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O Cortiço, de Aluísio Azevedo

RESUMO DA OBRA 

João Romão é um português que herdou a venda do patrão aqui no Brasil, entregando-se com vigor ao trabalho, sempre poupa o máximo que pode em um afã de enriquecer. Amiga-se com Bertoleza, mulher escravizada a quem engana dizendo ter-lhe pagado a alforria. Com a ajuda dela, João torna-se proprietário da pedreira que fica próxima à venda e, em algumas partes do terreno, constrói pequenas casinhas que aos poucos aumentam de número dando vida ao cortiço. 

Romão fundamenta sua ambição em Miranda, também português, dono do sobrado que fica ao lado do cortiço. Miranda é um burguês que obteve ascensão social por meio do dote e do nome de família que recebeu do seu casamento com D. Estela. Espelhando-se nisso, João, tendo enriquecido, ambiciona casar-se com Zulmira, filha do compatriota. Então, para livrar-se de Bertoleza, entrega-a aos antigos patrões; esta, num último ato de desespero, suicida-se cortando o ventre com a mesma faca que usava para limpar os peixes que eram comercializados na venda. 

No cortiço, vários personagens são apresentados, cada qual com sua história de vícios e misérias. O cortiço é usado pelo autor como um observatório do comportamento dos tipos humanos que pertencem àquela classe social marginalizada.  

Um dos personagens que se destaca na história é Jerônimo, outro lusitano, sério e conservador, casado com Piedade. Influenciado pelo “calor dos trópicos”, apaixona-se por Rita Baiana, descrita de forma estereotipada como uma mulher mestiça sensual e bela, que, por sua vez, namora Firmo, morador do Cabeça de Gato, cortiço concorrente ao de Romão. A disputa dos dois homens por Rita acaba com a morte de Firmo e numa rivalidade entre os cortiços. Jerônimo abandona a esposa para ficar com Rita e, ao contrário de João Romão, decai socialmente “abrasileirando-se”. 

FOCO NARRATIVO 

A escolha do autor por narrar o livro em terceira pessoa adequa-se perfeitamente à escola literária da qual O Cortiço faz parte, o Naturalismo; posto que o autor se posiciona como um cientista que observa a realidade para tomar nota dela.  

Assim, por meio da descrição dos fatos, muitas vezes repugnantes e grotescos, e apoiando-se numa atitude de cientificismo experimental, o autor distancia-se dos personagens para encontrar a explicação de seus atos no meio ambiente em que estão inseridos ou na “raça” a qual pertencem.

QUATRO PERSONAGENS 

Características físicas e psicológicas 

João Romão 

João Romão é descrito como um homem obcecado por riqueza, todas as suas atitudes são tomadas com o objetivo de acumular bens:  

não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa de seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois.

Sendo classificado pelo autor como portador de uma patologia: “Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular, de reduzir tudo a moeda”. 

João é descrito como um

tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer […]

sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com seu eterno ar de cobiça, apoderando-se com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.

No entanto, quando passa a invejar o baronato de Miranda, passa a usar “casaco branco e meias”, “relógio e cadeia de ouro” e, para sair a passeio, sempre de “casimira, calçado e de gravata”. 

Bertoleza 

“Crioula trintona”, quando se amiga com João Romão passa a cumprir o “papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante”.  

Na descrição de Bertoleza, implicitamente o autor dá a entender que, por ser negra, seu único papel e destino na sociedade é trabalhar, “Mourejava a valer, mas de cara alegre”, e servir à “raça superior”, “Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior”.  

Mesmo quando João Romão começa a mudar seu estilo de vida, Bertoleza, “à medida que ele galgava posição social, a desgraça fazia-a mais e mais escrava e rasteira” e continua “sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço”.  

A raça persegue toda a trajetória de Bertoleza, chegando ela mesma a ficar “envergonhada de si própria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste por sentir-se a mancha negra”.  

Adorava Romão, pois entendia sua condição inferior à do amigo, contentando-se com o pouco que este lhe dava: “Todo o dono, nos momentos de bom humor, afaga o seu cão…”. 

Rita Baiana  

Rita personifica o estereotipo da mulher mestiça sensual e bela:  

E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo a mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador.

É uma mulher independente, tendo sobre o casamento uma ideia muito diferente do que era comum na época:  

— Casar? protestou Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu! E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que lhe era peculiar.

Jerônimo 

Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário; pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade.

