O Restaurante no Fim do Universo

Introdução. O Restaurante no Fim do Universo

Volume Dois da Série

Chegamos ao Volume Dois da Série d’O Guia do Mochileiro das Galáxias e agora que você já leu o primeiro livro [espero 🙂 ] posso dizer que os nomes das continuações, O Restaurante no Fim do Universo, A Vida, O Universo e Tudo Mais, Até Mais, e Obrigado pelos Peixes e Praticamente Inofensiva, aparecem todos no Volume Um da série (que termina com os personagens dizendo que estão com fome e vão dar uma passada no Restaurante no Fim do Universo), mas nunca de maneira forçada, tanto que só percebi isso quando peguei o Volume Dois para ler.

Na capa do Volume Dois temos ainda o céu/espaço estrelado como fundo e a frente vemos um sol, uma guitarra, uma colher, um garfo e uma cabeça de vaca (ou boi), que logo encontraremos no Restaurante do Fim do Universo.

Sim, até o sol de certa forma encontraremos no Restaurante, mas, para não dar spoiler, vou deixar que descubram o porquê na leitura de vocês. 😉

Volume Dois da Série

Continuando

A primeira coisa que notei é que o ritmo da história está um pouco diferente, apesar de os capítulos ainda serem curtos, parecem um pouco mais longos, talvez porque aqui você fica boa parte do tempo sem saber o que realmente está acontecendo, assim como os personagens principais.

Isso também acontece algumas vezes no primeiro, mas lá, parece que só o Arthur está perdido, então, mesmo sem sabermos o que está realmente acontecendo não nos sentimos tão “perdidos” como nesse segundo. 

Ainda temos os “parênteses” do Guia do Mochileiro das Galáxias nos dando informações sobre planetas e lendas do Universo, mas aqui essa interrupção não parece tão natural quanto no primeiro.

É claro que as ironias e sátiras ao nosso mundo e modo de vida ainda estão lá, se encaixando perfeitamente na história e nos fazendo rir e pensar ao mesmo tempo, quando, por exemplo, nos é mostrada uma passagem do Guia com informações básicas sobre o Universo e diz que a população é zero, pois o Universo é tão imensamente vasto que os poucos mundos habitados não são suficientes para que sejam considerados nessas estatísticas…

Aí você pensa: “Somos mesmo menos do que um grãozinho de areia no Universo…” e então acho que começamos a não dar tanta importância a coisas que não são tão importantes…

Enfim…

Uma das partes que eu adorei nesse livro foi quando nos é descrito um pouco sobre o Manual das 1001 Formações de Tempos Gramaticais para Viajantes Espaço-Temporais. Como eu fiz Letras, nem preciso dizer o quanto ri lembrando dos livros e aulas de Gramática em que tudo aquilo parecia só ter lógica dentro de uma lógica interna maluca…

Mas não vou discorrer aqui sobre isso, deixemos esse tipo de discussão para um outro post, basta saberem que piadas com linguagem e “pensamento acadêmico” sempre me fazem rir…

Ah, lembram que eu comentei sobre a série de TV d’O Guia? Então, os episódios 5 e 6 se referem a acontecimentos que se passam no Volume Dois, e a série acaba no 6, ou seja, estou curiosa para saber o que vem por aí nos outros volumes da série.

Tentei não contar muitos detalhes, spoilers, desse livro, pois, assim como eu, acredito que ainda tenha gente por aí que não leu O Guia completo, mas se vocês leram e quiserem trocar ideias ou apenas conversar sobre os livros, podem me adicionar lá no Skoob ou podem entrar lá no grupo do Cachorro Solitário no Facebook ou curtir a página do blog ou deixe seu comentário aqui no blog, enfim, opções não faltam, fiquem à vontade: sintam-se em casa. 🙂

 

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Dez bons conselhos de meu pai

Viva - capítulo 2

Dez bons conselhos de meu pai é um livro que você vai encontrar, dependendo da livraria, na seção de Administração financeira e orçamentária ou na de Autoajuda/Mentalismo.

Dependendo da forma como você absorva e ponha em prática os conselhos do livro, os dois podem ser considerados certos.

Confesso que esse não é o tipo de leitura que me atrai (nem administração nem autoajuda rs), mas ganhei esse livro quando trabalhei numa livraria, desde então ele ficou na minha fila de livros e quando chegou a vez dele eu pensei: “Já que ele já está aqui, por que não?”

