A BATALHA DA MADRUGADA

Naquela madrugada, eu dormia como um anjo e me imaginava no melhor dos mundos.
Repentinamente, tudo mudou!
Acordei com minha esposa me sacudindo, quer dizer, acho que acordei. Bem, leia mais e vai entender…
– Pai, acorda, pai… – dizia ela naquele seu jeito todo especial de me chamar.
– O que foi? – respondi eu, bocejando e tentando entender o que estava acontecendo.
– Levanta daí – insistiu ela –, tem um rato na casa.
Pensei comigo mesmo “Então é isso! Só me faltava essa! Levantar agora para ir atrás de um mísero ratinho invasor? Que chance eu tenho de pegar um ratinho em plena noite?”.
Fiquei indeciso por algum tempo: “Levantar ou não levantar, eis a questão!”.
Não levantei, porém a consciência pesou e fiquei pensando “Está certo!”, continuei raciocinando, “Ele invadiu meu território e minha propriedade. Mas, pensando bem, e, até onde sei, ainda não existe nenhuma associação de ratos do tipo MRST (Movimento dos Ratos Sem Teto). Portanto, deve ser um ‘desgarrado’ qualquer que perdeu o rumo e foi parar justo na minha casa”.
Confesso que estava indeciso sobre o que fazer, mas aquela cama quentinha e aconchegante falou mais alto, então eu me ajeitei melhor na cama e falei:
– Deixa o bichinho em paz e venha dormir, ir atrás dele a esta hora da noite é perda de tempo. Ele é muito esperto e não vamos conseguir pegá-lo. Amanhã nós colocamos uma armadilha ou coisa parecida.
Ela continuou insistindo:
– Vamos, levanta daí! Eu não consigo dormir com um rato circulando por aí.
Fiquei com dor na consciência e quase levantei, mas, novamente, a danada da cama quentinha falou mais alto.
Ela insistiu mais algumas vezes até que desistiu, quer dizer, desistiu de mim, não do rato! Ouvi-a arrastando móveis pra lá e pra cá à caça do bichinho.
Mais uma vez, a consciência pesou e eu já estava levantando quando pairou um estranho silêncio. Recuei e fiquei tentando ouvir algo que me informasse o que estava acontecendo, até que soou o inconfundível ruído do telefone discando (naquela época, os telefones tinham um barulhento disco de chamada).
Foi então que pensei “O que ela vai fazer agora? Chamar a polícia?”. Não, logo concluí. “Deve ser outra coisa… Será que já existem empresas especializadas em caçar ratos na madrugada ao estilo daquele filme ‘Os caça-fantasmas’?”
Por um instante, imaginei um furgão estacionando em frente à minha casa, com as sirenes ligadas e enormes letreiros escritos “Caça ratos. Satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta”. Ou seria: o seu rato de volta?
Não era nada disso! Ela ligou para irmã, que morava ao lado. Ouvi-a dizendo:
– Venha me ajudar, tem um rato aqui em casa, e o preguiçoso do meu marido não quer nem saber.
Fiquei pensando “Não acredito! Ela foi incomodar a irmã essa hora da noite. Duvido que ela venha ajudá-la”.
Queimei a língua! Não demorou quase nada e a irmã chegou.
“E agora?”, pensei comigo mesmo, “Vou dar uma de ‘João sem braço’ e assistir de camarote pra ver o que acontece. Vai ser divertido ver como elas vão caçar o bichinho”. Por um breve momento, lembrei-me daquele slogan dos sindicalistas: as irmãs unidas, jamais serão vencidas…
Ouvi a conversa delas na cozinha e, por um instante, me veio à mente aquelas cenas de filmes de guerra em que os generais discutem a estratégia da batalha:
– Eu fico com essa vassoura e você com o rodo. Eu vou lá afugentá-lo e, quando ele sair, você o acerta, tubo bem?
– Claro! – respondeu a outra, toda confiante. – Aqui ele só passa se for por cima do meu cadáver!
Nessa altura, lembrei-me ainda da Primeira Guerra Mundial, quando, na Batalha de Verdun, o general francês Pétain disse uma frase que ficou famosa: “On ne passe pas” (Aqui não se passa).
Bem, tive de admitir: o estado de confiança das duas “guerreiras” era impressionante! Não sei se era meu estado sonolento, mas juraria ter ouvido o rufar dos tambores e a marcha dos soldados em direção à terrível batalha! E que batalha!
– Olha ele ali! Pega! Acerta ele! – Gritava uma e os canhões não paravam de cuspir fogo, quer dizer, os rodos não paravam de bater aqui e acolá: plá, pam, pum, vaaap…
– Droga, você deixou o danado escapar! – gritava a outra – Cuidado! Está atrás de você!
Até que algo pesado caiu e um silêncio sepulcral tomou conta do recinto. Fiquei pensando “O que aconteceu agora? Intervenho ou não? Vão acabar destruindo a minha casa!”.
Não tive resposta e pensei “Será que elas liquidaram o bichinho?”. Por um instante, imaginei as duas guerreiras em uma emocionante cena ao lado do corpo inerte do infeliz…
E que cena mais comovente… Digna de colocar o cinema de Hollywood no chinelo. Juro que vi as duas guerreiras, com os peitos estufados, em posição de sentido e fazendo a continência, prestando, assim, as últimas homenagens ao valoroso inimigo morto.
Dei com os burros n’água e não foi nada disso! O barulho que eu tinha ouvido não foi o de uma cacetada certeira, como eu tinha imaginado, mas apenas o de um velho móvel que caiu. Quanto ao silêncio, não passou de uma pequena pausa para recobrar as forças. Não demorou muito e ouvi uma delas chamando a outra para retomar a batalha:
– Vamos! O que você está esperando?
– Tô cansada! – respondeu a outra – Me deixa tomar um fôlego.
Senti que o ânimo já não era mais o mesmo, pois aquela trégua não estava no script. “Acho que desistiram!”, pensei comigo mesmo, “Finalmente vou poder dormir”.
Enganei-me novamente! Mal tive tempo de respirar e a batalha voltou com mais intensidade ainda!
Eram móveis arrastados de um lado pra outro, pancadaria aqui e acolá, gritos estridentes e sons horripilantes. Os canhões, ou melhor, as “vassouras voadoras” a todo vapor: plá, pam, pum, vaaap…
De repente, ouvi um potente grito de guerra. Ou seria um grito de pavor? Fiquei na dúvida! Em qualquer caso, eu garanto: era de fazer inveja àqueles filmes de Alfred Hitchcock! “O que será que aconteceu agora?”, fiquei me perguntando. Logo descobri…
– Que foi? – perguntou uma delas – Acertou ele?
– Não, sua tonta! – respondeu a outra, toda chateada – Não vê que eu acertei o meu próprio pé!
Fiquei imaginando a cena, em câmara lenta, em um desses televisores de alta resolução:
Primeiro, aparece o ratinho voando sobre o pé dela. Era possível observar suas perninhas e seu enorme rabo balançando no ar e o seu olhar de terror vendo o rodo passar a milímetros da sua cabeça, indo acertar em cheio o dorso do pé da infeliz. O impacto foi tão grande, que o rodo chegou a rodopiar em seu próprio eixo, parecendo uma hélice de avião sendo ligada. Enquanto isso, a guerreira olhava desesperada para o seu próprio pé, não acreditando no que tinha acontecido! Nesse exato instante, a câmera foca no rosto dela e a expressão de dor e raiva ao mesmo tempo é assustadora! Seu grito ecoa tão forte que a imagem treme e fica desfocada. Meu Deus, que garganta!
– Para mim, chega! – comentou a pobre coitada, massageando o dolorido pé ferido.
Enquanto isso, eu criticava a mim mesmo, pois já imaginava que algo assim aconteceria. Mas, e o rato? O que teria acontecido com ele? Fiquei me perguntando.
Não tive resposta. Depois de raciocinar um pouco, concluí que ele tinha fugido. No entanto, pela ferocidade das duas guerreiras, o bichinho deve estar correndo até agora!
Elas alardearam por aí que tinham vencido a batalha, mas eu acho que o ratinho deve estar dizendo a mesma coisa, porém, com toda certeza, ele vai pensar duas vezes antes de invadir meu território porque na minha casa as irmãs unidas, jamais serão vencidas…
Fim

