Teresas

Teresa
Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo 
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

No poema de Bandeira não há rigor formal: ele é composto por três estrofes, de três versos cada, mas que não seguem um padrão métrico ou rítmico.

O tom com o qual o eu lírico nos fala é coloquial, quase de banalidade, sem os exageros dos românticos, por exemplo.

Nas primeira e segunda estrofes, o eu lírico diz de suas impressões ao ver Teresa (fisicamente): as pernas eram estúpidas, a cara (não face ou rosto) parecia uma perna, e os olhos, velhos. Ele não só descreve o que está vendo, mas faz comparações inusitadas (cara = perna).

Já na terceira estrofe, o eu lírico não vê (“Da terceira vez não vi mais nada”), mas parece que é somente neste momento do não ver que ocorre o encontro com o sentimento amoroso e todo o seu inebriamento (“Os céus se misturam com a terra”).

O “Adeus” de Teresa
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala

E ela, corando, murmurou-me: "adeus.

"Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei! descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

No poema de Castro Alves há um rigor maior com relação à forma: são oito estrofes intercaladas por estrofes de cinco versos e estrofes de um verso; os versos são decassílabos e possuem rima final. As estrofes de um verso parecem funcionar no poema como repetição da separação dos amantes, mas também como estribilho do “adeus”.

O eu lírico desse poema se apresenta desde a primeira estrofe como alguém tomado de emoção, sem reflexão sobre suas ações (“Como as plantas que arrasta a correnteza”).

As estrofes de cinco versos contam do encontro amoroso entre o eu lírico e Teresa (com exceção da última em que há o encontro de Teresa, mas com outro), enquanto as estrofes de um verso dizem do adeus.

Teresa, de Bandeira, parece descrever a mulher e, por fim, relatar do seu encontro com o sentimento amoroso; O “Adeus” de Teresa trata do amor romântico – apesar de haver encontro (carnal também) -, mas a separação já está anunciada desde o título.

Os dois poemas possuem três momentos que dialogam: no poema de Bandeira, o olhar primeiro são para as pernas que se relacionam com a valsa, que é a dança do primeiro encontro do poema de Castro Alves; num segundo momento, o eu lírico do primeiro poema volta-se para os olhos de Teresa, enquanto o de Castro Alves concretiza o amor carnal e, finalmente, na terceira estrofe de Bandeira, há o encontro com o sentimento, a emoção, enquanto em Castro Alves, ocorre a separação anunciada desde o início.

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Leia mais no blog:

O bicho – Manuel Bandeira

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Poesia e a descoberta do mundo

Fabricando Poesia

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O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon

Livro 3 - As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

“… pois todos os animais nasceram e se juntaram aos outros de sua espécie e viveram e trabalharam de acordo com as forças da vida e, por fim, entregaram novamente seus espíritos à guarda da Senhora…” (Gwydion)

O título pode passar a impressão que o enredo se centrará num personagem masculino e isto é verdade até certo ponto, porém ainda conhecemos os fatos pelas narrativas e visões das mulheres.

Contrapondo-se ao A Grande Rainha (Livro 2) – que começa no inverno, nos domínios de Lot –, este O Gamo-Rei inicia-se no mesmo reino, mas no verão. Após a morte do marido, Morgause governa de modo incontestável já que a população local está acostumada com figuras femininas de poder – simbolizadas pela deusa e suas sacerdotisas. Neste contexto e pelo olhar da mãe adotiva, somos apresentados a Gwydion: rebelde e indomável, inteligente e sagaz, possuidor da Visão e nem mesmo Morgause consegue manipulá-lo. Ainda por este olhar sabemos que ele é vaidoso – como sua mãe biológica, Morgana.

“Avalon. E então Morgause viu o sorriso secreto de Gwydion, e soube que ele estava esperando por isso. Mas ele nunca falou da Visão. Qualquer criança teria se vangloriado dela, se a tivesse! Compreendeu de súbito que Gwydion podia disfarçá-la, sentir maior prazer nela por ser secreta, e isto lhe pareceu estranho, a tal ponto que teve um movimento de repulsa, quase de medo, do seu filho adotivo. […]

Viviane, Kevin e Niniane (última descendente da velha linhagem real de Avalon) decidem levá-lo para a ilha – planejam que se torne o próximo rei e que honre os compromissos de Camelot com a velha religião, já que Artur se tornou um rei cristão e está negligenciando este tratado.


O que acontecerá ao Gamo-Rei quando o pequeno gamo tiver crescido?

As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

Pentecostes

Na corte, muitos se reúnem para as festividades anuais de Pentecostes. Taliesin, Lancelot e Morgana são alguns dos personagens que estão lá, assim como os reis vassalos, a fim de renovarem seus votos de fidelidade a Camelot, e muitos elementos do povo que levam petições e pedidos de justiça ao rei.