Gustavo Cerbasi é um autor conhecido no meio da Educação Financeira, faz palestras por todo o Brasil, e o seu livro mais conhecido é o Casais inteligentes enriquecem juntos, que serviu de inspiração para o filme brasileiro Até que a sorte nos separe.

Livro

Neste livro, Cerbasi reuniu dez conselhos que ele pensa terem uma importância fundamental para o seu sucesso profissional e pessoal.

Sim, pessoal também, pois ele deixa bem claro em muitas passagens do livro que não adianta nada você trabalhar loucamente e enriquecer se não tiver tempo para relaxar e aproveitar os frutos do seu trabalho.

[Não é à toa que o subtítulo do livro é: Que me ajudaram muito a prosperar]

Algumas vezes esses conselhos não são bem conselhos, mas sim atitudes que ele via os seus “pais” tomando diante de algumas situações da vida.

Digo “pais” porque em sua maioria os conselhos são de seu pai biológico, mas temos também um tio, o avô materno e o técnico do time de natação – pessoas que, segundo o autor, exerceram em alguns momentos de sua vida o exemplo de “pai” para ele.

Como disse antes, não sou muito fã desse tipo de leitura, mas não digo que o livro tenha me desagradado, acho que foi uma experiência válida.

A linguagem que o autor utiliza é a mais clara e simples possível – simples no sentido bom da palavra –, pois a proposta do livro/autor é atingir e ajudar o máximo de pessoas possíveis, principalmente aquelas que não têm conhecimentos mais profundos da área financeira.

No entanto, Dez bons conselhos de meu pai não é um livro que se apegue às finanças propriamente, mas sim às atitudes e comportamentos para que você desenvolva a disciplina necessária para atingir algum objetivo, seja ele profissional ou estritamente financeiro.

Meus quatro pais

Aqui Gustavo Cerbasi apresenta-nos cada um de seus “pais”.

Conselho pra vida

O “Bom Conselho Número 2″, por exemplo, aprendido com o pai dele, Tommaso Cerbasi: “Viva. Não permita que o trabalho tome conta de sua vida”.

Nesse capítulo o autor fala de uma atitude que aprendeu a tomar em vida fazendo justamente o contrário do que o pai fazia. Conta que seu pai era um workaholic daquele tipo que acaba descontando um pouco do estresse do trabalho na família ou que diz coisas como “Quando me aposentar, terei tempo para descansar e aproveitar.”, mas que tomou um susto quando, em certa altura da vida, sua saúde ficou fragilizada e teve que fazer um transplante renal.

Aí, ele diminuiu o ritmo e começou realmente a aproveitar os “pequenos prazeres da vida”.

Depois de relatar algumas situações e consequências que esse comportamento do pai teve nele como filho, o autor divide o capítulo em “O conselho que meu pai daria a você“, onde descreve o “conselho” que veio dessa situação para a prática na vida como “Não deixe para viver no futuro” esperando por uma aposentadoria que talvez não venha, ou seja, viva, aproveite a vida.

Todos os capítulos/conselhos seguem essa estrutura, por isso, muitas vezes me parece muito mais um relato autobiográfico do que “autoajuda” mesmo, pois ele conta situações vividas por ele, por seus “pais” ou por ambos e diz como esse exemplo de vida tornou-se em conselho que tornou-se uma prática em sua vida.

Se você ficou curioso pra conhecer mais do autor ou dos seus conselhos, um dos caminhos é ler um de seus livros, o outro é entrar no site dele: Mais dinheiro.

[Como vocês podem ver, o nome do site é bem sugestivo rs]

Ah, e se quiserem trocar experiências de leitura comigo, podem me adicionar lá no Skoob. 🙂

 

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O Guia do Mochileiro das Galáxias

Guia do Mochileiro das Galáxias

Volume Um da Trilogia de Cinco

Sempre ouvi falar sobre esse livro, mas nunca tinha lido, não por falta de curiosidade, mas de tempo, já que tinha – e tenho ainda – vários (muitos rs) outros livros e revistas na fila para ler. Mas nessa semana de folga de fim de ano de 2013 resolvi começar a ler a trilogia de cinco (que são seis, mas depois falamos sobre isso rs).

