O letreiro do motel pisca como se estivesse cansado de existir.
Zona Sul. Marginal perto demais. Trânsito longe demais.
Quarto 26. Por enquanto o 26. Eu não escolho. Ele escolhe.
A cetamina deixa o corpo leve. A cocaína mantém o pensamento acordado. O álcool faz a costura malfeita entre um e outro. Esse é o ritual. Não está escrito em lugar nenhum, mas eu sei. Ele me ensinou.
O Hóspede chegou antes de mim.
Ele não tem rosto. Não precisa.
Ele ocupa.
Aprendi as regras com o tempo, do jeito que se aprende uma febre.
Regra um: O Hóspede só aparece em lugares de passagem. Motel, banheiro, corredor, carro parado no acostamento. Onde ninguém fica por inteiro.
Regra dois: ele só pode ficar quando eu não estou completo. Basta um gole a mais, uma linha torta, um corpo que não responde. Ele entra sem pedir.
Regra três: se eu olhar direto para ele, perco tempo. Horas somem. Às vezes dias. Ele não devolve nada.
Ela está sentada na beirada da cama. A colcha tem marcas antigas que não saem com lavagem. Eu sei porque ele sabe. Ele presta atenção nessas coisas.
— Eu não aguento mais você assim.
A televisão desligada reflete meu corpo em pedaços. O Hóspede se acomoda atrás dos meus olhos, como quem abre uma mala.
— Eu sei – digo. Ou ele diz. Já não confiro. — Eu também não me aguento na maior parte do tempo.
Ela olha em volta. Garrafa vazia. Copo cheio. Meu olhar errado.
— Aqui não é lugar pra isso.
Ela acha que fala do motel. Não fala. O Hóspede gosta quando confundem o território.
— Vamos terminar se isso continuar.
A palavra terminar bate na parede e volta diferente. O Hóspede inclina a cabeça, curioso. Ele gosta de finais. São ótimos pontos de entrada.
— Pra você é fácil dizer isso – minha boca responde. — Você pode ir embora de mim a qualquer momento.
Sinto ele apertar o controle. Gentil, mas firme.
— Eu nunca vou conseguir me deixar.
Ela chora baixo. Choro chama presença. O Hóspede se mexe, incomodado. Emoção é ruído. Ele prefere o vácuo.
— Eu não quero te abandonar – ela diz. — Mas eu não posso morrer aqui dentro com você.
Quando ela toca meu rosto, sinto o peso voltar por um segundo. O corpo inteiro dói. O Hóspede recua meio passo. Só meio. Ele nunca vai embora sem convite formal. E eu nunca aprendi a convidar outra coisa.
No criado-mudo, a chave do quarto. A chave da gaveta. Sempre há uma chave. Regra quatro: O Hóspede não impede escolhas pequenas. Ele confia na repetição.
Empurro tudo para dentro da gaveta. Tranco. Coloco a chave sobre a mesa, como quem faz um acordo frágil.
Ele sorri sem boca.
Ela vai embora. O carro dela some na avenida. O quarto fica grande demais.
É aí que ele fala comigo, não em palavras, mas em certeza.
Você me chama de Dissociação.
Eu me chamo Permanência.
Quando você foge, eu fico.
Quando você sente demais, eu assumo.
Deito na cama do motel, sóbrio o suficiente para sofrer. O teto não se mexe. O chão não flutua. Isso é o castigo.
No espelho, vejo meus olhos piscarem fora de ritmo.
Regra cinco, a última, a que eu nunca consegui quebrar:
O Hóspede sempre espera no mesmo quarto.
E eu sempre acabo voltando para a Zona Sul, para o letreiro cansado, para o número 26.
Porque desaparecer dá alívio.
Mas alguém precisa ficar no lugar.
E ele é muito bom nisso.
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RELATÓRIO CLÍNICO – AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA
Paciente: M. S. A.
Idade: 40 anos
Sexo: Masculino
Cor/etnia autodeclarada: Pardo
Estado civil: Em relacionamento instável
Encaminhamento: Atendimento emergencial após episódio dissociativo prolongado
Local de ocorrência relatado: Motel, Zona Sul de São Paulo, Quarto 26
1. Queixa Principal
Paciente relata episódios recorrentes de “apagamento parcial”, sensação de estar “fora do próprio corpo” e percepção persistente de uma presença interna descrita como alguém que fica quando ele não está. Nega alucinações visuais clássicas, mas relata “ocupação do espaço mental”.
2. Histórico do Quadro Atual
Paciente com histórico de uso combinado de substâncias depressoras e estimulantes, incluindo álcool, cetamina e cocaína, em padrão episódico, porém crescente.
Relata que os episódios dissociativos persistem mesmo em períodos de abstinência parcial, o que não se alinha completamente ao esperado para intoxicação ou abstinência simples.
Descreve o fenômeno como recorrente, contextual e territorializado, ocorrendo preferencialmente em:
- locais de passagem
- ambientes impessoais
- quartos alugados
- banheiros
- corredores
Segundo o paciente, há um local específico recorrente: Quarto 26.
3. Descrição Subjetiva do Fenômeno
O paciente evita o termo “voz” ou “alucinação”. Insiste que não se trata de algo externo.
Relato direto (transcrito):
“Não é alguém falando comigo. É alguém usando o espaço que eu deixo.
Ele não manda. Ele assume.”
Paciente atribui ao fenômeno o nome simbólico de “O Hóspede”, reconhecendo tratar-se de uma construção subjetiva, porém descrevendo-o com regras consistentes e repetidas ao longo do tempo, o que chama atenção clínica.