[Usava] calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru.

Nesse personagem, as qualidades morais transparecem em sua aparência e atitudes:  

Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem […]

Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôs assim para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Saía de casa para o serviço e do serviço para a casa.

CLASSE SOCIAL DOS PERSONAGENS 

A maioria dos personagens são pobres, alguns chegam a ser miseráveis.  

Os personagens que habitam o cortiço são divididos, basicamente, entre os trabalhadores, “aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação”, e as lavadeiras

AMBIENTE 

Espaço físico e social 

Os personagens são tipos que estão à margem da sociedade, vivem num mundo à parte, tanto que o autor chega a se referir ao cortiço como uma “república” que tem suas próprias regras de convivência social:  

De cada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito! “Jogassem lá as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!” mas agora tratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.

FIGURA FEMININA 

A caracterização da mulher dá-se de forma objetiva, ressaltando aspectos físicos e “defeitos” morais, pois a figura feminina é vista como um ser traiçoeiro que utiliza seu poder “luxurioso” para manipular os homens, como quando o autor compara Rita (e todas as mulheres nela) com a serpente que levou Adão ao pecado:  

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Outro exemplo é a forma pejorativa (“mulherzinha”) como a esposa de Miranda é apresentada:  

D. Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante este tempo dera ao marido toda a sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério.

AMOR E CASAMENTO 

Na narrativa naturalista, o amor confunde-se com o instinto sexual, como na relação entre Rita e Firmo, “Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos”, ou na relação entre Rita e Jerônimo, em que o “amor” encontra sua expressão máxima na realização do desejo sexual:  

Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. […] E com um arranco de besta-fera caíram ambos prostrados, arquejando. […] E, sem consciência de nada que o cercava, […] afaga ainda as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao mundo.

Em ambas as relações, o amor, na verdade, é o instinto sexual que culmina na briga entre os dois machos pela fêmea luxuriosa que melhor apresenta-se ao ato sexual. Disputa que Jerônimo vence: “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior”. 

O casamento é uma conveniência social, utilizado como forma de ascensão social e financeira. Miranda, por exemplo, suporta as traições da mulher, pois:  

sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera […] Além do que, um rompimento brusco seria obra para escândalo e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre.

Invejava João Romão que se tornara rico sem ter que “casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro rico”. No entanto, mais tarde, João também utiliza o casamento com Zulmira, filha de Miranda, como forma de ascensão e de prestígio social. 

JERÔNIMO E POMBINHA – DETERMINISMO 

Jerônimo é influenciado de maneira decisiva pelo meio ambiente em que vive. A “culpa” pela transformação de sua personalidade é atribuída à “natureza alcoviteira”, principalmente ao sol:  

[…] todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem […]

[…] aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode […]

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se […] fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e violento.

Pombinha tem seu destino determinado pela genética. Visto que, mesmo morando no cortiço, tem origem burguesa, ou seja, de acordo com a ótica adotada pelo autor, pertence a uma raça superior. Aliando esses dois elementos (meio e raça) às experiências que absorveu ao escrever as cartas daquela gente pobre, “De sorte que a pobre rapariga ia acumulando nos seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor”, estava “determinado” que, cedo ou tarde, sua inteligência iria aflorar-se. Nesse caso, sua maturação intelectual confunde-se com sua maturação biológica:  

[…] só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento uma lucidez que a deliciava e surpreendia.

NATURALISMO E A TEORIA EVOLUCIONISTA 

Na história do cortiço, João Romão e Jerônimo, ambos portugueses, combatem o meio ambiente por meio de suas ações (trabalho) atribuídas à sua raça. No entanto, este perde a batalha deixando-se seduzir pela “natureza alcoviteira”; aquele representa uma espécie de “evolucionismo social”, sendo o mais “forte”, sobrevive e evolui de “classe social”.  

O cortiço ascende como o seu dono, depois do incêndio, passando por algumas reformas (“mutações”), passa a receber uma nova classe de trabalhadores, já não era qualquer um que podia habitar no cortiço: “notavam-se por último na estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata e sem meias”.  

Entretanto, Jerônimo também pode ser considerado sobrevivente, pois vence a disputa com Firmo por Rita Baiana, mudando seu comportamento para adaptar-se ao meio em que vive agora. 

