Publicado em Deixe um comentário

Poesia concretista

poesia

Um poema é feito de palavras e silêncios.

Décio Pignatari

No livro Teoria da Poesia Concreta, os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari reuniram estudos e textos críticos traçando um panorama teórico-estético da poesia até chegar à poesia concreta, enfatizando, é claro, as vanguardas que seriam as precursoras desta nova forma de ver e fazer arte.

Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos
Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos

Vanguardas

Os textos reunidos neste volume foram publicados em jornais e revistas durante os anos de 1950 a 1960 – época considerada a fase heroica do movimento que tentava se explicar e se afirmar.

Os três são os idealizadores e principais expoentes deste movimento literário que afirma ser o único que não foi adaptado do exterior – comparando-se a escolas anteriores como Romantismo, Realismo, Naturalismo e todas as outras, incluindo o próprio Modernismo.

Entre os artistas que são citados como precursores do novo movimento estão alguns dos mais relevantes para a forma como se faz poesia hoje em dia, como Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, e. e. cummings – assim mesmo, tudo minúsculo, era como ele assinava o próprio nome –, James Joyce, Vladimir Maiakovski, entre outros, criando um paralelo entre as obras destes vanguardistas com a proposta estética da poesia concreta.

Incluindo, também, em seu arcabouço teórico as teorias da Gestalt, da Semântica Geral e da Semiótica para explicar e exemplificar os conceitos que apresentavam (e representavam) nas formas e conteúdos dos poemas.

A verdade é que as “subdivisões prismáticas da Ideia” de Mallarmé, o método ideogrâmico de Pound, a apresentação “verbivocovisual” joyciana e a mímica verbal de Cummings convergem para um novo conceito de composição, para uma nova teoria da forma – uma organoforma – onde noções tradicionais como princípio-meio-fim, silogismo, verso tendem a desaparecer e ser superadas por uma organização poético-gestaltiana, poético-musical, poético-ideogrâmica da estrutura: POESIA CONCRETA.

Augusto de Campos

O verso

Dentre estas conexões, os concretistas construíram um paralelo entre a poesia e o ideograma chinês, mostrando a superação do verso linear e do discurso lógico tradicional [poema “normal”, como um soneto, por exemplo, em que os versos seguem a ordem de leitura da esquerda pra direita, de cima pra baixo, e seu significado é apreendido pelo conteúdo abstrato das palavras] pelo verso espalhado pela página do livro e pela sua organização analógica visual [poemas que usam as palavras como “objetos”, espalhando-as pela página, assim, a leitura pode seguir padrões diferentes da tradicional e seu significado é apreendido não só pelo conteúdo abstrato das palavras, mas também pelo “desenho” que formam no papel/tela].

Este novo tipo de verso faz com que o leitor enxergue o poema como um todo, absorvendo-o pelos sentidos e não somente pela leitura sintática linear.

Clamavam assim por uma poesia que fosse capaz de transmitir com eficácia os fluxos e refluxos do pensamento, usando poucos (ou nenhum) conectivos entre as palavras, fazendo com que o espaço em branco da página funcionasse como pontuação e ditasse o ritmo da leitura.

Verbivocovisual

O que levou a outra definição da poesia concreta: a verbivocovisualidade:

a palavra tem uma dimensão GRÁFICO-ESPACIAL

uma dimensão ACÚSTICO-ORAL

uma dimensão CONTEUDÍSTICA

agindo sobre os comandos da palavra nessas

3                          dimensões                           3

Haroldo de Campos

Quer dizer, o poema proporcionaria estímulos óticos (visuais), acústicos (sonoros) e significantes (no sentido do conteúdo e das estruturas verbais) todos ao mesmo tempo durante a leitura.

É preciso ainda ter em mente que a poesia concreta é diferente da poesia apenas visual. A poesia visual seria aquela cuja forma se adequa ao conteúdo de forma arbitraria, enquanto que na poesia concreta o visual é o próprio conteúdo e ao mesmo tempo sua estrutura.