Bem, a curiosidade já começa pela capa, onde vemos os desenhos de um trator e uma cabeça de robô triste sobre um fundo de céu/espaço estrelado e, no canto direito, o aviso sobre fundo laranja: “Não entre em pânico”. A edição que tenho é da Editora Sextante. É uma edição simples, mas bem cuidada: o livro é leve, o que, para mim que leio no ônibus no caminho para o trabalho, é ótimo! A única coisa que me incomodou foram alguns erros de revisão, mas foram pouquíssimas vezes, então dá para passar.

Não entre em pânico

O Guia do Mochileiro das Galáxias
Volume Um da Trilogia de Cinco

Impressões

Começando a leitura encontramos Arthur Dent tentando salvar a sua casa de uma demolição que será feita para a construção de um desvio, projeto do qual ele só teve notícia no dia anterior:

“— O senhor teve um longo prazo a seu dispor para fazer quaisquer sugestões ou reclamações, como o senhor sabe – disse o Sr. Prosser.

— Um longo prazo? – exclamou Arthur. — Longo prazo? Eu só soube dessa história quando chegou um operário na minha casa ontem. Perguntei a ele se tinha vindo para lavar as janelas e ele respondeu que não, vinha para demolir a casa. É claro que não me disse isso logo. Claro que não. Primeiro lavou uma das janelas e me cobrou cinco pratas. Depois é que me contou.

— Mas, Sr. Dent, o projeto estava à sua disposição na Secretaria de Obras há nove meses.

— Pois é. Assim que eu soube fui até lá me informar, ontem à tarde. Vocês não se esforçaram muito para divulgar o projeto, não é verdade? Quer dizer, não chegaram a comunicar às pessoas nem nada.

— Mas o projeto estava em exposição…

— Em exposição? Tive que descer ao porão pra encontrar o projeto.

— É no porão que os projetos ficam em exposição.

— Com uma lanterna.

— Ah, provavelmente estava faltando luz.

— Faltavam as escadas, também.

— Mas, afinal, o senhor encontrou o projeto, não foi?

— Encontrei, sim – disse Arthur. — Estava em exibição no fundo de um arquivo trancado, jogado num banheiro fora de uso, cuja porta tinha a placa: Cuidado com o leopardo.”

Preciso dizer o quanto ri depois de ler essa passagem? E isso logo nas primeiras páginas do livro!

O Guia do Mochileiro das Galáxias é o tipo de livro com o qual você se diverte e enquanto você dá risada também percebe a crítica as nossas instituições e burocracia… Nesse ponto me lembrei de O Processo, de Franz Kafka, no qual o personagem principal certa amanhã acorda e é avisado de que está preso, enfrentando um processo longo e surreal tentando descobrir do que está sendo acusado para tentar se defender… Mas é claro que a atmosfera na história de Kafka é muito mais carregada, chegando a causar – em mim, pelo menos, quando li esse livro – uma angústia muitas vezes até física! No Guia nós temos um clima bem mais irônico e satírico, mais leve, mas não se engane, esse aparente ar de simplicidade traz embutido várias críticas a nossa sociedade e modo de vida.

Assim, Douglas Adams mostra como é habilidoso em criar situações inusitadas e improváveis que fazem todo sentido como também é habilidoso na construção do texto em si, como por exemplo o fato de se terem capítulos curtos intercalando a história dos personagens principais com trechos do Guia do Mochileiro das Galáxias, assim, além de tornar a leitura mais dinâmica, também vamos descobrindo algumas coisas sobre outros mundos de outras galáxias conforme Arthur Dent vai percorrendo o índice do Guia. Adams também parodia, de certa forma, as estruturas “pré-fabricadas” de se contar uma história:

“— Aqueles baques, o que foi aquilo?

— Não sei.

Esperaram mais alguns segundos.

— Eu vou lá ver – disse Ford. Olhou para os outros e acrescentou: — Será que ninguém vai dizer: Não, você não, deixe que eu vou?

Os outros três sacudiram a cabeça.

— Nesse caso… – disse ele, e levantou-se.

Por um momento, não aconteceu nada.

Então, alguns segundos depois, continuou a não acontecer nada. Ford olhou para a fumaça espessa que saía do computador destruído.

Cuidadosamente, saiu do esconderijo.

Continuou não acontecendo nada.”

