Sua Majestade, O Computador

Computador antigo

Escrito por Darci Men

“A maior chance de uma catástrofe humana de grandes proporções acontecer não está em eventos da natureza, tais como: enchentes, vulcões, meteoros e etc., nem nas previsões apocalípticas do incrível povo Maia e nem ainda de uma guerra nuclear. A grande catástrofe seria uma pane generalizada dos computadores.”

Li por acaso esta frase de autoria de um tal de Russev, um búlgaro que se apresentou como um parente distante da nossa presidente Dilma Rousseff.

A princípio pensei comigo: “Este cara está doido! Computador basta desligar da tomada e fica mais ‘murcho’ que pau de velho, quer dizer, depende do velho…!”

computador antigo

Mas será isso mesmo? Pensando melhor, o problema está no contrário disso, ou seja, quando ele deixa de funcionar ou funciona mal!

Logo me lembrei do famoso “Bug do Milênio”: a passagem do ano 1999 para 2000.

Na época, os computadores tinham pouco espaço para armazenar dados e os programadores usavam as datas com apenas seis dígitos, assim: dd/mm/aa e aí estava o problema, já que o ano 2000 terminava em “00”, mais os anos 1800, 1900 e etc. também, então, como os computadores iriam identificar a data correta?

A questão quase chegou a um pânico generalizado, todas as empresas e governos de todo o mundo começaram uma corrida contra o tempo para reprogramar seus computadores.

Para alegria dos programadores de plantão, foram gastos milhões e milhões de dólares nessa tarefa.

Mesmo assim, as previsões eram catastróficas: alardeavam panes generalizadas nos setores de energia, telefones, bolsas de valores, bancos, aviões caindo e por aí vai…

Eu mesmo tive que pagar a minha parte: na madrugada do dia 01/01/2000, dia do meu aniversário, quando todos comemoravam um réveillon especial da passagem do milênio, eu, e mais uma centena de funcionários fazíamos testes e mais testes nos computadores.

Felizmente tudo deu certo, mas ficou o alerta.

Dia desses, já no final do expediente, estava eu atrasado com os serviços do dia, “trocentas” coisas para fazer e inúmeras contas para pagar via internet, quando a energia deu uma “piscadela”.

Foi o suficiente para o computador desligar e, mesmo com a volta da energia, não queria “abrir” novamente.

Depois de inúmeras tentativas a paciência se esgotou e tive vontade de dar um belo pontapé naquela caixa preta insensível, mas não podia fazer isso, dependia dele!

Cheguei a lembrar de uma frase que minhas netinhas costumam falar nessas horas: “Meu amor, minha vida, minha privada entupida.” 

Aquilo era um pesadelo, estava quase desistindo quando fiz uma última e desesperada tentativa: olhei fixamente para aquela caixa preta, com seus leds “piscolando”, passei a mão carinhosamente sobre seu dorso gelado e falei, quase suplicando:

— Magnânima Majestade, ajude esse seu servo flagelado, funcione, por favor!

E não é que o danado atendeu as minhas preces e voltou a funcionar.

Que a paz esteja com todos e que fiquem livres da tirania dos computadores.

Amém.

A morte do meu pior inimigo

A morte do meu pior inimigo, por Darci Men

por Darci Men

Estávamos reunidos naquele hotel para um workshop de quatro dias.

Éramos ao todo 20 pessoas, todos gerentes de várias empresas áreas e o objetivo era discutir temas relacionados ao nosso cargo, tais como: Liderança, Relacionamento Interpessoal, Produtividade e coisas do gênero.

No segundo dia, logo pela manhã, encontramos afixado na entrada do auditório o seguinte comunicado:

“LAMENTAMOS COMUNICAR QUE FALECEU HOJE UMA PESSOA MUITO PRÓXIMA A TODOS NÓS. PORTANTO TODOS DEVEM PERMANECER EM SILÊNCIO NO AUDITÓRIO E AGUARDAR INSTRUÇÕES”.

Entre todos os presentes a pergunta era:

— Quem morreu? Alguém sabe alguma coisa?

Ninguém sabia! O tempo foi passando e a ansiedade de todos aumentando, pairava no ar aquele clima tenso, preocupado e até desesperado de uns.

Só depois de 30 minutos entrou um dos monitores e quase um tumulto se formou, todos perguntando ao mesmo tempo:

— O que aconteceu? Quem Morreu?

O monitor então falou:

— Calma pessoal, vocês logo saberão. O caixão está na sala ao lado. Vocês poderão vê-lo, mas a visitação será efetuada de um em um para evitar tumulto. 

Assim foi feito e aquela espera parecia uma eternidade, cada um que retornava
daquela sala voltava em silêncio e com o semblante “pesado” como se tivesse sido atingido pela mais grave tragédia.

Por mais que os outros perguntassem, nenhum deles falava o que tinha visto, aumentando ainda mais a ansiedade dos demais.

Fui um dos últimos a entrar naquela sala. O clima era de “arrepiar”: a sala quase na penumbra, só com as luzes das velas, o ar impregnado com o odor das velas e o perfume de flores e um som ambiente com uma música funesta dava aquela sensação característica dos velórios.

O caixão de uma cor marrom escura bem no centro da sala, apoiado por suportes ornamentados, estava fechado e com apenas um grande visor em sua cabeceira, estava cercado por diversos pedestais com velas acessas e, em todo canto da sala, enormes corroas e
vasos de flores.

