O pôr do sol mais cruel da literatura brasileira

Quando li pela primeira vez Lygia Fagundes Telles, eu devia ter pouco mais de quinze anos. Foi um encontro literário daqueles que deixam marca — quase como um pequeno trauma estético. O conto Venha ver o pôr do sol me deixou profundamente perturbado. Não no sentido barato do susto, mas naquele tipo de inquietação silenciosa que continua ecoando na cabeça muito tempo depois da última linha.

Décadas se passaram — mais de trinta anos — e continuo achando esse conto um dos textos mais cruelmente perfeitos da literatura brasileira.(Só perde pro Biruta, da mesma autora) E talvez o mais assustador de todos.


Um conto simples… e mortal

A trama parece simples: Raquel aceita encontrar seu ex-namorado Ricardo para um último passeio. O lugar escolhido é um cemitério abandonado, onde ele promete mostrar o “pôr do sol mais bonito do mundo”. Enquanto caminham entre túmulos esquecidos, os dois conversam sobre o passado, o amor que terminou e as escolhas que fizeram.

Só que a caminhada vai ficando estranha, o cenário vai ficando mais isolado e intimista, e você, o leitor, começa a perceber que aquele encontro tem algo profundamente errado.

Lygia domina uma habilidade rara: construir tensão sem pressa. Nada acontece rápido demais. Pelo contrário — o horror cresce devagar, como se o próprio leitor estivesse andando ao lado dos personagens naquele cemitério esquecido.

Quando o desfecho chega, ele não explode, ele fecha com o por do sol.


O terror humano

O que sempre me impressionou nesse conto não é o final em si — embora ele seja brutal. O que realmente incomoda é o tipo de terror que Lygia constrói.

Não há monstros nem fantasmas, há apenas ressentimento humano de base.

Alguns estudos críticos apontam que o conto expõe um amor degradado, onde sentimentos contraditórios — amor, inveja e ódio — convivem dentro do personagem Ricardo, conduzindo-o à violência.

Ou seja: o horror nasce do coração humano, talvez por isso ele seja tão perturbador.


O cemitério como armadilha psicológica

Outra coisa genial na narrativa é o uso do espaço.

O cemitério não é apenas cenário — ele é parte da narrativa. O caminho descendente pelos túmulos funciona quase como uma descida simbólica ao abismo emocional dos personagens.

A cada passo o espaço se torna mais isolado, o passado pesa mais e a conversa parece mais naturalmente artificial e, sem perceber, o leitor já está preso na armadilha com/da Raquel.


A identificação incômoda

Confesso algo meio perturbador.

Quando li esse conto pela primeira vez, muitos anos atrás, eu me identificava com os dois personagens.

Com a vítima e também com o algoz.

Não no sentido literal, claro. Mas naquele nível emocional meio obscuro que a juventude às vezes tem: orgulho ferido, ressentimento, a fantasia de uma vingança romântica contra alguém que nos rejeitou.

Relendo hoje, décadas depois, percebo o quanto esse tipo de sentimento é infantil, quase trágico.

Mas é justamente isso que torna o conto tão poderoso: ele nos obriga a olhar para um lado feio da alma humana.


Um conto que nunca me abandonou

Entre todos os textos de Lygia, ainda acho que “Biruta” é o conto mais devastador e triste que ela escreveu. Sempre tive a impressão de que aquela história carrega uma espécie de melancolia terminal — um retrato cruel da solidão humana.

Mas Venha ver o pôr do sol tem algo diferente.

Ele é implacável. Talvez seja o conto mais perfeito dela em termos de construção.

Tanto que, muitos anos atrás, gravei um episódio do meu podcast Cadeia de Eventos sobre outro conto dela o Biruta— num Natal perdido no tempo, desses que a gente passa refletindo sobre literatura, vida e as pequenas crueldades humanas, mas ficou uma porcaria o audio pq e não conseguia parar de chorar.


Ver a autora envelhecer

Anos depois, tive uma experiência curiosa.

Vi Lygia já bem idosa, em um painel de CCXP da vida. Aquela senhora elegante, frágil e tranquila no palco parecia completamente incapaz de escrever algo tão cruel.

Mas talvez seja justamente aí que mora o mistério dos grandes escritores, eles conhecem a escuridão humana e sabem colocá-la no papel.


Leia mais obras de Lygia Fagundes Telles

Se este conto te marcou tanto quanto marcou a mim, vale muito a pena explorar outras obras de Lygia Fagundes Telles, uma das maiores escritoras da literatura brasileira.

A escrita dela tem algo raro: consegue ser delicada e cruel ao mesmo tempo, explorando os cantos mais sombrios da mente humana com uma elegância quase cirúrgica.

Abaixo você encontra alguns dos livros mais importantes da autora. Se quiser apoiar o blog Cachorro Solitário, considere adquirir as obras através do link abaixo.

Clique para conhecer ou adquirir os livros:

https://amzn.to/419tr7I

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.