Publicado em 5 comentários

Os Ossos do Imperador – 3 – Os Atentados

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes! Aqui as partes 1 e 2! 😉

V – Os atentados

Entra o Comandante, usava o fardamento de gala do exército, com inúmeras medalhas no peito, pensei comigo: “Ele não quer chamar a atenção e parece uma árvore de natal.” Fiz-lhe a continência e ele:

— À vontade, Soldado! Decorou bem o caminho? – Eu disse que sim e ele continuou: — Vamos devagar, temos bastante tempo. – Olhou para mim e disse: — Soldado traga esta caixa.

Olhei para ela e vi que estava embrulhada para presente, não era muito grande, mais ou menos 80 x 80 centímetros, peguei-a e era pesadíssima, quase não aguentei, pensei: “O que tem aqui dentro?” Não perguntei, mas dona Marta esclareceu:

— Pesado, não? É uma peça antiga em bronze, raríssima, presente para a Maria do Carmo, tenha cuidado.

Eu fui colocar a caixa no porta-malas enquanto o comandante e dona Marta sentaram no banco de trás, nem bem entrei no carro e o comandante ordenou:

— Ligue o rádio, quero ouvir as notícias. – Na pressa nem tinha notado que aquele carro tinha rádio, atrapalhei-me um pouco até que consegui e o comandante voltou a ordenar: — Essa emissora não, a outra mais à direita.

Pensei comigo: “Tanta preocupação e esse chato fica ‘enchendo o saco’ com rádio!”

Liguei o carro e saí, nem estava prestando atenção no que diziam no rádio até que o comandante falou:

— Meu Deus, a coisa está feia.

Só então me interei que o locutor falava dos últimos acontecimentos nos Jogos Olímpicos de Munique.

(Coincidentemente, naquela ocasião aconteciam os Jogos Olímpicos e, na manhã de 5.9.72, terroristas palestinos do grupo “Setembro Negro”, entraram no alojamento dos atletas israelenses, resultando na morte de 19 pessoas e muitos feridos, no que ficou conhecido como “A Tragédia de Munique”).

Tentei prestar atenção no rádio, mas um carro atrás de nós me chamou a atenção, já o tinha visto em outra rua que passamos, era um Corcel de quatro portas e estava cheio de homens dentro, falei:

— Comandante tem um carro estranho nos seguindo.

O comandante virou-se para trás perguntando:

— Não é nosso pessoal? – Eu disse que não, pois tinha visto nosso pessoal e eles estavam em um carro maior tipo Veraneio. Ele ordenou: — “Pisa fundo” e trate da sair do roteiro o mais rápido que puder.

Obedeci, acelerei o mais que pude, entrei em uma rua estreita toda esburacada, virei em outra mais longa, mas não menos esburacada e pude notar que o Corcel continuava nos seguindo, até que ouvi disparos de arma, gritei:

— Abaixem! Estão atirando! Cadê nossa “cobertura”?

Só aí vi que a Veraneio apareceu bem na nossa frente, saindo de uma rua transversal e o Comandante ordenou:

— Continua, continua que o nosso pessoal toma conta deles.

Pude ouvir mais alguns disparos de arma, mas a rua tinha uma curva e não vi mais nada, continuei em alta velocidade, entrei em outra rua, tentando me localizar, mas não sabia onde estava até que passei por um enorme buraco, o carro pulou tanto que dona Marta subiu até o teto, bateu nele e voltou e o carro começou a fazer um barulho estranho, a direção ficou “boba” e tive que diminuir a velocidade, o Comandante logo perguntou:

— Porque diminuiu a velocidade?

Respondi:

— A suspensão quebrou, vou ter que parar, o senhor desce do carro e procure abrigo que darei cobertura.

Parei o carro e desci, ao mesmo tempo tirava a arma do coldre e lembrei-me do Sargento: “— Não se esqueça de destravar a arma”.

Posicionei-me atrás de um poste e vi que o Comandante tentava abrir um portão e não estava conseguindo, olhei atrás de mim e havia outro portão, dei-lhe um pontapé com o coturno e o portão abriu, gritei:

— Por aqui.

E o Comandante veio carregando a esposa, ela mal andava e sua testa estava sangrando, então perguntei:

— Tudo bem com ela? – Ele respondeu que sim, e que continuasse atento à rua.

Incrivelmente, àquela altura, tudo ficou quieto, ninguém na rua, nada, saí de trás do poste e olhei pelo portão e não vi ninguém, pensei: “O Comandante deve ter entrado na casa”; só então me dei conta que tinha deixado o carro ligado e ainda funcionava, era o único barulho que se ouvia até que vi um homem andando e olhando para o carro, instintivamente apontei a arma para o seu peito e, por muito pouco não atiro, até que percebi tratar-se de um transeunte qualquer e gritei:

— Sai, sai daqui, o senhor está correndo perigo. – O homem hesitou um pouco e saiu correndo.

Passou algum tempo e nada mais aconteceu até que chega o Comandante perguntando:

— Tudo bem? – Eu disse que sim e ele continuou: — Já chamei ajuda por telefone, aguente firme.

Já ia voltando para a casa e eu perguntei-lhe:

— E dona Marta?

Ele respondeu:

— Machucou a testa, um belo “galo” e um pouco tonta, mas tudo bem.