Então…

Aparte essas questões críticas de conteúdo e estilo, como uma boa obra literária, pode ser lido e interpretado em várias camadas de significação diferentes, inclusive na camada do divertimento, pois confesso que me diverti muito lendo esse livro! 🙂

Sei que muita gente já conhece o livro (ou viu o filme, que é um pouquinho diferente do livro… rs), mas não vou me aprofundar muito nos detalhes da história para não estragar o prazer da descoberta da leitura, então, quem quiser saber a resposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais, terá que ler o livro! :p

*Trailer: O Guia do Mochileiro das Galáxias (2005) — Eu fiquei na dúvida entre esse trailer aqui e este outro, pois eu achei a narração do José Wilker muito boa!

 E não esqueça a toalha!

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Não consigo mais escrever

Não consigo mais escrever, por Diogo Scooby

Não consigo escrever.

A maior parte do Escrever é técnica e ela se aperfeiçoa com treino e o treino na escrita é o escrever é o ato em si e se não consigo, não treino, não melhoro, definho em meus sentimentos, me perco em minhas torrentes alucinógenas de pensamentos desordenados e atemporais quase como se meus miolos se preparassem para um possível colapso mental.

Não posso permitir isso.

As palavras precisam ser ordenadas e direcionadas para um bem maior, para me libertar do que me faz ser quem eu sou e me fazer livre de mim mesmo, simples e egoísta, sem me importar em um primeiro momento em criar textos com pretensão alguma de livrar ou ensinar alguém além de mim mesmo.

Tomo a caneta, o lápis passeia pela folha, os dedos deslizam quase em união com o pensamento da superfície… é o momento onde a mente está calma e quase nada, a não ser o ato da escrita em si, existe.

Eu daria uma dica pra mim mesmo, sempre digo para escrever, mas as redes sociais e os programas de comunicação tomam minhas inspirações e letras e as jogam em uma torrente plural de ideias e iconografias sem dono e fugaz, dia após dia após hora e um apanhado de minutos fazendo com que tudo faça parte da comunidade do que é ser humano.

É o que vai sobreviver, esse aglomerado semicaótico de informações e delírios hedonistas, ou nem tanto, mas massificados em sua pureza ou repetição. Isso realmente não tem a mínima importância.

Me resta então o alívio que fica ao se livrar de palavras sem sentido, mas com alguma substância.

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A mulher desiludida

A Mulher Desiludida - Simone de Beauvoir

Neste livro Simone de Beauvoir apresenta-nos em três novelas, três mulheres que se dão conta do envelhecimento e, com ele, da morte próxima.

As histórias escritas na forma de diário nos deixam muito próximos dessas mulheres que, poderiam ser nossas mães, irmãs, amigas ou nós mesmas.

Mas como saber e como evitar que estas narrativas cheias de frustrações e desenganos saiam da ficção e se tornem parte da realidade?

Simone de Beauvoir era uma escritora feminista, iniciando a discussão com o livro O Segundo Sexo, onde examinava a condição da mulher através da biologia, do marxismo e da psicanálise, chegando a conclusão de que a alienação das mulheres não é de ordem biológica, mas cultural. Sua atuação pelo movimento feminista tornou-a um emblema, um ícone desta causa no século XX. 

Em A Mulher Desiludida (título original: La Femme Rompue), a autora volta seu olhar para aquelas mulheres que fracassaram: tanto como donas de casa tradicionais como na “libertação” que o feminismo preconizava. Mostrando a condição das mulheres numa sociedade dominada pelo patriarcado.

Apesar de todos os pressupostos filosóficos da autora, A Mulher Desiludida não é um livro ideológico e este é o grande mérito de Simone: por meio de sua sensibilidade, tornou a história dessas mulheres fracassadas em grande literatura.


Referência: 

BEAUVOIR, Simone de. A Mulher Desiludida. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2003.

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Brasil & Cabo Verde: Irmãos de Almas Agrestes

pés_seca - Brasil & Cabo Verde

TRAIÇÃO DO TEMPO – DINA SALÚSTIO

SÃO BERNARDO – GRACILIANO RAMOS

Brasil e a África possuem muitos aspectos em comum, principalmente com os países africanos colonizados por Portugal e que têm, também, a Língua Portuguesa como língua oficial.

No entanto, as semelhanças não se restringem à língua ou aos costumes que herdamos dos escravos africanos que para cá vieram, as semelhanças são também os problemas sociais como a fome, a pobreza, o analfabetismo e tantos outros que estamos já acostumados a ver noticiados em jornais ou na televisão.