Exemplo de poema tradicional:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Exemplo de poema visual:

Um dos caligramas de Apollinaire
Um dos caligramas de Apollinaire

 Exemplo de poema concreto:

Velocidade - poema de Reinaldo de Azeredo
Velocidade – poema de Ronaldo Azeredo

Hoje

É claro que, como toda nova ideia que se propõe a renovar algo que é tido como pronto e acabado, as inovações dos concretistas não foram totalmente aceitas pela “classe poética” da época (e por alguns indivíduos ainda hoje em dia), que os acusou, inclusive, de cometer “terrorismo cultural” – seja lá o que isso quer dizer.

Mas, como responderam os próprios poetas, “É estranho que um pequeno grupo de poetas tenha aterrorizado a poesia brasileira. Ou esta era muito fraca, ou as ideias deles eram muitos fortes”.

No entanto, “gostando” ou não da nova poesia, é possível reconhecer a influência dessa nova estética em muitos poetas atuais e no formato da publicidade nos dias de hoje, por exemplo (já que um dos princípios era a comunicação rápida: o leitor/espectador “bate o olho” e já associa aquela imagem ou conjunto de palavras a algum significado).

Pra quem se interessa por poesia, principalmente os princípios filosóficos e estéticos relacionados a ela, e também por arte em geral, é uma leitura muito interessante, já que nos textos o trio de poetas faz um percurso entre várias manifestações artísticas, associando-as ao nosso modo de vida contemporâneo, explicitando assim uma das vocações da arte que é ser uma manifestação das angústias e esperanças de cada tempo.

Livro: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960

Publicado em 2 comentários

O bicho – Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(Manuel Bandeira – Rio, 27 de dezembro de 1947)

Não lembro quando foi a primeira vez que li este poema, mas ainda me lembro de como fiquei impressionada… Tão simples e tão forte. É quase como levar um tapa na cara ao mesmo tempo em que se ouve alguém dizer “Acorda! Olha como está o mundo ao seu redor!”

É claro que li – e ouvi! – muitos outros poemas do Manuel Bandeira, todos marcados por um sentimento meio melancólico de se viver nesse mundo em que as pessoas não enxergam o ser humano ao seu lado a ponto de ver um bicho onde há um homem passando fome.

O meu bicho

Este autor foi com certeza um dos que me inspirou a escrever poemas, como este aqui, por exemplo:

Observo o menino que trabalha.

O que resta-lhe da infância são os sonhos

e mais alguns poucos anos.

Esquecera-se como é sorrir

porque nunca brincou.

Não sabe o menino

o que é final feliz.

Esse poema já sofreu muitas modificações desde a primeira vez em que o coloquei num papel. Talvez eu ainda o mude, mais do que escrever, eu estou sempre reescrevendo…

Ainda assim, esta versão foi usada pelo Diogo C. Scooby na 1ª edição da LATIDObr.

E você, tem algum artista do qual compartilhe os mesmos “sentimentos do mundo”?

Publicado em Deixe um comentário

Flor

Flor - poema
Ouvi dizer do teu olhar ao ver a flor…”    
                                               Los Hermanos
 

 

Como que desenhada por um pintor;

pintada numa obra esmerada

– algumas pétalas – era uma flor

criada para ser admirada.

 

Da imagem fluía sentimento

de amores passados, quase fingidos

que entorpeciam o entendimento

num êxtase de múltiplos sentidos.

 

Contudo, amante a flor não era,

tão pouco fazia-se insensível.

Queria exalar a primavera,

 

inundar de frescos aromas o ar,

transmutar uma força invisível.

A fé de quem ainda sabe amar.

————————

 

Publicado em Deixe um comentário

Carícia

O Nascimento de Vênus (Botticelli) - Detalhe da obra. Carícia
 
O vento agita os galhos de uma árvore qualquer
produzindo uma melodia encantada
que numa espécie de prece cândida
fecha-me os olhos.
O vento então
passa a afagar meu rosto
e neste mimo quase paternal
faz-me adormecer.
Estou sonhando.
 