RITA BAIANA E AS PERSONAGENS ROMÂNTICAS 

A mulher do Romantismo é sempre descrita como “a mulher ideal”, perfeita, muitas vezes até mesmo sagrada e, por isso, intocável, como Iracema, de José de Alencar. Iracema é indígena, a virgem sagrada de sua tribo que apaixona-se pelo homem branco Martim. Pertencendo a povos inimigos, o amor de Iracema é cheio de renúncia e sacrifícios. 

A mulher do Naturalismo, pelo contrário, é descrita de forma “carnal”, acessível a qualquer um, cheia de baixezas morais. Rita Baiana, por exemplo, ao provocar a briga entre Jerônimo e Firmo, não se assusta como os outros moradores do cortiço, mas “a certa distância, via, de braços cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os lábios”. 

PATOLOGIA SOCIAL 

Na narrativa naturalista é evidente o gosto pelas patologias sociais: taras, vícios, desajustes, etc. Um exemplo disso pode ser encontrado quando o autor apresenta a “tara militar” de Botelho: “Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo” […] “a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção”.  

Somando essa tara a um diálogo entre Botelho e Henriquinho, o autor deixa entrever, de forma caricata, a homossexualidade do personagem:  

Acho que você é um excelente menino, uma flor! […] Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as. […] E acarinhou-o tão vivamente desta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida: — Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!…

REALISMO E NATURALISMO 

O Realismo é uma escola literária que se propôs a descrever e pôr à mostra a hipocrisia da sociedade burguesa da época. O Naturalismo, no seu exagero cientificista, analisa o coletivo. Não tem preocupação social, seu objetivo é descrever e mesmo classificar os vícios humanos.  

O Cortiço é usado pelo autor como um laboratório de observação. Na verdade, o próprio cortiço é tratado como um personagem (“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava”) que evolui dentro da história (antropomorfismo).  

Não há individualidade, só o coletivo. À medida que o cortiço sofre mudanças, os personagens também mudam. Aqueles que não “evoluem” são postos para fora, como Piedade que, abandonada pelo marido, entrega-se ao vício da bebida e depois de causar alguns incidentes é expulsa por João Romão, indo abrigar-se no Cabeça de Gato, cortiço que:  

à proporção que o São Romão [cortiço de propriedade de Romão] se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava.

Uma característica naturalista é o zoomorfismo. Os personagens são comparados a animais, posto que os instintos é que determinam os seus comportamentos:  

[…] e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador […]

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe […]

Pombinha punha alegrias naqueles serões com as garrulices de pomba que prepara o ninho […] 

Outra característica é a importância dada ao meio ambiente. Por meio da narrativa, podemos perceber que o meio é decisivo no destino dos personagens, um determinado ambiente sempre irá “produzir” os mesmos resultados, os mesmos tipos humanos. O autor dá a entender, por exemplo, que Florinda será a nova Rita Baiana, trocando sempre de “homem” quando este não lhe satisfaz, e que Senhorinha terá o mesmo destino de Pombinha, já que a filha de Piedade é sua protegida, assim como ela fora de Léonie. 

Nessa perspectiva, o destino do homem está fatalmente traçado pelo meio ambiente em que vive e pela raça a qual pertence, não há como fugir. 

REFERÊNCIA 

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Klick, 1997. 


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O Quinze, Rachel de Queiroz

O Quinze nos conta da seca que ocorreu no Ceará, em 1915.

Assim, através do relato da vida de alguns personagens, Rachel de Queiroz apresenta várias situações a que um retirante está submetido para sobreviver.

Um detalhe interessante é que na obra não há menção ao ano em que se passa a narrativa, isso permite que, durante a leitura, façamos comparações com outras situações de seca: quer dizer, a história que está sendo contada pode ter acontecido (ou se repetido) em qualquer lugar e em qualquer tempo do sertão nordestino.

Os personagens

Chico Bento

Chico mora e trabalha na fazenda de Dona Maroca, na cidade de Aroeiras. Com a seca e a falta de esperança na chuva, a patroa manda soltar o gado para morrer pelo sertão e dispensa os empregados.

Como resultado, Chico e sua família – “Só ele, a mulher, a cunhada e cinco filhos pequenos” – se veem obrigados a retirar: “Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto durasse a seca”.

Depois de passar por inúmeras privações durante a caminhada, os retirantes conseguem passagens para São Paulo, terra “onde sempre há farinha e sempre há inverno…”, ou seja, sempre há chuva.

No entanto, a narradora dá a entender o destino difícil daquela família na terra da garoa: “Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos…”.