Teresas

Teresa
Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo 
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

No poema de Bandeira não há rigor formal: ele é composto por três estrofes, de três versos cada, mas que não seguem um padrão métrico ou rítmico.

O tom com o qual o eu lírico nos fala é coloquial, quase de banalidade, sem os exageros dos românticos, por exemplo.

Nas primeira e segunda estrofes, o eu lírico diz de suas impressões ao ver Teresa (fisicamente): as pernas eram estúpidas, a cara (não face ou rosto) parecia uma perna, e os olhos, velhos. Ele não só descreve o que está vendo, mas faz comparações inusitadas (cara = perna).

Já na terceira estrofe, o eu lírico não vê (“Da terceira vez não vi mais nada”), mas parece que é somente neste momento do não ver que ocorre o encontro com o sentimento amoroso e todo o seu inebriamento (“Os céus se misturam com a terra”).

O “Adeus” de Teresa
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala

E ela, corando, murmurou-me: "adeus.

"Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei! descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

No poema de Castro Alves há um rigor maior com relação à forma: são oito estrofes intercaladas por estrofes de cinco versos e estrofes de um verso; os versos são decassílabos e possuem rima final. As estrofes de um verso parecem funcionar no poema como repetição da separação dos amantes, mas também como estribilho do “adeus”.

O eu lírico desse poema se apresenta desde a primeira estrofe como alguém tomado de emoção, sem reflexão sobre suas ações (“Como as plantas que arrasta a correnteza”).

As estrofes de cinco versos contam do encontro amoroso entre o eu lírico e Teresa (com exceção da última em que há o encontro de Teresa, mas com outro), enquanto as estrofes de um verso dizem do adeus.

Teresa, de Bandeira, parece descrever a mulher e, por fim, relatar do seu encontro com o sentimento amoroso; O “Adeus” de Teresa trata do amor romântico – apesar de haver encontro (carnal também) -, mas a separação já está anunciada desde o título.

Os dois poemas possuem três momentos que dialogam: no poema de Bandeira, o olhar primeiro são para as pernas que se relacionam com a valsa, que é a dança do primeiro encontro do poema de Castro Alves; num segundo momento, o eu lírico do primeiro poema volta-se para os olhos de Teresa, enquanto o de Castro Alves concretiza o amor carnal e, finalmente, na terceira estrofe de Bandeira, há o encontro com o sentimento, a emoção, enquanto em Castro Alves, ocorre a separação anunciada desde o início.

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Leia mais no blog:

O bicho – Manuel Bandeira

Secos & Molhados

Poesia e a descoberta do mundo

Fabricando Poesia

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OS LARÁPIOS

Falar dos “desmandos” dos políticos já está ficando meio repetitivo, mas, dia desses, vi na internet uma frase que me chamou a atenção. Dizia ela:

Esses políticos larápios, corruptos e nepotistas, além de nos roubar, ainda nos fazem pagar vultosos salários aos seus “chegados”.

Pois é, o conceito dos políticos está tão baixo, que basta pronunciar essas palavras e a primeira coisa que vem à mente dos brasileiros é que tem político envolvido.