A festa, no entanto, não é motivo de alegria para todos os presentes. Taliesin está cheio de premonições sobre o futuro, não necessariamente boas. Lancelot ainda se sente perturbado por seu amor a Gwenhwyfar e Artur. E Morgana carrega a culpa por esconder o filho que teve com o rei, fazendo-o acreditar ser infértil, ao mesmo tempo em que sente vergonha por ter engravidado do próprio irmão. Mais uma vez, ela é a síntese das mudanças pelas quais aquela sociedade está passando, é um amálgama entre as duas religiões: a celebração da vida na deusa e a culpa cristã.

Outra pessoa presente na corte é Viviane, que vai exigir que Artur cumpra suas promessas de proteger Avalon, pois os reis subalternos estão proibindo os velhos cultos em seus domínios, profanando os bosques sagrados da velha religião. No momento em que a Senhora do Lago apresentava sua petição ao rei, Balim a mata…

— Senhor meu rei – gritou ainda Balim –, deixe-me acabar com todas essas feiticeiras e magos, em nome do Cristo que os odeia a todos…

Este acontecimento torna-se um marco da corte que passa a ser estritamente cristã. Ainda assim, Artur pede que ela seja enterrada na praça de Glastonbury, como homenagem, já que lá é também um lugar de peregrinação. Dessa forma, vamos assistindo aos velhos ritos sendo incorporados aos novos, as religiões se fundindo ao incorporarem a tradição com uma nova roupagem.

Livro 3

Nesta terceira parte, continuamos com os excertos dos pensamentos de Morgana que, tecendo comentários sobre os acontecimentos, torna essas reflexões numa espécie de salto temporal para a narrativa, pois é nestes trechos, por exemplo, que sabemos de alguns fatos, como a morte do velho Merlim.

O Gamo-Rei

Um novo personagem, Meleagrant, aparece durante as festividades alegando ser herdeiro de Leodengraz, pai de Gwenhwyfar e, portanto, sucessor de direito daquele reino. A rainha o despreza, dizendo não passar de um bastardo. Por isso, ele toma o país do verão à força, mas depois, sob trégua, pede que ele e a irmã resolvam a situação amigavelmente.

Gwen vai sozinha, pois quer provar a todos que pode ser útil em seu reinado, e não apenas uma tola – aos olhos de Morgana e de todos na corte. Mas as coisas dão errado. A trégua era uma armadilha de Meleagrant, que a violenta, pensando que isso fará Artur a desprezar e legitimá-lo como senhor daqueles domínios. O que mais surpreende nesta passagem é que mesmo diante de tamanha violência injustificada, tudo o que ela consegue pensar é que está sendo punida por ter pecado, ao mesmo tempo em que se sente responsável, assumindo a culpa pelo estupro, afinal “nenhuma mulher era violentada se não tivesse tentado algum homem a isso…”.

Estre trecho da trama é bem forte e um símbolo da culpa cristã jogada sobre as mulheres. Mas também se torna um ponto de virada para a personagem – que se liberta, momentaneamente, de seus pudores e tem um caso com Lancelot.

“Deus não me compensou pela minha virtude. O que me faz pensar que ele poderia me castigar? E teve, em seguida, um pensamento que lhe deu medo: Talvez não exista Deus, nem qualquer dos deuses que as pessoas acreditam. Talvez seja tudo uma grande mentira dos padres, para que possam dizer à humanidade o que fazer, o que não fazer, no que acreditar, dar ordens até mesmo ao rei.”

Para evitar que a “vergonha” da traição caia sobre o irmão, Morgana conspira com Elaine para forçar um casamento entre esta, dama de companhia da rainha, e Lancelot. Então, como Viviane antes dela, Morgana interfere no destino das pessoas próximas a si em nome do bem do reino.

Passamos a entender um pouco melhor as falhas e frustrações de Gwenhwyfar, pois o foco da narração intercala entre ela e Morgana, fazendo mais uma vez os contrapontos entre seus diferentes pontos de vista, numa alegoria das mudanças e contradições sociais e religiosas daquele tempo encarnada nessas personagens. Assim como o povo que continua realizando alguns ritos pagãos apesar da cristianização – como a escolha da Virgem da Primavera: uma jovem é escolhida para percorrer os campos em procissão ao mesmo tempo em que os padres abençoam a terra.

Depois do casamento de Lancelot, a rainha se volta novamente para a religião e, numa tentativa de expurgar o pecado de sua vida, conta para Artur o segredo de Morgana e insiste que ele o confesse para o bispo, penitenciando-se e colocando-se (e ao reino) nas mãos dos padres – o que é um prenúncio do que ocorrerá no futuro com os Estados europeus.

Morgana, por sua vez, casada agora com o rei Uriens, pensa em restaurar os velhos ritos, pois fez as pazes com a antiga religião e volta às suas práticas.

“Se eu tivesse me casado com ele na idade certa, Gales do Norte talvez nunca tivesse se tornado cristã. Mas ainda não é tarde demais. Há os que não se esqueceram de que o rei ainda traz, embora desbotadas, as serpentes de Avalon em seus braços. E casou-se com uma mulher que foi sacerdotisa da Senhora do Lago. Eu poderia ter continuado a sua obra aqui melhor do que durante todos aqueles anos na corte de Artur, à sombra de Gwenhwyfar.”