Conceição

Conceição pertence a uma família que possui fazenda em Logradouro, perto de Quixadá, e tem condições de viver na cidade com a avó enquanto a seca castiga o interior; mesmo assim, de certa forma, convive com os efeitos da estiagem, pois trabalha como voluntária no Campo de Concentração: espécie de praça em que os retirantes convivem e sobrevivem de esmolas e de doações do governo local.

Dessa forma, ela é a personagem que faz a ligação entre as diferentes camadas sociais, demonstrando que o problema da seca na região afeta a todos, seja financeiramente, com o gado que morre de fome, ou socialmente, tornando boa parte da população em retirantes.

Conceição é apresentada como uma moça de 22 anos, com ideias extravagantes: “Chegara até a se arriscar em leituras socialistas, e justamente dessas leituras é que lhe saíam as piores das tais ideias estranhas e absurdas a avó”.

Apesar da caridade e das suas leituras, era “Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados”.

Preconceito que fica evidente quando ela expressa indignação ao pensar em um homem branco se envolvendo amorosamente com uma mulher negra: “Uma cabra, uma cunhã à-toa, de cabelo pixaim e dente podre!…”. Essas ideias pré-concebidas ajudam a impedir a concretização de seu envolvimento amoroso com Vicente.

A relação dos dois é narrada de modo a nos transmitir uma ideia de que o sol do sertão não seca só a garganta, mas também as almas, tornando-os incapazes de expressarem seus sentimentos, às vezes até os impedindo de sentir com humanidade: “Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!”.

Vicente

Vicente, por sua vez, é o sertanejo forte, branco, mas queimado de sol – “o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol”.

Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso” – com essa descrição, ele representa o homem que não abandona sua terra, mesmo na adversidade, demonstrando a esperança de vida no sertão: “Já comecei, termino! A seca também tem fim…”.

Os lugares

Como dissemos antes, o romance se passa no Ceará.

Grande parte da narrativa acontece no sertão, em Logradouro, cidade próxima a Quixadá – “Alongou os olhos pelo horizonte cinzento. O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo um cinzento de borralho”.

No entanto, os personagens se locomovem constantemente, caracterizando o êxodo para as cidades em de busca de soluções para a fome.

Esse ambiente seco condiciona, e não só condiciona, como também condena os personagens à fome e à subsistência: “Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…”.

Já outros, com melhores condições financeiras, o ambiente agreste lhes torna a alma agreste, como bem expressa Paulo Honório, em São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Com relação ao ambiente social, não há uma grande separação do convívio entre ricos e pobres; há sim uma clara distinção das condições de sobrevivência de cada um desses grupos no período da seca.

A narração

O Quinze é narrado em terceira pessoa.

Esse tipo de narrador é onisciente, o que permite ao leitor conhecer os sentimentos dos personagens, mesmo quando não são expressos de maneira objetiva, mas apenas descritos: “E Chico Bento pensava: ‘Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?’”.

Há também o uso constante de reticências e exclamações, como se houvesse muito mais a dizer (…), mas que o espanto (!) diante da cena descrita não permite.

Assim, a linguagem que o livro utiliza é simples, possuindo, no entanto, imagens belíssimas e de rara sensibilidade diante da tristeza à vista da miséria humana.

Um exemplo disso é o episódio em que Chico Bento, atormentado pela fome e pelo apelo dos filhos por comida, pela primeira vez estende a mão para pedir esmola: “E a mão servil, acostumada à sujeição do trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido… mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante”.

Outros exemplos de imagens podem ser verificados sempre que a autora compara a seca ao fogo – “Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água” – e às cores do sol – “Sombras cambaleantes se alongavam na tira ruiva da estrada” e “O sol poente se refletia vermelho nos trapos imundos e nos corpos descarnados”.

A época

O Quinze faz parte da 2ª geração modernista brasileira, movimento literário de ficção regionalista e social que apresenta, principalmente, questões relacionadas ao Nordeste.

Entretanto, apesar de descrever a seca e os retirantes, o romance não apresenta soluções prontas e nem cai numa tendência maniqueísta de separar os “pobres bonzinhos e sofredores” dos “ricos malvados” – o que acontece com alguns textos literários que se propõem a denunciar problemas sociais.

Não podemos esquecer também que Rachel de Queiroz militou no Partido Comunista e que, por isso, foi presa em 1937.