Confesso que “gelei”, mas fui em frente e quando olhei pelo visor do caixão a enorme surpresa: dentro do caixão estava o meu próprio rosto, fechei os olhos e abri novamente, apesar da pouca luz, não havia dúvidas, era eu.

Voltei o corpo e na minha cabeça várias perguntas: “Estou morto? Estou sonhando?”.

Naquela altura dos acontecimentos, fiquei sem saber o que fazer e virei para os lados procurando ajuda de alguém, mas estava sozinho naquela sala. Queria olhar novamente dentro daquele caixão, mas alguma coisa me impedia.

Depois de algum tempo criei coragem e olhei novamente e só então é que compreendi: naquele visor, ao invés de um vidro transparente, existia um espelho.

Ao sair da sala um monitor me orientou a retornar ao auditório e não contar a
ninguém o que tinha visto.

Depois do retorno do último visitante ao “defunto” é que nos foi esclarecido o motivo de tudo aquilo, ou seja:

— O OBJETIVO DESTA ENCENAÇÃO É PARA VOCÊS REFLETIREM E NUNCA ESQUECEREM QUE O PIOR INIMIGO DE VOCÊS NÃO É O SEU CHEFE, SEU PATRÃO, SEU VIZINHO, O MOTORISTA DO CARRO AO LADO OU QUALQUER OUTRA PESSOA. O SEU PIOR INIMIGO É VOCÊ MESMO, PORTANTO DEIXE PARA SEMPRE NAQUELE CAIXÃO O SEU LADO NEGATIVO.

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A sombra do burro

A sombra do burro
Relatado por Darci Men

Demóstenes (384-322 a. C.) foi o maior orador ateniense.

Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria, Demóstenes viu-se em apuros pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo.

Então, elevando a voz, disse que tinha uma história interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

— Certo jovem, precisando ir de sua casa até Megara durante o verão, alugou um burro, mas, antes de sair, o sol ficou a pino, muito quente, tanto o moço como o dono do animal alugado, queriam usar à sombra do burro e começaram a discutir quem ficaria com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não sua sombra, e o outro afirmava que, quando pagou o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura, Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se.

A multidão logo protestou desejosa de ouvir o resto da história. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, encarou com firmeza o auditório, dizendo:

— Atenienses! Que espécie de homens sois que insistem em saber a história da sombra de um burro e recusas tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pôde fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da história da sombra do burro.

Até hoje os oradores usam deste expediente quando necessitam atenção da plateia.

Algo parecido aconteceu comigo.

Certa vez fui designado para dar uma palestra sobre segurança patrimonial e pessoal para funcionários de agências do Banco onde trabalhava.

Acontece que o organizador do evento designou-me para falar após a palestra do Professor Marins, um catedrático em comunicação e o homem foi fantástico, e no “Cofee Break” (parada para o café) que seguiu a sua apresentação todos comentavam a sua atuação.

Aí percebi a “roubada” em que tinha entrado: tinha de falar de um assunto chato, não era especialista nisso e falaria logo após aquele show do Professor Marins, e fiquei pensando: “Tenho que apresentar alguma coisa especial ou estou perdido!”

Por sorte lembrei-me de algo que tinha visto nos jornais da época e acabei “salvando o dia”, comecei a palestra nos seguintes termos:

“Pessoal, falar de segurança após esse show do Professor Marins, me fez sentir como o 8º marido da Elizabeth Taylor na noite de núpcias, ele deve ter pensado: ‘O que vou fazer agora para satisfazer essa mulher!’”

Todos aplaudiram e a partir daí tudo ficou mais fácil e no final da palestra o próprio Professor Marins fez questão de me cumprimentar.

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A Lenda do Aparecido

A lenda do Aparecido
Escrito por Darci Men

    Naquela tarde de dezembro de 1974, em uma estrada de terra cheia de buracos e perigos, Seu Quitério, como era conhecido, dirigia sua Perua Rural com todo o cuidado.

Estava feliz e preocupado ao mesmo tempo.

Feliz porque, ao seu lado, juntamente com sua esposa Rosa, estava a sua bela filha Elisabete, a Beta, de 22 anos, depois de um longo período estudando na Faculdade da capital, finalmente ela retornava para sua casa, uma fazenda de gado nos confins da região sul da Selva Amazônica.

Preocupado porque ainda tinha que percorrer mais de 300 km por aquela estrada esburacada e deserta, no meio de uma floresta densa e perigosa, onde a casa mais próxima ficava a, pelo menos, 20 km, além disso, aquela era uma época de chuvas na região e as nuvens escuras e ameaçadoras mostravam que não demorariam a cair e o que mais o preocupava era o horário, pois a noite já estava chegando, tornando a viagem mais perigosa ainda.

As mulheres conversavam animadamente, cada uma contando as suas novidades, enquanto Seu Quitério, já com 50 anos, permanecia calado, alternando suas preocupações com as lembranças da sua vida atribulada e vencedora.

Ele tinha vindo do sul do país e, ao contrário da maioria daqueles que se aventuraram por aquelas bandas, tinha vencido todos os obstáculos e era agora uma pessoa muito respeitada na região, não só pelas muitas propriedades que possuía, mas, principalmente, porque era um trabalhador incansável, justo e honesto.

O casal só teve dois filhos, mas o primeiro, um menino alegre, contraiu uma doença grave e faleceu antes de completar 12 anos.