E vamos nos encaminhando para o quarto e último livro da série, O Prisioneiro da Árvore: as religiões e seus praticantes se misturando e o reino, agora em paz com os saxões, na iminência de uma guerra com Roma.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

Projeto Leia Mulheres

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A Grande Rainha – As Brumas de Avalon

A Grande Rainha

Igraine pôs de lado o bordado. Afinal de contas, não estava manchado; as lágrimas vertidas pelas mulheres não deixam marcas no mundo, pensou com amargura.”

Neste segundo grande capítulo de As Brumas de Avalon, Gwenhwyfar e Morgana polarizam a história. Uma representando o cristianismo, a outra, a velha crença. Uma, recatada e reprimida pelos pudores da religião, a outra, senhora de si e de suas paixões. Uma, como símbolo de Camelot, a outra, de Avalon…

Poderíamos seguir com muitos mais exemplos, pois este contraste entre as personagens reforça a imagem de como o cristianismo – guiado por homens – podou o feminino, tornando-nos paranoicas e receosas de nossos próprios corpos. Tema representado por toda a falta de confiança em si mesma que Gwenhwyfar mostra durante boa parte da trama.

Morgana é o contraponto a esta representação, personificando a luta pelo direito ao feminino como forte, como o próprio direito a vida. E, mesmo com inseguranças normais a qualquer pessoa, segura de si e do direito a usufruir de seu corpo conforme sua vontade.

– Sua voz é linda, irmã. Você aprendeu a cantar assim em Avalon?

– Sim, minha senhora, a música é sagrada. Não aprendeu harpa no convento?

– Não, pois parecia impróprio a uma mulher erguer a voz ante o Senhor – respondeu Gwenhwyfar com um recuo.

– Vocês, cristãos, gostam demais da palavra impróprio, especialmente se no que se relaciona às mulheres. Se a música é um mal, é mal também para os homens. E se é uma coisa boa, não devem as mulheres fazer todo o bem que puderem para compensar o suposto pecado cometido na criação do mundo?

A Grande Rainha

Camelot

Seguindo a forma do Livro 1, continuamos a conhecer a lenda do rei Artur pela visão de suas heroínas – Gwenhwyfar, sua esposa; Igraine, sua mãe; Viviane, a Grande Sacerdotisa de Avalon e sua tia; e Morgana, Senhora do Lago e sua irmã – nas terras que mais tarde se tornariam a Grã-Bretanha – sua luta contra as invasões saxônicas e seu esforço para unificar o reino.

É neste Livro 2, por exemplo, que Artur transfere a corte para Camelot por questões estratégicas de guerra, por ser um território mais fácil de defender do que as terras da antiga capital do reino, Caerleon.

Livro 2

Como prelúdio desta jornada, acompanhamos a gravidez de Morgana. Para esconder de todos sua condição, ela foi para o Norte, ficar com a tia Morgause, que não a julgaria. Ainda assim, não confia o suficiente para se abrir, para contar quem é o pai e por que algo que poderia ser uma dádiva é tão doloroso.

Lot e Morgause fazem planos para o filho da sobrinha. A criança é rival de seus próprios filhos na sucessão ao trono de Artur, já que ele não tem herdeiros. Lot quer aproveitar que Morgana teve um parto difícil e, de alguma forma, usar esta circunstância como desculpa para matar a criança, mas, por alguma razão não totalmente explicada, Morgause não o faz.

A Grande Rainha

Filha do rei Leodegranz, seu pai faz um acordo com Artur para que se case com ela. Gwenhwyfar, entretanto, tem medo dos planos do pai, tem medo de espaços abertos, tem medo das mudanças que estão prestes a acontecer… Ela parece estar sempre assustada e com medo de tudo e de todos.

Da forma como são descritas as suas fobias, parece que ela tem agorafobia, por isso vive presa entre os muros do castelo e, talvez, isto seja uma metáfora para as paredes de uma prisão ideológica – religiosa – em que o cristianismo a confinou.

Conforme a narrativa avança, outras pressões fazem com que a rainha não seja tão severa quanto à religião, mesmo tendo sérias discussões com Artur sobre pagãos x cristãos, em certo momento da história pede um talismã ou feitiço à Morgana para ter um filho, posto que uma de suas (poucas) funções como rainha é dar um herdeiro para o reino.

Gwen é uma personagem que está sempre em conflito entre os seus desejos mais íntimos e suas convicções religiosas. Nisto, ela e Morgana são parecidas – pois as duas acreditam que as coisas ruins que lhes aconteceram são resultado de terem falhado cada qual com a sua fé.

À volta dela, a noite parecia respirar tristeza e desalento.

Por quê?, perguntava-se Gwenhyfar. Artur está feliz. De nada pode me censurar. De onde vem essa tristeza que paira no ar?