É uma grande autora brasileira, mulher de coragem para dizer o que pensa e que deixa bem clara sua opinião sobre a repressão na fala de um dos personagens d’O Quinze:

 — Palmatória quebra dedo, 
Chicote deixa vergão, 
Cacete quebra costela 
Mas não quebra opinião!...
Para saber mais sobre a autora:

Academia Brasileira de Letras
Portal da Crônica Brasileira

Referência:

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. São Paulo: Siciliano, 62ª ed., 1997.

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Teresas

Teresa
Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo 
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

No poema de Bandeira não há rigor formal: ele é composto por três estrofes, de três versos cada, mas que não seguem um padrão métrico ou rítmico.

O tom com o qual o eu lírico nos fala é coloquial, quase de banalidade, sem os exageros dos românticos, por exemplo.

Nas primeira e segunda estrofes, o eu lírico diz de suas impressões ao ver Teresa (fisicamente): as pernas eram estúpidas, a cara (não face ou rosto) parecia uma perna, e os olhos, velhos. Ele não só descreve o que está vendo, mas faz comparações inusitadas (cara = perna).

Já na terceira estrofe, o eu lírico não vê (“Da terceira vez não vi mais nada”), mas parece que é somente neste momento do não ver que ocorre o encontro com o sentimento amoroso e todo o seu inebriamento (“Os céus se misturam com a terra”).

O “Adeus” de Teresa
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala

E ela, corando, murmurou-me: "adeus.

"Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei! descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

No poema de Castro Alves há um rigor maior com relação à forma: são oito estrofes intercaladas por estrofes de cinco versos e estrofes de um verso; os versos são decassílabos e possuem rima final. As estrofes de um verso parecem funcionar no poema como repetição da separação dos amantes, mas também como estribilho do “adeus”.

O eu lírico desse poema se apresenta desde a primeira estrofe como alguém tomado de emoção, sem reflexão sobre suas ações (“Como as plantas que arrasta a correnteza”).

As estrofes de cinco versos contam do encontro amoroso entre o eu lírico e Teresa (com exceção da última em que há o encontro de Teresa, mas com outro), enquanto as estrofes de um verso dizem do adeus.

Teresa, de Bandeira, parece descrever a mulher e, por fim, relatar do seu encontro com o sentimento amoroso; O “Adeus” de Teresa trata do amor romântico – apesar de haver encontro (carnal também) -, mas a separação já está anunciada desde o título.

Os dois poemas possuem três momentos que dialogam: no poema de Bandeira, o olhar primeiro são para as pernas que se relacionam com a valsa, que é a dança do primeiro encontro do poema de Castro Alves; num segundo momento, o eu lírico do primeiro poema volta-se para os olhos de Teresa, enquanto o de Castro Alves concretiza o amor carnal e, finalmente, na terceira estrofe de Bandeira, há o encontro com o sentimento, a emoção, enquanto em Castro Alves, ocorre a separação anunciada desde o início.

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Leia mais no blog:

O bicho – Manuel Bandeira

Secos & Molhados

Poesia e a descoberta do mundo

Fabricando Poesia

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor

jorge amado

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor foi escrito por Jorge Amado, em 1948, como presente de aniversário de um ano de seu filho João Jorge; sua publicação, no entanto, se deu apenas em 1976 quando Carybé fez as ilustrações.

O livro inicia com uma trova do poeta popular Estevão Escuna que diz:

O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e dona Andorinha

Essa trova parece ser, ao mesmo tempo, introdução e resumo do que vai ser narrado em seguida, prenunciando o seu final não feliz, pois, ao usar os verbos no futuro (“o mundo só vai prestar”), o narrador nos dá uma pista de que “o mundo ainda não presta”, quer dizer, ainda não é possível, no mundo em que vivemos, conviver em paz com as diferenças. Depois da trova, vem o “Era uma vez”, que nos transporta para o mundo dos contos de fada ao dizer que esta história aconteceu num 

passado quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com linguiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas.

O que vamos percebendo ao longo da narrativa é que O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é uma história dentro de outra história em que se vai questionando o próprio modo de narrar.

Manhã

A história propriamente dita começa com uma explicação de como a Manhã se atrasa para chegar. Ficamos sabendo que há aí outra história de amor se desenrolando, pois a Manhã se atrasa quando o Vento vem ajudá-la a acender as brasas do Sol e, ao mesmo, tempo narra-lhe uma história – a sua curiosidade em saber o final é o que a faz se atrasar para “amanhecer o dia”.