Destacamos aqui uma destas semelhanças: a seca que assola tanto o nordeste brasileiro como as ilhas africanas de Cabo Verde.

No Brasil, a seca, como um dos grandes problemas do país, sempre foi tema de escritores que, preocupados com sua função social, fizeram da miséria causada pela seca, tema de seus contos e romances.

Como uma das semelhanças entre países, a seca em Cabo Verde também é assunto constante na literatura do país.

Muitos autores procuraram mostrar em suas obras os efeitos da seca em seus aspectos físicos e práticos no ambiente, tornando subtemas de seus escritos a caatinga, o gado magro, os rios secos, o homem animalizado em suas atitudes pela fome etc.

Almas agrestes

Entretanto a crônica Traição do tempo da escritora de Cabo Verde Dina Salústio e o romance São Bernardo do brasileiro Graciliano Ramos parecem enfatizar que os efeitos da seca não são sentidos apenas no corpo ou na paisagem, mas também na alma e no humor das pessoas que convivem com ela.

Dina Salústio descreve na sua crônica Traição do tempo como o humor do habitante das ilhas de Cabo Verde parecem estar extremamente ligado com a seca, ou melhor, com a falta da chuva.

A autora conta como o crioulo espera pela chuva olhando para o céu que aparece sempre límpido e sem nuvens e de como essa esperança que não se concretiza vai tornando o crioulo um ser amargo.

Em São Bernardo, Graciliano Ramos conta a história de Paulo Honório e de sua fazenda que dá nome ao romance. A narrativa é feita pelo personagem principal que conta como aquela terra seca tornou-lhe também a alma seca.

Graciliano Ramos demonstra que o ambiente influencia no caráter e na personalidade do indivíduo.

Num dos trechos de São Bernardo em que Graciliano Ramos está apresentando o personagem, este declara sobre si “a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste” e Dina Salústio termina sua crônica com esta frase: “Depois, recuso acordar, temendo enfrentar a cidade seca, as gentes secas, os amores secos.”

Os dois autores demonstram como a seca influencia não apenas os aspectos econômicos e sociais de um país, mas também os humores e as esperanças das pessoas que habitam nele.

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Fabricando Poesia

Waly Salomão, a fábrica do poema

a fábrica do poema

Waly Salomão

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento
encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
faíscas das britas e leite das pedras.
acordo!
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo!
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
acordo, e o poema miragem se desfaz
descontruído como se nunca houvera sido.
acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-me os dedos estarrecidos.
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
no topo fantasma da torre de vigia
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que mascará retornará o recalcado?

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“Fábrica”: local onde se trabalha uma matéria-prima de forma a transformá-la em algum tipo de produto. Temos aqui a ideia de fábrica como um local de criação; criação que só é possível pois o espaço é organizado e estruturado de forma a propiciá-la.

“a fábrica do poema” é, então, um local que tem certa organização para que este “produto” seja criado ou podemos entender também esta “fábrica” como uma ironia à massificação que vem ocorrendo nos meios de comunicação, fazendo com que a arte perca em qualidade em decorrência da quantidade (ideia que vem ligada à de fábrica e de produtos em série).

Pensando o poema enquanto estrutura conscientemente arquitetada, um dos aspectos a merecer destaque é a visualidade: com versos curtos intercalados por outros mais longos, o poema assume uma forma material que nos remete a imagem de um prédio ainda no início de seu “crescimento”, levando-nos a prestar mais atenção nos próprios significantes* “arquitetura”, “cimento”, “britas” e “pedras” que são utilizados e repetidos (“palavra por palavra”) nos versos iniciais reforçando-lhes o significado* pela forma visual como estão empregados.

Repare na estrutura:

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de
cimento
encaixa
palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
faíscas das
britas e leite das pedras.

Ainda reforçando a ideia de construção planejada, o poema apresenta repetição de palavras como se fossem blocos se encaixando para “levantar” ou armar uma “parede-verso” (“encaixa palavra por palavra […])” ou na repetição de palavras com o uso da aliteração* e da assonância* (“e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo”). Pela utilização desses recursos sonoros percebemos como o poema vai se “erguendo” ao mesmo tempo em que seus “sons” nos remetem ao ritmo de algo sendo construído.

