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A sombra do burro

A sombra do burro
Relatado por Darci Men

Demóstenes (384-322 a. C.) foi o maior orador ateniense.

Certa vez, promovendo uma assembleia pública em Atenas para tratar de altos interesses da pátria, Demóstenes viu-se em apuros pela turba impaciente, que fazia menção de retirar-se sem ouvi-lo.

Então, elevando a voz, disse que tinha uma história interessante a contar. Obteve, assim, silêncio e atenção, e começou:

— Certo jovem, precisando ir de sua casa até Megara durante o verão, alugou um burro, mas, antes de sair, o sol ficou a pino, muito quente, tanto o moço como o dono do animal alugado, queriam usar à sombra do burro e começaram a discutir quem ficaria com o lugar. Dizia o dono do animal que apenas alugara o burro e não sua sombra, e o outro afirmava que, quando pagou o aluguel do burro, pagara também o de sua sombra, pois tudo quanto pertencia ao burro lhe fora alugado com ele…

A esta altura, Demóstenes levantou-se e fez menção de retirar-se.

A multidão logo protestou desejosa de ouvir o resto da história. Foi então que o prodigioso orador, erguendo-se em toda a sua altura, encarou com firmeza o auditório, dizendo:

— Atenienses! Que espécie de homens sois que insistem em saber a história da sombra de um burro e recusas tomar conhecimento dos fatos mais graves que vos dizem respeito?

Só então pôde fazer o discurso que pretendia, para um auditório envergonhado e atento, que, afinal, ficou sem saber o fim da história da sombra do burro.

Até hoje os oradores usam deste expediente quando necessitam atenção da plateia.

Algo parecido aconteceu comigo.

Certa vez fui designado para dar uma palestra sobre segurança patrimonial e pessoal para funcionários de agências do Banco onde trabalhava.

Acontece que o organizador do evento designou-me para falar após a palestra do Professor Marins, um catedrático em comunicação e o homem foi fantástico, e no “Cofee Break” (parada para o café) que seguiu a sua apresentação todos comentavam a sua atuação.

Aí percebi a “roubada” em que tinha entrado: tinha de falar de um assunto chato, não era especialista nisso e falaria logo após aquele show do Professor Marins, e fiquei pensando: “Tenho que apresentar alguma coisa especial ou estou perdido!”

Por sorte lembrei-me de algo que tinha visto nos jornais da época e acabei “salvando o dia”, comecei a palestra nos seguintes termos:

“Pessoal, falar de segurança após esse show do Professor Marins, me fez sentir como o 8º marido da Elizabeth Taylor na noite de núpcias, ele deve ter pensado: ‘O que vou fazer agora para satisfazer essa mulher!’”

Todos aplaudiram e a partir daí tudo ficou mais fácil e no final da palestra o próprio Professor Marins fez questão de me cumprimentar.

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