A Manhã começa a refletir se a história de amor contada pelo Vento não foi contada com segundas intenções em relação a ela, o que vai aumentando a curiosidade do leitor em querer saber que história é esta capaz de fazer a Manhã se atrasar tanto para amanhecer.

Ao ir dizendo como o Vento é um bom contador de casos, o narrador vai dizendo também algumas características do que acredita fazer parte do bom narrar, por exemplo, diz que alguns casos eram longos como “capítulos de folhetim” e que “quando mais comovente, melhor a novela”.

Nessa linha de escritura, o autor faz referência a si mesmo quando, ao tentar descrever como a Manhã estava se sentindo, diz 

Um autor erudito falaria em confusão de sentimentos

nos dando a dica de que, ou o autor deste livro não é erudito, ou este, ao escrever, não tinha tais pretensões de reconhecimento literário.

Seguindo a história, os relógios começam a se atrasar por causa do atraso da Manhã e os galos também se confundem sem saber a que horas devem cantar… eles fazem então uma denúncia ao Tempo, que quer saber o porquê de tais confusões.

A Manhã responde que ficou ouvindo o Vento contar uma história e o Tempo, por sua vez, fica tão curioso para saber que história é esta que promete uma rosa azul em troca da contação da Manhã.

Primavera

Neste ponto, o narrador faz (literalmente) um parêntesis no livro para dizer que, agora sim, vai transcrever a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá por tê-la ouvido de um famoso e erudito Sapo Cururu que ouviu a história do próprio Vento.

A história de amor começa na Primavera e o Gato Malhado é apresentado primeiro. Ao descrever seu comportamento e como os bichos do parque o vêem, o narrador parece contrastar a beleza da estação das flores com a fama de egoísta e mau do Gato, mas, ao contrário da “opinião geral” dos outros animais, descobrimos que ele é um ser triste e solitário.

Apesar de ser um gato feio e pardo, com a chegada da Primavera seu corpo todo se espreguiça e ele sorri, não só pela boca, mas também “pelos olhos pardos”, o que parece significar que o seu espírito se abre para apreciar a beleza da paisagem primaveril.

A Andorinha Sinhá não consegue compreender por que, sendo ela tão popular entre os habitantes do parque, só o Gato Malhado não lhe dava atenção. Mais uma vez, a curiosidade faz com que a história vá seguindo novos rumos, pois é esse sentimento que faz com que a Andorinha queira se aproximar do Gato.

Neste ponto, o narrador faz (literalmente) um novo parêntesis no texto para apresentar a Andorinha Sinhá. Ele a descreve como uma passarinha muito disputada entre os outros pássaros como uma ótima pretendente para casamento, pois tinha simpatia, beleza e um coração inocente, mas ela não amava nenhum dos que a cortejavam.

Fecham-se os parênteses e continua-se na estação da Primavera. Ao ver o Gato Malhado sorrindo, os bichos se assustam e fogem, mas a Andorinha Sinhá vai falar com ele e, para provocá-lo, diz que ele é feio. O Gato, ao contrário do que todos pensavam, acha graça, e os dois, a partir de então, começam a se encontrar sempre para conversar e passear pelo parque.

Nesta parte, o narrador começa a conversar com o leitor sobre a forma como está estruturando sua contação:

Foi assim, com esse diálogo um pouco idiota, que começou toda a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá. Em verdade a história, pelo menos no que se refere à Andorinha, começara antes. Um capítulo inicial deveria ter feito referência a certos atos anteriores da Andorinha. Como não posso mais escrevê-lo onde devido, dentro das boas regras da narrativa clássica, resta-me apenas suspender mais uma vez a ação e voltar atrás. É, sem dúvida, um método anárquico de contar uma história, eu reconheço. Mas o esquecimento pode ir por conta do transtorno que a chegada da Primavera causa aos gatos e aos contadores de histórias. Ou melhor ainda, posso me afirmar um revolucionário da forma e da estrutura da narrativa, e que me dará de imediato o apoio da crítica universitária e das colunas especializadas de literatura.

Este trecho mostra não só um narrador que conversa com o seu interlocutor, mas também um autor consciente do ato (e da brincadeira) de narrar e que não subestima a capacidade de entendimento do seu leitor, fazendo-o participar das suas escolhas narrativas. E, ao mesmo tempo, brinca com o status que as subversões nas estruturas das narrativas têm com a crítica literária.

