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Cachorrada – parte 3 – Rex e FiFi

 

Enquanto eu andava e procurava os caras senti um cheiro familiar… Uma cadela que eu já conhecia… Segui o cheiro cautelosamente, quando vi quem era, o estado que ela estava… Cheguei perto, percebi a respiração estranha, toquei nela e a senti quente demais… Sabia que ela não estava bem, e pelas marcas deduzi que, ou ela brigara feio com alguém que a odiava muito, ou foi acusada de traição… Mas não era hora de pensar nisto, fui buscar ajuda.

Fifi morreria naquele dia, não fosse por Rex tê-la encontrado. No estado febril em que se encontrava, nem percebeu que Rex ficou durante dois dias quase sem sair do lado dela, a observando, pedindo a Deus (da única forma que sabia: uivando) que ajudasse aquela bela criatura a sobreviver… Mas era isso que ela era, uma sobrevivente. No final do segundo dia, Fifi abriu os olhos e encontrou o olhar de Rex.

Ela já havia aberto os olhos antes, durante o delírio da febre, mas eu duvidava que ela realmente entendia o que via. Mas desta vez… Percebi que ela me reconheceu… Mas não pareceu surpresa… Talvez um pouco confusa…

— Oi, como você está? – Perguntei, tentando passar, com um sorriso, uma imagem de confiança. Ela virou o rosto, dava pra ver como estava triste… E eu senti sua tristeza como se fosse uma faca a atravessar meu coração. — Olha, é Fifi seu nome, não é? Meu nome é Rex, não importa o que aconteceu, você está segura agora… Agora você precisa descansar… Tome um pouco de água.

Rex empurrou a bacia de água para Fifi, que tomou bastante do líquido refrescante, depois, cansada, fechou os olhos, e, a última imagem de que lembrou antes de dormir foi o sorriso de Rex.

Esta noite ela não teve o pesadelo de sempre, com um lugar apertado e escuro… Desta vez, ela passeava por um campo enorme, corria e brincava com uma criança, depois ela mesma era a criança, no final, Rex aparecia, sorrindo, e ela sorria de volta. Foi a primeira vez que ela teve um sonho alegre em toda a sua vida… E ela acordou, algumas horas depois, com o corpo dolorido ainda, um pouco triste por causa da cria… Mas ela sorria… O dia estava ensolarado, não estava muito calor, só o suficiente para tornar o ambiente alegre… Ela viu Rex, a alguns metros, de costas para ela, conversando com um de seus amigos.

— Acho que eles passaram dos limites… Você mesmo ouviu, enquanto ela delirava, que ela seria mãe… Aqueles bárbaros precisam de uma lição. – Dino tentara, durante muito tempo, me convencer a atacar os cães do Baeta, mas eu não concordava… Só que agora ele parecia ter razão.

— Vamos esperar que ela acorde, aí sim, dependendo do que ela disser, nós tomamos alguma providência…

— Olha lá… Acho que ela já acordou.

Quando me virei, os olhos dela estavam abertos, e um sorriso cansado aparecia em seu rosto… Ela me parecia fantástica… Como pode uma garota ter sofrido tanto e ainda assim sorrir… Caminhei em direção a ela, tentando manter meus olhos o máximo possível em contato com aquelas duas pedras preciosas… Mas eu não consegui olhar por muito tempo, meu olhar desviava, algo mexia em meu estômago, em meu coração, meu pulmão parecia não funcionar direito…

Passaram a tarde conversando, ela conseguia caminhar, não correr, mas conseguiu chegar até onde o grupo de Rex se encontrava. Ela foi muito bem recebida, e logo de cara percebeu que, embora Rex fosse o mais respeitado, não havia um líder, cada um tomava conta de si mesmo e de mais alguém, raramente alguém ficava sozinho, a não ser que assim desejasse, como costumava acontecer com Rex, pelo que ela ficou sabendo, até a chegada dela, ele quase sempre andava sozinho por aí. Ela o achava fantástico, gostava do modo com que ele tratava, não só ela, mas a todos: com respeito.

Uma semana depois de sua chegada, ela já fazia parte do grupo. Insistiu para que Rex, Dino e os outros deixassem de lado os Cães do Baeta, e que a vida agora dela era outra, o que passou, passou.

O que Fifi não sabia, era que os Cães do Baeta planejavam um ataque contra eles… Vick descobriu que ela havia se unido a Rex, e foi o pretexto perfeito para convencer Bob de que Fifi era uma traidora, e que revelaria seus segredos para o inimigo.

Eles observavam o grupo de Rex dormindo, eram 8. O grupo de Bob tinha 10, e ainda por cima o fator surpresa…

— Atenção, rapazes, preparar para atacar.

Eu não estava dormindo ainda… Na verdade, observava a Fifi dormir, pensava nela… Não sabia exatamente o que aconteceu com ela, mas sabia que ela precisava de um tempo até se relacionar com alguém novamente… Só que eu corria o sério risco de virar amigo… E ficar na mão depois. Quer saber, dane-se, seja o que Deus quiser. Se ela quiser ficar comigo, ótimo, se não, serei o melhor amigo que puder pra ela.

Parei de devanear quando vi uma sombra se aproximando… antes de me virar senti um golpe no meu pescoço.

Continua…

Uivo na noite chuvosa
Uivo na noite chuvosa

Leia aqui a Parte 2.

Autor e diretor do blog Cachorro Solitário e apresentador do Podcast Cadeia de Eventos.