Claro! E não poderia ser diferente… Com tantos políticos “passando” a mão no nosso rico dinheirinho, você poderia pensar que essas expressões são verde e amarelas.

Nada disso! Embora por aqui elas tenham encontrado um lugar fértil, a questão é: de onde vêm esses termos?

Os historiadores contam que essas expressões vêm de longe, senão vejamos:

Começamos pela palavra larápio (ladrão, gatuno, pilantra).

Apesar de haver quem conteste, a maioria dos historiadores afirmam que essa palavra vem da Roma Antiga, onde um pretor (juiz) sempre dava ganho de causa para quem o favorecia com os melhores presentes.

Seu nome era Lucius Aulicus Rufilus Appius e assinava as suas injustas sentenças abreviadamente, assim: L. A. R. Appius, ou seja: Larapius.

Agora vamos falar de corrupção (corromper, deteriorar)

Infelizmente essa palavra é que está mais “em moda” neste infeliz país, mas, como as outras, vem de muito longe…

Os antigos romanos já empregavam o advérbio corrupte (corromper, arruinar).

No entanto, por aqui, a corrupção chegou a tal ponto que um estudo da Fiesp apontou o custo disso em aproximadamente dois por cento do PIB. A CNI publicou algo mais alarmante ainda: segundo ela, para cada um real desviado pela corrupção, para a nossa economia custa três reais.

Precisa falar mais?

Agora vamos falar do nepotismo (usar o poder em favor de parentes e amigos).

Por incrível que possa parecer, a palavra “nepotismo” vem do latim “nepos”, que quer dizer: neto ou descendente.

Embora o termo já estivesse sendo utilizado na Roma Antiga (sempre a Roma), ele “criou fama” na época da Renascença, quando os papas tinham grandes poderes e, é claro, “deitaram e rolaram”.

Pra se ter ideia, eles distribuíam cargos “à torta e à direita”, vendiam indulgências, tomavam propriedades dos “infiéis” e tantas outras “barbaridades”.

A coisa chegou a tal ponto que teve um papa que deu o barrete cardinalício a dois sobrinhos e outro nomeou um cardeal, “seu chegado”, com 14 anos de idade.

Nesse item, e por aqui na “terrinha”, a coisa começou no dia do descobrimento do Brasil e, pasmem, ficou muito bem documentado:

Pouca gente sabe ou prestou atenção, mas no final da carta de Caminha ele pede ao rei um emprego para um sobrinho.

Interessante notar que essa atitude do “gajo” acabou por criar outro termo famoso por aqui, ou seja: o pistolão, de “epistola” (carta), ou carta de apresentação.

Pois então, minha gente, para mim, como brasileiro, fica difícil e doloroso dizer isso, mas uma boa parcela dos nossos cidadãos e, principalmente, a maioria dos nossos políticos, não passam de larápios, corruptos e nepotistas.

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Quebrado

Lobo triste

Parece que tem algo quebrado em minha mente

Não consigo respirar.

O suor frio corre pelas minhas costas, dá pra sentir meu coração acelerado, há uma carga elétrica em volta de mim, sei disso pois, quando fui pegar um copo de plástico para beber água, ele foi atraído quando aproximei minha mão trêmula.

Não consigo respirar.

Tento me concentrar em algo, ler costuma me acalmar – tentar desenhar algo ou assistir uma aula seria bom, mas essa tentativa exige muito esforço, a mente quer gritar, quer que eu chore, parte de mim está com muito medo de morrer, parte de mim quer morrer e acabar logo com isso.

Não consigo respirar.

Esse estado de luta constante é cansativo, e tem uma tristeza que cresce, uma espécie de solidão, de não ter com quem falar, olhar ao redor e ver dezenas de pessoas que não me veem, como se eu não existisse, a importância de meu ser é diluída pelas ruas por onde passo.

Não consigo respirar.

Racionalmente eu posso saber que tenho amigos, esposa, familiares que me querem bem, mas eu não me sinto à vontade comigo mesmo, me acho uma farsa, uma caricatura bizarra de quem eu poderia ser.

“Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha”

Clarisse – Legião Urbana

Não consigo respirar.

Quando durmo meu corpo não quer respirar, aí eu acordo em seguida e esse loop se repete, mesmo eu não estando fisicamente doente, acordo às 3 da madrugada e não durmo mais, e no dia seguinte me arrasto pela vida como um zumbi sem alma, tentando apenas atravessar as horas.

A terapia ajuda, longas horas de conversa tentando desvendar e talvez arrumar partes da minha mente quebrada. Não tive grandes traumas, não aconteceu nada demais nesse dia comum, mas é claro que tem algo errado, e vou continuar lutando contra essa parte de mim que me faz querer ser menos.

Essas crises de ansiedade podem ser bem fortes algumas vezes, eu recorro a podcasts ou textos sobre meditação, andei consumindo muito conteúdo budista, de auto-hipnose e mindfulness que tem me ajudado a entender essa fera que me devora por dentro fazendo o simples fato de respirar algo muito complicado de se lidar.

Com calma, com a mente limpa e contando, com foco no meu corpo e no que está ao meu redor eu finalmente consegui respirar.

SOMOS TODOS ALIENADOS?

Saturnália

(Escrito por Darci Men)

Jingle bells, jingle bells, acabou o papel…

Brincadeira à parte, mas, quando falamos de Natal, temos de respeitar o costume e a crença de cada um, mas, inevitavelmente, fica a pergunta:

– O que efetivamente comemoramos no Natal?

– Ora – você me responderia –, todo mundo sabe que no Natal comemoramos o nascimento de Jesus Cristo!