Logo o local estava cheio de viaturas militares com muitos soldados, todos armados com fuzis e metralhadoras e um Sargento me perguntou pelo Comandante.

Indiquei que estava dentro da casa e ele, olhando para o Opala, comentou:

— Parece uma “peneira”; todos estão bem?

Só então reparei que a traseira do Opala tinha diversas perfurações de bala, aí “caiu a ficha”, minhas pernas começaram a tremer, nem respondi ao Sargento, sentei no chão, deixei a arma de lado e assim fiquei por um bom tempo até que o Sargento pegou a arma e me devolveu, deu-me uns tapinhas no ombro e disse:

— A primeira vez é assim mesmo, você se acostuma. – Saiu e entrou na casa.

Quando ele retornou eu já estava “recuperado”, aí eu disse:

— Vamos precisar de outro veículo. – Ele respondeu simplesmente que já estava sendo providenciado e seguiu em direção aos demais soldados, dando ordens aqui e ali.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Publicado em 8 comentários

Os Ossos do Imperador – 2 – O Boi de Piranha e a Mulher

Os ossos do Imperador, por Darci Men
Leia o começo da história antes!

III – O boi de piranha

Fiquei me perguntando: “Por que arma?” A tal missão se restringia aos serviços de motorista, além disso, naquele quartel os soldados não usavam armas, só em treinamentos ou quando ficávamos de guarda no quartel, ainda assim muito raramente.

Não achei resposta e me dediquei em decorar todos os detalhes da “missão” até que o Sargento chegou e, antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele já foi dizendo:

— Já sei, quer saber da arma, ela estará no porta-luvas do carro, carregada e travada, é uma pistola igual àquela do treinamento. Você se lembra do treinamento, não? – E antes que eu respondesse continuou: — Não precisa examinar a arma, ela é nova e foi devidamente testada. Lembre-se da ordem: só a use em caso de extrema necessidade, mas, se precisar, não se esqueça de destravá-la. – Ficamos parados os dois, cada um com seus pensamentos até que ele falou: — Vamos, Soldado, sei que quer perguntar alguma coisa, “desembuche”?

Eu respondi:

— Sargento, os detalhes da arma são importantes, mas o que eu quero saber mesmo é por que tudo isso? O sigilo, a arma, enfim, por que toda essa operação de guerra? Afinal serei só um motorista transportando o Comandante e sua esposa para ver “Os Ossos do Imperador”.

Ele ficou parado me olhando como se estivesse me medindo, até que falou:

— Bem, não era pra eu te contar, mas é inteligente e já percebeu que não são só os “Ossos do Imperador”, além disso, acho que merece saber, mas vou alertá-lo novamente, para o seu próprio bem, nunca comente isto com ninguém.

Em seguida me explicou que o Tenente Coronel Amador, nosso Comandante, em anos anteriores teria participado da repressão aos “terroristas” e agora vinha recebendo ameaças de morte, e o que mais preocupava é que os tais “terroristas” sabiam até que ele tinha sido convidado para o casamento da Maria do Carmo e que iria participar das comemorações do “sepultamento” dos restos mortais de D. Pedro I.

O Comandante não quis “abrir mão” de participar desses eventos e, para não “chamar a atenção”, determinara a indicação de um soldado do quartel para levá-lo, com escolta de profissionais à distância.

Essa era a versão oficial, só que o indicado foi o idiota aqui.

[Pra quem não sabe, nas solenidades do Sesquicentenário da Independência, fazia parte o “sepultamento” definitivo do corpo do Imperador no mausoléu do Museu do Ipiranga, que ocorreria às 16h, do dia 6.9.1972, com a presença do presidente Médici, do governador Laudo Natel, do prefeito Figueiredo Ferraz e até do primeiro-ministro português Marcello Caetano. O corpo do Imperador saiu de Portugal e chegou ao Brasil meses antes, mas passou por várias cidades antes do sepultamento definitivo no mausoléu do Museu do Ipiranga.]

Se eu já estava preocupado, agora estava apavorado, e ele percebeu isso dizendo:

— Não se preocupe, Soldado, você terá toda a cobertura necessária.

Pensei um pouco, criei coragem e falei:

— Não sou idiota, é uma “isca”. Não dá pra indicar outra pessoa?

Ele respondeu que era tarde demais e acrescentou:

— É pra isto que servem os soldados: pra ariscar a vida pelos outros.

Ficamos calados novamente, um olhando para o outro enquanto eu pensava: “Diabo! Sou um soldado, tenho que enfrentar, senão, como ficarei se fraquejar agora?” Até que falei:

— Está bem, Sargento, farei o melhor que puder, mas o senhor sabe que estão me fazendo de “boi de piranha”. – Aquela lenda que dizia que os vaqueiros, quando iam atravessar a boiada em um rio infestado de piranhas, jogavam um boi velho para atrair as piranhas e atravessavam a boiada em outro lugar do rio em segurança.

Ele levantou-se, olhou-me diretamente nos olhos e falou:

— Vá para casa e descanse, amanhã será um longo dia e cumpra com o seu dever. – Em seguida fez continência e disse: — Boa sorte, Soldado.

IV – Uma linda mulher

Naquela noite quase não dormi e pela manhã, antes das 6h30min, já estava na tal garagem e, assim que cheguei ao portão, o tal Argemiro apareceu, se apresentou, olhou para um lado e depois para o outro da rua e foi logo falando:

— Você é pontual. Entra logo.