Seu Quitério, então, não mediu esforços para que a filha Beta estudasse na melhor Faculdade da região e agora ela retornava para casa formada em Medicina e já faziam planos de montar uma clínica médica, tão carente por aqueles lados.

De repente um imenso clarão surgiu no horizonte e os três ocupantes daquele veículo ficaram quietos e amedrontados. Logo Dona Rosa perguntou:

— O que foi isso Quitério? Foi um raio?

— Não sei não Rosa. – Respondeu Quitério, com ar de preocupação. — Raios fazem barulho e não ouvi nada! Muito estranho!

O instante seguinte foi mais inexplicável ainda, parecia que o tempo tinha parado: os pássaros não voavam nem cantavam, as árvores não balançavam e até o vento parecia não soprar mais.

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Maria Louca

Maria Louca, por Darci Men

Escrito por Darci Men

Sentado na varanda da sua velha casa, em uma cadeira improvisada e amarrada com cipó da floresta, seu Nhonhô, como é conhecido por todos da região, apreciava o “vai e vem” de máquinas, caminhões e pessoas em direção as obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em plena floresta Amazônica.

Seu Nhonhô é o típico “barranqueiro”, como são conhecidos os moradores das margens dos rios amazônicos, mas com uma particularidade única: em uma região inóspita, onde a expectativa de vida é de, no máximo, 60 anos, aquele senhor ainda lúcido tem o dobro ou mais disso.

Ninguém, nem mesmo ele, sabe direito sua idade, quando lhe perguntaram se tem algum documento para ver sua idade, o velho ancião respondeu:

— Não tem não, sinhô. Perdi quando era moço, minha canoa aborcou – virou – no Rio Mamoré, perto do Forte.

Com o corpo “arcado” pelo tempo, a pele enrugada e as mãos trêmulas, mas com uma lucidez de fazer inveja às pessoas que o rodeavam, ele comentava com seu sotaque único e uma voz rouca e cansada:

— Apois pessoar, tanta bandaieira assim eu só vi nos tempo da “Maria Louca”. – Aponta o seu dedo trêmulo para um capão de mato e continua: — Ela vinha por aquele córgo – riacho –, toda cheia de trique-trique e não tinha arma viva que não parava pra ver ela passá, até o prégo – macaco prego – parava de brinca na castanhera – Castanheira (árvore típica da região).

As pessoas presentes se entreolharam, como se perguntando: “Quem é essa tal de Maria Louca?” Alguém logo esclareceu:

— Não se trata de D. Maria I, mãe de D. João VI, que também tinha esse apelido, nem tampouco de uma mulher. Maria Louca, ou Mad Maria, na versão mais sofisticada do escritor Márcio de Souza e também de uma mini-série da Rede Globo, era o apelido das locomotivas da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Esse apelido, que no sul do Brasil é carinhoso (Maria Fumaça), lá é pejorativo mesmo, devido às grandes dificuldades encontradas para a construção e operação da estrada e, principalmente, ao grande número de mortes na sua construção, gerando também outros apelidos, tais como: Estrada da Morte, Estrada do Diabo e assim por diante.

Demonstrando a incrível lucidez daquele ancião, que ouvia atentamente a conversa, ele comentou:

— Esta floresta não é de brincadeira seu moço, já venceu muita gente grande e continua braba. Meu pai, que era um caboclo valente e conhecia essa mata como ninguém, morreu quando abria picada – caminho no meio do mato – para a Estrada da Maria Louca.

Alguém logo perguntou:

— Ele morreu de malária, seu Nhonhô ?

Milhares de trabalhadores morreram disso na época da construção da estrada.

— Não, sinhô. – respondeu o ancião — Uma onça pegô ele, mas ela morreu primeiro! – afirmando com orgulho: — Meu pai furô ela todinha com a faca.

Ouvindo essas histórias e vendo o atual abandono dessa estrada, vem a pergunta: “O que levou o governo brasileiro a gastar milhões em uma obra ‘faraônica’, ‘ligando o nada a lugar nenhum’ (estima-se que na época foram gastos o equivalente a 28 toneladas de ouro), ao custo de tantas vidas e considerada uma das maiores do mundo para a época, inclusive comparada com a construção do Canal do Panamá?”

A resposta parece simples: Questão econômica. Mas foi só isso?

Na época, praticamente todo transporte da região era efetuado através dos rios, mas naquele local especificamente existia um problema: as grandes cachoeiras do Rio Madeira (onde atualmente estão em construção as Usinas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio).

Isto inviabilizava o transporte fluvial de um produto com alto preço no mercado internacional e abundante na região, o látex (ou borracha).

Era necessário encontrar uma maneira de transportar essa riqueza e, em 1.867, o Imperador D. Pedro II criou uma comissão para estudar a viabilidade de construir a estrada que foi logo descartada devido as dificuldades.

Mais de cinco anos depois, uma empresa inglesa, a Public Works, assumiu o “risco” de fazê-la, mas devido as dificuldades, principalmente as doenças, abandonou o projeto menos de um ano depois, sem construir um metro sequer.

O contrato foi transferido para outra empresa inglesa, a Reed Bross. E Co., que também não construiu nada e a questão foi parar nos tribunais, anulando-se o contrato em janeiro de 1877.

