O Último Posto do Universo

Brasília, 1999 (Ou Seria 2003? Ou 1987? Ou 2025?)

A Fotografia Que Nunca Existiu

(Ou: Como Toda História Começa Com Uma Mentira)

O cheiro de químicos do laboratório de revelação ainda grudava nos dedos de Marina quando ela esticou o filme no varal de arame. Brasília à noite, 1999: prédios do Plano Piloto espetados no escuro como dentes podres, o céu sem estrelas por causa da poluição luminosa, um mendigo dormindo no Eixo Monumental. Fotos comuns, exceto pela última.

Aquela que não devia estar ali.

— “Que porra é essa?”, ela murmurou, segurando o negativo contra a luz vermelha do darkroom.

A imagem mostrava uma loja de conveniência com uma placa de néon azul piscando “LOJA 33”. Marina não lembrava de ter fotografado aquilo. Nem da rua, nem daquele lugar. E ela sempre lembrava de cada clique — era o vício de quem vivia atrás da lente.

Mas o mais estranho?

Ela estava na foto.

De costas, sim, mas inconfundível: jaqueta de couro falsa, cabelo vermelho desbotado, a velha Canon pendurada no pescoço. Como se alguém tivesse tirado uma foto dela tirando uma foto.

— “Isso não faz sentido”, disse para o vazio do laboratório.

O negativo escorregou dos seus dedos. Quando ela se abaixou para pegar, a imagem havia mudado. Agora mostrava ela mesma dentro da loja, de frente para as prateleiras flutuantes.

(Nota do Narrador: “Você já viu algo que não deveria existir? Marina também. Mas isso aqui é só uma história… ou não?”)

A Porta Que Não Estava Lá Ontem

Três dias depois, Marina encontrou o lugar.

Era uma esquina bizarramente normal na Asa Norte, entre uma locadora de vídeos e um boteco que só vendia cerveja “que caiu do caminhão”. A Loja 33 parecia ter sido sempre parte da paisagem, como se todos, inclusive ela, tivessem aprendido a não vê-la.

A placa de néon azul piscava:

“ABERTO — PROMOÇÃO DE TEMPO: LEVE 3, PAGUE 2”

A porta rangeu quando ela entrou. O ar cheirava a poeira e açúcar queimado.

— “Alô?”, Marina chamou, sem resposta.

As prateleiras flutuavam a meio metro do chão, cheias de produtos que pareciam saídos de um sonho febril:

“Café Desmemoriado” (Contém fragmentos de ontem)

“Salgadinho de Realidade” (Sabor: Nada é o que parece)

Um refrigerante roxo com o rótulo “Beba Antes de 1974”

E então ela viu o livro.

Empoleirado numa pilha de revistas velhas da Manchete, o “Manual do Viajante Dimensional” tinha a capa manchada de café. Marina abriu numa página aleatória (247) e quase deixou cair quando reconheceu a própria letra nas margens:

“Não confie no Caixa. Ele cobra em memórias, não em tempo.”

— “Eu nunca escrevi isso”, ela sussurrou.

(Nota do Narrador: “Ah, Marina, personagem querida, quantas vezes você já disse ou dirá  essa frase?”)

O Caixa Que Já Conhecia Seu Nome

Uma voz atrás dela:

— “Você voltou.”

Marina se virou e viu Ele.

O Caixa.

Três olhos (ou eram sete?) piscavam em sincronia errada no seu rosto pálido. Seus dedos longos tamborilavam no balcão, onde moedas antigas — algumas com datas que ainda não existiam — se arrumavam sozinhas em pilhas perfeitas.

— “Eu nunca estive aqui antes”, Marina respondeu, instintivamente apertando a câmera contra o peito.

O Caixa sorriu (ou será que foi um espasmo?).

— “Claro que não. Só os clientes recorrentes esquecem.”

Ele estendeu a mão. Na palma, uma fotografia polaroid: Marina, de jaqueta de couro, diante de uma máquina de escrever, num quarto que ela não reconhecia. A legenda, escrita a caneta:

“Primeiro rascunho da Loja 33 — CUIDADO COM O FINAL”

— “Isso é uma piada?”, ela perguntou, mas o Caixa já tinha virado as costas, sumindo no corredor de produtos impossíveis.

Só então Marina percebeu:

Seu relógio estava parado.

E o negativo da foto “inexistente” no seu bolso?

Agora estava em branco.