A velha e a nova religião

Artur jurou proteger Avalon, mas escolhe para esposa uma mulher cristã. O que é mais um indício do conflito de fé naquelas terras e nos corações dos personagens.

Tanto assim, que o rei escolhe como dois de seus conselheiros o Merlin e padre Patrício, que estão sempre discutindo assuntos religiosos. O mago sempre mais tolerante quanto à intolerância do padre. O livro é pautado por estes debates teológicos como se fossem personificações dos sentimentos contraditórios dos outros personagens que estão ao redor.

Representando a nova ou a velha religião, porém, ninguém está (ou estará) como ou com quem realmente queria, estão todos servindo suas vidas ao reino e, consequentemente, aos seus deuses. Este é o peso da crença, seja ela qual for.

Mas também há uma passagem muito bonita na narrativa quando cristãos e pagãos abandonam suas diferenças e se deixam levar pela beleza da arte, da música:

Levou as mãos às cordas e começou a tocar. Gwenhwyfar ouvia, encantada, e suas servas aglomeraram-se na porta para ouvir também, sabendo que partilhavam de uma exibição real. Ele tocou por muito tempo na penumbra que se intensificava, e, enquanto ouvia, Gwenhwyfar sentiu-se transportada para um mundo em que pagão ou cristão era a mesma coisa, guerra ou paz também, mas onde apenas o espírito humano, flamejando contra as trevas como uma tocha sempre acesa, tinha valor. Quando as notas da harpa finalmente silenciaram, ela não podia falar, e viu que Elaine chorava em silêncio.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

A mulher desiludida

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Projeto Leia Mulheres

Leia Mulheres

Não me lembro exatamente como fiquei sabendo do projeto Leia Mulheres, mas me lembro de como a proposta me fez olhar a minha estante e buscar na memória as obras que li durante a vida e quantas delas tinham sido escritas por mulheres…

É claro que havia autoras em meio ao meu percurso literário e que foram importantes na formação do meu senso estético e artístico, mas o passo seguinte desta busca foi me fazer reparar na discrepância em relação à quantidade de artistas homens e mulheres.

Era um número gritante, e foi assustador tomar consciência dele.

Desde então, tenho pensado mais minhas escolhas de leitura. E isso não significa que não leio mais homens – alguns deles ainda são meus favoritos rs –, significa que tenho sido mais crítica com minhas leituras e suas influências.

O projeto existe em várias cidades do Brasil, e confesso que, apesar de acompanhar pela internet há algum tempo e até já ter lido alguns dos livros discutidos no grupo de São Bernardo, a primeira vez em que fui num encontro presencial foi somente em setembro.

Ah, apesar do nome do projeto deixar algumas pessoas confusas, os clubes de leitura não são só para mulheres, homens podem ler e participar. O nome refere-se apenas ao conteúdo, que é – evidentemente – ler (obras escritas por) mulheres.

Você pode acompanhar o projeto pelo site que, além da divulgação das agendas dos grupos de leitura, também tem resenhas e outros conteúdos relacionados, ou pelo Facebook, Instagram, Twitter e Pinterest.

Eu achei a experiência enriquecedora e espero poder participar dos próximos encontros!

E você, já participou (ou participa) de algum clube de leitura? Conte-nos sua experiência nos comentários!

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon

Clarice Lispector

A mulher desiludida 

Dina Salústio e Graciliano Ramos

Narradores de Javé, de Eliane Caffé

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A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon

A Senhora da Magia

 “… um país governado por sacerdotes é um país cheio de tiranos na Terra e no Céu.” (Morgause)

Morgana é quem nos guiará através das tramas que levaram a que fosse conhecida como Morgana, a Fada (ou Morgana das Fadas) e à ascensão e queda de seu irmão Artur como Grande Rei de toda a Bretanha.

Apesar de estar diretamente envolvida na história, Morgana é uma boa narradora já que parece ter uma percepção excepcional, muito sensível ao que acontece ao seu redor desde tenra idade.

Esta será uma marca desta série de livros: os acontecimentos que regeram a vida das pessoas do reino pela visão das mulheres que ali estiveram presentes como sujeitos e agentes das mudanças.

PrólogoAsBrumasDeAvalon

As Brumas de Avalon

A narração propriamente dita começa no verão em Tintagel. Aqui, somos apresentados à Igraine, esposa do Duque Gorlois, irmã de Viviane – Grande Sacerdotisa do Lago – e mãe de Morgana – futura Senhora do Lago.

Por Igraine nos é apresentado o primeiro contraste entre as estruturas do cristianismo nascente e da Velha Religião, pois, apesar de não ter se aprofundado nos mistérios da Ilha Sagrada – Avalon, ela é muito mais instruída e culta do que o padre responsável pela Cornualha, por exemplo, mas para o qual tem que mostrar respeito e silêncio por ter se casado com um homem cristão.

O contraste não se dá apenas pela diferença de instrução e “importância social”, mas também pelo grau de liberdade que as mulheres da Ilha têm e que as mulheres cristãs não têm. Na verdade, mesmo os homens parecem ser tolhidos em pensamentos e ações pelas restrições do cristianismo.

