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O observador de formigas

formiga com espada contra formigas

Sempre que chego aqui me acontece uma espécie de rearranjo mental, em que o que até bem pouco era um problemão, transmuta-se em algo semelhante em tamanho, alcance e mobilidade a uma formiga insignificante perdida entre outras formigas.

É assim que meu pensamento caminha quando observo as pessoas deslizando por ruas em geral.

Eventualmente, elas se tornam numerosas a ponto de incomodar. Claro que posso pisá-las, mas eu as deixo andando por aí, em busca de alimento, em busca de algo que dê algum sentido à sua vidinha desgraçada. Não sei por que não piso em todas, ou arranjo algum veneno poderoso vendido ilegalmente em depósitos de material para construção ou pet shops de fundo de quintal.

Temo que elas possam se juntar e vir morder meus pés, fazendo com que eu fique me coçando, e isso é realmente irritante.

Lembro de ter visto um filme quando criança em que uma horda de formigas assassinas aterrorizam uma cidade, devorando pessoas.

Este tipo de coisas só acontecem em filmes, ou em revoluções.

negrinho do pastoreio formiga fantasmaAh! Tem a história do negrinho do pastoreio também, que foi deixado, por seu patrão malvado, em um formigueiro para ser devorado e depois virou uma espécie de entidade sobrenatural em busca de vingança contra o canalha que o havia matado (não me lembro se era sim, mas gosto de imaginar a história com o menino sendo devorado por formigas místicas de um antigo cemitério indígena, voltando dos mortos com poderes de formigas fantasmagóricas).

E agora aqui estou, quase saindo de um buraco da minha existência, onde me enfiei por meses, sem rumo, sem uma luz que me indicasse o melhor caminho a seguir.

Aliás, houve algumas luzes, mas levaram a armadilhas. Decidi confiar então em meus ouvidos e instintos, e nos aromas. Agora sim consigo sentir um pouco melhor as belezas do mundo que se apresenta ao meu redor.

Claro que tudo pode não passar de ilusão. Minha mente cansada do escuro, da solidão, rompeu com a sanidade e criou algo para me fazer viver mais, do desespero criou-se a vida, e, mesmo sabendo da farsa, continuo porque é melhor assim do que a dor da existência nula.

Então crio um mundo, e acabo enchendo-o de pessoas-formigas só pra ter aquele movimento, aquele vai e vem, mas só eu sei que apenas algumas delas são realmente importantes. Só não sei quem são.

 

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Eleições 2014 – Drops

Urna Eletrônica

Esse Drops é mais uma conversa, um desabafo, sobre minha pesquisa de candidatos a Deputado Estadual e Deputado Federal.

Pois bem, assistindo a alguns pedaços da propaganda eleitoral gratuita, cheguei à conclusão de que se eu quero votar consciente, de verdade, teria que pesquisar mais.

O meu “problema” começou porque eu realmente não queria votar nulo ou em branco ou apenas na legenda de algum partido.

Essa última opção até passou pela minha cabeça, porém, votando apenas num partido, por mais que eu compartilhe de suas ideologias, não significa que a pessoa que vai assumir o cargo (com a ajuda dos votos da legenda) seria uma pessoa em que eu votaria… enfim.

Pesquisa

Comecei pesquisando por candidatos que fossem da minha região ou cidade.

Pra isso usei o Eleições 2014 [fora do ar]. Nesse site, foi só isso que consegui fazer: saber a qual partido o(a) candidato(a) é ligado(a), número na eleição, cidade onde nasceu, etc. Ou seja, só informações “cadastrais”.

Mesmo com essas poucas informações, anotei o nome de alguns e os pesquisei no candidatofichalimpa.com [site fora do ar, passadas as eleições], que retira suas informações do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que, por sua vez, tem informações mais completas sobre os candidatos.

Nessa segunda pesquisa risquei alguns nomes da minha lista. Então comecei a pesquisar pelos nomes que sobraram, e aí é que veio a minha decepção maior: pouquíssimos candidatos(as) divulgam suas propostas políticas.