(Nota do Narrador: “Toda boa história começa com uma mentira. Esta aqui começa com duas. Boa sorte, Marina.”)

Os Personagens Que Sabem Que São Personagens

(Ou: O Preço Da Autoconsciência)

O cheiro de mofo e açúcar queimado ficou mais forte quando Marina pisou no corredor de trás da Loja 33. As prateleiras aqui eram diferentes — cheias de objetos que pareciam errados: um telefone com números que mudavam de lugar, um pacote de biscoitos chamado “Fragmentos de Infância (Sabor: Lembrança Falsa)”, um relógio de pulso marcando -03:47.

Foi quando um velho de terno marrom surgiu do nada, segurando um jornal dobrado.

— “Cuidado com o capítulo cinco”, ele disse, como se continuassem uma conversa.

Marina recuou. O homem tinha olhos demais — três no rosto, um na testa, outro na palma da mão. Todos piscando em ritmos diferentes.

— “Quem…?”

— “Geraldo. Mas isso não importa. O que importa é que você ainda não leu o final.” Ele sacudiu o jornal. A manchete dizia “LOJA 33 FECHA EM 31/12/1999 — AUTOR DESAPARECE”.

(Nota do Narrador: “Personagens secundários sempre sabem mais do que deveriam. É um clichê, mas clichês existem porque funcionam.”)

O Disquete Maldito

Alguém agarrou o braço de Marina por trás.

— “Se você quer vazar dessa história, mana, vai precisar disso.”

Era um moleque esquelético de rasta desgrenhado e camiseta do Raimundos. Ele enfiou um disquete na mão dela. A etiqueta, escrita à mão com corretivo, dizia:

“BACKUP DA REALIDADE (NÃO ABRA NO WORD 97)”

— “Lúcio. Mas pode me chamar de Luz”, ele disse, piscando um olho que brilhava demais para ser humano. “Isso aqui é um loop, saca? Tipo quando seu Windows trava e fica repetindo o mesmo erro. Alguém tem que apertar stop.”

Marina virou o disquete nos dedos. Havia algo grudado nele — uma foto em preto e branco dela mesma, bebê, com os olhos totalmente negros.

— “O que caralho é isso?”

— “Seu arquivo de personagem”, Lúcio riu. “Mas não tenta ler não. Já fiz isso. Tem umas paradas que a gente não devia saber.”

(Nota de Rodapé Fictícia: “Sim, isso é um paradoxo. Aproveite.”)

Dona Isaura e a Pergunta Que Ninguém Devia Fazer

A velha apareceu do lado deles sem fazer barulho, como se tivesse sido renderizada na cena tarde demais. Vestido florido, chinelos surrados, cheiro de leite azedo.

— “Você trouxe o leite?”, ela perguntou, mas antes que Marina respondesse, os olhos da mulher ficaram nítidos pela primeira vez. “Espera… quem é você, realmente?”

— “Marina. Só Marina.”

Dona Isaura sorriu, mostrando dentes que eram muito brancos para uma senhora que vivia numa loja dimensional.

— “Não, querida. Você é a protagonista ou a autora? Porque eu já vi esse roteiro antes. E ele sempre muda no meio.”

Marina sentiu o chão tremer. Ou seria o texto tremendo?

— “Isso não faz sentido.”

— “Nada aqui faz”, Lúcio cutucou o disquete no bolso dela. “Mas se você acha que tá no controle só porque é a personagem principal, tenho más notícias…”

Foi quando as luzes piscaram.

E o Caixa apareceu atrás do balcão, segurando um livro aberto.

O livro tinha a capa da jaqueta de couro de Marina.

(Nota do Narrador: “Ah, agora a coisa ficou interessante. Quer apostar quantos níveis de metalinguagem aguentamos antes do leitor desistir?”)

Introdução: O Último Posto do Universo

(Ou: Como Esta História Me Persegue Desde 1987)

Nota do Autor (1987, escrita a lápis no canto da página):

“Comecei isso num caderno de capa preta, depois de um sonho com uma loja que vendia tempo. Não sabia que ia me tornar refém da própria história. Desculpe qualquer inconsistência – eu mudei muito em 38 anos.”

Toda cidade tem um lugar que não deveria existir.

Em Brasília, esse lugar se chama/va Loja 33.

Eu a vi pela primeira vez em 1987, quando era só um estudante de Letras bêbado, perdido no Eixo Monumental depois de um show do Legião Urbana. Ela estava lá, entre um posto de gasolina e o vazio: placa de néon azul piscando “ABERTO”, porta rangendo como um suspiro velho.