Assim que entramos percebi que havia mais dois homens ali, ambos armados, só observando. Ele tirou do bolso uma chave e entregou-me dizendo:

— O carro é aquele ali, vá pegá-lo que eu abro o portão.

Eu olhei para o carro e vi um Opala vermelho de quatro portas, novinho em folha, brilhava tanto que dava para se espelhar nele, aí perguntei:

— E os documentos do carro?

— No porta-luvas, mas você não vai precisar deles, deixe-os lá.

Subi no carro, abri o porta-luvas e, como o Sargento dissera, lá estava o inconfundível cinturão do exército com a pistola dentro, peguei-o e coloquei-o na cintura.

Então comecei a observar os comandos do carro – nunca tinha dirigido um carro daqueles –, mas logo percebi que não haveria grandes dificuldades, coloquei o carro em marcha e o tal Argemiro já estava abrindo o portão.

Assim que passei, ele falou:

— Olho vivo. Boa sorte.

A casa do Comandante era perto e logo cheguei, estacionei o carro bem em frente, mas antes de descer lembrei-me da recomendação do Argemiro para ficar de “olho vivo” e comecei a observar a rua.

Não se via “viva alma”, carros, nada, apenas as árvores que balançavam ao vento, e percebi como o lugar era bonito, as casas todas belas e bem cuidadas, a rua toda arborizada, a calçada limpa e pensei: “Esse Comandante deve ‘ganhar’ muito para viver num lugar assim.” Bem, desci do carro, sempre observando aqui e ali e dirigi-me ao portão da casa, ia tocar a campainha quando o portão abriu-se por dentro e lá estava um homem, vestido à paisana (sem uniforme), com cara de poucos amigos, que foi logo dizendo:

— Entra logo, não temos o dia inteiro.

Entrei e não pude deixar de notar o belo jardim da casa, com muitas plantas floridas de vários tipos e com um caminho entre elas que dava para a porta principal e, não sei por que, lembrei-me da minha mãe, quando morávamos no sítio ela tinha um jardim bem parecido…

Bem, segui em direção à porta, olhei para trás e o homem que me abriu o portão ficou espiando a rua.bonequinha

Assim que cheguei à porta, ela também se abriu por dentro e, ali, havia outro homem, nas mesmas características do anterior e até com a mesma cara de poucos amigos, ele não disse nada, limitou-se a fechar a porta assim que entrei.

Fiquei ali parado esperando acontecer alguma coisa até que entra uma mulher lindíssima, magra, vestida maravilhosamente e, apesar do olhar um pouco triste, ela sorriu para mim e disse:

— Você é que vai nos levar? Quer tomar café?

Eu estava paralisado, ela logo me lembrou aquela artista do filme “Bonequinha de Luxo”, com um nome complicado, se não me engano, Audrey [Hepburn] qualquer coisa, e em seguida lembrei-me da charge do “Campelo” e pensei: “Campelo, essa é aquela mulher gorda, brava e feia que você desenhou?”

Bem, “voltei a si”, agradeci a gentileza dela e disse que já tinha tomado café. Ela completou:

— Muito bem, aguarde um pouco que o Amador já vem, vamos sair logo em seguida.

Os Ossos do Imperador:

Relatado por Darci Men e baseado em fatos reais, alguns nomes foram alterados para preservar suas identidades.

Não deixe de ler OS ATENTADOS, o próximo capítulo da história!

Publicado em 9 comentários

Os Ossos do Imperador – 1 – A Charge e A Missão

Os ossos do Imperador, por Darci Men

 I – A charge

Era uma linda manhã do dia 5 de setembro de 1972, estávamos no pátio do quartel onde eu prestava o serviço militar.

Eu e toda a “CIA” (grupo de soldados) estávamos ensaiando para o desfile do dia 7 de setembro, quando o Sargento Souza gritou:

— Men, saia de forma. – Men era o meu “nome de guerra”, ou seja, nome simplificado adotado pelos militares para facilitar a comunicação. Eles costumam colocar esse nome no uniforme, sempre do lado direito do peito. – E o Sargento continuou: — Vá até a sala do Comandante, ele quer falar com você. – Eu hesitei um pouco para cumprir a ordem e ele logo gritou: — Acelerado, Soldado, está esperando o quê? Um tapete vermelho?

Aquela ordem não era nada comum, o Comandante era a autoridade máxima do quartel e nunca soube um caso sequer de ele convocar um soldado para sua sala, tudo era tratado com os sargentos. Além disso, o Comandante, que tinha a patente de Tenente-Coronel, era conhecido pelo seu mau humor.

Muitas perguntas começaram a passar pela minha cabeça: “O que o todo-poderoso Comandante queria comigo? Seria o caso da charge?!” Bem, eu explico melhor:

O meu melhor amigo no quartel tinha o “nome de guerra” de Campili, mas todos o chamavam de “Campelo”, e ele gostava de fazer charges engraçadas de tudo e de todos, e o danado era bom nisso, era só acontecer um fato curioso com alguém e ele logo tirava da mochila seus lápis de giz de cera e uma folha de papel e, em alguns minutos, a charge estava pronta. Essas charges circulavam entre os soldados e até entre os sargentos e todos se divertiam com elas.

