O Prisioneiro da Árvore – As Brumas de Avalon

Eu chamei pela Deusa e a encontrei em mim mesma.

Chegamos ao último capítulo da saga de Artur e, aqui, mais uma vez, conhecemos a trajetória desse lendário rei pelos olhos e vozes das mulheres que participaram dessa história. Neste livro em específico, a maior parte da narração é de Morgana, mas também ouvimos as vozes de Gwenhwyfar, Morgause e Nimue. 

Gales do Norte

Adentramos novamente esta saga em Gales do Norte, onde conhecemos um pouco da rotina de Morgana como rainha do rei Uriens:

[…] Nas longas e solitárias estações, Morgana experimentara temores e dúvidas permanentes; não era ela, então, mais do que a imagem feita por Uriens: uma rainha solitária que envelhece, corpo e mente e a alma secando e murchando?

Mesmo assim, manteve sua mão com firmeza nesse trabalho doméstico, assemelhando-se a uma camponesa ou a uma cortesã a quem todos deveriam recorrer, em busca de conselho e sabedoria. […]

Nesse local, as antigas e novas tradições se toleram e convivem em paz, pois, apesar do rei ter se convertido ao cristianismo e seguir as orientações de Camelot, ele não reprime aqueles do povo que ainda praticam velhos rituais.

Isso se dá também porque o povo da região sabe que sua rainha, Morgana, é uma representante dessas tradições. Um exemplo dessa convivência e de como o povo mistura as crenças sem julgamentos é que sua nora, Maline anseia por ter um menino, então pede uma simpatia à sogra “feiticeira”, mesmo sendo cristã. 

Camelot 

Na corte, reencontramos o novo Merlin, Kevin, que parece não ter o mesmo trato ou delicadeza de seu antecessor, Taliesin. No entanto, assim como o antigo Merlin, ele também acredita que ainda que os deuses sejam adorados com outros nomes, são os mesmos tanto na ilha quanto no reino, por isso, crê que as sagradas regalias (o cálice, o prato e a lança) devem ficar no mundo dos homens, pois o tempo da tradição de Avalon já passou.

Num jantar apenas para os parentes e amigos próximos antes da festa de Pentecostes, vários acontecimentos são relembrados e velhas feridas são reabertas e cutucadas. Esse imenso diálogo-jantar serve como uma retomada dos acontecimentos dos outros livros para que o leitor se situe no momento em que estamos da história.

É nesse jantar ainda que Morgause leva Gwydion para o apresentar à Corte; e todos se surpreendem com sua semelhança física com Lancelot. Alguns acabam desconfiando que o cavaleiro seja seu verdadeiro pai, outros apenas lembram que ele e Morgana são primos e isso talvez explique sua aparência. Gwydion, chamado de Mordred pelos saxões, aparentemente segue os ensinamentos de Avalon, mas tem ambição de subir ao trono de Artur. 

Durante as demonstrações de cavalaria, há uma continuidade dos diálogos do jantar, desta vez, no entanto, servem ao leitor não como rememoração das coisas que aconteceram, mas como indícios das intenções e dos embates que se desenham entre as personagens.

Um desses embates acontece quando Gwydion desafia Lancelot e acaba fazendo com que lhe concedam a ordem da cavalaria, tornando-se oficialmente um dos cavaleiros do rei. Isso permite que ele passe mais tempo na corte e tente influenciar seu pai biológico.

Uma detalhe interessante desse volume é que os narradores dizem em determinado momento que, como não há mais guerras, o rei entretém o povo com as cerimônias religiosas e comemorações em sua própria homenagem, o que ajudou a construir no imaginário da população a aura que existe em torno da lenda do rei Artur.

Excalibur

Morgana ainda se sente incomodada com o fato de Artur ter quebrado a promessa feita à Avalon, por isso, arma um plano para que Acolon, filho do meio de Uriens, o enfrente e tome a Excalibur. 

Com a desculpa de irem todos para Tintagel, defender os interesses de Morgana contra o cuidador do local, ela leva todos para o país das fadas através da neblina.

Lá, ela e a rainha do lugar nublam a mente de Artur e entregam a espada para Acolon. Quando Artur consegue se libertar do feitiço, luta contra Acolon. Protegido pela magia da espada, num primeiro momento, o enteado e amante de Morgana parece sair vitorioso, mas o rei consegue retomá-la e o mata.

Acolon é enviada à corte morto e tido como traidor. Artur fica na ilha dos padres se recuperando dos ferimentos, mas ele e Uriens sabem que foi Morgana quem orquestrou o ataque. Assim, com todos os seus planos despedaçados, ela foge.

No caminho, porém, ela visita o irmão. Com medo de que a espada e Artur tenham se tornado um só, ela rouba apenas a bainha e a joga no lago. De lá, vai para Tintagel e se isola do resto do reino e das pessoas, pois acredita que falhou com a deusa e, por isso, ela a abandonou.

Sagradas regalias

Depois de algum tempo, Kevin visita Morgana para pedir que volte à Avalon: a ilha se perderá nas brumas em breve, e o Merlim acredita que esse seja um bom destino para ela também: se perder nas brumas com sua ilha sagrada.