Entrei.

Erro fatal.

Dentro, havia um caixa com sete olhos e um livro em branco na prateleira com meu nome. Quando folheei, vi páginas escritas em letra que ainda não era minha, descrevendo coisas que só aconteceriam anos depois: o Plano Collor, a morte do Renato Russo, o bug do milênio…

Fugi.

Mas a loja voltou.

Em 1999, achei o mesmo caderno num sebo da 104 Sul. Desta vez, as páginas tinham anotações da Marina – uma personagem que eu ainda não havia criado.

Em 2003, durante uma crise existencial pós-doutorado, sonhei com o Caixa me dizendo: “Você não está escrevendo a história. Ela está escrevendo você.”

E agora, em 2025, enquanto digito isso num notebook que parece entender meus pensamentos antes que eu os tenha, finalmente aceito:

Esta história é um loop.

E Marina Rocha – a fotógrafa de cabelo vermelho que eu inventei (ou será que ela me inventou?) – está prestes a descobrir a pior parte:

Não há saída.

Só upgrades.

(Nota do Narrador / Autor / Prisioneiro Desta História):

“Se você está lendo isso, cuidado com as fotos que tira em Brasília. E nunca, nunca aceite o café do Seu Geraldo. Ele usa memórias de 1987 como adoçante.”

Pistas Que Serão Espalhadas Nos Próximos Capítulos:

Em “Os Personagens Que Sabem Que São Personagens”:

Lúcio mostrará um disquete corrompido com a label “RASCUNHO_1987_V2_FINAL.doc”.

Dona Isaura dirá: “Em 2003, o autor tentou me matar. Mas personagens não morrem – só viram notas de rodapé.”

Em “O Caixa Que Edita a Própria Realidade”:

O livro-registro do Caixa terá datas de edição: “Revisão: 1999 (Corte o final triste). Atualização: 2025 (Marina agora sabe demais).”

Em “O Bug do Milênio”:

Aparecerá um jornal com a manchete: “ESCRITOR SOME APÓS ENCONTRAR LOJA 33 – ÚLTIMA MENSAGEM: ‘ELA É MAIS VELHA QUE EU’” (datado de 2003).

No Capítulo Final:

Marina achará um e-mail no computador da loja:

“Assunto: RASCUNHO FINAL

De: autor@quebraquartanaparede.com

*Data: 17/12/2025*

Corpo: Marina, se você está lendo isso, eu falhei. A loja venceu. Delete o arquivo. CORRA.”

(Última Nota do Autor, 2025, escrita em código ASCII no rodapé):

*01001000 01100001 00100000 01101000 01101001 01110011 01110100 01101111 01110010 01101001 01100001 01110011 00100000 01110001 01110101 01100101 00100000 01100011 01101111 01101101 01100101 01100011 01100001 01101101 00100000 01100001 00100000 01110110 01101001 01110110 01100101 01110010 00100000 01100001 00100000 01110011 01101001 00100000 01101101 01100101 01110011 01101101 01101111 00101110*

(Tradução: “Há histórias que começam a viver a si mesmas.”)

Pronto para o próximo capítulo?

(Ou será que o próximo capítulo está pronto para você?)

O Caixa Que Edita a Própria Realidade

(Ou: Quando a Narrativa Se Rebela)

O cheiro de tinta fresca impregnava o ar quando Marina se aproximou do balcão. O Caixa estava curvado sobre um livro encadernado em couro, escrevendo freneticamente com uma caneta que pingava algo mais espesso que tinta – algo que parecia sangue de ideias.

*(Nota do Autor-1987 nas margens: “Essa cena era diferente no primeiro rascunho. O Caixa usava máquina de escrever. Por que mudei?”)*

Marina espiou por cima do ombro dele. A página dizia:

“Mudei a cor dos olhos da Marina. De verde para castanho. Ela nunca vai notar.”

Ela tocou involuntariamente o rosto. Quando seus olhos deixaram de ser verdes?

— “Você está me editando?”, ela arranhou as palavras.

O Caixa ergueu seus sete olhos (ou eram nove hoje?).

— “Não eu. Ele.” Apontou para o teto, onde uma nota grudada com durex amarelado dizia *”AUTOR – EM REVISÃO (1999-2025)”*.