Continuar lendo Os Ossos do Imperador — 1 — A Charge e A Missão

Publicado em 8 comentários

A mulher dos meus sonhos

A mulher dos meus sonhos, por Darci Men

I – Eva Maria

Plagiando o célebre francês Blaise Pascal, autor da famosa frase: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, eu digo: “O cérebro tem mistérios que o próprio cérebro desconhece”.

É o que o que pretendo mostrar-lhes nessa história.

Certa noite há muitos anos atrás, eu acordei com minha mulher me sacudindo:

— Pai – há muito tempo ela costuma me chamar de “Pai” –, acorda, você está tendo um pesadelo. – Eu estava cansado, suado e com a mão direita machucada e que doía bastante. Ela continuou: — Veja só o que você fez! Andou brigando durante o sono, está ficando perigoso dormir com você, já pensou se você me acerta?

Olhei para o lado e o abajur estava em um canto estraçalhado e o criado-mudo com as pernas para cima. Sentei na cama meio “abobalhado”, enquanto Angélica, minha esposa, providenciava um copo com água e antisséptico para o ferimento da mão.

Não sabia bem o que tinha acontecido e fiquei tentando entender tudo aquilo. Ela não parava com as perguntas:

— O que aconteceu? Com quem estava brigando? Você não é de ter pesadelos, muito menos de brigar, por que isso agora?

Tentei buscar no meu subconsciente alguma lembrança e respondi:

— Não sei, meu bem, não lembro direito; parece que eu estava defendendo uma mulher, com o nome de Maria Eva ou Eva Maria. Está meio nebuloso, mas parece que essa mulher é rica e mora numa bela mansão e é de origem castelhana, você conhece alguém com esse nome?

Ela pensou um pouco e respondeu negativamente. Vi em seu rosto um pontinho de ciúme e tratei de acalmá-la:

— Não é o que você está pensando, estou mais perdido que você e não tenho a mínima ideia de quem se trata.

II – Buenos Aires

Naquele dia fui trabalhar com isso na cabeça e logo começaram as perguntas:

— O que houve com a mão? – disse um.

— Você está estranho hoje! – afirmou outro e assim por diante.

Contei-lhes minha “aventura” daquela noite e, como era costume nessas ocasiões, começaram as gozações: “Ah, já sei! Arrumou um ‘caso’ e agora está com dor na consciência!”. Logo outro emendou: “Vai ver estava brigando com o namorado dela!”. Um outro chegou a dizer: “Acho que você brigou com a tua mulher e inventou essa história.”.

Eles “levaram” tudo na brincadeira e não adiantou eu insistir que a coisa era séria e que eu estava abalado com aqueles acontecimentos.

Apenas um dos meus amigos, percebendo a gravidade da situação, se interessou e quis saber mais detalhes.

Contei-lhe tudo que pude lembrar e ele ficou pensando e falando alto ao mesmo tempo:

— Hum! Maria Eva, mansão, castelhano… conte-me mais sobre ela.

Eu disse que não lembrava direito, mas que não era o meu “tipo”; pra começar era “mandona” e eu detesto pessoas assim, devia ter 30 anos ou mais, baixa, “magricela” e uma beleza mediana e não lembrava mais nada. 

Fiquei curioso com o interesse dele e perguntei-lhe:

— Vai me dizer que a conhece?

Ele respondeu:

— Não, mas vi em uma reportagem alguém que se “encaixa”, vou ver se encontro a revista e trarei amanhã.

Naquela noite, Angélica foi dormir preocupada e até brincou comigo:

— Acho que vou dormir de capacete! Sabe? Por precaução!

Mas nada aconteceu. Pelo menos nada que eu me lembre.

No dia seguinte, assim que cheguei ao serviço meu amigo veio com uma revista na mão, abriu-a e falou:

— Achei! É esta “a mulher dos seus sonhos”? – E mostrou-me a foto na revista.

Assim que vi a foto “gelei” e a lembrança daquele sonho voltou totalmente, até coisas que então não lembrava agora “apareciam” nitidamente. Na foto ela estava um pouco diferente, talvez com outro cabelo, não sei, mas aqueles olhos penetrantes e autoritários não deixavam dúvidas, era ela.

Olhei o título da reportagem e estava escrito: “Evita, uma vida, uma lenda e um mito”. Virei a página e a foto do interior de um palácio também me lembrou do sonho, era como se aquela foto adquirisse vida e eu por ali circulava. Embaixo da foto estava escrito: “Palácio de Unzué, residência presidencial”.

Li a reportagem de pouco mais de três páginas, que contava, resumidamente, a vida “atribulada” daquela mulher, desde sua infância pobre de filha bastarda até depois da sua morte, quando, depois de mumificada e muito “vaivém”, foi enterrada definitivamente, em Buenos Aires.

Meu amigo, que até então permanecera calado, indagou:

— E aí? É ela?

Eu respondi como se estivesse falando comigo mesmo:

— Sim, é ela mesma! Mas como essa mulher foi parar no meu sonho?

Ele balançou os ombros, abriu os braços e respondeu:

— Se você mesmo não sabe; como eu vou saber?!

Eu continuei falando com ele como se estivesse falando comigo:

— Aqui diz que ela morreu cinco meses antes de eu nascer, viveu e morreu em um país onde eu nunca estive e que praticamente não conheço nada, só ouvira falar dela vagamente e nem conhecia seu rosto, como posso sonhar com ela? E pior ainda: brigar por ela?!

