Publicado em 5 comentários

Sorvete de manga

 

Dezembro de 2004 – Sorvete de manga

Ontem os meus cigarros acabaram…
Eu sei que já era pra ter parado de fumar, que faz mal e o caralho a quatro, mas não tomei vergonha na cara ainda…

Meus cigarros acabaram e fui até a padoca comprar mais.

Sete e quinze da noite, ainda claro (horário de verão). Choveu a tarde inteira, agora, um calor danado. Resolvi tomar uma breja.

Olhando o espetáculo das garotas desfilando no calor, com saias, decotes, sandálias, cabelos presos e os pescocinhos à mostra.

Uma delas me chamou a atenção.

Ela parou um instante perto do freezer de sorvete, abriu o danado e tirou um picolé de manga… Parecia ser o tipo de mulher decidida, que sabe o que quer  antes mesmo de sair de casa, do tipo que quando viaja leva o que precisa… Além de ser um espetáculo! Daquele tipo que na hora já me fez imaginar ela em diversas posições e em vários lugares.


Vestida de forma simples: Vestido preto, um pouco acima do joelho e sandália de dedo preto. Parece que saiu de casa só pra comprar o bendito sorvete.

Ela caminhava em direção ao caixa. Eu em um balcão, no caminho,  olhou pra mim, nossos olhares, por um instante fixos um no do outro… E um sorriso lindo discreto apareceu em sua boca.

Não sei porque, ao ver aquela belezura sorrindo pra mim, lembrei-me de uma tarde na pré-escola:

Caminhávamos em duas filas indianas paralelas, meninas de mãos dadas com meninos, para passearmos em uma pracinha perto da escola.

Eu era apaixonado (embora só tivesse seis anos e isso tivesse um sentido totalmente diferente do que tem hoje) por uma garotinha da turma. Mas, na ida para a pracinha, ela foi com um verruguento qualquer, e eu tive que ficar com a segunda opção.

Lá, brincando no parquinho, meio que consegui combinar com ela para voltarmos juntos…

Beleza. Eu, moleque, agora só queria brincar.
Joguei bola, corri, brinquei na areia, bati fugurinhas. No final do dia brincavamos de esconde-esconde, e eu sempre fui bom em jogos. Me escondi tão bem, tão bem que, quando a tia me encontrou, já desesperada, estávamos atrasados e a fila já estava até formada…

Esse ai ta me procurando até agora!
Esse aí tá me procurando até hoje!

Fiquei sem a garota.

E agora, sentado aqui na padoca, com um copo de breja na mão, um cigarro na outra, a cabeça no passado, percebo que perdi mais uma:

A moça do sorvete de manga já era.

Tem gente que não aprende mesmo…

_Sad_Monkeys__by_cuffygirl

Autor e diretor do blog Cachorro Solitário e apresentador do Podcast Cadeia de Eventos.