*

 
Nas cinzas brumas de Morpheu
encontro Éolo (meu guia)
varrendo receios da terra onde piso.
Caminho confiante no que sinto
e sem recato algum me ponho a cantar.
Sim!! Estou cantando!!
E passados alguns minutos
vejo-me dançando inebriada.
Estou amando.
 

*

 
Chegando ao fim da estrada
desse baile encantado em que me achava
digo adeus a Éolo
(meu par na dança)
triste por ir embora, cansada pela festa
despeço-me com um sorriso sujo de lágrimas.
Assim, num piscar dos meus olhos
enxergo o branco amarelado teto do meu quarto.
Estou acordando.
 
———————
Publicado em 2 comentários

Fabricando Poesia

Waly Salomão, a fábrica do poema

a fábrica do poema

Waly Salomão

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento
encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
faíscas das britas e leite das pedras.
acordo!
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo!
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
acordo, e o poema miragem se desfaz
descontruído como se nunca houvera sido.
acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-me os dedos estarrecidos.
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
no topo fantasma da torre de vigia
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que mascará retornará o recalcado?

__________________________

“Fábrica”: local onde se trabalha uma matéria-prima de forma a transformá-la em algum tipo de produto. Temos aqui a ideia de fábrica como um local de criação; criação que só é possível pois o espaço é organizado e estruturado de forma a propiciá-la.

“a fábrica do poema” é, então, um local que tem certa organização para que este “produto” seja criado ou podemos entender também esta “fábrica” como uma ironia à massificação que vem ocorrendo nos meios de comunicação, fazendo com que a arte perca em qualidade em decorrência da quantidade (ideia que vem ligada à de fábrica e de produtos em série).

Pensando o poema enquanto estrutura conscientemente arquitetada, um dos aspectos a merecer destaque é a visualidade: com versos curtos intercalados por outros mais longos, o poema assume uma forma material que nos remete a imagem de um prédio ainda no início de seu “crescimento”, levando-nos a prestar mais atenção nos próprios significantes* “arquitetura”, “cimento”, “britas” e “pedras” que são utilizados e repetidos (“palavra por palavra”) nos versos iniciais reforçando-lhes o significado* pela forma visual como estão empregados.

Repare na estrutura:

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de
cimento
encaixa
palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
faíscas das
britas e leite das pedras.

Ainda reforçando a ideia de construção planejada, o poema apresenta repetição de palavras como se fossem blocos se encaixando para “levantar” ou armar uma “parede-verso” (“encaixa palavra por palavra […])” ou na repetição de palavras com o uso da aliteração* e da assonância* (“e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo”). Pela utilização desses recursos sonoros percebemos como o poema vai se “erguendo” ao mesmo tempo em que seus “sons” nos remetem ao ritmo de algo sendo construído.

Por exemplo, na repetição das letras “t”, “p” e “c” (que têm sons mais “secos”) como se fossem os sons do trabalho de operários enquanto realizam uma obra (“sonho o poema de arquitetura ideal / cuja ppria nata de cimento / encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair / faíscas das britas e leite das pedras. / acordo! / e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. / acordo! / o prédio, pedra e cal, esvoaça”).

Nesta primeira parte do texto, o poeta mostra que só alcançará o “poema de arquitetura ideal” se trabalhar as palavras de forma concreta, material. Assim como operários encaixam blocos de cimento para construírem uma parede, o poeta “encaixa palavra por palavra” para construir um verso e, de verso em verso, construir o poema.

A partir do verso “o prédio, pedra e cal, esvoaça”, o poema parece seguir numa outra direção, como se aquela solidez da construção arquitetônica fosse, contraditoriamente, fruto de um sonho que ao acordar (“acordo!”) fugisse das mãos do poeta “como um leve papel solto à mercê do vento […])” e que, por isso, não conseguisse se encaixar perfeitamente na construção, tornando o poema “cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido”.

Neste trecho, a aliteração das letras “s”, “v” e “f” (sons mais “suaves”) nos conduz para essa atmosfera de sonho em que tudo parece efêmero e fugidio. Já a aliteração das letras “m” e “n” (por seu som anasalado), contribui para este clima de sono que, somado ao ópio (alucinógeno), seria capaz de “fabricar” poemas-miragens (“acordo, e o poema miragese desfaz / descontruído como se nunca houvera sido” e “assim é que saio dossucessivos sonos: / vão-se os anéis de fumo de ópio […])”.