Nesta mesma casa, conhecemos Morgause, a caçula das três irmãs que descendem da linhagem real de Avalon, e que terá um papel importante nos destinos do reino, atuando sempre nas sombras.

Numa conversa entre as três irmãs, também participa o Merlim – pai de Igraine, mas não de Morgause e Viviane. E aqui percebemos como as mulheres de Avalon são livres para exercer sua sexualidade sem amarras (é claro que isso inclui a liberdade sexual dos homens também). Enfatizando mais uma vez a liberdade frente às censuras cristãs.

Por isso, muitas vezes, as mulheres (sacerdotisas) da Ilha de Avalon são chamadas de bruxas e feiticeiras, não por suas visões e “poções”, mas por suas atitudes. Negando-se a serem as mulheres submissas e recatadas que o cristianismo pregava.

Esta será uma característica constante do enredo. Os personagens, por suas ações e palavras, espelham as diferenças filosóficas entre o cristianismo e a Velha Religião. Normalmente, colocando a Velha como uma crença que celebra a vida e sua plenitude, e o Cristo como um ser triste que pesa a vida com a morte.

Um bom exemplo de como este contraste se faz presente mesmo quando não se está referindo a ele objetivamente é a relação entre Igraine e Gorlois. Em muitas situações, eles parecem representar Ceridwen e Cristo respectivamente. Ceridwen, apesar de ícone de uma velha tradição, parece jovial pela sua celebração à vida e liberdade que confere aos seus crentes. Já o Cristo, mesmo representando uma religião nascente, com todas as suas restrições e noções de pecado parece ter nascido como um velho monge intransigente.

No entanto, esta aparente liberdade também guarda os seus dogmas. Quando Morgana fala de seus anos como “noviça” na Ilha, por exemplo, tudo o que ela diz é

“— O que não é óbvio é secreto.”

Numa outra cena, Galahad (Lancelote) fala como vê a mãe, Viviane, enquanto Sacerdotisa e, por isso, como representante da Deusa na Terra:

“— Ela é grande, terrível e bela, e só se pode amá-la, adorá-la e temê-la.”

Ainda naquela mesma conversa, é revelado como Viviane e o Merlim tramam para que o próximo rei seja um que consiga fazer com que a velha e a nova religião convivam pacificamente. Para isso, planejam sua vida mesmo antes de seu nascimento…

“— Você acha que a nossa feitiçaria pode fazer coisas além da vontade de Deus, minha filha?”

Esta fala de Merlim demonstra como ele realmente acreditava que a convivência pacífica entre as duas religiões seria possível. Mas nada é tão simples quanto parece, pois, além da missão de unir estas diferentes crenças, Artur – o rei predestinado – também teria a missão de unir todos os pequenos reinos da Bretanha para que conseguissem impedir de uma vez por todas as invasões saxãs, contras as quais lutavam há muitas décadas e lutariam por muitas ainda mais.

Intrigas permearão toda a saga, sejam elas tramadas nos corredores do castelo de Camelot ou nas terras ensolaradas de Avalon – todos tentando desesperadamente defender o seu quinhão, seja por um ideal ou ganância.

Livro 1 – A Senhora da Magia

Capa - Livro 1 - As Brumas de Avalon - A Senhora da Magia

Com relação ao título, apesar de, em certo ponto da história, Morgana ser chamada de Senhora do Lago, esta Senhora da Magia pode ser entendido como Morgana – representando um último suspiro de uma religião que está morrendo – ou como Viviane – última grande sacerdotisa desta crença.

Ler este volume foi como presenciar os últimos lampejos de força de uma religião antiga – que veio de uma mais antiga ainda – e os esforços de seus seguidores mais fiéis na tentativa de mantê-la viva e, talvez, com parte da grandeza e vigor que possuiu um dia.

Leia mais no blog:

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

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Os sofrimentos do jovem Werther

os_sofrimento_do_jovem_werther - Breve resumo

Breve resumo

O título original deste livro é apenas Werther e foi escrito pelo alemão Goethe em 1774. É a obra que marca o início do Romantismo na literatura mundial.

O romance é epistolar, assim, a história contada através de cartas tem muito de autobiografia, mas o autor mudou fatos, nomes de pessoas e locais. Por isso, mesmo baseando-se em fatos verdadeiros, este romance é uma ficção.

O personagem escreve para um amigo, Wilhelm, e nessas cartas conta-lhe o início e o desenrolar de uma paixão intensa por Carlota – que é comprometida com Albert.

[Lembrei-me do poema do Drummond… apesar destes dois autores terem estilos completamente diferentes…]

Mesmo sem se envolver, Werther convive com Carlota e Albert, sufocando sua paixão, tornando-a avassaladora.

Os sofrimentos do jovem Werther levam-no a buscar refúgio na natureza, mas a certeza da impossibilidade de concretização do amor leva-o ao desespero – culminando com seu suicídio.