Por exemplo, na repetição das letras “t”, “p” e “c” (que têm sons mais “secos”) como se fossem os sons do trabalho de operários enquanto realizam uma obra (“sonho o poema de arquitetura ideal / cuja ppria nata de cimento / encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair / faíscas das britas e leite das pedras. / acordo! / e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. / acordo! / o prédio, pedra e cal, esvoaça”).

Nesta primeira parte do texto, o poeta mostra que só alcançará o “poema de arquitetura ideal” se trabalhar as palavras de forma concreta, material. Assim como operários encaixam blocos de cimento para construírem uma parede, o poeta “encaixa palavra por palavra” para construir um verso e, de verso em verso, construir o poema.

A partir do verso “o prédio, pedra e cal, esvoaça”, o poema parece seguir numa outra direção, como se aquela solidez da construção arquitetônica fosse, contraditoriamente, fruto de um sonho que ao acordar (“acordo!”) fugisse das mãos do poeta “como um leve papel solto à mercê do vento […])” e que, por isso, não conseguisse se encaixar perfeitamente na construção, tornando o poema “cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido”.

Neste trecho, a aliteração das letras “s”, “v” e “f” (sons mais “suaves”) nos conduz para essa atmosfera de sonho em que tudo parece efêmero e fugidio. Já a aliteração das letras “m” e “n” (por seu som anasalado), contribui para este clima de sono que, somado ao ópio (alucinógeno), seria capaz de “fabricar” poemas-miragens (“acordo, e o poema miragese desfaz / descontruído como se nunca houvera sido” e “assim é que saio dossucessivos sonos: / vão-se os anéis de fumo de ópio […])”.

O verso “metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros”, mostra um artista que pensa sua obra, pois são recursos “materiais” para a construção de um poema, são ferramentas que a linguagem oferece para elaborar um texto que seja esteticamente apreciável.

A última palavra é “recalcado” que é algo concentrado, bem calcado, ou seja, excessivamente e insistentemente trabalhado.

Assim, a metáfora da fábrica e da construção arquitetônica finaliza o poema de forma a nos deixar a ideia de uma atividade que exige planejamento, constante aperfeiçoamento e atenção durante sua execução, por isso, não adianta “permanecer à espreita / no topo fantasma da torre de vigia”, pois o poema não virá do sono, mas do trabalho feito para que as palavras se encaixem, “fiapo por fiapo”, até que o prédio-poema se construa.

Porém, “recalcado” também pode ser algo que está somente no plano do inconsciente (que foi “expulso” da parte consciente), o que mostra a riqueza do poema como obra de arte, pois abre para inúmeras possibilidades de leituras.

O poema, como obra de arte, não apenas diz sobre algo, mas na sua forma material ele reproduz sonoramente (aliterações e assonâncias*) e visualmente (aspecto gráfico) o seu conteúdo.

O modo como está organizado materialmente é que nos diria muito sobre seu significado (conteúdo), ou seja, forma e conteúdo são indissociáveis, pois modificam e completam o sentido do poema como um todo, assim, “a fábrica do poema”, produz uma construção, enquanto discursa sobre o trabalho para se fazê-la.

*

É claro que essa análise não é e nem quer ser definitiva, a proposta é que, como leitor, possamos ver (ler) e ouvir o poema não apenas como um produto do subjetivo, mas também como Arte feita de palavras e sons, assim como um pintor usa tintas e cores; um escultor, madeira e mármore etc.

*

O poema na voz de Adriana Calcanhoto (clique na imagem ao lado), onde percebemos mais claramente o trabalho com a sonoridade. Aliás, esta música-poema dá nome ao CD da cantora de 1994.

*

*Significante: forma gráfica + som. Para a linguística: imagem acústica ou uma manifestação fônica do signo linguístico.

*Significado: conceito. Para a linguística: valor, sentido ou conceito semântico de um signo linguístico.

*Aliteração: figura de linguagem que consiste em repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes. Usado principalmente em poemas, mas também em prosa (poética ou não).

*Assonância: figura de linguagem que consiste em repetição de sons vocálicos idênticos ou semelhantes. Usado principalmente em poemas, mas também em prosa (poética ou não).

Para saber mais sobre:

Waly Salomão: Site Oficial

Teoria dos signos (significante e significado): SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 30ª Edição. São Paulo: Cultrix, 2002.

