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Bandido – Privada e Isqueiro

Bandido - Privada e Isqueiro

Não é sempre que se percebe, pelo menos não eu, que se vai morrer em breve, quer dizer isso é algo que DEVERÍAMOS saber, mas a gente não sabe, a gente sabe que vai morrer, mas não sabe QUANDO.

6 meses, ele disse, se eu parasse de fumar – como o autor desse conto fez – não adiantaria nada, então, agora eu fumo mais que antes, mas de nervoso, to com uma tosse chata, sinto dores em partes do corpo que não quero nem comentar e a minha única preocupação é que não falte pinga pra eu aguentar mais um tempo acordado.

Amanhã termina o prazo.

Eu poderia lutar, eu poderia fugir – além do que já faço com a bebida –, poderia tentar algum ato desesperado, mas não… Fico aqui sentado nesse sofá maldito em uma sala imunda cheia de garrafas vazias, bitucas de cigarro, latas de cerveja vazias, sozinho.

Levanto pra mijar e enquanto a urina sai com força e sinto dor nas costas vou acender mais um cigarro e tusso, o isqueiro escorrega da minha mão e vai caindo, tento pegar com a outra mão e quase escorrego, voa mijo pra todo lado e o isqueiro passa por entre meus dedos caindo na merda da privada (que tava sem merda, mas você entendeu a figura de linguagem).

Cuspo algo meio borbulhante e marrom, xingo, penso onde mais tem fogo nessa casa, lembro das últimas noites bêbadas onde estive com uns amigos e com uma mulher que me dá mais vontade de vomitar e me faz pensar “Se eu beijei ela, consigo pegar meu isqueiro no mijo”, e pego.

Vou até a garrafa de pinga vagabunda (R$2,00) que escondi até de mim mesmo pra caso de emergência, pego um copo de requeijão de plástico e encho até a metade, tomo de uma golada só, sinto queimar até a ponta dos dedos, parece que essa merda é absorvida desde a boca, e daí já se espalha pelo corpo, foi aí que caí de bunda no chão, tentei levantar e caí de novo, o álcool logo chegando aos miolos, e foi aí que eu entendi a minha missão: se eu for, vou morrer, vou levar uns filhos da puta comigo também!

Eu poderia ter percebido isso umas 100 doses antes, mas tudo tem sua hora, e essa revelação divina me fez ir até a cozinha e pegar a maior faca que eu encontrei.

Continua…

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Autor e diretor do blog Cachorro Solitário e apresentador do Podcast Cadeia de Eventos.