A obra serviu de parâmetro para algumas das principias características do Romantismo como o sentimentalismo exagerado, a morte como solução e a descrição da natureza como refúgio para a dor.

Na época em que foi publicado, Os sofrimentos do jovem Werther causou tamanho impacto na Alemanha que os jovens começaram a se vestir como o personagem é descrito no livro e, muitos deles, inspirados também pela obra, cometeram suicídio como se fosse um ato de coragem romântica, como uma valorização do sentimento frente aos sofrimentos causados pelas limitações práticas e morais da sociedade.

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Clarice

Assinatura Clarice

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, mas veio para o Brasil ainda criança. Morou em Maceió, em Recife e no Rio de Janeiro. Considerava-se brasileira e nordestina – tanto que fez questão de se naturalizar.

Formou-se em Direito, mas pendendo para o meio literário, começou nele como tradutora, consagrando-se mais tarde como escritora, jornalista, contista e ensaísta. Além de ser uma das mais importantes escritoras brasileiras, também é considerada a maior escritora judia desde Franz Kafka.

Sua estreia literária se deu com a publicação do romance Perto do coração selvagem (1943). Neste texto, no entanto, vamos nos focar no conto Amor, que faz parte da coletânea Laços de Família (1960).

Sua escrita inovou o romance brasileiro com sua abordagem feminina, introspectiva e psicológica das personagens, em detrimento dos acontecimentos em si mesmos.

E sua narrativa aparenta estar cheia de banalidades apenas, porém, se prestarmos atenção aos recursos de estilo e às expressões pouco convencionais utilizados pela autora, estes elementos podem obscurecer ou trazer à luz o sentido que está nas entrelinhas do texto.

Epifania

Seus livros de contos parecem ser temáticos, pois as personagens, em sua maioria, são mães, esposas em situações familiares que fogem da rotina, espécies de crises – iniciadas por epifanias.

No conto Amor, por exemplo, a personagem Ana é uma dona de casa que, após ver um cego mascando chiclete num ponto de ônibus, desequilibra-se de tal modo que passa a ver o mundo à sua volta de maneira diferente, enxergando coisas superficiais e profundas que não via antes.

Este é um tipo de acontecimento recorrente na obra de Clarice: um fato, aparentemente banal, faz com que a personagem tenha uma epifania, de tal maneira que não consiga mais enxergar a si mesma como gostaria de ser, por dentro e por fora.

Epifania vem do grego, e foi (é) usada por cristãos como sinônimo de revelação – a revelação do Mistério religioso. Na literatura, depois de Joyce, ganhou status de revelação, transformação súbita pela qual uma personagem passa, causada por uma visão cotidiana. A epifania religiosa pode ser entendida como algo coletivo; já a literária, individual.

Ainda segundo o crítico Benedito Nunes*, a epifania, dentro do texto literário, pode ser entendida como “momentos de pausa contemplativa, que proporcionam, independentemente do entendimento verbal e discursivo, um saber imediato arraigado à percepção em estado bruto”.

Obviamente, em Clarice, a epifania não nos vem no sentido religioso, mas sim no de desmascarar os recalques dos papéis sociais que assumimos. Esta percepção perturba tanto as personagens que elas não sabem mais como voltar ao normal quando “estranharam” tanto a vida que viviam.

Amor

No entanto, não é exatamente assim que acontece com Ana. A protagonista de Amor passa pelo seu processo de epifania tendo até mesmo “sintomas” físicos, como náusea.

Ela desce do bonde em que estava e começa a vagar pelas ruas, indo parar no Jardim Botânico que, teoricamente, seria um lugar de calma, mas se torna perturbador, pois, após a revelação, ela passa a olhar e realmente ver as coisas ao seu redor, da forma como são, sem enfeites e sem explicações – apenas são:

“Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria.”

Movimento que a faz ver também suas relações familiares, a vida que escolheu construir, sendo mantida por muitos fios, mas todos muito frágeis. Aí, quando tudo faz pensar que haveria uma ruptura, há uma confirmação do amor familiar, do aconchego do lar, do marido acolhedor, que a fazem retornar à calma da rotina. Mas agora sabendo que há mais do que o que conseguimos olhar sem ver.

“Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranquila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.”

Todas estas sensações e percepções contraditórias se espelham na linhagem, quando a escritora cria expressões singulares usando ideias aparentemente contrárias: A crueza do mundo era tranquila.”, “o cego a guiara até ele”, “Era fascinante, e ela sentia nojo.”, “O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.” – num nível superficial, a autora estava falando do Jardim Botânico, mas podemos entender também este Jardim como o Éden, paraíso terrestre perdido, em contraste com o Inferno -, entre muitas outras.

O absurdo da vida

Ao se dispor a ler algum escrito da autora, você deve estar preparado para se despir de todo olhar viciado sobre as coisas, vendo assim algo do cotidiano como se fosse a primeira vez – descobrindo um novo objeto e todo o seu absurdo diante da vida, como algo que não tem nome, mas que ainda assim existe.