Ele começou a rir e falou:

— Sei lá! Pode ficar com a revista.

Eu pensei um pouco, olhei para ele que continuava com um sorrisinho maroto e aquele sorrisinho me alertou para algo e eu pensei: “Estou fazendo um papel ridículo nessa história e se eu conheço bem esses caras, vão me ‘crucificar’”. 

Então eu falei para meu amigo:

— Não! Melhor esquecer tudo isso, tome sua revista.

Não “deu outra”, a novidade se espalhou e tive que aguentar as gozações dos meus colegas por um bom tempo, coisas do tipo:

— Bom dia, Darci, tudo bem? E a Evita como vai?

Outro mais “radical” falou:

— E aí? Já conseguiu alguma coisa com a Evita ou não passou das “preliminares”?

E tantas outras piadinhas do tipo.

Quando contei para Angélica a minha descoberta ela comentou:

— Deve ser uma reencarnação ou coisa do gênero.

Este comentário me deixou mais preocupado ainda, principalmente porque não acredito nisso e acho que tudo tem uma explicação lógica, nós é que, muitas vezes, não sabemos qual é, mas, para sorte minha, não sei, o tempo passou, os sonhos não voltaram e o assunto foi caindo no esquecimento, isto é, não voltaram por um tempo!

Mais de um ano depois voltei a sonhar com ela e tais sonhos começaram a repetir-se com certa frequência. Sempre aquelas conversas em castelhano, aquele ambiente refinado e ela sempre era o centro de tudo.

Eu, bem, eu era um amigo muito próximo ou um colaborador de confiança, não sei, nunca consegui descobrir com precisão.

Minha esposa conta que eu ficava falando durante o sono, falando não, “balbuciando” em idioma castelhano. A parte “chata” disso tudo é que nunca conseguia lembrar direito, apenas partes de uma conversa aqui e ali, um lugar ou pessoa diferente que nunca fazia sentido, mas uma coisa eu tinha certeza: tudo se relacionava a ela.

Num desses sonhos ela deu-me um presente. Era um livro mediano, mais ou menos 25x20x2 centímetros, com capa dura e uma ilustração de um campo com cavalos, em tons dourado e preto.

Não lembro do título nem do autor, mas lembro-me bem que ela “determinou” que eu o lesse e depois informasse o meu parecer. O estranho aqui é que no sonho seguinte ela me “cobrou” se eu tinha lido o livro e essas cobranças se repetiram várias vezes.

Eu, que até então e não sem motivos, só falava desses novos sonhos para a Angélica ou para pessoas muito próximas, comentei com ela:

— Tenho que encontrar esse livro ou essa mulher não me deixa sossegado!

III – Evita

Virei um assíduo frequentador de livrarias, sempre a procura de publicações argentinas das décadas de 1930, 1940 e 1950, embora não soubesse seu título e autor, nem de que assunto se tratava, se o visse, eu o reconheceria, pois sua capa estava nítida em minha memória, mas nunca encontrei tal livro.

Nesse período, eu lia tudo que encontrava sobre ela e olha que existem “trocentas” publicações a respeito e ainda tenho alguns livros que comprei ou ganhei de presente, entre eles eu destaco: Evita, imagens de uma paixão, que é uma publicação biográfica lindíssima, com imagens compiladas por Fernando Diogo Garcia, Alejandro Labade e Enrique Carlos Válques; tenho também um romance: Santa Evita, do escritor e jornalista Tomás Eloy Martínez; entre outros.

Bem, não sei por que, mas há vários anos que ela não me “visita” e ficou a pergunta: O que é tudo isso? E eu candidamente lhe responderei: Sei lá! Dezenas de “entendidos” tentaram me explicar, mas ninguém conseguiu me dar uma explicação convincente.

Mas, afinal, quem foi “a mulher dos meus sonhos”?

Sua história é tão intrigante e cheia de mistérios que fica difícil separar a realidade do mito, senão, vejamos:

Maria Eva Duarte de Perón, a “Evita” (7.5.1919-26.7.1952), nasceu como Maria Eva Ibarguren, filha bastarda e pobre em uma vila nos “confins” dos pampas argentinos.

Li um relato que afirmava: “Sua mãe, Juana Ibarguren, que era costureira, começou o relacionamento com seu pai, um rico estancieiro de nome Juan Duarte, em troca de um jumento e uma carroça. Tiveram seis filhos e, curiosamente, Maria Eva, foi a única que não foi reconhecida e registrada como sua filha”.

Assim a retratou o escritor Tomás Eloy Martínez: “Em 1935 ela era nada ou menos que nada; um pardal ciscando migalhas, uma bala cuspida no chão, tão magrinha que até dava pena.

Ela mendigou de tudo: um café com leite, um cobertor, um cantinho na cama, uma foto na revista, uma mísera fala na radionovela. Teve frieira e piolhos e, por mais de um ano, suas únicas roupas eram duas ou três calcinhas, uma blusa de linho desbotado e uma saia de algodão”.

Tornou-se modelo de fotos pornográficas, artista de rádio, teatro e cinema, foi amante de diversos homens e, em 1944, casou-se com o então vice-presidente da Argentina, Ministro do Trabalho e da Guerra, Juan Domingo Perón.