Resultado

Tudo o que os(as) candidatos(as) divulgam são seus nomes e números da urna. . Um ou outro tem página no Facebook – e só com essas mesmas informações de nome e número – e um ou outro [2 dos 18 que sobraram da minha pesquisa] tinha uma página no site do partido onde esclareciam pelo menos os princípios que norteavam a sua atuação política.

                        Conclusão: estou nesse mato sem cachorro.

Não quero votar nos mesmos de sempre, porque não fizeram por merecer que eu repetisse meu voto neles. E os novos não se “mostram”: é quase como se eu tivesse que votar decidindo se “fui ou não com a cara” do(a) candidato(a).

E você, como pretende decidir seu voto?

P.S.: Ouça (ou leia) sobre a “polêmica” do voto nulo nessa edição do podcast Café Brasil.

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A chuva

Enchente

São Paulo, a terra da garoa, nos últimos tempos transformou-se na terra da “chuvoa”, de tanta água que tem caído. Aliás, não é só aqui, por todo lado só se ouve falar em enchentes, desmoronamentos, inundações e por aí afora.

Nessas horas você vê todos correndo da chuva ou será que é correndo na chuva? Logo alguém ensina:

— Ô meu! Não sabe que correndo na chuva você vai se molhar mais que andando? Dizem os cientistas que os pingos da chuva podem cair diretamente sobre a cabeça da pessoa ou, quando a pessoa correr, encontrar-se diretamente com ela. Como a área da superfície da frente de um indivíduo é muito maior do que a cabeça e os ombros, você molha-se mais se correr do que andando normalmente!

O melhor mesmo é curtir a chuva e fazer como o Gene Kelly, no famoso filme “Cantando na Chuva” ou “Singin’ in the Rain”, de 1951. Aliás, dizem que quando Gene Kelly gravou aquelas cenas estava com 39 graus de febre. Pelo jeito ele gostava mais de chuva que os paulistanos!

Dançando na chuvaMas os paulistanos gostam mesmo de chuva? Tem de gostar! Não tem outro jeito! Quando não é chuva é tempestade e quando não é nem uma das duas é a irritante garoa (que não deixa de ser uma chuva). Quando faz sol pela manhã chove à tarde ou vice-versa.

Portanto o paulistano gosta de chuva e não se fala mais nisso. Ele é “perseguido” pela chuva, veja alguns exemplos:

a) Diariamente enfrenta sol, calor, frio e, principalmente, a chuva. Tudo isso no mesmo dia.
b) Tem a mania de lavar e polir o carro no final de semana, mas basta terminar o serviço e cai aquele temporal.
c) Passa a temporada na praia, mesmo sabendo que vai chover a maior parte do tempo. Já chama Praia Grande de Praia Granchuva e Ubatuba de Ubachuva.

E assim por diante…

d) Quando leva o guarda-chuva não precisa dele, só estorva. Mas quando não leva, é “batata”, volta todo molhado!
e) Compra móveis novos para pagar em “trocentas” prestações e a enchente estraga tudo.
f) Mas, o duro mesmo é enfrentar o “manda-chuva” (seu patrão ou chefe). Geralmente esses caras são tão chatos que fazem até “chover no molhado”.

Mas a chuva também trouxe coisa boa para o paulistano, basta lembrar-se de algumas obras e de artistas que usaram o tema, entre elas eu destaco “Os Demônios da Garoa” e as inesquecíveis obras de Adoniran Barbosa, Mário Lago, Ataulfo Alves e tantos outros. Basta lembrar deles e a gente tem vontade de cantar suas músicas, algumas delas:

Estação de tremTrem das onze, de 1965 (acabou virando música símbolo da cidade de São Paulo). Vamos cantar juntos: “Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito amor, mas não pode ser / Moro em Jaçanã”…

Samba do Arnesto, de 1958, : “O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás / Nós fumos não encontremos ninguém”…

Amélia, de 1961, : “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia / Aquilo sim é que era mulher / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer”…

Salve a chuva, gente!

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