O verso “metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros”, mostra um artista que pensa sua obra, pois são recursos “materiais” para a construção de um poema, são ferramentas que a linguagem oferece para elaborar um texto que seja esteticamente apreciável.

A última palavra é “recalcado” que é algo concentrado, bem calcado, ou seja, excessivamente e insistentemente trabalhado.

Assim, a metáfora da fábrica e da construção arquitetônica finaliza o poema de forma a nos deixar a ideia de uma atividade que exige planejamento, constante aperfeiçoamento e atenção durante sua execução, por isso, não adianta “permanecer à espreita / no topo fantasma da torre de vigia”, pois o poema não virá do sono, mas do trabalho feito para que as palavras se encaixem, “fiapo por fiapo”, até que o prédio-poema se construa.

Porém, “recalcado” também pode ser algo que está somente no plano do inconsciente (que foi “expulso” da parte consciente), o que mostra a riqueza do poema como obra de arte, pois abre para inúmeras possibilidades de leituras.

O poema, como obra de arte, não apenas diz sobre algo, mas na sua forma material ele reproduz sonoramente (aliterações e assonâncias*) e visualmente (aspecto gráfico) o seu conteúdo.

O modo como está organizado materialmente é que nos diria muito sobre seu significado (conteúdo), ou seja, forma e conteúdo são indissociáveis, pois modificam e completam o sentido do poema como um todo, assim, “a fábrica do poema”, produz uma construção, enquanto discursa sobre o trabalho para se fazê-la.

*

É claro que essa análise não é e nem quer ser definitiva, a proposta é que, como leitor, possamos ver (ler) e ouvir o poema não apenas como um produto do subjetivo, mas também como Arte feita de palavras e sons, assim como um pintor usa tintas e cores; um escultor, madeira e mármore etc.

*

O poema na voz de Adriana Calcanhoto (clique na imagem ao lado), onde percebemos mais claramente o trabalho com a sonoridade. Aliás, esta música-poema dá nome ao CD da cantora de 1994.

*

*Significante: forma gráfica + som. Para a linguística: imagem acústica ou uma manifestação fônica do signo linguístico.

*Significado: conceito. Para a linguística: valor, sentido ou conceito semântico de um signo linguístico.

*Aliteração: figura de linguagem que consiste em repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes. Usado principalmente em poemas, mas também em prosa (poética ou não).

*Assonância: figura de linguagem que consiste em repetição de sons vocálicos idênticos ou semelhantes. Usado principalmente em poemas, mas também em prosa (poética ou não).

Para saber mais sobre:

Waly Salomão: Site Oficial

Teoria dos signos (significante e significado): SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 30ª Edição. São Paulo: Cultrix, 2002.

E você, já trabalhou na sua obra hoje? 🙂

_______________

Publicado em 4 comentários

Realidades em mim

poesia

Há horas em que minha mente
Funciona muito mais rápido
Do que sou capaz de lidar
E fico doente, demente

Não consigo dormir por pensar demais
Sem ter com quem falar, posso gravar.
Ou escrever, mas não quero.

Só quero paz, silêncio.

Minha mente:

35 microcápsulas de realidade identificáveis no momento:
5 de músicas em volumes diferentes, 8 imagens ligadas a sexo que não param e mudam, 3 de família, 3 de amigos, 2 de trabalho, 2 de amor, 1 de política, 1 de quadrinhos, 2 de filmes, 1 de um videogame que joguei de tarde, 3 de dor, 2 de desconfortos físicos e 2 barulhos urbanos.

Tudo junto em ondas diversas nem sempre controláveis e abafáveis com ruídos externos se revezando em células e organismos de intensidades de atenção, roubando minha paz e meus pensamentos, limitando o que eu poderia e deveria ser agora…

Só quero paz, silêncio…

por Diogo
———————————————————-