4. Tentativa de Formulação Diagnóstica
Hipóteses consideradas:
- Transtorno dissociativo (especificação em investigação)
- Transtorno por uso de substâncias, padrão grave
- Episódios dissociativos induzidos por substâncias
- Mecanismo defensivo de despersonalização crônica
No entanto, a narrativa do paciente apresenta organização interna excessiva para um quadro puramente caótico, com regras, limites e padrões estáveis que não se alteram significativamente conforme humor ou substância utilizada.
Essa consistência simbólica não é plenamente explicada pelos modelos diagnósticos atuais.
5. Observações Clínicas Relevantes
- Paciente demonstra bom juízo crítico ao reconhecer o fenômeno como interno, mas não demonstra sensação de controle sobre ele.
- Afeto restrito, porém coerente.
- Discurso linear, exceto ao abordar “O Hóspede”, momento em que o tempo verbal oscila e o paciente utiliza a primeira pessoa do plural involuntariamente.
- Não há delírio estruturado clássico.
- Não há ruptura clara com a realidade consensual.
Durante a entrevista, o paciente demonstrou desconforto acentuado quando questionado sobre permanência, ocupação e espera.
6. Intervenções Propostas
- Acompanhamento psiquiátrico contínuo
- Avaliação para internação voluntária
- Suspensão do uso de substâncias
- Psicoterapia focada em integração do self
⚠️ Observação: o paciente verbalizou resistência específica à ideia de “ficar totalmente presente”, descrevendo isso como “deixar o lugar vazio”.
7. Conclusão
O presente relatório não consegue explicar satisfatoriamente a experiência subjetiva descrita pelo paciente apenas por modelos clínicos tradicionais.
A entidade simbólica nomeada como “O Hóspede” parece funcionar como:
- mecanismo de contenção
- substituto funcional da consciência em estados de sofrimento intenso
- estrutura de permanência psíquica em situações de dissolução do eu
Ainda que reconhecida como construção interna, sua persistência, regras próprias e sensação de autonomia excedem o que este profissional consegue enquadrar com segurança diagnóstica no momento.
Recomenda-se cautela ao tentar eliminar abruptamente o fenômeno, visto que o paciente associa sua retirada a um intenso colapso subjetivo.
Assinatura:
Dr. R. M. Peixoto
CRM-SP ██████
Psiquiatria Clínica
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ANOTAÇÕES DE ENFERMAGEM – PLANTÃO NOTURNO
Paciente: M. S. A.
Leito: Observação 3
Data: 22/01/2026
Turno: Noite
Profissional: Enf. L. A. S.
22:10
Paciente admitido lúcido, orientado em tempo e espaço. Coopera com a equipe. Evita contato visual prolongado. Ao ser questionado sobre acompanhante, responde: “Ele não fica aqui.” Não soube explicar quem.
22:47
Paciente em repouso relativo. Sinais vitais estáveis. Durante verificação de pressão arterial, paciente solicita que a cortina permaneça aberta, apesar da luz externa incomodar. Relata: “Se fechar, ele encosta.” Anotado como ansiedade.
23:19
Paciente desperta subitamente após breve período de sonolência. Olha fixamente para o canto do quarto, atrás da porta. Questionado, responde apenas: “Aqui não é lugar de ficar.” Não há ninguém no local.
00:02
Administrada medicação conforme prescrição médica. Paciente aceita, mas pergunta se “a troca de turno também troca quem fica”. Não compreendido no momento. Mudança de assunto realizada.
00:41
Paciente chama a enfermagem pelo interfone. Relata sensação de “ocupação” no leito ao lado, embora esteja sozinho. Afirma que o quarto “não foi feito pra permanência”. Solicita mudança de quarto. Pedido negado por indisponibilidade.
Paciente permanece acordado.
01:26
Observado que o paciente se refere a si mesmo alternando entre “eu” e “a gente”. Quando questionado, corrige rapidamente, aparentando constrangimento.
02:03
Durante ronda, paciente em pé, próximo à porta, sem tentativa de fuga. Apenas parado. Afirma: “Ele prefere corredores.” Perguntado quem, responde: “Quem fica quando eu não posso.”
02:58
Paciente apresenta sudorese fria sem alteração significativa de sinais vitais. Relata que o local lembra “um quarto alugado”. Ao ser informado que se encontra em hospital, responde: “Muda o nome, não a função.”
03:44
Paciente solicita papel e caneta. Escreve apenas o número 26 repetidas vezes. Em seguida, rasga o papel e pede que seja descartado fora do quarto. Solicitação atendida.
04:17
Paciente finalmente adormece. Sono inquieto, movimentos oculares rápidos. Durante o sono, murmura: “Não é pra você ficar aqui.” Não direcionado a ninguém visível.
05:12
Paciente desperta abruptamente. Afirma que “agora está vazio demais”. Solicita que a luz permaneça acesa até o fim do turno.
06:00 – Encerramento do Plantão
Paciente permanece estável, porém vigilante.
Observação pessoal da profissional:
Apesar da orientação preservada, a experiência relatada pelo paciente não se comporta como alucinação comum. Não há confusão nem desorganização. Há regras. Há espera.
Sensação subjetiva de que o quarto não está completamente vazio mesmo após saída do paciente para exames.
Registro encerrado.
Enf. L. A. S.
COREN-SP ██████
Fim (?)