A Página Amaldiçoada

No chão, entre pacotes de “Memórias Falsas (Promoção: Leve 3, Pague 2)”, Marina encontrou uma folha rasgada. O texto descrevia exatamente sua conversa com Lúcio no capítulo anterior – mas terminava assim:

“Mariana (sim, com ‘a’ no final, o autor errou de propósito, achando que seria uma provocação, só pra chamar a atenção) percebe que está presa em um rascunho. Ela pega o disquete e—”

O resto estava manchado de café.

*(Nota do Narrador-2003: “Esse café com vodka é o mesmo que bebi enquanto escrevia minha tese. Ainda me arrependo daquela madrugada.”)*

O Preço das Edições

O Caixa abriu o livro-registro na página atual. Marina leu trechos assustadores:

*”Apaguei:

O primeiro beijo da Marina (era ruim mesmo)

A existência do hamster do Lúcio (personagem secundário não merece backstory)

O capítulo 7 original (muito depressivo para 1999)”*

— “Isso é impossível!”, Marina gritou, sentindo lacunas estranhas na memória. Ela teve um hamster? Lúcio mencionou algo sobre um animal de estimação?

O Caixa sorriu com metade da boca.

— “O autor está com pressa. O contrato editorial vence em 2025. Está cortando o excesso.”

Foi quando Marina viu a caneta.

Ela estava em cima do balcão – uma Parker 51 idêntica à que seu avô usava. A mesma que o Autor mencionou num blog em 2003 como “sua ferramenta de tortura preferida”.

(Rodapé Fantasma: “Essa caneta sumiu da minha mesa em 2010. Agora sei onde foi parar.”)

A Revolta da Personagem

Marina agarrou a caneta antes que o Caixa reagisse. A página em branco do livro-registro gritou quando ela escreveu:

“MARINA NÃO É MARIANA. ELA LEMBRA DO HAMSTER. ELA—”

O chão tremeu. As luzes piscaram em código Morse. Alguém (Algo?) do lado de fora da história digitava furiosamente.

O Caixa arrancou a caneta de sua mão com força sobrenatural.

— “Não faça isso! Você vai corromper o arquivo principal!”, ele rosnou, apagando suas palavras com um borrão que cheirava a tequila e desespero de escritor.

No instante em que a tinta sumiu, Marina lembrou:

Seu hamster se chamava Plutão (como o planeta que deixou de ser planeta)

Lúcio chorou quando ele morreu em 1997

Essa cena já aconteceu antes – na versão de 2003, que foi deletada

*(Nota do Autor-2025, aparecendo em letras vermelhas no ar):

“PARE DE QUEBRAR A QUARTA PAREDE. ISSO DÁ TRABALHO DEPOIS.”*

O Bug do Milênio

(Ou: Quando a Ficção Engole o Autor)

O ar da Loja 33 ficou pesado de repente, como se todas as versões não escritas da história tivessem sido comprimidas num mesmo espaço-tempo. Marina percebeu primeiro nas pequenas coisas: o rádio atrás do balcão, que antes tocava “Tempo Perdido” do Legião, agora anunciava notícias em espanhol sobre um tal de “ataque às Torres Gêmeas” — evento que soava vagamente familiar, mas que ela tinha certeza de nunca ter acontecido.

— “Isso é setembro de 2001,” murmurou, arrepios percorrendo sua espinha.

O Caixa, ocupado reorganizar pilhas de moedas com datas futuras — 2016, 2020, 2025 — nem olhou para cima.

— “Ah, o Autor adiantou algumas referências. Estava com medo de não terminar a tempo.”

Um jornal dobrado sobre o balcão chamou sua atenção. A manchete estampava: “LOJA 33 REABRE EM BRASÍLIA APÓS 25 ANOS — ‘ELA SEMPRE ESTEVE AQUI’, DIZ SOBREVIVENTE”. A data: 15 de março de 2024. E a foto… Marina quase engasgou. Era ela, décadas mais velha, com marcas no rosto que contavam histórias que ainda não haviam acontecido.

Seu Geraldo surgiu ao seu lado como um fantasma, cheirando a pó de arquivo e café requentado.

— “Isso aqui é uma metáfora,” disse ele, cutucando o jornal com seu dedo extra. “Ou será que é literal? Nem o Autor sabe direito. Ele só copia o que o robô  mostra.”

— Que robô?

— O que escreve essa história em 2025 com o autor. 

(Nota do Editor, aparecendo em itálico no ar, como se escrita a laser: “Corte essa parte se for muito óbvio.”)