No “Capítulo inicial, atrasado e fora de lugar”, o narrador descreve a personalidade da Andorinha como de uma criatura arrojada e sem preconceitos (“metida a independente”). Mostra que a Andorinha desde muito tempo observava o Gato por não acreditar na veracidade da fama de mau que ele tinha. Mas, ao falar das suas dúvidas com a Vaca Mocha e das suas intenções de se aproximar do Gato, esta lhe diz que “os gatos são inimigos irreconciliáveis das andorinhas” e que ter amizade com ele seria como “rasgar uma velha lei estabelecida, em passar por cima de regras consagradas pelo tempo”.

Voltamos à história “onde a deixamos por erros de estrutura ou por moderna sabedoria literária”. No fim da Primavera, os pais da Andorinha Sinhá a proíbem de se encontrar com o Gato Malhado, mas a simples proibição não impede que os dois se tornem cada vez mais íntimos (e apaixonados), pois ela 

gostava que a convencessem das coisas com boas e justas razões.

Verão

O capítulo do Verão é curto porque este “passou muito depressa”. Neste capítulo, temos a confirmação do amor que o Gato sente pela Andorinha e vice-versa, mas temos também um prenúncio de que esta história de amor não irá conseguir romper as estruturas dos preconceitos para se afirmar (ao contrário da narrativa em si que abre vários parêntesis e põe capítulos fora de lugar para melhor se contar), pois a Andorinha já tem encontros com o Rouxinol como seu pretendente.

Temos aí o “Parêntesis das murmurações”, ou melhor dizendo, o capítulo em que temos a confirmação das fofocas e dos preconceitos que os outros bichos do parque têm em relação aos encontros do Gato Malhado com a Andorinha Sinhá.

“Não era só a paisagem que se modificava com o correr das estações, como certamente percebeu o culto e talentoso leitor”, mais uma vez, o leitor é chamado a perceber como a narrativa está se organizando, pois as atitudes dos personagens vão se modificando conforme as estações vão passando.

Outono

No Outono, o Gato Malhado escreve um soneto que é transcrito num “parêntesis poético”, “pois afinal isso aqui não é um caderno de poemas”. Assim, o narrador justifica o fato de o soneto não estar no corpo da narrativa, mas dentro de um novo parêntese.

Após o “parêntesis poético”, temos um “Post scriptum” em que o narrador explica ao leitor o uso de tantos parêntesis dentro da história dizendo que não é por preguiça do autor, mas para melhor entendimento da própria narrativa. E, após este, é apresentado o “Parêntesis crítico”, em que o Sapo Cururu faz uma análise literária dos defeitos do soneto do Gato Malhado.

E voltamos ao Outono. Como era um “tempo cinzento”, as coisas certamente não andariam bem ou, nos dizeres da Coruja para o Gato, “para romper uma lei, é preciso uma revolução…”. Não sendo capazes de tal revolução, temos a confirmação de que o Gato Malhado não poderá casar com a Andorinha Sinhá, pois ela já aceitou o pedido de casamento do Rouxinol.

Inverno

No Inverno, encontramos todo o sofrimento que o Gato demonstra ao assistir de longe a festa de casamento de sua amada com o Rouxinol:

Já não havia futuro com que alimentar seu sonho de amor impossível. Noite sem estrelas, a da festa do casamento da Andorinha Sinhá.

No último capítulo, intitulado “A noite sem estrelas”, a “canção nupcial” da festa parece ao ouvidos do Gato um “canto fúnebre” e, enquanto ouve a música, ele caminha em direção ao lugar onde a Cobra Cascavel mora…

E, assim, a Manhã ganha do Tempo a prometida rosa azul por contar a história de amor que ouvira do Vento.

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Leia mais no blog:

Uma história de amor na Proclamação da República

Uivos Filosóficos 7 – A Visão do Amor

Literatura – Uma visão sobre os Contos de Fadas

Elsa & Fred

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Como conheci Machado de Assis

Machado de Assis jovem

Sempre ouço muitas pessoas – que gostam de ler – dizendo que não gostam de Machado de Assis por causa do trauma escolar de serem obrigados a ler algum de seus livros (e, muitas vezes, ouvir o professor fazendo um discurso de que “é difícil, mas é importante ter lido”…).

Pra mim, esse negócio de “é difícil, mas tem que ler” sempre foi mais um repelente do que um incentivo à leitura, então entendo perfeitamente o sentimento.