E você, já trabalhou na sua obra hoje? 🙂

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Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso (1977)

lendo

“O mundo é o seu caderno, as páginas em que você faz suas somas. Não é a Realidade, embora você possa expressar a realidade ali, se quiser. Você também tem a liberdade de escrever tolices, ou mentiras, ou rasgar as páginas.”

É um belo livro do aviador e escritor estadunidense Richard Bach, que ficou mundialmente conhecido pelo livro “Fernão Capelo Gaivota”.

No livro “Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso” ele mistura sua realidade com o inusitado onde ele próprio encarna um aviador que passa seus anos indo de cidade em cidade no interior dos EUA com uma pequena aeronave oferecendo um serviço muito interessante: passeios aéreos.

Em um dia rotineiro ele encontra um homem (Dom Shimoda), também aviador, mas com costumes diferentes, com vestes diferentes, um avião que parece sempre novo, e a partir daí começa uma relação de aprendizado onde o leitor acaba se envolvendo e aprendendo com os ensinamentos nem sempre tão didáticos desse inusitado Messias.

O título “Ilusões” vem da maneira como as pessoas normalmente enxergam a vida e o subtítulo do fato de o Messias estar cansado de ser alguém tão divino no meio de pessoas que passam longe disso.

É um livro divertido, tem reviravoltas interessantes mas é leve e simples, embora carregado de conhecimento e tem até um livro dentro dele (o famoso “Manual do Messias”).

Se quer algo menos humano e fantasioso, escolha outro livro.

“Aprender é descobrir aquilo que você já sabe. Fazer é demonstrar que você o sabe. Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você. Vocês são todos aprendizes, fazedores, professores.”

Como curiosidade, tem uma música do Raul Seixas chamada “Um Messias Indeciso”, não sei se é uma referência direta a esse livro, já que o Raul pegava referências de diversos lugares para compor suas músicas e criar suas letras, segue abaixo:

Um grande abraço!

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Fluxo de Consciência – Uivos Literários

Fluxo de Consciência - Uivos Literários - imagem: leitora

Cumprindo com a minha promessa de Ano Novo de escrever para cá com mais regularidade, aqui estou eu novamente. Dessa vez, vou abordar um dos meus estilos preferidos de narração: o fluxo de consciência.

 

Sabe quando vê, lê ou escuta alguma coisa, e daí a momentos já está numa viagem mental louca e desconexa? Quando esses pensamentos malucos são transpostos para o papel, temos o fluxo de consciência. E é claro, o autor tem que ser muito bom e competente no que faz para realizar um trabalho de qualidade, com um mínimo de nexo. Por isso, selecionei algumas obras que fazem parte da minha memória afetiva, e vou compartilhar com vocês.

 

Uma mulher fantástica, que soube me prender do início ao fim do livro é Virginia Woolf. Cito aqui Mrs. Dolloway, livro que possuo, pela sua ideia maravilhosa: 24 horas no pensamento de uma mulher, desvelando segredos antigos, paixões, temores, arrependimentos e lembranças.

 

A experiência é simplesmente magistral, perfeita.

 

Continuando na Terra da Rainha, vamos para aquela que foi considerada a melhor obra do século XX: Ulisses, de James Joyce. Aqui deixo claro que não estou querendo me fazer de intelectual ou coisa do tipo. O livro é bom mesmo, embora difícil. É necessário ler, deixa-lo descansar uns dois anos, ler novamente. Conforme o leitor vai amadurecendo, cada vez aprecia mais a obra. Tenho certeza que ainda não a compreendo em sua totalidade, mas estou confiante que um dia conseguirei!

 

Continuando, mais uma das minhas musas literárias: Clarice Lispector. Posso recomendar toda a obra dela. Mas, os livros pelos quais tenho maior paixão são: A Paixão Segundo GH, A Hora da Estrela e Perto do Coração Selvagem. O que mais me agrada nela é a coragem em se mostrar, inteira e sem máscaras nos seus textos. Os contos também são altamente recomendados.

 

E, para finalizar, cito a obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas. Essa é pequena e você consegue ler em poucas horas. Preste atenção especial na maneira como a narrativa de externa passa a interna sem prévio aviso, como se a mente das personagens fosse um território livre e aberto ao narrador. É realmente de tirar o fôlego.

 

Acho que foram poucas sugestões, mas todas intensas. Certamente me esqueci de algo, mas isso não importa. Coloquem nos comentários suas opiniões e conhecimentos nessa área.

 

Boa leitura!

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