No ano seguinte, em 1878, novo contrato foi firmado com a empresa americana Phillip e Thomas Collins, que criou a Madeira Mamoré Railway, especialmente para construir a estrada. No mesmo ano, a empresa teve um de seus navios a vapor naufragado, o Metrópolis, matando 80 pessoas e perdendo todo o material que transportava.

No ano seguinte, o próprio Collins foi atacado por índios e sobreviveu por pura sorte; sua empresa faliu com apenas sete quilômetros de trilhos assentados. Tudo foi abandonado novamente.

Nesse período ocorreu a guerra entre a Bolívia e o Chile, tendo a primeira perdido o temad mariarritório que dava aceso ao Oceano Pacífico, passando a depender do transporte fluvial para o Oceano Atlântico através dos rios amazônicos: Mamoré, Madeira e Amazonas. Mas as já mencionadas cachoeiras do Rio Madeira eram o grande problema, sem contar a floresta densa, os índios, as doenças e, principalmente, os conflitos com os brasileiros da fronteira.

Em 1.899 ocorreu a chamada Revolução Acreana e, para evitar uma guerra de maiores proporções, os governos brasileiro e boliviano assinaram em 17.11.1903, o “Tratado de Petrópolis”, tendo o governo boliviano cedido o território do Acre que lhe pertencia em troca do governo brasileiro construir a Estrada de Ferro de 366 km, ligando Guajará-Mirim, no Rio Mamoré, ao Porto de Santo Antonio, no Rio Madeira (Atual Porto Velho).

A concorrência para o novo contrato foi vencida pelo engenheiro brasileiro Joaquim Catramby, que nada mais era que um “testa de ferro” do mega investidor americano Percival Farguar, este, um polêmico empresário com vários projetos no Brasil e no mundo.

A obra foi alardeada no mundo inteiro como o mais ambicioso projeto do século, mas acabou sendo ofuscada pela construção do Canal do Panamá, que foi efetuada na mesma época.

A construção da estrada durou de 1.909 à 1912, envolvendo mais de 20.000 trabalhadores do mundo inteiro.

Nesse período ocorreram greves, tumultos e muitas mortes (mais de 1.500, sem contar os desaparecidos), intrigas palacianas entre o empresário Faguar e o ministro Juvenal de Castro, do então presidente Marechal Hermes da Fonseca (contrário a construção da estrada) e muitos gastos que levaram à falência da Companhia. (Esse período é demonstrado na minissérie Mad Maria, da Globo).

Mais incrível ainda: assim que a estrada ficou pronta, o preço da borracha despencou, a Bolívia encontrou outro caminho via Argentina, o canal do Panamá passou a operar e fazer concorrência e a operação da ferrovia (o mais ambicioso projeto do século) tornou-se deficitária.

Em julho de 1931, o governo brasileiro assumiu o controle da Ferrovia e, em 1966, depois de 54 anos de prejuízos, foi desativada e substituída por uma rodovia e todo o seu acervo abandonado.

Em 1972 a maior parte desse acervo foi vendida como sucata para uma empresa de Mogi das Cruzes, em São Paulo.

Realmente a Maria Louca merece o apelido que ganhou. Hilariante, não acham?

Seu Nhonhô, em sua simplicidade, falou uma grande verdade: a Floresta Amazônica não é para brincadeiras e já derrubou muita “gente grande”, que o digam Henry Ford (Fodlândia), Daniel Ludwig (Projeto Jari), Percival Farguar, entre outros que a desafiaram e perderam, sem contar os governos do Brasil, que investiu milhões em troca de um monte de ferro velho e da Bolívia que cedeu território em troca de nada.

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O pescador

Veraneio
Baseado em fatos reais

A relação do homem com os peixes é tão antiga quanto a própria história da humanidade.

Mas o que eu pretendo é contar um pouco da história de um pescador recreativo, ou seja: aquele que pesca por prazer, além de prestar uma homenagem a uma pessoa incrível que, com sua simplicidade e seu jeito de ser, ensinou-me belas lições de vida.

Trata-se de José Martinez Requena, o Pepe (8.10.1917-8.3.1984).

Eu sempre tive a curiosidade de saber por que os espanhóis colocam o apelido de Pepe para quem chama se José, mas nunca dei muita atenção e o tempo foi passando.

A explicação veio por acaso, quando, certo dia, um colega me mandou algumas curiosidades e entre elas dizia:

“Nos conventos da Idade Média, durante a leitura das Escrituras Sagradas, ao se referir ao São José, diziam sempre: Pater Pretativos, ou seja: Pai Suposto e abreviavam para P.P. Assim surgiu o hábito, nos países de colonização espanhola, de chamar o José de Pepe”.

Pepe nasceu na Andaluzia (Andalucía para os castelhanos), uma província ao sul da Espanha e próxima de Portugal.

É uma região antiguíssima e lá viveram fenícios, gregos, cartagineses, romanos, vândalos, visigodos e, principalmente, os muçulmanos que dominaram a região por oito séculos e só deixaram a região depois da conquista de Granada pelos “Reis Católicos” em 1492.

Aliás, Andaluzia vem de Al-Andalus, nome dado pelos muçulmanos à Península Ibérica no século VIII.

Sua infância e juventude foram difíceis, pois a região era muito pobre e dominada por latifundiários, militares e pela Igreja Católica, enquanto a população passava fome.

Além disso, era uma guerra após a outra, às vezes pelo poder, como a ditadura de Primo Rivera (1923-1930), outra por questões ideológicas, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), da qual o pobre Pepe e sua família participaram e sofreram coisas terríveis.