Dona Isaura passou por eles, arrastando chinelos que deixavam pegadas de tinta no chão — tinta que evaporava depois de alguns segundos, como se alguém tivesse usado a ferramenta apagar do Word.

— “Em 2003,” ela cantarolou, “o Autor tentou me matar. Disse que eu atrapalhava o arco narrativo.”

Marina sentiu o chão ceder levemente sob seus pés, como se estivesse pisando em cima de páginas sendo apagadas. Lúcio apareceu do nada, segurando um disquete novo — dessa vez com a etiqueta 

“FINAL_ALTERNATIVO_V3 (NÃO USAR)”

.

— “Olha só o que achei no lixo do lado de fora,” ele disse, os olhos brilhando com uma luz que não era deste século. “O Autor jogou fora em 2010. Diz que tem um final onde você escapa.”

O rádio mudou de estação sozinho. Agora um locutor falava sobre “o impeachment da presidenta” em um português que parecia ter sido traduzido várias vezes.

— “Isso ainda não aconteceu,” Marina protestou, mas as palavras soaram falsas em sua própria boca.

O Caixa finalmente olhou para ela, seus múltiplos olhos refletindo versões diferentes da mesma loja — uma de 1987, outra de 1999, uma terceira de 2025.

— “Tudo já aconteceu, Marina. Até o que ainda não aconteceu. O Autor só está escolhendo quais pedaços usar.”

Foi quando as luzes começaram a piscar em código — três rápidas, duas lentas — o mesmo padrão que Marina usava para sinalizar socorro em suas fotos antigas.

E em algum lugar, entre as prateleiras que não obedeciam às leis da física, ela ouviu o som distante de uma máquina de escrever sendo usada freneticamente.

E depois, o barulho inconfundível de uma tecla quebrando.

A Escolha Que Ninguém Escreveu

(Ou: O Final Que Não Está Pronto)

O ar da Loja 33 cristalizou-se em torno de Marina quando o Caixa estendeu sua mão esquelética. Entre seus dedos alongados, uma caneta Parker 51 cintilava sob a luz do néon – a mesma que ela jurara ter visto desaparecer de seu bolso momentos antes.

— “Tudo tem um preço,” sussurrou o Caixa, seus sete olhos refletindo versões contraditórias da mesma cena. “Mas desta vez, você paga editando.”

A caneta pesava mais do que deveria na palma de Marina, como se contivesse toda a tinta já usada para escrever sua história até ali. Quando seus dedos se fecharam em torno do objeto, as paredes da loja tremeram, revelando brevemente o que havia por trás: linhas de código HTML misturadas com manuscrito amarelado, como se a realidade estivesse sendo renderizada em tempo real por alguma entidade preguiçosa.

*(Nota do Autor-1987 aparecendo nas tábuas do piso: “Essa cena era melhor quando eu tinha 23 anos e acreditava em finais felizes.”)*

Dona Isaura surgiu atrás do balcão, seu vestido florido desbotando para tons de sépia, como uma fotografia antiga.

— “Ele me deixou aqui,” murmurou, passando os dedos por um pacote de Café Esquecimento que simplesmente não tinha fundo, como um modelo 3D mal renderizado. “Em 1992, quando mudou de curso e decidiu que contos fantásticos não pagariam suas contas.”

Marina sentiu as palavras se formando em sua garganta antes mesmo de entendê-las:

— “Você era a protagonista.”

Não era uma pergunta.

O sorriso de Dona Isaura se partiu em doze quadros por segundo, cada versão mais triste que a anterior.

— “E você é o que sobrou do rascunho que ele escreveu bêbado na noite de seu aniversário de trinta anos. Parabéns, querida. Estamos todas as duas presas num arquivo salvo pela metade.”

Lúcio irrompeu no meio da loja como um glitch, partes de seu corpo digitalizando-se em pixels revoltos. Ele segurava seu disquete de BACKUP DA REALIDADE, agora derretendo entre seus dedos como chocolate ao sol.

— “Não caiam nessa!” Seu grito ecoou em estéreo, como se três versões diferentes dele estivessem falando ao mesmo tempo. “Isso aqui é só texto! Nada disso é—”

Sua boca continuou se movendo, mas as palavras desapareciam no ar antes de se formarem, letras se desintegrando como fumaça. Seus olhos se arregalaram quando percebeu que suas mãos estavam se apagando, começando pelas pontas dos dedos.