– Certo! Isto é o que todos dizem. Mas seria isso mesmo?

Deixando de lado as crenças religiosas, os costumes e os apelos comerciais e analisando friamente a questão, chegamos à conclusão de que quase tudo nesse evento deu-se por algum interesse religioso ou comercial. Vejamos:

A data de 25 de dezembro

Não existe nenhuma prova concreta do nascimento de Jesus Cristo nesta data. Uns falam que foi em abril, outros que foi em janeiro, mas ninguém sabe efetivamente a data correta.

Na verdade, 25 de dezembro marca o solstício de inverno, em que se realizava uma grande festa pagã, ou seja, o nascimento anual do Deus Sol (a Saturnália, como era conhecida).

Foi o Papa Júlio I, no ano 350 d.C., quem proclamou o dia 25 de dezembro como data oficial do nascimento de Jesus Cristo. A ideia era substituir a festa pagã por outra cristã. Deu certo!

Os presentes

Existe quem prega que o costume de presentear no Natal veio dos Três Reis Magos que teriam presenteado o menino Jesus logo após o seu nascimento.

Errado! Os três reis, que alguns chamam de simples astrólogos, realmente teriam presenteado Jesus Cristo, mas com outro objetivo, ou seja, como súditos de um rei (um costume normal da época). O fato é que eles acreditavam que a profecia tinha se cumprido e Jesus seria o futuro “Rei dos Judeus”.

Na verdade, o costume de se presentear veio do próprio Papai Noel, que nunca se chamou Noel, mas Nicolau. São Nicolau, por volta de 280 d.C., era bispo de Mira (atual Turquia) e tinha o costume de presentear os pobres no final de cada ano (nada a ver com o advento do nascimento de Cristo).

O nome Papai Noel, ou outro qualquer, assim como o fato de se presentear no Natal, foi criado por pessoas ou entidades interessadas na propagação do evento.

As músicas

A maioria das músicas de Natal foram criadas ou adaptadas com objetivos nitidamente comerciais ou religiosos.

O maior exemplo é a mais famosa delas: o Jingle Bells (Batem os sinos).

Originalmente, essa música foi criada como uma canção para o Dia de Ação de Graças e chamava-se One Horse Open Sleigh (Andar na neve com um trenó puxado por um cavalo).

É interessante ver a tradução do seu refrão original e perceber que não tinha nada a ver com o Natal:

Batem os sinos, batem os sinos

Batem por todo o caminho.

Ó! Que divertido é passear

Num trenó aberto de um cavalo…

Então: você gosta do Natal? Acha importante a confraternização? Os presentes? O espírito natalino?

Ótimo! Continue com a tradição e festeje muito, mas faça isso porque você quer e gosta de fazer, não seja um alienado que faz as coisas porque outros fazem ou porque alguém, alguma entidade ou um belo comercial qualquer lhe mandou fazer.

F E L I Z   N A T A L

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor

jorge amado

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor foi escrito por Jorge Amado, em 1948, como presente de aniversário de um ano de seu filho João Jorge; sua publicação, no entanto, se deu apenas em 1976 quando Carybé fez as ilustrações.

O livro inicia com uma trova do poeta popular Estevão Escuna que diz:

O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e dona Andorinha

Essa trova parece ser, ao mesmo tempo, introdução e resumo do que vai ser narrado em seguida, prenunciando o seu final não feliz, pois, ao usar os verbos no futuro (“o mundo só vai prestar”), o narrador nos dá uma pista de que “o mundo ainda não presta”, quer dizer, ainda não é possível, no mundo em que vivemos, conviver em paz com as diferenças. Depois da trova, vem o “Era uma vez”, que nos transporta para o mundo dos contos de fada ao dizer que esta história aconteceu num 

passado quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com linguiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas.

O que vamos percebendo ao longo da narrativa é que O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é uma história dentro de outra história em que se vai questionando o próprio modo de narrar.

Manhã

A história propriamente dita começa com uma explicação de como a Manhã se atrasa para chegar. Ficamos sabendo que há aí outra história de amor se desenrolando, pois a Manhã se atrasa quando o Vento vem ajudá-la a acender as brasas do Sol e, ao mesmo, tempo narra-lhe uma história – a sua curiosidade em saber o final é o que a faz se atrasar para “amanhecer o dia”.

A Manhã começa a refletir se a história de amor contada pelo Vento não foi contada com segundas intenções em relação a ela, o que vai aumentando a curiosidade do leitor em querer saber que história é esta capaz de fazer a Manhã se atrasar tanto para amanhecer.

Ao ir dizendo como o Vento é um bom contador de casos, o narrador vai dizendo também algumas características do que acredita fazer parte do bom narrar, por exemplo, diz que alguns casos eram longos como “capítulos de folhetim” e que “quando mais comovente, melhor a novela”.

Nessa linha de escritura, o autor faz referência a si mesmo quando, ao tentar descrever como a Manhã estava se sentindo, diz 

Um autor erudito falaria em confusão de sentimentos

nos dando a dica de que, ou o autor deste livro não é erudito, ou este, ao escrever, não tinha tais pretensões de reconhecimento literário.

Seguindo a história, os relógios começam a se atrasar por causa do atraso da Manhã e os galos também se confundem sem saber a que horas devem cantar… eles fazem então uma denúncia ao Tempo, que quer saber o porquê de tais confusões.

A Manhã responde que ficou ouvindo o Vento contar uma história e o Tempo, por sua vez, fica tão curioso para saber que história é esta que promete uma rosa azul em troca da contação da Manhã.

Primavera

Neste ponto, o narrador faz (literalmente) um parêntesis no livro para dizer que, agora sim, vai transcrever a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá por tê-la ouvido de um famoso e erudito Sapo Cururu que ouviu a história do próprio Vento.