Os historiadores contam que o encontro deles não foi nada casual: em 1944, em uma cerimônia, ela aproveitou-se da saída de alguém que estava sentado ao lado de Perón, sentou-se em seu lugar e disse uma frase que mais tarde se tornaria célebre: “Coronel, obrigado por existir” (como já perceberam, acabou conquistando o homem).

Virou uma “lenda viva”, adorada pelo povo e detestada pela oligarquia argentina. Os historiadores contam que quando era a primeira-dama da Argentina ela cercou-se de uma rede de ministros, espiões e puxa-sacos que a mantinham a par de tudo o que acontecia no governo (será que eu já fui um deles?).

Houve até quem afirmasse que ela castrou direta ou indiretamente vários opositores. Os adversários eram torturados com choques elétricos nos genitais, que os deixavam impotentes. Outros foram castrados mesmo e os seus testículos conservados em um recipiente de vidro que ficava exposto em sua escrivaninha de trabalho.

Embora nunca tenha exercido nenhum cargo oficial no governo, tornou-se uma das mulheres mais poderosas da sua época e foi recebida pelo Papa e em diversos países que visitou foi recebida com honras de chefe de Estado.

Outra lenda, ou verdade, não se sabe, conta: “Quando ficou doente e impedida de cumprir seus deveres conjugais, ela nunca deixou de satisfazer seu marido. Ela usou meios alternativos e o ditador nunca se havia beneficiado de um sexo tão sábio”.

Morreu com 33 anos, de câncer uterino, foi embalsamada de forma tão perfeita que tinha a aparência normal, de alguém dormindo e não de uma morta. Posteriormente foi colocada em uma redoma de vidro e seu velório durou 14 dias, com a participação de milhões de pessoas.

Seu corpo ficou exposto à visitação pública até 1955, quando um golpe militar derrubou Perón e seu cadáver tornou-se um fardo pesado demais para qualquer regime.

Assim, teve início uma das mais insólitas peregrinações de que se tem notícia. Sequestrado pelo Serviço Secreto de Inteligência do Exército, o cadáver vagou semanas de um lugar para outro até estacionar durante meses nos fundos de um cinema, prestou-se a todo tipo de paixões por um capitão desmiolado até reaparecer, 16 anos mais tarde, num cemitério, em Milão, na Itália.

Em 1971 seu corpo foi exumado, transladado para Madri, na Espanha, e entregue ao ex-presidente Perón, que ali se encontrava exilado. Em 1973 Perón voltou à Argentina e foi reeleito presidente, tendo a terceira mulher, Isabelita Perón, como vice. Em 1974 Perón morreu e Isabelita trouxe o corpo de Evita para a Argentina, onde, novamente, permaneceu exposto à visitação pública e só então foi enterrada no mausoléu da família Duarte, no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires.

Mais tarde ela seria “eternizada” na ópera rock Evita, de Andrew Lloyde Webber e Tin Rice, ou no cinema em Evita, protagonizada pela pop star Madonna, além de tantas outras obras. Quem não conhece: “Não chores por mim, Argentina…”.

Bem, essa é a história da “mulher dos meus sonhos”.

Baseado em fatos reais e relatado por Darci Men

——————-

Publicado em 3 comentários

A garagem

A garagem, por Darci Men

Em um sábado de novembro de 1995 eu morava em um sobrado na Avenida Luca, perto do Tatuapé.

Levantei bem cedo porque tinha que arrumar alguma coisa na roda do meu carro, um Opala Diplomata, com câmbio automático, que me deixou muitas saudades.

Mas aquele dia ia ser terrível, uma verdadeira “merda”.

Fui até a garagem e logo percebi o que teria que enfrentar: o cachorrinho da minha filha Aline, Neguinho, um pinscher, tinha feito daquela roda o seu “banheiro”, e que pontaria ele tinha: a roda estava toda “lambuzada”.

Soltei alguns impropérios que não dá para relatar aqui, tomei coragem e, pacientemente, limpei a roda e comecei o trabalho.

Logo depois precisei de uma ferramenta que estava em um “quartinho”, nos fundos da garagem.

Quando lá cheguei levei um tremendo escorregão e aí percebi como era grande o “banheiro” do Neguinho, meu chinelo estava todo cheio de merda e como fedia!

Não aguentei e comecei a xingar: “Seu f. da p., desg., maldito e nojento, cadê você?” Saí à caça dele, mas o danado era esperto e nessas horas desaparecia sem deixar vestígios.

Claro que se eu o encontrasse torceria o seu pescoço.

Joguei o chinelo longe e continuei descalço, enquanto pensava: “Preciso me acalmar, vou fazer um refresco e depois continuo.”

Fui até a dispensa para pegar um vidro de suco e, acreditem ou não, “plovt”: pisei novamente, desta vez descalço, e era do gatinho, que fedia muito mais que o anterior.

Saí pulando igual um Saci-Pererê, tropecei em uma bicicletinha que alguém tinha abandonado no meio do caminho e levei um belo tombo. Mas não pensem besteira não, eu estava bem, estava uma verdadeira “feeera”.

Acabei acordando toda a família, mas ao invés deles me ajudarem, refugiaram-se em um banheiro e riam pra valer. Bem que me avisaram: “Filhos, melhor não tê-los”.