Essa guerra simplesmente arrasou toda a Espanha.

Pepe contou-me que os fuzilamentos eram quase diários e os historiadores calculam que ocorreram mais de 400.000 mortes, sendo apenas 1/3 delas na guerra.

A renda per capita caiu em mais de 30%. Aliás, contam ainda os historiadores, que essa foi uma guerra civil “internacionalizada”, pois de um lado Franco, que depois se tornaria ditador por muitos anos, tinha o apoio dos nazistas alemães, dos fascistas portugueses e italianos; e os republicanos contavam com o apoio de Stalin, da União Soviética e de milhares de voluntários esquerdistas de 53 nações de toda a Europa.

Guernica - Pablo PicassoDizem ainda os historiadores que essa guerra foi “alimentada” pela Alemanha e outros países europeus que, após a Primeira Guerra Mundial, “testavam” novos armamentos lá (quem conhece a história da obra prima de Picasso “Guernica”, sabe bem disso).

Nesse “mundo” tumultuado vivia Pepe, até que em 18.1.1942, em Barcelona, casou-se com sua prima, Josefa Perucha de Martinez, a Pepa e, em 2.8.1944, tiveram a primeira filha, Magdalena Martinez Perucha, a Mada.

Em 1950 ele resolveu procurar um lugar melhor para viver, deixou a família em La Carolina, uma cidadezinha da província de Jaén, na Espanha, onde morava e, em companhia do amigo Henriques, partiu para as Ilhas Canárias, mas não gostou de lá e partiu para o Brasil, desembarcando no Porto de Santos em 25.2.1951.

Aqui, em São Paulo, na Vila Diva, começou a trabalhar com móveis e mais tarde montaria uma fábrica de “copas” (móveis de cozinha) e naquele mesmo ano, sua esposa e a filha também vieram para o Brasil e desembarcaram no Porto de Santos em 11.10.1951.

Mais tarde traria também sua sogra, a saudosa Mama Petra – como eles a chamavam (uma verdadeira mãe para ele) –, além de irmãos e cunhada.

Em 25.1.1953 o casal teve mais uma filha, Maria dos Anjos Martinez Perucha, a Angélica, que mais tarde seria a minha esposa.

Pepe tinha uma personalidade única, não era um individualista, mas dificilmente se apegava muito às pessoas e seus amigos eram variados.

PepeefamíliaGostava de festas, mas sempre a seu modo e a “fartura” que alcançou aqui, contrastava muito com a fome que passou durante sua infância e juventude.

Assim, ele vivia promovendo festas com muita comida e bebida.

Ele era um artesão e fazia verdadeiras obras de arte com móveis, gostava de jogar snooker e dominó, neste jogo ele era quase imbatível, mas o que gostava mesmo era de pescar.

Lá pelos idos de 1975, eu ia até sua casa para namorar a Angélica, mas ele me chamava para sua “oficina” de móveis que ficava ao lado e, no meio do galpão, acendia um fogo improvisado e assava uma costela e, entre umas e muitas doses de whisky, ficava me contando suas histórias.

Como já disse, ele adorava pescar, e sempre, mas sempre mesmo, vivia me convidando para ir pescar com ele, mas eu, que não gostava muito de pescaria, sempre adiava.

Claro que nessas ocasiões o que eu queria mesmo era namorar, mas confesso, gostava de ficar conversando com ele e era recíproco, pois em várias ocasiões ele me confidenciava até seus problemas particulares.

Era um péssimo motorista e, certa ocasião, foi levar a família e amigos para uma pescaria na região do Riacho Grande (próximo de São Bernardo do Campo).

Apesar do alerta dos demais passageiros, passou a entrada e quando percebeu já estava no pedágio da Anchieta, parou o carro no meio da estrada e ficou sem saber o que fazer, até que uma viatura da polícia rodoviária o obrigou a seguir em frente e ele teve que pagar o pedágio e retornar quilômetros à frente.

Em outra ocasião foi levar os amigos para pescar em sua Belina novinha e o carro atolou: só puderam resgatá-la dois dias depois.

Outra vez foi pescar de tarrafa (para quem não sabe, a tarrafa é lançada com as duas mãos e com a boca) e, quando foi lançá-la, foi-se junto sua dentadura e, o mais incrível: anos depois ele foi pescar no mesmo local e encontrou sua preciosa dentadura e voltou para casa mostrando para todos a sua façanha.

Um dia, de tanto ele insistir eu aceitei ir com ele pescar. Levei comigo minha mãe e meus dois irmão, ainda garotos.

Fomos com a sua Veraneio lotada, lá pelos “fundos” da Represa Billings e o Pepe que já tinha tomado uma e tantas outras ia, com seu jeitão único, contando um filme do “Gordo e o Magro” que tinha assistido e que, pelo modo como ele contava, ficou gravado na memória de todos.

O filme retratava os dois “heróis” em um trem a vapor fugindo de alguma coisa e como não tinham mais lenha para alimentar as caldeiras, um deles ficava gritando “mais lenha” e o outro passou a utilizar a madeira do vagão até ficar só com a locomotiva.

Pepe, onde você está certamente não tem o whisky que você tanto gostava, mas não vai faltar colega de pescaria. Pra começar, não se esqueça que São Pedro também era um pescador!