A história de amor começa na Primavera e o Gato Malhado é apresentado primeiro. Ao descrever seu comportamento e como os bichos do parque o vêem, o narrador parece contrastar a beleza da estação das flores com a fama de egoísta e mau do Gato, mas, ao contrário da “opinião geral” dos outros animais, descobrimos que ele é um ser triste e solitário.

Apesar de ser um gato feio e pardo, com a chegada da Primavera seu corpo todo se espreguiça e ele sorri, não só pela boca, mas também “pelos olhos pardos”, o que parece significar que o seu espírito se abre para apreciar a beleza da paisagem primaveril.

A Andorinha Sinhá não consegue compreender por que, sendo ela tão popular entre os habitantes do parque, só o Gato Malhado não lhe dava atenção. Mais uma vez, a curiosidade faz com que a história vá seguindo novos rumos, pois é esse sentimento que faz com que a Andorinha queira se aproximar do Gato.

Neste ponto, o narrador faz (literalmente) um novo parêntesis no texto para apresentar a Andorinha Sinhá. Ele a descreve como uma passarinha muito disputada entre os outros pássaros como uma ótima pretendente para casamento, pois tinha simpatia, beleza e um coração inocente, mas ela não amava nenhum dos que a cortejavam.

Fecham-se os parênteses e continua-se na estação da Primavera. Ao ver o Gato Malhado sorrindo, os bichos se assustam e fogem, mas a Andorinha Sinhá vai falar com ele e, para provocá-lo, diz que ele é feio. O Gato, ao contrário do que todos pensavam, acha graça, e os dois, a partir de então, começam a se encontrar sempre para conversar e passear pelo parque.

Nesta parte, o narrador começa a conversar com o leitor sobre a forma como está estruturando sua contação:

Foi assim, com esse diálogo um pouco idiota, que começou toda a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá. Em verdade a história, pelo menos no que se refere à Andorinha, começara antes. Um capítulo inicial deveria ter feito referência a certos atos anteriores da Andorinha. Como não posso mais escrevê-lo onde devido, dentro das boas regras da narrativa clássica, resta-me apenas suspender mais uma vez a ação e voltar atrás. É, sem dúvida, um método anárquico de contar uma história, eu reconheço. Mas o esquecimento pode ir por conta do transtorno que a chegada da Primavera causa aos gatos e aos contadores de histórias. Ou melhor ainda, posso me afirmar um revolucionário da forma e da estrutura da narrativa, e que me dará de imediato o apoio da crítica universitária e das colunas especializadas de literatura.

Este trecho mostra não só um narrador que conversa com o seu interlocutor, mas também um autor consciente do ato (e da brincadeira) de narrar e que não subestima a capacidade de entendimento do seu leitor, fazendo-o participar das suas escolhas narrativas. E, ao mesmo tempo, brinca com o status que as subversões nas estruturas das narrativas têm com a crítica literária.

No “Capítulo inicial, atrasado e fora de lugar”, o narrador descreve a personalidade da Andorinha como de uma criatura arrojada e sem preconceitos (“metida a independente”). Mostra que a Andorinha desde muito tempo observava o Gato por não acreditar na veracidade da fama de mau que ele tinha. Mas, ao falar das suas dúvidas com a Vaca Mocha e das suas intenções de se aproximar do Gato, esta lhe diz que “os gatos são inimigos irreconciliáveis das andorinhas” e que ter amizade com ele seria como “rasgar uma velha lei estabelecida, em passar por cima de regras consagradas pelo tempo”.

Voltamos à história “onde a deixamos por erros de estrutura ou por moderna sabedoria literária”. No fim da Primavera, os pais da Andorinha Sinhá a proíbem de se encontrar com o Gato Malhado, mas a simples proibição não impede que os dois se tornem cada vez mais íntimos (e apaixonados), pois ela 

gostava que a convencessem das coisas com boas e justas razões.

Verão

O capítulo do Verão é curto porque este “passou muito depressa”. Neste capítulo, temos a confirmação do amor que o Gato sente pela Andorinha e vice-versa, mas temos também um prenúncio de que esta história de amor não irá conseguir romper as estruturas dos preconceitos para se afirmar (ao contrário da narrativa em si que abre vários parêntesis e põe capítulos fora de lugar para melhor se contar), pois a Andorinha já tem encontros com o Rouxinol como seu pretendente.

Temos aí o “Parêntesis das murmurações”, ou melhor dizendo, o capítulo em que temos a confirmação das fofocas e dos preconceitos que os outros bichos do parque têm em relação aos encontros do Gato Malhado com a Andorinha Sinhá.

“Não era só a paisagem que se modificava com o correr das estações, como certamente percebeu o culto e talentoso leitor”, mais uma vez, o leitor é chamado a perceber como a narrativa está se organizando, pois as atitudes dos personagens vão se modificando conforme as estações vão passando.

Outono

No Outono, o Gato Malhado escreve um soneto que é transcrito num “parêntesis poético”, “pois afinal isso aqui não é um caderno de poemas”. Assim, o narrador justifica o fato de o soneto não estar no corpo da narrativa, mas dentro de um novo parêntese.

Após o “parêntesis poético”, temos um “Post scriptum” em que o narrador explica ao leitor o uso de tantos parêntesis dentro da história dizendo que não é por preguiça do autor, mas para melhor entendimento da própria narrativa. E, após este, é apresentado o “Parêntesis crítico”, em que o Sapo Cururu faz uma análise literária dos defeitos do soneto do Gato Malhado.