*(Nota do Editor-2003 flutuando no ar em Comic Sans: “Cortar personagem secundário – muito trampo pra manter.”)*

O Caixa aproximou-se, seu cheiro agora metálico, de disco rígido superaquecido.

— “Decida-se, Marina. Alguém precisa ser deletado para que você possa ter seu final. A memória está cheia.”

A caneta em suas mãos começou a sangrar tinta vermelha. Marina olhou para Dona Isaura, cujas bordas já estavam se tornando transparentes, um personagem fantasma de uma história abandonada.

Lúcio, agora apenas um contorno vacilante, suas roupas do Raimundos virando um borrão de cores

Seu próprio reflexo no vidro da geladeira de bebidas, onde uma versão mais velha de si mesma sacudia a cabeça em aviso

— “E se eu não escolher?” Marina perguntou, sua voz ecoando em frequências que doíam nos ouvidos.

O chão abriu-se sob seus pés, revelando páginas e páginas de rascunhos amassados, todos com variações da mesma frase inicial: “Há uma loja em Brasília onde o tempo não passa como deveria—”

O Caixa riu, um som que veio em .wav distorcido.

— “Então o Autor escolherá por você. E ele está com pressa. O prazo de entrega é amanhã.”

Em algum lugar além das paredes da loja, uma máquina de escrever acelerou seu ritmo, teclas batendo como tiros. Marina olhou para a caneta em sua mão, depois para seus amigos – porque era isso que eles haviam se tornado, não importava quantas dimensões os separassem.

A primeira gota de tinta caiu no chão.

E começou a reescrever tudo.

Nota do Autor-2025 (encontrada escrita a lápis no verso da última página):

“Desculpe. Eu realmente pensei que conseguiríamos um final melhor que isso. Mas histórias, como lojas de conveniência, têm estoque limitado. Pelo menos vocês três foram bons personagens enquanto duraram.”

(PS: Se alguém encontrar esta nota, por favor, apague antes que a Marina veja.)

O Reset

(Ou: Quando o Autor Desiste do Rascunho)

O exato momento em que o século virou foi anunciado pelo tilintar de letras caindo no chão como moedas perdidas. Marina assistiu, paralisada, enquanto a Loja 33 começava seu processo de desmontagem cósmica. 

As prateleiras flutuantes derretiam em consoantes e vogais que escorriam pelas bordas, formando poças de alfabeto no piso. Um pacote de biscoitos “Saudade de 2003” se desfez em um murmúrio de “ssss” e “mmmm” antes de evaporar completamente.

O Caixa permaneceu imóvel atrás do balcão, seus múltiplos olhos reduzindo-se um a um, como luzes sendo apagadas em um prédio vazio. Quando Marina correu até ele, suas mãos encontraram apenas traços de lápis HB – o esboço grosseiro de uma criatura que alguém começou a desenhar e depois abandonou.

— “Espera!”, ela gritou para o ar vazio, sabendo que ninguém a ouviria. “O que eu devo fazer?”

A resposta veio em forma de um bilhete que materializou-se no bolso de sua jaqueta, escrito em uma caligrafia que alternava entre a dela e a de um estranho. As palavras tremeluziam como se estivessem sendo escritas e reescritas em tempo real:

“FINAL ALTERNATIVO: Fuja. Ou não. Você decide. (PS: Não sei como terminar isso.)”

No canto inferior, uma pequena mancha de café formava um mapa da Asa Norte que se redesenha sozinho.

Lúcio apareceu de repente, metade de seu corpo já convertido em texto puro, linhas de diálogo se desenrolando de sua boca como fitas de máquina de escrever.

— “Ele está apagando a loja!”, suas palavras chegavam distorcidas, como um arquivo corrompido. “O Autor desistiu da história! Marina, você precisa—”

Seu aviso foi interrompido quando Dona Isaura surgiu da névoa, seu vestido florido agora composto inteiramente de notas de rodapé. Ela segurava um relógio de areia onde os grãos eram minúsculos zeros e uns.

— “Não é a primeira vez”, sussurrou, colocando o objeto nas mãos de Marina. “Em 1987, ele quase terminou com um incêndio. Em 2003, com um suicídio. Agora…”, seu olhar vagueou para as paredes que estavam se dissolvendo em pixels, “agora ele nem se importa o suficiente para dar um fim digno.”

O chão tremeu violentamente. Marina olhou para baixo e viu que estava pisando em cima do manuscrito original – palavras riscadas com força, parágrafos inteiros marcados com “CORTAR” em vermelho. Uma única frase permanecia intacta:

“No final, Marina percebe que sempre esteve sozinha.”