Talvez pareça ser uma escrita descolada da realidade social, mas se olharmos numa camada mais profunda também poderemos ver nessas pequenas epifanias banais, um incômodo, quem sabe até um questionamento que não se chegou a formular sobre os papéis sociais aos quais aderimos para viver em sociedade, incluindo aí questões relacionadas às “funções” de cada gênero no ambiente familiar e comunitário, já que as personagens principais são mulheres, e donas de casa.

Mas, mesmo que não haja essa camada de significação no texto, isso não quer dizer que a pessoa da escritora vivia alienada dos problemas da sociedade em que vivia.

No texto Liberdade e Justiça, por exemplo, ela discorre justamente sobre o fato de não conseguir escrever claramente sobre justiça social em seus trabalhos, e, em Mineirinho, ela faz uma reflexão sobre o papel da justiça em si na sociedade.

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Veja mais:

– O Instituto Moreira Salles tem um material muito bom sobre Clarice, incluindo duas videoaulas ministradas por José Miguel Wisnik e Nádia Gotlib.

Entrevista concedida por Clarice ao jornalista Júlio Lerner, para a TV Cultura, em 1977, meses antes de seu falecimento.

Café Filosófico sobre A Legião Estrangeira (1964), palestra ministrada por Noemi Jaffe.

*NUNES, Benedito. O drama da linguagem, 2ª ed., São Paulo: Ática, 1995.

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Poesia concretista

poesia

Um poema é feito de palavras e silêncios.

Décio Pignatari

No livro Teoria da Poesia Concreta, os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari reuniram estudos e textos críticos traçando um panorama teórico-estético da poesia até chegar à poesia concreta, enfatizando, é claro, as vanguardas que seriam as precursoras desta nova forma de ver e fazer arte.

Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos

Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos

Vanguardas

Os textos reunidos neste volume foram publicados em jornais e revistas durante os anos de 1950 a 1960 – época considerada a fase heroica do movimento que tentava se explicar e se afirmar.

Os três são os idealizadores e principais expoentes deste movimento literário que afirma ser o único que não foi adaptado do exterior – comparando-se a escolas anteriores como Romantismo, Realismo, Naturalismo e todas as outras, incluindo o próprio Modernismo.

Entre os artistas que são citados como precursores do novo movimento estão alguns dos mais relevantes para a forma como se faz poesia hoje em dia, como Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, e. e. cummings – assim mesmo, tudo minúsculo, era como ele assinava o próprio nome –, James Joyce, Vladimir Maiakovski, entre outros, criando um paralelo entre as obras destes vanguardistas com a proposta estética da poesia concreta.

Incluindo, também, em seu arcabouço teórico as teorias da Gestalt, da Semântica Geral e da Semiótica para explicar e exemplificar os conceitos que apresentavam (e representavam) nas formas e conteúdos dos poemas.

A verdade é que as “subdivisões prismáticas da Ideia” de Mallarmé, o método ideogrâmico de Pound, a apresentação “verbivocovisual” joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo conceito de composição, para uma nova teoria da forma – uma organoforma – onde noções tradicionais como princípio-meio-fim, silogismo, verso tendem a desaparecer e ser superadas por uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA CONCRETA.

Augusto de Campos

O verso

Dentre estas conexões, os concretistas construíram um paralelo entre a poesia e o ideograma chinês, mostrando a superação do verso linear e do discurso lógico tradicional [poema “normal”, como um soneto, por exemplo, em que os versos seguem a ordem de leitura da esquerda pra direita, de cima pra baixo, e seu significado é apreendido pelo conteúdo abstrato das palavras] pelo verso espalhado pela página do livro e pela sua organização analógica visual [poemas que usam as palavras como “objetos”, espalhando-as pela página, assim, a leitura pode seguir padrões diferentes da tradicional e seu significado é apreendido não só pelo conteúdo abstrato das palavras, mas também pelo “desenho” que formam no papel/tela].

Este novo tipo de verso faz com que o leitor enxergue o poema como um todo, absorvendo-o pelos sentidos e não somente pela leitura sintática linear.

Clamavam assim por uma poesia que fosse capaz de transmitir com eficácia os fluxos e refluxos do pensamento, usando poucos (ou nenhum) conectivos entre as palavras, fazendo com que o espaço em branco da página funcionasse como pontuação e ditasse o ritmo da leitura.

Verbivocovisual

O que levou a outra definição da poesia concreta: a verbivocovisualidade:

a palavra tem uma dimensão GRÁFICO-ESPACIAL

uma dimensão ACÚSTICO-ORAL

uma dimensão CONTEUDÍSTICA

agindo sobre os comandos da palavra nessas

3                          dimensões                           3

Haroldo de Campos

Quer dizer, o poema proporcionaria estímulos óticos (visuais), acústicos (sonoros) e significantes (no sentido do conteúdo e das estruturas verbais) todos ao mesmo tempo durante a leitura.

