um velho forno de cozinha, ligando-o. Quando a pintura estava seca e as peças coladas, David Packard e Willian R. Hewlett tinham acabado de produzir seu primeiro oscilador de áudio (espécie de diapasão eletrônico, usado para afinar instrumentos musicais).

Tal invenção acabou tendo preço competitivo com outros concorrentes porque era mais simples e barato. Rapidamente ganharam muito dinheiro e nasceu a Hewlett-Packard. Hoje a HP que todos conhecemos.

– Entre 1939 e 1941, o casal Elliot e Ruth Hardter, tomou conhecimento de um novo plástico chamado lucite e resolveram trabalhar com este material. Eles compraram, a prazo, as ferramentas e instalaram tudo na garagem. Começaram assim a fabricar espelhos de mão e porta livros.

Mas um vizinho reclamou do barulho e da bagunça e o senhorio os despejou. Eles não desistiram e, com a ajuda de um amigo, começaram a fabricar na garagem deste, casas de bonecas e brinquedos. Em 1951, Ruth concebeu a boneca Barbie, a rainha da terra dos brinquedos. Hoje existem mais barbies do que pessoas nos Estados Unidos, e a Mattel é uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo.

– Por volta de 1921, Dewitt e Lila Wallace, em uma garagem de Greenwich Village, começaram a fazer uma revista com dinheiro emprestado da família. Tal revista, nada mais era que um resumo de livros e publicações variadas. Setenta anos mais tarde, a Reader`s Digest vendia perto de 25 milhões de exemplares por mês em todo o mundo, mais de meio milhão só no Brasil.

Agora eu pergunto: Será que esses caras tinham filhos? E cães e gatos? Será que nunca deram uma “pisadinha”?

Brincadeira à parte, se necessário, faria tudo de novo, igualzinho.

————–