Por Darci Men (por enquanto, perdido na selva…)

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Drama do aquário

Drama do aquário, por Darci Men

Era bem relaxante observar naquela casa o aquário de cor violeta onde um peixinho dourado, vindo do Oriente distante, fazia belas evoluções, cortando a água com o seu corpo ágil e elegante que lembrava os grandes artistas circenses.

Durante o dia a luz do sol refletia na água; durante a noite era a grande luminária no teto que se espelhava na água meio turva, dando a impressão de que a lua vinha visitar aquele minúsculo mundo, transformando-o em um lago dourado.

Um dia botaram no aquário um peixe azul, vindo não sei de onde. Era uma criatura esquisita, cara feia, olhar distante e do tipo truculento.

Também sabia fazer suas evoluções, belas piruetas e até saltos espetaculares.

Certa vez, num desses mergulhos, acabou esbarrando no peixinho dourado. Pararam os dois, olho no olho, ambos com rancor latente e falaram os mais horríveis palavrões na língua inaudível dos peixes.

A partir de então, não houve mais paz no aquário. O que para mim fora antes um “lago dourado” em um pequeno e divertido mundo, passou a ser uma arena de combate, um vaso de vidro bojudo, pequeno demais para conter o ódio de dois peixinhos decorativos.

O dourado, como morador mais antigo do aquário, achava que tinha todos os direitos. O azul dizia só reconhecer o direito da força e fazia vagas ameaças.

Certo dia houve uma disputa por uma migalha. O peixe azul, após breve luta, ficou com o troféu. O rival achou deselegante brigar por comida e fez uma retirada estratégica e honrosa, saindo a nadar em serenas rabanadas e olhando com desdém para o seu rival.

Enquanto o peixe azul comia a migalha da vitória, o outro recitava discretamente a história da família.

A sua gente morava nos melhores rios do Japão. O seu avô era o peixe predileto de um mandarim muito importante que o alimentava com as iguarias mais estranhas e delicadas do Oriente.

Seus antepassados todos eram ilustres; a sua ascendência se perdia nas cinzas dos séculos; e era certo que o mais remoto de seus ancestrais tinha nadado feliz nos rios do paraíso terrestre.

O peixe azul resmungou que não era nobre e que não acreditava nessas tolices de antepassados. Não se lembrava de seus pais. Achava até que nunca tivera avós.

Uma noite a luta foi violenta. Eu quis intervir. Cheguei tarde. O peixe dourado estava morto.

Comecei a fazer reflexões amargas. Aquelas duas criaturinhas minúsculas, delicadas, coloridas e ornamentais também conheciam o ódio e a ambição, tinham o seu egoísmo e sua maldade. Que se podia esperar então dos animais maiores?

Inclinei-me sobre o aquário e preguei um eloquente sermão ao peixe assassino sobre a fraternidade e sobre o amor ao próximo. O peixe azul não me deu ouvidos. Nadava imperturbável. Tentando talvez derrubar com uma cabeçada a vidraça que se refletia no vidro do aquário numa mancha luminosa e tortuosa.

Fiz os funerais do peixinho dourado. E nos dias que se seguiram, observando as pessoas daquela casa, compreendi que não tinha razão para censurar o monstrinho azul.

Eu via um marido que odiava a sogra e não vivia em paz com a mulher que, por sua vez, vivia falando alto e aborrecendo todos ao seu redor. Uma sogra que odiava o genro e não compreendia a filha. Uma filha que aborrecia a mãe e não conseguia sequer se relacionar com a própria irmã.

As criaturas não se entendiam. Havia disputas tremendas e um dia a filha arranhou a cara da própria irmã com as unhas aguçadas e vermelhas, na frente das crianças menores.

De manhã discutiam para ver quem sentava no melhor lugar à mesa. À hora do almoço disputavam com palavras ásperas e gestos brutos os melhores bocados. Os dois rapazes se atracavam porque, embora irmãos, pertenciam a partidos políticos inimigos, a clubes de futebol rivais, a sociedades recreativas adversas.

Não havia paz naquele aquário de peixes grandes que não tinham nem ao menos o colorido alegre e a elegância de movimentos dos peixinhos do aquário menor.

Quiseram botar um peixe verde no aquário da sala. Pedi à senhora da casa que não fizesse isso. Era preciso que naquele lugar houvesse ao menos um cantinho onde morassem a paz e a serenidade. Assim o peixe azul ficou senhor do aquário.

E, depois de alguns dias, quando eu o imaginava no melhor dos mundos, descobri-o morto.

Compreendi, ao cabo de fundas reflexões, que os peixes, como os homens, precisam de luta para viver, se não lutam, se não alimentam ódios, se não se agitam, como é que vão ter a certeza de que estão mesmo vivos?

A dona da casa me censurou:

— Está vendo?! O senhor é o culpado. O coitadinho morreu de tristeza por falta de companheiro. Se me tivesse deixado botar o peixe verde…

Então, façamos mais reflexões: será que nós, seres racionais, não somos capazes de viver em “aquários”, onde as disputas sejam resolvidas dentro do bom senso?

Qualquer semelhança com nossa vida real não é mera coincidência.

por Darci Men

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A rebimboca da parafuseta

A rebimboca da parafuseta, por Darci Men

Pouca gente sabe, mas a Rainha Elizabeth II, da Grã-Bretanha, já foi mecânica de automóveis.

Desejando contribuir para o esforço de guerra, em 1.944, a então Princesa, de 18 anos, alistou-se no serviço territorial auxiliar e, para dar o exemplo à população, começou a fazer um curso de mecânica.