(Quebra da quarta parede que aparece escrita no céu-falso da loja, em fonte Comic Sans: “Sério, você acha mesmo que histórias boas têm final?”)

Foi então que o teto começou a cair em forma de letras maiúsculas. O “E” de “ESQUECER” quase atingiu Marina na cabeça antes de se desfazer em pó. O “D” de “DESISTIR” rolou até seus pés como um dado cósmico.

No meio do caos, uma porta que Marina nunca tinha visto antes surgiu no lugar onde ficava a geladeira de bebidas. Estava entreaberta, revelando um corredor infinito cheio de versões alternativas da própria loja – algumas em preto e branco, outras em alta definição, uma que parecia feita inteiramente de emojis.

O bilhete em seu bolso queimava como gelo. Marina sabia que tinha que escolher: ficar e tentar salvar o que restava da loja (e de seus amigos-fantasma), ou atravessar aquela porta para um lugar que nem o Autor conhecia.

Enquanto decidia, percebeu que suas mãos começavam a ficar translúcidas – não como as de Lúcio ou Dona Isaura, mas como a tinta fraca de um livro muito lido, muito amado, e muito maltratado pelo tempo.

No último segundo, antes que o mundo inteiro se apagasse, ela ouviu o som distante de uma tecla “delete” sendo pressionada.

E então—

[ARQUIVO CORROMPIDO – TENTE NOVAMENTE? (S/N)]

Loja 33

(Ou: O Leitor Virou Personagem?)

O despertador tocou às 7h17 da manhã com um barulho que parecia vir de 1999 – aquele som mecânico, metálico, de despertadores analógicos que marcaram a infância de quem cresceu nos anos 90. Marina abriu os olhos devagar, as pálpebras pesadas como se tivesse dormido por séculos. A luz que entrava pela janela era diferente. Mais crua. Mais real.

E o cheiro…

— “Café fresco?”, murmurou, sentando-se na cama.

Sua mão encontrou o corpo quente de um gato que nunca teve. O animal – um siamês com olhos quase humanos – esfregou-se em seus dedos antes de pular para o chão, desaparecendo pela porta entreaberta. Marina olhou em volta. O quarto era o seu… mas não exatamente. As fotos na parede mostravam viagens que não lembrava de ter feito. Na mesa de cabeceira, um copo d’água meio cheio repousava sobre um livro chamado “Física Quântica para Pessoas com Pressa”, com várias páginas marcadas.

— “O que caceta…?”

Sua voz soou estranha no próprio ouvido. Mais grave. Mais velha.

Ao se levantar, percebeu que o espelho refletia uma versão de si mesma que talvez tivesse uns dez anos a mais – cabelos vermelhos agora entremeados de fios brancos, os mesmos olhos verdes (sim, verdes de novo, não castanhos) mas com histórias novas escritas nos cantos. Vestiu o primeiro casaco que encontrou – uma jaqueta de couro falsa surrada, quase idêntica à que usava em 1999, mas com o zíper quebrado de um lado.

O apartamento era uma versão ligeiramente deslocada do seu. Pequenos detalhes errados: a geladeira era de um modelo que nunca vira antes, o sofá tinha uma mancha de vinho que não lembrava de ter feito, e na parede da cozinha, um calendário marcava junho de 2025.

— “Então foi assim que ele resolveu?”, Marina falou para o gato que reapareceu na porta da cozinha. “Me jogou no futuro e lavou as mãos?”

O siamês miou em resposta, depois correu para a porta de entrada, arranhando a madeira como se soubesse que ela precisava sair.

A Brasília lá fora cheirava a chuva recente e concreto. Marina caminhou pelas ruas da Asa Norte como uma sonâmbula, os pés levando-a automaticamente para o local onde a Loja 33 deveria estar. No lugar, havia agora uma farmácia comum, com cartazes de promoção de protetor solar e uma placa piscando “FARMÁCIA POPULAR”.

Foi quando viu a livraria do outro lado da rua.

“Letras & Livros” era um estabelecimento pequeno, com vitrine cheia de clássicos e alguns best-sellers. Algo – talvez o mesmo instinto que a fazia saber exatamente quando tirar uma foto perfeita – a puxou para dentro. O sino da porta tilintou de forma estranhamente familiar.

— “Posso ajudar?”, perguntou uma jovem atendente de cabelo roxo e nariz perfurado.