Sorte minha que meu primeiro contato com este autor foi diferente 🙂

Eu tive uma professora de Educação Artística na 5ª série que incentivava qualquer tipo de arte.

Bem, certo dia, durante uma das últimas aulas do ano, ela escreveu uma lista de livros na lousa: livros que ela tinha lido, gostado e pensou que nós poderíamos gostar também.

A Obra de Machado de Assis

Brás Cubas

Como nessa época eu já estava começando minha carreira de “rata de biblioteca”, anotei todos os títulos, mas um deles me chamou atenção: “Memórias póstumas e Brás Cubas”.

Até esse momento, eu não fazia ideia de quem era esse cara e o nome do livro me chamou atenção porque eu não sabia o que significava a palavra “póstuma”, então não entendi o nome do livro rs

Minha curiosidade só aumentou depois de consultar um dicionário: era um livro sobre a vida de alguém que tinha morrido ou a vida de alguém depois de morto?

Qual não foi minha surpresa ao abrir o livro emprestado da biblioteca pública e dar de cara com esta dedicatória:

Imagem: Ratas de Biblioteca
Imagem: Ratas de Biblioteca

Assim, pude aproveitar o cinismo do Brás Cubas – personagem – e a escrita cheia de ironias e sarcasmos de Machado de Assis – autor – sem a pressão do “tem que ler porque cai no vestibular”.

Depois disso, fui lendo outros romances e contos do autor, todos diferentes entre si, mas ainda com aquela marca da escrita que tinha feito eu me divertir tanto ao ler o “Memórias”.

Simão Bacamarte, o alienista

E assim fui indo, até que na faculdade me deparei com uma professora de Literatura que também escreveu uma lista de livros na lousa, mas, dessa vez, eram só livros do Machado para que fizéssemos um trabalho de análise.

Como o único da lista que eu não tinha lido ainda era “O Alienista”, foi ele o meu escolhido.

E, aí, nós fomos surpreendidos novamente! 😀

O Alienista” na verdade é um conto, mas, como ele é “grande”, existem algumas edições em que ele é publicado como “romance”, quer dizer, um livro todo só pra ele.

Foi uma edição dessas que eu li e, cara, já se passaram alguns anos, eu já reli algumas vezes e continuo acreditando que esta é uma das melhores – e surpreendentes – histórias que eu já li, e possivelmente lerei, na vida.

O Alienista

Onde acha?

Se você ficou curioso, ou decidiu dar uma segunda chance pro cara, neste site do MEC, em Obra Completa, pode-se baixar suas obras, pois estão em domínio público 😀

P.S.: “O Alienista” foi publicado originalmente no livro de contos “Papéis Avulsos”.

P.S.2: Em 2001, foi lançado o filmeMemórias póstumas de Brás Cubas“. Eu achei uma ótima adaptação e o Reginaldo Faria está incrível como narrador-defunto!

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A hora e a vez de Augusto Matraga – Conto e filme

Leonardo Villar - ator

Ou, filme e conto.

Faz muito tempo que A hora e a vez de Augusto Matraga está na minha lista de “Coisas pra ler”.

Um dos motivos é porque gosto muito desse título. Ele me fez ficar curiosa desde a primeira vez em que li – numa lista dos contos contidos no Sagarana.

Bom, lendo sobre os contos do Guimarães Rosa, descubro que há um filme baseado nesse conto:

Então, depois de ter visto o filme, fui atrás de ler logo o conto! rs

Eu sei que o ideal, pelo menos pra mim, teria sido ler o conto antes de ver o filme. Mas aí é que tá: o filme é bom, e foi ele que me deu o empurrão pra finalmente tirar esse conto da “fila”. É claro que o filme não é exatamente igual ao conto, por ser uma adaptação é normal que haja algumas mudanças, mas nada significativo a ponto de mudar a essência ou pontos importantes da história.

Por isso, recomendo os dois! Leiam! E assistam também! 😉

P.S.:

O ator que faz o que papel de Augusto Matraga é o Leonardo Villar, esse simpático senhor da foto lá acima. Confesso que fiquei impressionada com a atuação dele, já que só o tinha visto fazendo papéis meio genéricos de vovôs bonzinhos em novelas da Globo. E fiquei mais impressionada ainda quando me liguei que ele também tem uma atuação excepcional no papel de Zé do Burro no filme – também excelente – O Pagador de Promessas.

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