ElisabethDurante o curso, aprendeu a montar e consertar viaturas militares. Ela era tratada como os demais, só que dormia todas as noites em um castelo.

No dia do teste final, o Rei Jorge VI, fez questão de assistir e ver pessoalmente a jovem Princesa de macacão, toda suja de óleo, dar partida no carro que acabara de montar.

Para decepção da Princesa o motor não queria pegar (o rei mandara, discretamente, alguém desconectar um cabo).

Revelada a brincadeira, com risadas gerais, o cabo foi recolocado e o motor pegou.

Ela passou no teste e, durante muito tempo, foi mecânica muito dedicada.

Ela pode ter sido mecânica, mas duvido que conheça uma peça de automóvel que só nós brasileiros conhecemos: a famosa “Rebimboca da Parafuseta”.

Cláudio Carsughi, um dos mais renomados conhecedores de carros deste país, assim definiu a tal peça: “Ela é tão importante no carro que, até hoje, nunca ninguém conseguiu vê-la. Por isso diz-se que todo o problema não diagnosticado de um carro, advém da tal peça.”

especialista carrosDizem que o primeiro protótipo dessa peça se chamava “RETRASMÓVEL”, ou seja, “Rebembocadeira de tração automática leve da semidescompressão subatômica móvel.”

Certa vez, meu filho Fernando me ligou, já tarde da noite, todo aborrecido:

— Pai, meu carro pifou! Parece ser um problema elétrico, o motor gira, mas não pega, já examinei tudo e não consigo fazê-lo funcionar.

Eu logo perguntei:

— Tem combustível? Já examinou os fusíveis? Cabos de velas? Carvão do distribuidor? Condensador?

Ele respondeu, mais desanimado ainda:

— Claro que tem combustível e tudo que você falou eu examinei mais de uma vez!

Eu pensei um pouco, não sabia mais o que dizer, até que recomendei:

— Então chama um mecânico.

Ele respondeu de pronto:

carro quebrado— A esta hora, onde vou achar um mecânico?! – E continuou: — O pior é que vou precisar do carro amanhã bem cedo!

Então eu voltei a recomendar:

— Então chama um guincho, traga o carro até aqui, pegue o meu e amanhã eu examino isso para você com calma.

Assim foi feito e logo na manhã seguinte eu fui examinar o carro. Olhei com calma tudo: testei os fusíveis um a um, olhei toda a parte elétrica, examinei o sistema de injeção de combustível, enfim, tudo que eu sabia de carro, mas não consegui resolver o problema. Aí liguei para o meu amigo Carlão, que tem uma oficina bem perto da minha casa:

— Carlão, me ajuda que o carro do meu filho está me dando um “baile”.

Aí lhe expliquei tudo que já tinha feito. Ele veio com um de seus mecânicos e empurrou o carro até sua oficina.

Mais tarde fui buscar o carro. Logo que entrei notei no rosto dele um sorrisinho zombeteiro. Logo perguntei:

— E aí Carlão, consertou o carro?

— Claro! Está perfeito, pode levá-lo.

— E quanto ficou a “bronca”?

— Nada não, fica por conta da nossa amizade!

— Obrigado, mas, afinal qual era o problema?

Ele respondeu na “bucha”:

— Foi a “rebimboca da parafuseta”!

Aquela frase foi como uma senha e logo todos os mecânicos da oficina pararam de trabalhar e se reuniram a nossa volta e começaram as gozações.

mecânicos patetasLogo um deles falou:

— Carlão, explica direito para o rapaz – e com o olhar bastante sério disse para mim: — Olha, na verdade o problema foi no “pináculo descendente distal”, sabe aquele que gerencia a tal da rebimboca!

Outro logo corrigiu:

— Pô, Pedro, assim o rapaz vai ficar mais confuso ainda – e olhando para mim, disse: — Olha, não liga para esse caras, eles só falam “abobrinhas”, na verdade o problema estava no “grampolho do pré-fuxo”, sabe, aquela peça que fica perto da “retranqueta do polidor”, aquela, azulada, ao lado da “riboleta”.

Nessa altura eu pensava “O que fiz para merecer isso?”.

E as gozações continuaram e todos tinham explicações para o problema, foi um festival de termos:

motor rebimboca— Cara, você esta “por fora”, foi um “mosquito tsé-tsé na chupeta do cárter”.

— Que nada, foi o “rolamento da buzina”.

— Olha, eu quase tenho certeza que era o “parafuso regulador do pino bola”.

— Nada disso, eu é que examinei e era o “tensor da bucha do rolamento do escapamento”.

E continuaram indicando o defeito: catraca do pinhão da planetária, birosca do istopô, burrinho mestre dos cavalos do motor, cossecante do ph da água do radiador, turboencabulador da cremalheira ventilada e tantas outras.

Aí não aguentei mais e gritei:

— Podem parar! Afinal vocês vão ou não me explicar qual foi o problema?

fusível oficina carro— Foi o fusível, – disse o Carlão – um único e mísero fusível. – Aí para amenizar as gozações, ele continuou

— É muito raro, mas às vezes isso acontece com fusíveis. O rompimento é tão pequeno que você testa e ele está bom, mas basta ligar na corrente elétrica, ele aquece e “corta”.