Não havia muito que fazer e tratei de limpar aquela sujeira toda e, enquanto trabalhava nessa árdua e fedorenta tarefa, pensava em algo que tinha lido sobre as garagens dos americanos e o texto falava que eles usavam a garagem para tudo: era laboratório, palco, estúdio e até servia para guardar carros.

Pensei comigo: “Será que também serviam como ‘banheiro’ de cães e gatos?”

Bem, o texto é interessante e vou reproduzi-lo:

Um dos costumes dos americanos é utilizar sua garagem para inúmeras atividades: é comum a garagem deles se transformar em palco de espetáculos, laboratórios e outras atividades.

Foi nessas garagens que nasceram grandes empresas americanas, lugar que alguns sonhadores usaram e transformaram o mundo. Alguns exemplos:

– Foi em uma garagem que Henry Ford efetuou seus primeiros experimentos com um motor primitivo. Claro que a vizinhança reclamava da barulheira. Um dos vizinhos, para se livrar dos problemas, cedeu-lhe parte de um depósito de carvão que, de tão pequeno, foi necessário derrubar a parede para que de lá saísse a “carruagem sem cavalos”, como Ford chamou seu primeiro carro.

Aliás, ainda sobre Henry Ford, muito tempo depois, quando já milionário, alguém perguntou a ele porque ia ao gabinete de seus diretores em vez de lhes pedir que fossem ao seu, ele respondeu: “Descobri que é mais fácil para eu sair do gabinete deles que fazê-los sair do meu”.

– Também foi em uma garagem que Walt Disney construiu, com caixas de madeira, um suporte de câmera rudimentar e os rolos de desenho animado. Os desenhos eram figuras simples, com piadas impressas dentro de balões, como nas histórias em quadrinhos, mas esse foi o começo da Walt Disney Company.

– Em Palo Alto, na Califórnia, em um despretensioso prédio, com trepadeiras na fachada, existe uma garagem que anuncia ser ali o berço do principal núcleo de alta tecnologia dos Estados Unidos.

Naquela garagem, em 1938, dois jovens colocaram uma série de peças recém pintadas dentro de um velho forno de cozinha, ligando-o. Quando a pintura estava seca e as peças coladas, David Packard e Willian R. Hewlett tinham acabado de produzir seu primeiro oscilador de áudio (espécie de diapasão eletrônico, usado para afinar instrumentos musicais).

Tal invenção acabou tendo preço competitivo com outros concorrentes porque era mais simples e barato. Rapidamente ganharam muito dinheiro e nasceu a Hewlett-Packard. Hoje a HP que todos conhecemos.

– Entre 1939 e 1941, o casal Elliot e Ruth Hardter, tomou conhecimento de um novo plástico chamado lucite e resolveram trabalhar com este material. Eles compraram, a prazo, as ferramentas e instalaram tudo na garagem. Começaram assim a fabricar espelhos de mão e porta livros.

Mas um vizinho reclamou do barulho e da bagunça e o senhorio os despejou. Eles não desistiram e, com a ajuda de um amigo, começaram a fabricar na garagem deste, casas de bonecas e brinquedos. Em 1951, Ruth concebeu a boneca Barbie, a rainha da terra dos brinquedos. Hoje existem mais barbies do que pessoas nos Estados Unidos, e a Mattel é uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo.

– Por volta de 1921, Dewitt e Lila Wallace, em uma garagem de Greenwich Village, começaram a fazer uma revista com dinheiro emprestado da família. Tal revista, nada mais era que um resumo de livros e publicações variadas. Setenta anos mais tarde, a Reader`s Digest vendia perto de 25 milhões de exemplares por mês em todo o mundo, mais de meio milhão só no Brasil.

Agora eu pergunto: Será que esses caras tinham filhos? E cães e gatos? Será que nunca deram uma “pisadinha”?

Brincadeira à parte, se necessário, faria tudo de novo, igualzinho.

————–

Publicado em 6 comentários

O bacalhau e a paella

bacalhau

Certos fatos históricos a gente aprende na escola de uma maneira e mais tarde descobrimos que está cheio de erros. O caso do “descobrimento” do Brasil é um deles, senão vejamos:

O primeiro erro histórico é que, tecnicamente, o Brasil não foi descoberto. Uma terra só pode ser descoberta se não for habitada. E aqui (e na América como um todo) existiam inúmeras nações indígenas, em diversos graus de cultura e desenvolvimento. O certo é dizer que o Brasil, foi achado, encontrado (invadido ou ocupado) pelos europeus.

O segundo erro dá conta de que nosso querido Pedro Álvares não foi o primeiro europeu a pisar nessa terra. Na verdade, nem o segundo e nem o terceiro.

Comprovadamente, o primeiro europeu a pisar em nosso solo, foi o português Duarte Pacheco Pereira, que aportou em algum ponto entre o Pará e o Maranhão, em 1498 (esse fato foi revelado recentemente pelos portugueses). E, meses antes de Pedro Álvares chegar aqui, o espanhol Vicente Pinzón esteve no que é hoje o Ceará, em janeiro de 1500 (dizem que também esteve no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, mas historiadores acham que é improvável). E, neste mesmo ano, outro espanhol, Diogo de Lepe, esteve na foz do Amazonas.