E voltamos ao Outono. Como era um “tempo cinzento”, as coisas certamente não andariam bem ou, nos dizeres da Coruja para o Gato, “para romper uma lei, é preciso uma revolução…”. Não sendo capazes de tal revolução, temos a confirmação de que o Gato Malhado não poderá casar com a Andorinha Sinhá, pois ela já aceitou o pedido de casamento do Rouxinol.

Inverno

No Inverno, encontramos todo o sofrimento que o Gato demonstra ao assistir de longe a festa de casamento de sua amada com o Rouxinol:

Já não havia futuro com que alimentar seu sonho de amor impossível. Noite sem estrelas, a da festa do casamento da Andorinha Sinhá.

No último capítulo, intitulado “A noite sem estrelas”, a “canção nupcial” da festa parece ao ouvidos do Gato um “canto fúnebre” e, enquanto ouve a música, ele caminha em direção ao lugar onde a Cobra Cascavel mora…

E, assim, a Manhã ganha do Tempo a prometida rosa azul por contar a história de amor que ouvira do Vento.

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Elsa & Fred

Segunda-feira de manhã

passaro maracatu

O descontrole é grande. Cada piscada traz uma miríade de imagens caóticas, é um alegre e pitoresco carnaval noturno com sons bizarros de pessoas deformadas e sexo interespécies. Vejo – passeando – coloridas plumas, fantasias de fita que lembram o maracatu. Ao longe, uma guerra de sombras com fundo de cores alaranjadas mostra-se no horizonte, onde soldados escalam montanhas cercados por drones em formação de ataque. Olhos verdes destacam-se no rosto de um soldado que me atinge com uma coronhada, uma briga generalizada, a música e as bombas do outro lado do morro lançam torres de fogo em prédios abandonados.

Eu fico indo e vindo dessa dimensão do caos, cada piscada me manda alguns segundos nesse mundo. Aqui, no escritório de mesas brancas, paredes assépticas e vidros com isolamento acústico, as cortinas-pálpebras me puxam para o caos, onde me arrastam por ruas de lama. Um homem gentil de dentes tortos me passa uma garrafa, tento beber a aguardente, mas ela não tem gosto nem forma física, é apenas uma gosma-fumaça ectoplasmática.

Quando ingiro a gosma que flutua no ar, as idas e vindas entre as realidades se tornam frenéticas e confusas, deixando-me com náuseas, impedindo que eu continue a escrever e a ver mais desse local de opressão/comemoração/caos. E quando volto, estou me afogando em lama, lutando contra soldados e percebendo as criaturas-ave-maracatu que tentam me arrastar.

Falta-me o ar, quase não vejo mais nada, ouço as explosões ao longe, a música se foi, afogo-me com dificuldade de respirar, os movimentos difíceis, percebo que vou deixando de existir nesse mundo e volto ao escritório de paredes brancas, com dificuldade de respirar.

Depois apareço em um gramado, está de dia, sinto a grama, olho o céu com azuis impossíveis, consigo ver um vilarejo medieval na base do morro, sobe fumaça, deve haver comida, levanto e começo a flutuar, vou planando naquela direção.

E o voo me eleva ao Vazio. Uma sensação leve de quase não-ser, é agradável, mas estou ancorado por algo imaginário que me faz voltar ao escritório.

Preciso de um café.

Pássaros maracatu e soldados ao longe.

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon

Livro 3 - As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

“… pois todos os animais nasceram e se juntaram aos outros de sua espécie e viveram e trabalharam de acordo com as forças da vida e, por fim, entregaram novamente seus espíritos à guarda da Senhora…” (Gwydion)

O título pode passar a impressão que o enredo se centrará num personagem masculino e isto é verdade até certo ponto, porém ainda conhecemos os fatos pelas narrativas e visões das mulheres.

Contrapondo-se ao A Grande Rainha (Livro 2) – que começa no inverno, nos domínios de Lot –, este O Gamo-Rei inicia-se no mesmo reino, mas no verão. Após a morte do marido, Morgause governa de modo incontestável já que a população local está acostumada com figuras femininas de poder – simbolizadas pela deusa e suas sacerdotisas. Neste contexto e pelo olhar da mãe adotiva, somos apresentados a Gwydion: rebelde e indomável, inteligente e sagaz, possuidor da Visão e nem mesmo Morgause consegue manipulá-lo. Ainda por este olhar sabemos que ele é vaidoso – como sua mãe biológica, Morgana.

“Avalon. E então Morgause viu o sorriso secreto de Gwydion, e soube que ele estava esperando por isso. Mas ele nunca falou da Visão. Qualquer criança teria se vangloriado dela, se a tivesse! Compreendeu de súbito que Gwydion podia disfarçá-la, sentir maior prazer nela por ser secreta, e isto lhe pareceu estranho, a tal ponto que teve um movimento de repulsa, quase de medo, do seu filho adotivo. […]

Viviane, Kevin e Niniane (última descendente da velha linhagem real de Avalon) decidem levá-lo para a ilha – planejam que se torne o próximo rei e que honre os compromissos de Camelot com a velha religião, já que Artur se tornou um rei cristão e está negligenciando este tratado.


O que acontecerá ao Gamo-Rei quando o pequeno gamo tiver crescido?

As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei

Pentecostes

Na corte, muitos se reúnem para as festividades anuais de Pentecostes. Taliesin, Lancelot e Morgana são alguns dos personagens que estão lá, assim como os reis vassalos, a fim de renovarem seus votos de fidelidade a Camelot, e muitos elementos do povo que levam petições e pedidos de justiça ao rei.

