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Língua e Liberdade

A Letra A

Por uma nova concepção de língua materna

Celso Pedro Luft é um renomado autor de dicionários e manuais de Gramática. No entanto, em Língua e Liberdade o que ele defende não são regras gramaticais, mas uma nova concepção do ensino desta matéria.

Luft inicia o livro apresentando O gigolô das palavras, crônica de Luís Fernando Veríssimo. O texto mostra um homem apaixonado pelas palavras e pela língua, mas afirma que, com exceção de algumas, a maioria das regras são dispensáveis.

A partir daí, Luft começa uma discussão para defender um ensino da língua sem repressão e que realmente desenvolva nos alunos suas habilidades de comunicação nas modalidades escrita e falada, mostrando as infinitas possibilidades criativas de ambas e também de suas diferentes aplicações.

Um dos conceitos apresentados pelo autor é “todo falante é um gramático que se ignora”, quer dizer, inconscientemente, todo aquele que é falante de uma língua conhece as “regras” da fala, sabe como usar as palavras para que seja comunicado exatamente aquilo que quer expressar.

Este conhecimento é tácito e o ensino de Gramática na escola deveria cumprir a função de tornar explícito o que o aluno já sabe sobre a língua, apresentando e incentivando novas alternativas de comunicação.

O importante não é saber regras decoradas, mas saber utilizar-se das possibilidades de expressão da língua.

“Não tem importância trazer de cor regras explícitas: não creio que todos os nossos bons escritores fossem aprovados num teste de Português à maneira tradicional, e no entanto, são eles os senhores da Língua.”

Livro: Língua e Liberdade: por uma nova concepção de língua materna

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O bullying e o aprendizado

O bullying e o aprendizdo, por Etson Delegá

Essa é especial para os meninos: que me perdoe a patrulha do politicamente incorreto, mas a trollagem é uma das melhores coisas da vida.

Em tempos de discussões tão acirradas sobre o bullying, eu vejo que nesse processo de criarmos uma consciência tão excessivamente cuidadosa com a formação da autoestima dessa juventude, algumas coisas importantes são perdidas no caminho.

Hoje em dia não consigo esconder um sorriso cada vez que ando pela faculdade e vejo um garoto dando um pescotapa no amigo. Significa que certas tradições ainda se mantêm. Acreditem ou não, meninas, isso nos faz muito bem.

Fui adolescente nos anos 1990, numa época em que bullying era uma expressão que nem existia. A expressão, mas não o ato. O bullying era comum e não há como negar: em muitos casos, era puro sadismo social.

O que confunde muita gente é quem nem toda “zoeira” era bullying, nem toda trollagem tinha a intenção de humilhar. Muitas vezes, era justamente o contrário. Se pegassem uma máquina do tempo e voltassem ao verão de 1994, veriam que eu e os distintos cavalheiros que são hoje meus padrinhos de casamento, amigos de longa data e pessoas do meu mais íntimo convívio social, vivíamos nos batendo.

Ninguém vinha à escola de calça de moletom e ficava impune – sempre tinha alguém para baixar suas calças em locais públicos; ninguém soltava piada sem graça sem tomar um monte de tapas na cabeça; ninguém arrotava alto e esquecia de encostar o polegar na testa; amarrar o tênis perto dos amigos era sempre uma tortura, porque não paravam um minuto de te desequilibrar. Tinha o “passar a jaca”, o tapa com a ponta dos dedos no saco, o dedo molhado no ouvido, a pasta de dente na cara durante os cochilos, o puxão de orelha nos aniversários…

Certos dias, nossa rotina parecia um episódio dos três patetas, só que com muito mais patetas.

A zoeira, de modo geral, é um jogo. Você zoa seu amigo, ele te zoa. Quem zoa mais, ganha. Quem fica sem resposta, perde. Simples assim. É verdade que, como tudo que é competição na vida, é fácil se deixar levar pela vontade de vencer e começar a quebrar regras. E isso inevitavelmente acontecia.

Em muitos momentos a trollagem perdia os limites e alguém ficava bastante ofendido, e com razão.

A questão é que isso nunca foi privilégio das brincadeiras de mau gosto entre adolescentes. Conviver é assumir o risco de magoar as pessoas que a gente ama, algumas vezes intencionalmente, mas muitas vezes sem querer.

Atire a primeira pedra quem nunca magoou os pais ou avós ou cônjuges com algo que disse e depois se arrependeu. Acontece. É um ajuste natural que faz parte do processo de convivência. Demorei anos para entender isso, mas é um fato da vida: infelizmente não se pode aproximar-se de verdade de um ser humano sem assumir esses riscos.

Foi com meus amigos que percebi que esse é um risco que vale a pena correr. Quando se supera essa fase das ofensas, quando se aprende a perdoar (e evitar, quando necessário) o mau dito, as amizades se consolidam de verdade.

Você deixa de apenas rir dos seus amigos e com seus amigos, e aprende a rir de si mesmo. E quando a gente aprende a rir de si mesmo, é sinal que a autoestima está em alta. E com autoestima saudável tudo fica melhor. Até as piadas.

Vem também a confiança. Os xingamentos se abstraem e perdem o seu sentido pejorativo original: você chama o seu amigo negro de negão e ele sabe que não é racismo, ele te chama de corno e você sabe que ele não acha sua mulher infiel, vocês dois chamam aquele seu amigo homossexual de bichona e ele sabe que vocês não estão destilando homofobia; e chamam o outro amigo heterossexual de viadinho, e ele sabe que não estão desconfiando de sua opção sexual.

Todos os significados e contextos ofensivos estigmatizados milenarmente nos mais escabrosos palavrões são convertidos simplesmente em um “Seu troll do caralho!” ou então um “Seu bundão, que disse que ia encontrar a gente na balada e não foi!”. Você não se ofende mais porque sabe, no âmago mais profundo da sua alma, que seu amigo jamais teria a intenção de te ofender: vocês viveram juntos, cresceram juntos, apoiaram uns aos outros nos momentos mais difíceis de suas vidas.

Enfim, são pessoas que conquistaram a duras penas o direito de se chamarem de filho da puta de vez em quando.

Quando se chega nessa fase, descobre-se que todas as histórias lendárias de amizade verdadeiras, a lealdade dos mosqueteiros, a união dos cavaleiros da Távola Redonda, não são de todo ficção. Pelo menos em termos de relações, aquilo tudo é possível. Basta saber o exato momento de deixar o mimimi de lado e começar a rir quando tomar um pescotapa daquele seu colega.

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