Não adiantaram as explicações e até hoje sou obrigado a aguentar as gozações daquele pessoal e, naquela oficina, sou conhecido como o homem da “Rebimboca da Parafuseta”.

Relatado por Darci Men

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A cerveja

bebum

Deusa - Cerveja— É grave doutor?

— Não, se você seguir corretamente as minhas recomendações. Pra começar, o senhor pode esquecer-se da cerveja que tanto gosta! – Disse o médico e continuou: — Pelo menos durante dois anos só vai beber leite.

— Outra vez, doutor?!

— O quê?! O senhor já fez esse tratamento?

— Já. Durante os dois primeiros anos da minha vida.

Essa piadinha ilustra bem a fixação que os homens têm pela cerveja, essa bebida que, sem sombra de dúvidas, é uma preferência mundial.

Dizem que a cerveja é uma das primeiras bebidas alcoólicas produzidas pelo homem e, historicamente, existem registros do uso da bebida desde 4.000 anos a. C., quando os sumérios já adoravam a “loirinha”. Só não sei se na época ela era “loirinha”, mas não importa, o fato é que eles adoravam e até tinham uma Deusa da Cerveja, chamada “Ninkasi”. Nos dias de hoje, as “deusas” são outras: geralmente aquelas modelos seminuas que fazem as propagandas de cerveja.

Ramsés - Faraó - CervejaTem até um Faraó do Egito que ficou conhecido como o Faraó-Cervejeiro. Ramsés III (1.184 – 1.153 a. C.), para acalmar os Deuses, doou ao Templo de Amon cerca de um milhão de litros de cerveja (como bebiam esses deuses!).

O Famoso Código de Hamurabi, do Rei da Babilônia (aproximadamente 1.750 a. C.), já incluía leis de comercialização da cerveja. Também não sei se existia competição entre os fabricantes, nem se faziam propagandas, do tipo: “Cerveja que desce redondo” e coisas do gênero, mas já tinham marca. Isto ficou comprovado depois que arqueólogos encontraram ânforas com o símbolo do fabricante da cerveja.

Já os antigos romanos não gostavam muito de cerveja que era considerada a bebida da plebe e dos bárbaros.

Na época de Jesus, a cerveja era consumida nas refeições em grande escala, principalmente nas casas dos menos “abastados”, não como bebida alcoólica, mas como acompanhamento da refeição.

Bem, o fato é que a cerveja tornou-se uma “companheira” dos homens de hoje e não pode faltar nas reuniões sociais ou mesmo nos encontros casuais. Já inventaram até o Dia da Cerveja (às sextas-feiras) e tem até aquele que afirma:

— Cerveja faz mal, meu! Quando falta!!!

E aquele outro que afirma orgulhoso:

— Depois de mulher, a coisa que mais gosto é de cerveja! Não gosto de dinheiro, tanto que, quando tenho algum gasto logo com cerveja!

Outro mais radical aconselha:

— Evite a ressaca da cerveja, mantenha-se bêbado.

Ou ainda:

— Não maltrate o amante da cerveja, encaminhe-o ao bar mais próximo.

E aquele que perguntou:

— Cerveja mata?

O outro respondeu:

— Sim! Sobretudo se a pessoa for atingida na cabeça por uma caixa de cerveja ou ainda por infarto no miocárdio, caso um velhinho mais afoito olhar aquelas modelos deslumbrantes seminuas, fazendo propaganda de cerveja.

Mas falando de cerveja, não poderia deixar de mencionar o meu amigo e compadre Tuca (um verdadeiro amante da cerveja).

Anos atrás ele tinha um bar perto da minha casa e meu cunhado Rinaldo, outro amante da “loirinha”, veio me visitar e eu o levei ao bar do Tuca. Aliás, falando do Rinaldo, acho que ele deve ter incorporado algum espírito romano, pois atualmente só fala de vinhos, coisas dos amantes do álcool.

Mas vamos ao Tuca. Assim que chegamos ao seu bar, ele abriu duas garrafas de cerveja e três copos (ele era assim, servia o cliente e se servia também).

Depois de quase uma dúzia de garrafas vazias, acabamos os três bêbados ou “borrachos” como falam os espanhóis e ficamos os três cantando aquela música da Elizeth Cardoso: “Eu bebo sim! / Eu tô vivendo / Tem gente que não bebe / E tá morrendo”…

Algum tempo depois chegou minha irmã e minha mulher e nos “convidaram” a ir para casa, deixando o pobre Tuca desolado de perder os companheiros de bebedeira e o Rinaldo foi cantando o Hino Nacional de trás para frente.

Outra do Tuca aconteceu no último dia 31 de dezembro, quando fomos a um churrasco na casa de um amigo.

O Tuca “deu um jeito” de eu levá-lo no meu carro. A intenção era clara: sem precisar dirigir, ele podia tomar todas e mais um pouco.

O pior é que no dia seguinte fomos ao apartamento de outro amigo para um almoço e ele me “tapeou” de novo e tive que levá-lo novamente.

Finalmente uma piadinha para descontrair:

Duas formigas japonesas encontraram na rua, ao mesmo tempo, uma latinha de cerveja com restos do precioso líquido.

Como sempre faz, a cerveja acabou “atiçando” a amizade das duas até que uma perguntou a outra:

Fu Miga— Qual é o seu nome?

— Fu.

— Fu o quê?

— Fu Miga.

— E o seu nome, qual é?

— Ota.

— Ota o quê?

— Ota Fu Miga.

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