Tudo isto está plenamente documentado, não são lendas. Mas, por tradição, ninguém vai tomar de Pedro Álvares a chancela de ser o primeiro a achar as novas terras a oeste da África, mesmo sabendo que o nosso velho “Pedrão”, no máximo, é o responsável pelo achado da Bahia… Mas, certamente, ele não tem culpa nenhuma da “axé music”, nunca mandou ninguém “sair do chão”, nem “jogar as mãozinhas para o alto”.

O terceiro erro está no próprio nome do gajo. Quem esteve no Brasil foi o fidalgo português Pedro Álvares de Gouveia. Ela só teria “Cabral” no nome a partir de 1515. Eu explico: naquele tempo, só o filho primogênito tinha o direito ao sobrenome do pai. A razão disto era evitar brigas e o enfraquecimento do poder familiar. No caso do clã Cabral, caberia ao primogênito o sobrenome, o título de senhor de Belmonte e as propriedades da família. O filho mais velho era João Fernandes Cabral e só com sua morte, em 1515, o nome, o título e as terras passaram para o filho homem seguinte, Pedro Álvares.

Vocês poderiam perguntar: “Mas porque a gente não aprendeu isso na escola?”, e eu candidamente responderia: “Sei lá!”. Como não entendo o motivo destes fatos ainda permanecerem ocultos das aulas de História do Brasil. Numa visão “eurocêntrica”, ou seja, centrada na Europa, na civilização branca, que deteve por muito tempo a cunha de “História Oficial”, era preferível dizer que estava “descobrindo” novas terras para serem colonizadas e “cristianizadas”.

CaravelasOs três navegantes europeus que aqui estiveram antes da famosa chegada de 22 de abril de 1500 não puderam divulgar suas descobertas por conta do Tratado de Tordesilhas, já que o português Duarte encontrou terras na parte espanhola da América do Sul e os espanhóis Pinzón e Lepe acreditaram terem avistado terras na banda portuguesa. E ninguém ali iria botar azeitona no bacalhau ou na paella de ninguém…

Na famosa carta de Caminha, em nenhum momento, ele cita o nome de Pedro. Só o chama de “Capitão Mor”. Quando retornou a Lisboa, depois do “achamento” das terras, Pedro Álvares se desentendeu com o rei D. Manoel I e caiu em desgraça no reino. Quando ele foi reabilitado (muito tempo depois), já tinha o nome de Cabral, e assim ficou conhecido na História.

Bem, estou fazendo minha parte e relatando as verdades recentemente divulgadas.

História à parte, eu adoro bacalhau, mas gosto mesmo é da paella que minha espanhola prepara.

Adaptado por Darci
Publicado em 12 comentários

O espanador

O espanador, por Darci Men

É de uma experiência em que participei e onde vi a “descrença” e a “dificuldade” que algumas pessoas têm das coisas novas, das mudanças, exceto quando o assunto interessa.

Para ilustrar melhor, alguns dados históricos:

“No século VI antes de Cristo, o matemático grego PITÁGORAS (572 – 497 a. C.), disse que a Terra era redonda, mas poucos acreditaram nele. No século III antes de Cristo, o astrônomo grego ARISTARCHOS (310 – 230 a. C.), disse que a Terra girava em torno do Sol, mas a ideia não foi aceita. No século I antes de Cristo, o também grego ERASTÓTENES (276 – 194 a. C.) mediu com precisão o perímetro da Terra (cerca de 40.000 km.), mas ninguém acreditou nele. No século II depois de Cristo, outro grego e também astrônomo PTOLOMEU (85 – 165 d. C.), afirmou que a Terra era o centro do Universo e todos acreditaram nisso durante os seguintes 1.400 anos.”

O Espanador

Há alguns anos, os caixas bancários só executavam tarefas relacionadas com “dinheiro vivo”, ou seja, ficavam naquelas “gaiolas” e se limitavam a receber ou pagar em dinheiro, as demais tarefas eram executadas por outros funcionários.

Um jovem do Departamento de Organização e Métodos do Banco Mercantil de São Paulo, visando maior desempenho e melhorar custos, teve a ideia de ampliar essas tarefas, fazendo com que os caixas passassem a executar quase todas as tarefas de uma agência bancária, que ele chamou de “caixa executivo”.

Quando apresentou sua ideia à Diretoria do Banco, o jovem, todo entusiasmado, relatava as vantagens da sua ideia:

— Estamos desperdiçando mão de obra. – dizia ele — Imaginem os senhores que, com os caixas executando várias tarefas, poderemos reduzir nosso efetivo de pessoal, dar mais conforto aos nossos clientes, maior rapidez no atendimento ao público, etc.

Um dos diretores, da ala conservadora, indagou preocupado:

— Mas se esses caixas, além de pagamentos e recebimentos, vão também atender os problemas dos clientes, verificarem saldos, fazer cálculos de juros, transferências, etc, então teremos, também, que comprar um espanador para cada um.

— Espanador?! – disse o espantado jovem.

— Sim, porque se esses caixas podem fazer tanta coisa ao mesmo tempo, basta enfiar-lhes um espanador no rabo e eles limparão, também, a poeira do recinto.

NOTA: Este foi um fato verídico. Apesar da contrariedade de dois diretores, o projeto foi aprovado e implantado. Um ano mais tarde, quase todos os bancos adotaram sistemas similares, que perduram até hoje.

————-

Autor convidado: Darci é um ex-bancário que tem uma porção de histórias e casos para narrar, sempre com algum fundo histórico.