Seguindo os conselhos de seu antigo amante, ela vai e lá vive em paz por algum tempo até que um dia, Raven, que havia feito voto de silêncio, grita diante de uma visão da destruição de Avalon e Camelot. Ao consultar o poço para confirmar a profecia, as sacerdotisas veem Kevin entregando as sagradas regalias para o bispo Patrício, que pretende consagrá-las numa cerimônia cristã. 

Para impedir o que acreditam ser uma profanação do cálice, do prato e da lança, Morgana e Raven vão até Camelot e lançam um encantamento durante a consagração dos objetos, assim, Morgana acaba, de certa forma, participando da consagração, pois cada um dos participantes, inclusive o povo que assistia à cerimônia, tem uma visão diferente de acordo com suas crenças – e é assim que a deusa (vida) é venerada: por vários nomes e de várias formas.

Gwenhwyfar, por exemplo, vê a deusa em Morgana, mas para que essa visão caiba em sua crença, ela mistura essa imagem com a de Maria, mãe de Jesus, constantemente retratada utilizando um véu azul:

Depois, através do doce perfume e da felicidade, o anjo estava diante dela, o cálice em seus lábios. Trêmula, ela bebeu, abaixando os olhos, mas logo sentiu um toque em sua cabeça e olhou para cima, e viu não um anjo, mas uma mulher com um véu azul, com grandes olhos tristes. Não havia som, mas a mulher lhe disse: Antes que Cristo fosse, Eu sou, e sou Eu quem lhe faz ser o que é. Portanto, minha amada filha, esqueça toda vergonha e seja feliz, pois você também tem a mesma natureza que eu!

No final da visão, Morgana lança os objetos onde nenhum homem poderá encontrá-los, o que faz com que os cavaleiros da Távola Redonda saiam em busca do que agora chamam de Graal.

A segunda parte da missão das sacerdotisas é fazer com que Kevin retorne a Avalon para ser punido pelo uso profano que fez das regalias. Para isso, Nimue, filha de Elaine e Lancelot, criada na ilha, fica na corte e se aproxima do Merlin, fazendo-o se apaixonar por ela e usando encantamentos para levá-lo a Avalon. Lá, no momento em que é morto, o carvalho ao pé do qual ele seria enterrado é atingido por um raio que o parte ao meio; seu corpo então é disposto não na terra, mas no meio do tronco da árvore. 

Fim

Algum tempo se passa e Morgana acredita que seja o fim dos cavaleiros da Távola Redonda, que se perderam no mundo em busca do Graal, e de Avalon, pois as donzelas se perderam no mundo dos homens ou no mundo das fadas e só as mais velhas sacerdotisas ainda conseguem abrir caminho pela bruma.

Os cavaleiros que sobreviveram à busca pelo Graal voltam à corte para as comemorações do Pentecostes, durante as quais Artur assume Gwydion como seu filho diante de todos. E, numa conversa do agora herdeiro do trono com Niniane, sacerdotisa da ilha, conhecemos mais de suas ideias e intenções: ele despreza as tradições matriarcais representadas por Avalon:

O mundo agora, Niniane, não é o das deusas, mas dos deuses, talvez de um deus. Não devo tentar derrubar Artur. O tempo e a mudança fá-lo-ão.

Apesar disso, para “livrar-se” da rainha, que não o vê com bons olhos, Gwydion concorda com o plano de sua mãe adotiva Morgause que pretende flagrar Gwenhwyfar com Lancelot, usando Gareth, Gwaine e outros como testemunhas da traição dos amantes para com o rei. 

Na confusão, Lancelot consegue se livrar dos cavaleiros e foge com sua amada, mas acaba matando Gareth no processo. No meio da fuga, a rainha decide se recolher a um convento para que Lancelot possa voltar e ajudar Artur contra os planos de Gwydion. O cavaleiro já envelhecido reluta, mas aceita essas condições. 

No entanto, Gwydion já lidera metade dos homens de seu pai, mais saxões e nortistas contra o rei. Numa das batalhas, ao se encararem, Artur acaba matando o próprio filho, mas também é ferido na luta e morre nos braços de Morgana. 

— Morgana – ele sussurrou. Seus olhos estavam intrigados e cheios de dor. — Morgana, foi tudo isto por nada, o que fizemos, e tudo o que tentamos fazer? Por que falhamos?

Esta era minha própria pergunta, e eu não tinha nenhuma resposta; mas ela veio de algum lugar: — Você não falhou, meu irmão, meu amor, meu filho. Você manteve esta terra em paz por muitos anos; por isso os saxões não a destruíram. Afastou a escuridão para uma geração inteira, até que eles fossem homens civilizados, com estudo, música e fé em Deus, que lutarão para salvar a beleza dos tempos passados. Se esta terra tivesse caído nas mãos dos saxões quando Uther morreu, então tudo o que havia de belo e bom teria perecido na Bretanha. Então, você não falhou, meu amor. Nenhum de nós sabe como Ela fará cumprir os seus desígnios… apenas que será feito.

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Leia mais no blog:

A Senhora da Magia – As Brumas de Avalon (Livro 1)

A Grande Rainha – As Brumas de Avalon (Livro 2)

O Gamo-Rei – As Brumas de Avalon (Livro 3)

Projeto Leia Mulheres

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