Quando o sertão engoliu o mundo

— Oxente… — murmurou.

O primeiro sinal foi o silêncio das cigarras.

Aqui no sertão, silêncio demais nunca é coisa boa. O mundo pode rachar, faltar água, morrer gado, cair governo, mas sempre sobra uma cigarra cantando na quentura da tarde, como se o sol fosse eterno. Quando elas calaram, seu Antero levantou os olhos do banco de madeira e ficou escutando o vazio

O vento também tinha mudado, agora quente como bafo de forno e trazia um cheiro estranho de fio queimado e chuva velha.

Na televisão da venda, os homens com camisas de botão de manga curta e coloridas, falavam de crises internacionais, bolsas, mercados, satélites perdidos e panes globais. Mas ninguém prestava atenção direito.

O povo queria saber mais do preço do arroz, do botijão e das fofocas da cidade no Zap.

No outro dia, uma estrela caiu em pleno meio-dia.

Não riscou o céu bonito como nos filmes. Caiu morta. Um ponto preto atravessando as nuvens secas até desaparecer atrás dos morros.Era satélite.Depois caiu outro.E outro.

O mundo começou a despencar devagarinho.As praias ficaram esquisitas primeiro.

O mar recuava alguns metros por dia, como um bicho cansado indo morrer longe dos homens. Na televisão mostravam navios tombados na areia do Recife, peixes apodrecendo sob um sol branco, crianças brincando onde antes passavam ondas.

Mesmo assim, na segunda-feira seguinte, o banco abriu às dez.Motoboy entregou lanche.Influencer fez vídeo.Pastor pediu pix.E os ônibus continuaram atrasados.

Seu Antero observava tudo sentado na sombra do juazeiro.Tinha oitenta e dois anos e uma magreza de calango ceco.. Diziam que era meio doido desde que a mulher morreu durante a grande seca de dois mil e noventa e três. Outros juravam que ele conversava com alma de vaqueiro morto. Mas no sertão ninguém liga muito pra essas coisas. Aqui todo mundo acredita em algum vulto, lobisomem ou assombração.

Numa madrugada sem lua, ele acordou com alguém chamando seu nome.

Saiu de casa descalço.O chão estava morno.As estrelas piscavam fracas, como lampiões sem querosene.

Foi então que ouviu um ronco profundo vindo debaixo da terra.

Não parecia terremoto.Parecia cansaço.Como se o próprio planeta estivesse suspirando depois de carregar os homens nas costas por tempo demais.

Seu Antero tirou o chapéu de palha devagar.— Ah… então chegou — disse.

No outro dia começou a fazer convites.Passou de casa em casa chamando o povo para um forró no sábado em seu sítio.

— Que forró, homem? — perguntou dona Zulmira, rindo. — O mundo se acabando e tu inventando festa?

Ele deu de ombros.

— Justamente por isso.

Ninguém entendeu, só que no sertão convite pra forró é coisa séria.

No sábado, o céu amanheceu vermelho.Não vermelho de nascer do sol.Vermelho de febre.Os celulares estavam mortos fazia dias. Sem sinal, sem internet, sem notícia. Aviões não cruzavam mais o céu. À noite, as cidades distantes brilhavam menos. Como brasas apagando.Ainda assim, perto da igrejinha abandonada no morro do cachorro molhado, o povo começou a chegar.

Trouxeram sanfona.Triângulo.Zabumba.Pé de serra.Alguém matou um bode.Outro apareceu com garrafa de cachaça guardada pro Natal.As mulheres vestiram roupa florida.As crianças correram levantando poeira.E seu Antero acendeu a fogueira,e um fogarel estiloso subira alto, dourando os rostos cansados e ainda alegres.Então ele falou:

— O fim do mundo não vem com trombeta nem explosão. O fim chega quando a Terra cansa da gente.

Silêncio. A fogueira estalava.

— E ela cansou faz tempo.

Uma menina perguntou:

— O senhor não tem medo?

Ele sorriu sem dentes.

— Tenho não homem. A gente já nasce sabendo que vai acabar. O problema é que passa a vida fingindo surpresa.

A sanfona começou baixinho.

Uma música antiga, daquelas que pareciamexistir antes mesmo de alguém tocar.

E o povo dançou, dançou porque não havia mais nada a fazer, porque o corpo entende antes da cabeça.

Dançou porque tristeza demais não tem quem aguente..Lá longe, no horizonte, apareciam clarões silenciosos, um caos nas cidades morrendo, gente comendo gente, luzes apagando e fogueiras acendendo, o mar evaporando, satélites ainda queimando feito estrelas cadentes cansadas.

Mas pelo menos ali, existia outra coisa.Algo repleto de saudades e muita dor.

Maior que governos, internet ou dinheiro. O último gesto humano que ainda fazia sentido: contar histórias, beber, cantar e tocar uns nos outros enquanto a noite cai.

Já era madrugada quando a terra tremeu levemente.As crianças ficaram inquietas.O vento soprou quente entre os mandacarus.Seu Antero olhou pro céu pela última vez.Havia poucas estrelas agora.

— Bonito, né? — sussurrou.

Ninguém soube ao certo o que aconteceu depois.Alguns dizem que o sertão rachou e engoliu tudo.Outros juram que o povo inteiro virou encantado e continua dançando em algum lugar abaixo da terra, onde nunca falta chuva nem sanfona.Mas até hoje, nas noites mais quentes do deserto, tem gente que jura ouvir ao longe o som de um forró vindo do meio do nada.

Era como se o mundo ainda estivesse terminando devagar.

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