A festa, no entanto, não é motivo de alegria para todos os presentes. Taliesin está cheio de premonições sobre o futuro, não necessariamente boas. Lancelot ainda se sente perturbado por seu amor a Gwenhwyfar e Artur. E Morgana carrega a culpa por esconder o filho que teve com o rei, fazendo-o acreditar ser infértil, ao mesmo tempo em que sente vergonha por ter engravidado do próprio irmão. Mais uma vez, ela é a síntese das mudanças pelas quais aquela sociedade está passando, é um amálgama entre as duas religiões: a celebração da vida na deusa e a culpa cristã.

Outra pessoa presente na corte é Viviane, que vai exigir que Artur cumpra suas promessas de proteger Avalon, pois os reis subalternos estão proibindo os velhos cultos em seus domínios, profanando os bosques sagrados da velha religião. No momento em que a Senhora do Lago apresentava sua petição ao rei, Balim a mata…

— Senhor meu rei – gritou ainda Balim –, deixe-me acabar com todas essas feiticeiras e magos, em nome do Cristo que os odeia a todos…

Este acontecimento torna-se um marco da corte que passa a ser estritamente cristã. Ainda assim, Artur pede que ela seja enterrada na praça de Glastonbury, como homenagem, já que lá é também um lugar de peregrinação. Dessa forma, vamos assistindo aos velhos ritos sendo incorporados aos novos, as religiões se fundindo ao incorporarem a tradição com uma nova roupagem.

Livro 3

Nesta terceira parte, continuamos com os excertos dos pensamentos de Morgana que, tecendo comentários sobre os acontecimentos, torna essas reflexões numa espécie de salto temporal para a narrativa, pois é nestes trechos, por exemplo, que sabemos de alguns fatos, como a morte do velho Merlim.

O Gamo-Rei

Um novo personagem, Meleagrant, aparece durante as festividades alegando ser herdeiro de Leodengraz, pai de Gwenhwyfar e, portanto, sucessor de direito daquele reino. A rainha o despreza, dizendo não passar de um bastardo. Por isso, ele toma o país do verão à força, mas depois, sob trégua, pede que ele e a irmã resolvam a situação amigavelmente.

Gwen vai sozinha, pois quer provar a todos que pode ser útil em seu reinado, e não apenas uma tola – aos olhos de Morgana e de todos na corte. Mas as coisas dão errado. A trégua era uma armadilha de Meleagrant, que a violenta, pensando que isso fará Artur a desprezar e legitimá-lo como senhor daqueles domínios. O que mais surpreende nesta passagem é que mesmo diante de tamanha violência injustificada, tudo o que ela consegue pensar é que está sendo punida por ter pecado, ao mesmo tempo em que se sente responsável, assumindo a culpa pelo estupro, afinal “nenhuma mulher era violentada se não tivesse tentado algum homem a isso…”.

Estre trecho da trama é bem forte e um símbolo da culpa cristã jogada sobre as mulheres. Mas também se torna um ponto de virada para a personagem – que se liberta, momentaneamente, de seus pudores e tem um caso com Lancelot.

“Deus não me compensou pela minha virtude. O que me faz pensar que ele poderia me castigar? E teve, em seguida, um pensamento que lhe deu medo: Talvez não exista Deus, nem qualquer dos deuses que as pessoas acreditam. Talvez seja tudo uma grande mentira dos padres, para que possam dizer à humanidade o que fazer, o que não fazer, no que acreditar, dar ordens até mesmo ao rei.”

Para evitar que a “vergonha” da traição caia sobre o irmão, Morgana conspira com Elaine para forçar um casamento entre esta, dama de companhia da rainha, e Lancelot. Então, como Viviane antes dela, Morgana interfere no destino das pessoas próximas a si em nome do bem do reino.

Passamos a entender um pouco melhor as falhas e frustrações de Gwenhwyfar, pois o foco da narração intercala entre ela e Morgana, fazendo mais uma vez os contrapontos entre seus diferentes pontos de vista, numa alegoria das mudanças e contradições sociais e religiosas daquele tempo encarnada nessas personagens. Assim como o povo que continua realizando alguns ritos pagãos apesar da cristianização – como a escolha da Virgem da Primavera: uma jovem é escolhida para percorrer os campos em procissão ao mesmo tempo em que os padres abençoam a terra.

Depois do casamento de Lancelot, a rainha se volta novamente para a religião e, numa tentativa de expurgar o pecado de sua vida, conta para Artur o segredo de Morgana e insiste que ele o confesse para o bispo, penitenciando-se e colocando-se (e ao reino) nas mãos dos padres – o que é um prenúncio do que ocorrerá no futuro com os Estados europeus.

Morgana, por sua vez, casada agora com o rei Uriens, pensa em restaurar os velhos ritos, pois fez as pazes com a antiga religião e volta às suas práticas.

“Se eu tivesse me casado com ele na idade certa, Gales do Norte talvez nunca tivesse se tornado cristã. Mas ainda não é tarde demais. Há os que não se esqueceram de que o rei ainda traz, embora desbotadas, as serpentes de Avalon em seus braços. E casou-se com uma mulher que foi sacerdotisa da Senhora do Lago. Eu poderia ter continuado a sua obra aqui melhor do que durante todos aqueles anos na corte de Artur, à sombra de Gwenhwyfar.”

E vamos nos encaminhando para o quarto e último livro da série, O Prisioneiro da Árvore: as religiões e seus praticantes se misturando e o reino, agora em paz com os saxões, na iminência de uma guerra com Roma.

*

Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

Projeto Leia Mulheres

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A Grande Rainha – As Brumas de Avalon

A Grande Rainha

Igraine pôs de lado o bordado. Afinal de contas, não estava manchado; as lágrimas vertidas pelas mulheres não deixam marcas no mundo, pensou com amargura.”