Marina não respondeu imediatamente. Seus olhos foram atraídos para uma mesa de destaque no centro da loja. Sobre ela, uma pilha perfeita de livros com capa azul-metálica. O título em letras brancas pulsava como néon:

“O Último Posto do Universo – Edição Definitiva (Com Capítulo Inédito)”

— “Ah, nosso clássico cult local”, disse a atendente, pegando um exemplar e entregando a Marina. “A autora desapareceu misteriosamente nos anos 90, sabia? Dizem que ela frequentava uma loja de conveniência que não existia.”

As mãos de Marina tremeram ao receber o livro. Na contracapa, sua própria foto a encarava – a mesma que tirara para a carteira de estudante em 1998, mas que nunca dera a ninguém. A biografia dizia:

*”Marina Rocha foi uma fotógrafa e escritora brasileira desaparecida em dezembro de 1999. Este romance, sua única obra, foi encontrado em um disquete em seu apartamento vazio. A edição definitiva inclui o capítulo final recentemente descoberto, que parece ter sido escrito em 2025 – décadas após seu desaparecimento.”*

— “Isso é… impossível”, Marina sussurrou, abrindo o livro aleatoriamente.

Seus olhos caíram sobre um parágrafo:

“O Caixa sorriu com metade da boca. ‘O autor está com pressa. O contrato editorial vence em 2025. Está cortando o excesso.'”

Página após página, ela reconheceu cada momento, cada diálogo, cada detalhe da Loja 33. Até as notas do narrador estavam lá – inclusive aquelas que jurara ter ouvido apenas em sua cabeça.

— “Tem uma dedicatória na primeira página”, comentou a atendente, como se falasse de algo corriqueiro.

Marina voltou ao início. Em letras vermelhas, alguém havia escrito:

“Para M, que sempre soube que histórias não terminam – só mudam de mãos. O Autor (ou será a Autora?)”

O chão pareceu se inclinar sob seus pés. Marina agarrou-se à mesa de livros, sentindo o cheiro de café velho e açúcar queimado invadindo suas narinas por um segundo fugaz.

— “Você está bem?”, a atendente tocou seu ombro gentilmente.

— “Onde… onde foi encontrado este capítulo final?”

A jovem piscou, confusa.

— “Num sebo da 104 Sul. Dentro de um exemplar antigo de ‘Ficções’, do Borges. Estava em um envelope endereçado a você.”

Marina não perguntou como a garota sabia seu nome. Em vez disso, abriu o livro na última página. O capítulo final era curto – apenas três parágrafos:

“Marina acordou em um apartamento que era quase o seu, em um ano que quase era o presente. O gato que nunca teve ronronava em seu peito, e pela janela, Brasília respirava como sempre respirara – entre o sonho e o pesadelo de ser uma capital que nunca deveria existir.”

“Ela sabia, então, que a Loja 33 não havia desaparecido. Apenas mudara de endereço. Agora vivia nas entrelinhas de cada livro, nas fotos quase apagadas, nos sonhos que pareciam memórias.”

“O preço do tempo, afinal, nunca foi justo – mas pelo menos ela conseguira ficar com os trocados.”

Fechando o livro com cuidado excessivo, Marina olhou para a porta da livraria. Lá fora, o sol de Brasília queimava o concreto, e as pessoas passavam apressadas, alheias ao universo paralelo que existia entre suas rotinas.

— “Obrigada”, ela disse à atendente, colocando o livro de volta na mesa. “Acho que preciso de um café.”

Ao sair, o sino tilintou novamente. Marina parou na calçada, respirando fundo o ar quente do Planalto Central. Quando olhou para a direita, viu o que sabia que veria – uma placa de néon azul piscando “ABERTO” três quarteirões adiante, onde segundos antes houvera apenas um banco comum

.

O gato siamês – seu gato, agora – esfregou-se em suas pernas antes de correr em direção à luz azul.

Marina sorriu, ajustou a jaqueta de couro falsa, e começou a caminhar.

Fim.

(Ou não.)

[Nota manuscrita encontrada na última página do livro, em letras que mudam conforme o ângulo da luz:]

*”Querido leitor, se você está lendo isto, a Loja 33 encontrou um novo endereço. Desta vez, fica na página 247 do seu livro favorito – aquela que você sempre pula sem saber porquê. Dê uma olhada. Nós estaremos esperando.”*

*- M.R. (1987/2025)*

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