É preciso ainda ter em mente que a poesia concreta é diferente da poesia apenas visual. A poesia visual seria aquela cuja forma se adequa ao conteúdo de forma arbitraria, enquanto que na poesia concreta o visual é o próprio conteúdo e ao mesmo tempo sua estrutura.

Exemplo de poema tradicional:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Exemplo de poema visual:

Um dos caligramas de Apollinaire

Um dos caligramas de Apollinaire

 Exemplo de poema concreto:

Velocidade - poema de Reinaldo de Azeredo

Velocidade – poema de Ronaldo Azeredo

Hoje

É claro que, como toda nova ideia que se propõe a renovar algo que é tido como pronto e acabado, as inovações dos concretistas não foram totalmente aceitas pela “classe poética” da época (e por alguns indivíduos ainda hoje em dia), que os acusou, inclusive, de cometer “terrorismo cultural” – seja lá o que isso quer dizer.

Mas, como responderam os próprios poetas, “É estranho que um pequeno grupo de poetas tenha aterrorizado a poesia brasileira. Ou esta era muito fraca, ou as ideias deles eram muitos fortes”.

No entanto, “gostando” ou não da nova poesia, é possível reconhecer a influência dessa nova estética em muitos poetas atuais e no formato da publicidade nos dias de hoje, por exemplo (já que um dos princípios era a comunicação rápida: o leitor/espectador “bate o olho” e já associa aquela imagem ou conjunto de palavras a algum significado).

Pra quem se interessa por poesia, principalmente os princípios filosóficos e estéticos relacionados a ela, e também por arte em geral, é uma leitura muito interessante, já que nos textos o trio de poetas faz um percurso entre várias manifestações artísticas, associando-as ao nosso modo de vida contemporâneo, explicitando assim uma das vocações da arte que é ser uma manifestação das angústias e esperanças de cada tempo.

Livro: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960

Até Mais, e Obrigado pelos Peixes!

Volume Quatro

Volume Quatro da Série

Depois de viajar pelo Universo, sobrevivendo à poesia Vogon e guerras interestelares, Arthur Dent está de volta ao seu planeta natal… Mas a Terra havia sido destruída, então, o que diabos está acontecendo?

[Se quiser ter uma ideia do que aconteceu até aqui, pode começar pelas resenhas dos volumes Um, Dois e Três d’O Guia do Mochileiro das Galáxias.]

O caminho que vamos percorrer neste Volume Quatro, acompanhando os protagonistas, será para tentar descobrir o que aconteceu com a Terra anterior… se é que houve mesmo destruição.

Nesta busca por respostas, boa parte da ação se passará aqui no planeta azul, que é onde nos deparamos também com um tema novo na série: romance.

É claro que isto faz com que o livro tenha um tom diferente dos outros, assim como cada um dos volumes entre si, porém, Douglas Adams mostra mais uma vez sua habilidade de contador de histórias ao inserir cenas muito bonitas e poéticas num enredo de ficção científica sem cair em clichês fáceis ou descambar para a breguice.

Podem ficar tranquilos, pois as cenas e diálogos absurdos que escancaram quão risível é a nossa sociedade ainda estão lá, com suas tiradas sarcásticas e inteligentes.

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Novos personagens

Somos apresentados a novos personagens, como Fenny, a garota que é introduzida no prólogo, e Rob McKenna – cujas cenas são algumas das partes mais divertidas do livro –, um motorista de caminhão que vive de mau humor, pois o mau tempo (a chuva) sempre o acompanha na estrada, fenômeno que tem uma estranha explicação, mas não tão estranha para o universo d’O Guia do Mochileiro das Galáxias.

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Velhos conhecidos

Obviamente, ainda temos Ford Prefect, tão louco quanto antes, se metendo em confusões desnecessárias e hilárias. É aqui também que conhecemos o texto de sua contribuição para a edição do verbete d’O Guia sobre a Terra: Praticamente inofensiva – que é o nome do próximo volume.

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Ah, o Marvin, nosso androide paranoide preferido, também está de volta, mas não tanto quanto gostaríamos: “Os que querem respostas devem continuar lendo. Outros podem preferir pular direto para o último capítulo, que é bem legal e é onde aparece o Marvin”.

Outra coisa que gostei bastante, e da qual ri muito, foi a parte em que um grande número de pessoas acredita que a destruição da Terra na verdade foi uma alucinação coletiva provocada pela CIA.

Daí que, como é comum com teorias da conspiração, cada um acha um motivo mais louco do que o outro do como e por que a CIA teria feito isso.

Apesar do tom diferente da história, continua sendo uma leitura boa e divertida. É quase impossível se decepcionar num enredo quando o próprio escritor se coloca em pé de igualdade com seus personagens: “Havia um motivo para contar esta história, mas, temporariamente, fugiu da mente do autor”.

No entanto, este ainda não é o final, ainda temos o Volume Cinco na coleção e o E tem outra coisa… – lançado no 30º aniversário de publicação do primeiro livro d’O Guia, foi escrito por Eoin Colfer com autorização da família de Adams.

Nos encontramos no próximo!

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