Neste segundo grande capítulo de As Brumas de Avalon, Gwenhwyfar e Morgana polarizam a história. Uma representando o cristianismo, a outra, a velha crença. Uma, recatada e reprimida pelos pudores da religião, a outra, senhora de si e de suas paixões. Uma, como símbolo de Camelot, a outra, de Avalon…

Poderíamos seguir com muitos mais exemplos, pois este contraste entre as personagens reforça a imagem de como o cristianismo – guiado por homens – podou o feminino, tornando-nos paranoicas e receosas de nossos próprios corpos. Tema representado por toda a falta de confiança em si mesma que Gwenhwyfar mostra durante boa parte da trama.

Morgana é o contraponto a esta representação, personificando a luta pelo direito ao feminino como forte, como o próprio direito a vida. E, mesmo com inseguranças normais a qualquer pessoa, segura de si e do direito a usufruir de seu corpo conforme sua vontade.

– Sua voz é linda, irmã. Você aprendeu a cantar assim em Avalon?

– Sim, minha senhora, a música é sagrada. Não aprendeu harpa no convento?

– Não, pois parecia impróprio a uma mulher erguer a voz ante o Senhor – respondeu Gwenhwyfar com um recuo.

– Vocês, cristãos, gostam demais da palavra impróprio, especialmente se no que se relaciona às mulheres. Se a música é um mal, é mal também para os homens. E se é uma coisa boa, não devem as mulheres fazer todo o bem que puderem para compensar o suposto pecado cometido na criação do mundo?

A Grande Rainha

Camelot

Seguindo a forma do Livro 1, continuamos a conhecer a lenda do rei Artur pela visão de suas heroínas – Gwenhwyfar, sua esposa; Igraine, sua mãe; Viviane, a Grande Sacerdotisa de Avalon e sua tia; e Morgana, Senhora do Lago e sua irmã – nas terras que mais tarde se tornariam a Grã-Bretanha – sua luta contra as invasões saxônicas e seu esforço para unificar o reino.

É neste Livro 2, por exemplo, que Artur transfere a corte para Camelot por questões estratégicas de guerra, por ser um território mais fácil de defender do que as terras da antiga capital do reino, Caerleon.

Livro 2

Como prelúdio desta jornada, acompanhamos a gravidez de Morgana. Para esconder de todos sua condição, ela foi para o Norte, ficar com a tia Morgause, que não a julgaria. Ainda assim, não confia o suficiente para se abrir, para contar quem é o pai e por que algo que poderia ser uma dádiva é tão doloroso.

Lot e Morgause fazem planos para o filho da sobrinha. A criança é rival de seus próprios filhos na sucessão ao trono de Artur, já que ele não tem herdeiros. Lot quer aproveitar que Morgana teve um parto difícil e, de alguma forma, usar esta circunstância como desculpa para matar a criança, mas, por alguma razão não totalmente explicada, Morgause não o faz.

A Grande Rainha

Filha do rei Leodegranz, seu pai faz um acordo com Artur para que se case com ela. Gwenhwyfar, entretanto, tem medo dos planos do pai, tem medo de espaços abertos, tem medo das mudanças que estão prestes a acontecer… Ela parece estar sempre assustada e com medo de tudo e de todos.

Da forma como são descritas as suas fobias, parece que ela tem agorafobia, por isso vive presa entre os muros do castelo e, talvez, isto seja uma metáfora para as paredes de uma prisão ideológica – religiosa – em que o cristianismo a confinou.

Conforme a narrativa avança, outras pressões fazem com que a rainha não seja tão severa quanto à religião, mesmo tendo sérias discussões com Artur sobre pagãos x cristãos, em certo momento da história pede um talismã ou feitiço à Morgana para ter um filho, posto que uma de suas (poucas) funções como rainha é dar um herdeiro para o reino.

Gwen é uma personagem que está sempre em conflito entre os seus desejos mais íntimos e suas convicções religiosas. Nisto, ela e Morgana são parecidas – pois as duas acreditam que as coisas ruins que lhes aconteceram são resultado de terem falhado cada qual com a sua fé.

À volta dela, a noite parecia respirar tristeza e desalento.

Por quê?, perguntava-se Gwenhyfar. Artur está feliz. De nada pode me censurar. De onde vem essa tristeza que paira no ar?

A velha e a nova religião

Artur jurou proteger Avalon, mas escolhe para esposa uma mulher cristã. O que é mais um indício do conflito de fé naquelas terras e nos corações dos personagens.

Tanto assim, que o rei escolhe como dois de seus conselheiros o Merlin e padre Patrício, que estão sempre discutindo assuntos religiosos. O mago sempre mais tolerante quanto à intolerância do padre. O livro é pautado por estes debates teológicos como se fossem personificações dos sentimentos contraditórios dos outros personagens que estão ao redor.

Representando a nova ou a velha religião, porém, ninguém está (ou estará) como ou com quem realmente queria, estão todos servindo suas vidas ao reino e, consequentemente, aos seus deuses. Este é o peso da crença, seja ela qual for.

Mas também há uma passagem muito bonita na narrativa quando cristãos e pagãos abandonam suas diferenças e se deixam levar pela beleza da arte, da música:

Levou as mãos às cordas e começou a tocar. Gwenhwyfar ouvia, encantada, e suas servas aglomeraram-se na porta para ouvir também, sabendo que partilhavam de uma exibição real. Ele tocou por muito tempo na penumbra que se intensificava, e, enquanto ouvia, Gwenhwyfar sentiu-se transportada para um mundo em que pagão ou cristão era a mesma coisa, guerra ou paz também, mas onde apenas o espírito humano, flamejando contra as trevas como uma tocha sempre acesa, tinha valor. Quando as notas da harpa finalmente silenciaram, ela não podia falar, e viu que Elaine chorava em silêncio.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

A mulher desiludida

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