Disseram que não dava.
Disseram com a voz firme de quem confia mais em planilhas do que em arquibancadas.
0,04%.
Não era uma chance. Era um deboche matemático. O tipo de número que existe só para justificar o abandono antecipado. No fim de 2024, o Corinthians era tratado como isso: um erro prestes a ser corrigido pelo campeonato. Eliminado em sequência. Flamengo primeiro. Racing depois. A temporada escorrendo pelos dedos como areia molhada.
Na tabela do Brasileiro, o cenário era ainda mais cruel. Décimo sexto lugar. Um ponto acima do abismo. Cada rodada parecia escrita para empurrar o time para baixo. A imprensa já falava no futuro sem Copa do Brasil, sem Sul-Americana, sem horizonte. Alguns já usavam o verbo no passado: caiu.
Mas o Corinthians nunca foi um time bom de obedecer verbos definitivos.
A reação não começou com espetáculo. Começou com sobrevivência. Com um jogo aqui, outro ali, uma vitória arrancada sem brilho, mas com dentes cerrados. Até que veio o derby. Sempre ele.
Contra o Palmeiras, na Arena, num clima tão tenso que até uma cabeça de porco foi arremessada no gramado como provocação ritual. Era mais que futebol. Era um teste de identidade. E ali, quando ninguém mais esperava, o Corinthians venceu por 2 a 0. Sem pedir desculpas. Sem explicar nada.
A partir daquele jogo, algo mudou. O time engatou uma sequência que parecia escrita por alguém que não acreditava em limites. Nove vitórias seguidas no Brasileirão. Nove jogos em que o Corinthians entrou como se cada um fosse o último. Yuri marcando. Matheuzinho aparecendo. A defesa se fechando como trincheira. O time saiu da beira do rebaixamento e foi escalando posições, ponto a ponto, até alcançar os 56 que salvaram o ano e, contra toda a lógica, abriram a porta da Copa do Brasil de 2025.
Enquanto o time subia, eu também tentava reconstruir algo fora do campo.
Depois de um tempo grande demais de silêncio, eu e minha filha voltávamos a nos falar pelo WhatsApp. Conversas espaçadas, cuidadosas, como passes laterais no começo de jogo difícil. Nada de grandes discursos. Só presença possível.
Numa dessas noites, enquanto acompanhava mais um jogo tenso, digitei:
“Posso te perguntar uma coisa?”
Ela respondeu rápido.
“Pode.”
Demorei alguns segundos. Às vezes, o coração precisa pensar antes de chutar.
“Pra qual time você torce?”
A resposta veio simples, sem floreio:
“Corinthians.”
Não gritei. Não respondi na hora. Fiquei olhando a tela como quem vê um gol sendo revisado pelo VAR. O alívio veio primeiro, silencioso. Depois a alegria. A sensação de que, apesar de tudo, algo essencial tinha atravessado o tempo intacto.
No fundo, o Corinthians sempre foi isso pra mim: uma língua comum quando faltam palavras.
A Copa do Brasil começou e o Corinthians entrou como azarão assumido. Crise financeira pesada, dívidas bilionárias, presidente sofrendo impeachment, elenco curto, salários atrasados, lesões em sequência. Enquanto outros clubes investiam pesado, o Timão fazia conta para sobreviver.
Na terceira fase, venceu o Novorizontino fora por 1 a 0. Jogo duro. Pouca bola, muita disputa. Na volta, na Arena, jogou fechado, esperando o momento certo. Quando ele veio, veio certeiro. Gol. Classificação. Alívio.
Nas oitavas, o destino foi cruel e irônico: Palmeiras de novo. Davi contra Golias, diziam. No jogo de ida, o Corinthians foi intenso, organizado, quase abriu o placar num pênalti perdido. Segurou. Esperou. No segundo tempo, Memphis, ainda visto com desconfiança, subiu mais que todo mundo e marcou de cabeça. 1 a 0.
No Allianz Parque, o roteiro foi ainda mais improvável. Expulsão do Palmeiras cedo. Gol do Bidu. Depois outro, de bola parada. O estádio silenciado. A classificação veio não só no placar, mas no psicológico. Ali, o Corinthians agarrou mais uma vez aquele 1%.
Nas quartas, contra o Athletico, venceu fora e venceu em casa. Dois jogos seguros, sem sofrer gols. Hugo Souza aparecendo quando precisava. Um goleiro que ninguém queria, mas que resolveu ficar.
Na semifinal, o Cruzeiro. Investimento alto. Cássio do outro lado. Gabigol. Favoritismo claro. Em Belo Horizonte, o Corinthians venceu por 1 a 0, com gol do Memphis e uma torcida improvável fazendo barulho dentro do Mineirão. Na volta, sofrimento. Gol deles. Outro gol. Pênaltis.
Cássio defendeu o primeiro. O roteiro parecia pronto para a tragédia. Mas Hugo defendeu dois. Cumpriu a promessa. E Breno Bidon, garoto, converteu o último. Arena em delírio. O novo vencendo o velho. O futuro escolhendo ficar.
Na final, o Vasco. Outra camisa pesada. Outro improvável. Primeiro jogo, 0 a 0. Tenso. Amarrado. Tudo guardado para o Maracanã.
E lá, naquele estádio que já tinha visto o Corinthians calar multidões, a história se repetiu. Yuri abriu o placar. O Vasco empatou. O jogo respirava perigo. Até que Breno arrancou. Yuri pensou. Memphis apareceu. Gol. O gol que não respeita lógica. O gol que não pede permissão.
Quando o apito final soou, não foi só um título. Foi uma afirmação. O Corinthians campeão da Copa do Brasil de 2025. Tetra. Contra tudo. Contra todos.





Eu pensei nela.
Naquela resposta simples no WhatsApp.
Naquele “Corinthians” digitado sem saber o peso que carregava.
Entendi que ser corinthiano é isso.
Não é vencer sempre.
É ficar quando parece absurdo ficar.
O sofrimento não é o fim.
É só o preço de continuar.
E, enquanto houver 1% de chance,
ninguém vai convencer o Corinthians
ou um pai tentando reatar laços
de que acabou.
Créditos
Conto inspirado no vídeo:
“A campanha mais improvável da história do Corinthians”
Disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=6ZVpFHAZ3Ww




